Questões de Concurso Para psicólogo

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Q4011366 Direito Constitucional
Em qual Constituição aparece, pela primeira vez, um capítulo especial dedicado à ciência e à tecnologia?
Alternativas
Q4011365 Sociologia
"Nascido em São Paulo em 1920, Florestan Fernandes realizou estudos básicos em curso de madureza, atualmente denominado supletivo, a partir dos 17 anos. Bacharel e licenciado em Ciências Sociais pela USP, 1944; mestre em Antropologia, 1947; doutor em Sociologia,1951; livre-docente em Sociologia, 1953; catedrático de Sociologia I, na USP, 1964; foi aposentado compulsoriamente pelo AI-5 em 1969. Atuou como professor nas Universidades de Columbia, de Toronto, de Yale, Católica de São Paulo." (Sociedade Brasileira de Sociologia, s/d.

Disponível em https //sbsociologia.com.br/project/flores tan-fernandes/)

Em relação ao sociólogo Florestan Fernandes é correto afirmar:
Alternativas
Q4011364 Sociologia
Um dos grandes pensadores da sociedade e do seu funcionamento ao longo do século XIX e que frequentemente é considerado um dos pais (que publicou - em seis volumes - a obra intitulada Curso de Filosofia Positiva) da Sociologia moderna é:
Alternativas
Q4011363 Direito Constitucional
Umas das sistematizações mais clássicas da divisão de poderes (através da publicação do livro "O Espírito das Leis", de 1748) pode ser atribuída ao filósofo: 
Alternativas
Q4011362 Português
A FILA


Para os que não desistiram


    Antes da conversão do gentio ao maravilhoso mundo digital, havia mais filas no mundo para se esperar a vez. De nascer. De morrer. De usar o telefone... De pedir perdão... Ou amor eterno.

    As pessoas madrugavam, já concebendo, resignadas, a existência clara da lógica de sempre haver mais fila do que atendimento. Havia grande fome no mundo analógico! Sobretudo, de informação. Por isso, havia a fila só para informação. Fila para saber que outra fila tinha que enfrentar, para pegar a senha para entrar noutra fila... Várias encarnações sobre as pernas cansadas. Numa sequência quase infinda, como uma Matriuska, que, ao fim, revela seu nada.

    Em todo canto havia o canto da fila. E o lugar de quem chegava por último, era sempre o da espera horrenda: o fim final... A danação eterna de esperar a vez e ser avisado: "- Por hoje só! Quem quiser, que volte amanhã e pegue a fila!"

     Receita Federal, INPS, INAMPS, COBAL, Correios, Caixa Econômica 'Foderal', Banco do Brasil, Lojas Brasileiras, vulgo LOBRÁS, veja só! (Não existia Havan!). Tudo era boca para fila, sorvedouro de gente para as infra dimensões. "- Na fila aí, minha gente! Borá lá! Se organizando... Um atrás do outro!" Conduzia a voz de comando, ao que, obedientes, perfilavam-se os peixinhos para adentrar na boca do tubarão. 

    Também eu, no meu tempo, gastei muito do cálcio de minhas pernas engrossando filas. Certa vez, a fila da vez e a conformidade (ou comorbidade) do caso, era na Caixa Econômica. Causo de ir ver se tinha direito a FGTS, Fundo de não sei o quê... auxílio... Mensagem perdida numa garrafa que fosse endereçada a mim.

-Essa fila não anda!?

-Só abre às 9. E pra triagem, ainda!

- Issé uma imoralidade! -E parece que vai chover de novo.

    A fila parecia uma cobra morta. Abandonada sobre a calçada. Começa rente à porta da Caixa... Descia as escadas. Sapateava no barro do retângulo onde jazia um jardim. Ocupava a frente das lojas ainda fechadas: a pastelaria Canarinho, Casa Rosada Tecidos, Dedé discos... Se perdia Rua da Conceição afora, umedecida pela chuva de ontem e sob ameaça de outra.

    Uma velha de saia godê florida cochilava encostada na pa-rede. Uma sacola de plástico preto presa no braço. O diabo de um velho pitava um cigarro forte. "- A essa hora, meu senhor!?". Baforejava fumaça prum lado e pro outro, como uma locomotiva incensando os presentes, que já devidamente anestesiados pelo cotidiano, nem ligavam. No 6° lugar, estava uma bonitinha. Bem feita de corpo, a diaba! Não fosse essa calça brega de oncinha e essa blusa verde-limão escrito H-u-g-o B-os-s! Réplica! Na certa!
De repente gritos e alvoroço! Algo desfez a fila ali atrás. Esbagaçou-se só o rabo da cobra morta!

    Um ladrão! Avançou na bolsa a tira colo de uma mulher baixinha. Ninguém interveio. Puxou ela pro meio da rua. Puxava a bolsa. A mulher rodopiava levada à dança pela força do ladrão.. Um cara alto, magro, cabelo de pigmaleão... Ele rodava a baixinha para esquerda e para direita e ela ia. A bolsa não. Nem se mexia... Debaixo do sovaco. Alça curta ao ombro. Via-se que era prevenida!

    E foram rodando. Rodando... Rodando. Avançando palmo a passo no meio da rua, se aproximando mais e mais da frente do banco. Duelavam agora na nossa frente. Ninguém intervinha. Fez-se grave silencio. Eu era o 13° da fila. Lugar bom, alto, perto já da escada. De onde eu estava, dava para ouvir o fungado do ladrão, já cansado. A baixinha não desistia... Aqui acolá, gritava: " Me solte, sujeito! Me solte!". Mas ele neco de soltar. Uma hora ela sede! Não posso dar o bote perdido!", devia pensar ele. Risco de linchamento, sempre tem.

     Subiram à calçada aos rodopios. O povo só afastou um pouquinho. Ninguém intervinha.

    Pisotearam o barro molhado. Na verdade, lama mesmo, dentro do retângulo com o jardim morto. Ele puxou com as últimas forças prevendo a fraqueza. Chegou a levantá-la do chão! No em falso, ela escorrega e cai. Apertou a bolsa debaixo do sovaco e pressionou com a outra mão. Foi aí que, impaciente com a resistência indevida de alguém tão pequeno, ele sabugou a mulher na lama, revirando-a de muitos modos possíveis, como faria um cachorro faminto, abocanhando uma presa.

     Ela se encorcovava quanto mais ele sacudia. A bolsa ia sumindo dentro dela, como que movediça! 

    Ele por fim, desistiu. Apontou o dedo silencioso e olhou esbugalhado para ela. Nada disse! Saiu na carreira. Talvez mais com vergonha, do que com medo.

    Ninguém interveio.

    Levantou sozinha. Batendo o barro da roupa, passada à lama. Ajeitou a blusa e a bolsa, intacta, debaixo do sovaco. Com altivez, nem olhou pro povo. Se dirigindo a mim (justo a mim! Que a reconheci no primeiro rodopio... ), pronunciou pausadamente o meu nome: "XXXXXXXXX" e disse:
-Tá vendo aí, meu filho, como são as coisas? Uma pobre velha, não tem ninguém que a defenda! Mas ele vai roubar a mãe dele, esse filho da puta! Por que eu mesmo, ele não rouba não! 
Era dona Zuíla, minha professora do ensino fundamental. Há muitas lições que se pode aprender olhando duma fila. Era a minha vez. Há ainda grande fome também no mundo digital! Sobretudo, de coragem.


(Souza, Auricélio Ferreira de. Objeto urgente: A fila p. 47, 50. São Paulo: Patuá, 2025)

Esbagaçou-se só o rabo da cobra morta! O som representado pelo "ç" na palavra esbagaçou é o som de /s/. A cedilha (ç) é um sinal diacrítico usado para atribuir a sonoridade de "s" à letra "c" antes das vogais. Assinale a alternativa em que todas as palavras apresentam o mesmo som de /s/ independentemente da grafia:
Alternativas
Q4011361 Português
A FILA


Para os que não desistiram


    Antes da conversão do gentio ao maravilhoso mundo digital, havia mais filas no mundo para se esperar a vez. De nascer. De morrer. De usar o telefone... De pedir perdão... Ou amor eterno.

    As pessoas madrugavam, já concebendo, resignadas, a existência clara da lógica de sempre haver mais fila do que atendimento. Havia grande fome no mundo analógico! Sobretudo, de informação. Por isso, havia a fila só para informação. Fila para saber que outra fila tinha que enfrentar, para pegar a senha para entrar noutra fila... Várias encarnações sobre as pernas cansadas. Numa sequência quase infinda, como uma Matriuska, que, ao fim, revela seu nada.

    Em todo canto havia o canto da fila. E o lugar de quem chegava por último, era sempre o da espera horrenda: o fim final... A danação eterna de esperar a vez e ser avisado: "- Por hoje só! Quem quiser, que volte amanhã e pegue a fila!"

     Receita Federal, INPS, INAMPS, COBAL, Correios, Caixa Econômica 'Foderal', Banco do Brasil, Lojas Brasileiras, vulgo LOBRÁS, veja só! (Não existia Havan!). Tudo era boca para fila, sorvedouro de gente para as infra dimensões. "- Na fila aí, minha gente! Borá lá! Se organizando... Um atrás do outro!" Conduzia a voz de comando, ao que, obedientes, perfilavam-se os peixinhos para adentrar na boca do tubarão. 

    Também eu, no meu tempo, gastei muito do cálcio de minhas pernas engrossando filas. Certa vez, a fila da vez e a conformidade (ou comorbidade) do caso, era na Caixa Econômica. Causo de ir ver se tinha direito a FGTS, Fundo de não sei o quê... auxílio... Mensagem perdida numa garrafa que fosse endereçada a mim.

-Essa fila não anda!?

-Só abre às 9. E pra triagem, ainda!

- Issé uma imoralidade! -E parece que vai chover de novo.

    A fila parecia uma cobra morta. Abandonada sobre a calçada. Começa rente à porta da Caixa... Descia as escadas. Sapateava no barro do retângulo onde jazia um jardim. Ocupava a frente das lojas ainda fechadas: a pastelaria Canarinho, Casa Rosada Tecidos, Dedé discos... Se perdia Rua da Conceição afora, umedecida pela chuva de ontem e sob ameaça de outra.

    Uma velha de saia godê florida cochilava encostada na pa-rede. Uma sacola de plástico preto presa no braço. O diabo de um velho pitava um cigarro forte. "- A essa hora, meu senhor!?". Baforejava fumaça prum lado e pro outro, como uma locomotiva incensando os presentes, que já devidamente anestesiados pelo cotidiano, nem ligavam. No 6° lugar, estava uma bonitinha. Bem feita de corpo, a diaba! Não fosse essa calça brega de oncinha e essa blusa verde-limão escrito H-u-g-o B-os-s! Réplica! Na certa!
De repente gritos e alvoroço! Algo desfez a fila ali atrás. Esbagaçou-se só o rabo da cobra morta!

    Um ladrão! Avançou na bolsa a tira colo de uma mulher baixinha. Ninguém interveio. Puxou ela pro meio da rua. Puxava a bolsa. A mulher rodopiava levada à dança pela força do ladrão.. Um cara alto, magro, cabelo de pigmaleão... Ele rodava a baixinha para esquerda e para direita e ela ia. A bolsa não. Nem se mexia... Debaixo do sovaco. Alça curta ao ombro. Via-se que era prevenida!

    E foram rodando. Rodando... Rodando. Avançando palmo a passo no meio da rua, se aproximando mais e mais da frente do banco. Duelavam agora na nossa frente. Ninguém intervinha. Fez-se grave silencio. Eu era o 13° da fila. Lugar bom, alto, perto já da escada. De onde eu estava, dava para ouvir o fungado do ladrão, já cansado. A baixinha não desistia... Aqui acolá, gritava: " Me solte, sujeito! Me solte!". Mas ele neco de soltar. Uma hora ela sede! Não posso dar o bote perdido!", devia pensar ele. Risco de linchamento, sempre tem.

     Subiram à calçada aos rodopios. O povo só afastou um pouquinho. Ninguém intervinha.

    Pisotearam o barro molhado. Na verdade, lama mesmo, dentro do retângulo com o jardim morto. Ele puxou com as últimas forças prevendo a fraqueza. Chegou a levantá-la do chão! No em falso, ela escorrega e cai. Apertou a bolsa debaixo do sovaco e pressionou com a outra mão. Foi aí que, impaciente com a resistência indevida de alguém tão pequeno, ele sabugou a mulher na lama, revirando-a de muitos modos possíveis, como faria um cachorro faminto, abocanhando uma presa.

     Ela se encorcovava quanto mais ele sacudia. A bolsa ia sumindo dentro dela, como que movediça! 

    Ele por fim, desistiu. Apontou o dedo silencioso e olhou esbugalhado para ela. Nada disse! Saiu na carreira. Talvez mais com vergonha, do que com medo.

    Ninguém interveio.

    Levantou sozinha. Batendo o barro da roupa, passada à lama. Ajeitou a blusa e a bolsa, intacta, debaixo do sovaco. Com altivez, nem olhou pro povo. Se dirigindo a mim (justo a mim! Que a reconheci no primeiro rodopio... ), pronunciou pausadamente o meu nome: "XXXXXXXXX" e disse:
-Tá vendo aí, meu filho, como são as coisas? Uma pobre velha, não tem ninguém que a defenda! Mas ele vai roubar a mãe dele, esse filho da puta! Por que eu mesmo, ele não rouba não! 
Era dona Zuíla, minha professora do ensino fundamental. Há muitas lições que se pode aprender olhando duma fila. Era a minha vez. Há ainda grande fome também no mundo digital! Sobretudo, de coragem.


(Souza, Auricélio Ferreira de. Objeto urgente: A fila p. 47, 50. São Paulo: Patuá, 2025)

"Não posso dar o bote perdido." A análise sintática detalhada e correta dos termos desse fragmento encontra erro em:
Alternativas
Q4011360 Português
A FILA


Para os que não desistiram


    Antes da conversão do gentio ao maravilhoso mundo digital, havia mais filas no mundo para se esperar a vez. De nascer. De morrer. De usar o telefone... De pedir perdão... Ou amor eterno.

    As pessoas madrugavam, já concebendo, resignadas, a existência clara da lógica de sempre haver mais fila do que atendimento. Havia grande fome no mundo analógico! Sobretudo, de informação. Por isso, havia a fila só para informação. Fila para saber que outra fila tinha que enfrentar, para pegar a senha para entrar noutra fila... Várias encarnações sobre as pernas cansadas. Numa sequência quase infinda, como uma Matriuska, que, ao fim, revela seu nada.

    Em todo canto havia o canto da fila. E o lugar de quem chegava por último, era sempre o da espera horrenda: o fim final... A danação eterna de esperar a vez e ser avisado: "- Por hoje só! Quem quiser, que volte amanhã e pegue a fila!"

     Receita Federal, INPS, INAMPS, COBAL, Correios, Caixa Econômica 'Foderal', Banco do Brasil, Lojas Brasileiras, vulgo LOBRÁS, veja só! (Não existia Havan!). Tudo era boca para fila, sorvedouro de gente para as infra dimensões. "- Na fila aí, minha gente! Borá lá! Se organizando... Um atrás do outro!" Conduzia a voz de comando, ao que, obedientes, perfilavam-se os peixinhos para adentrar na boca do tubarão. 

    Também eu, no meu tempo, gastei muito do cálcio de minhas pernas engrossando filas. Certa vez, a fila da vez e a conformidade (ou comorbidade) do caso, era na Caixa Econômica. Causo de ir ver se tinha direito a FGTS, Fundo de não sei o quê... auxílio... Mensagem perdida numa garrafa que fosse endereçada a mim.

-Essa fila não anda!?

-Só abre às 9. E pra triagem, ainda!

- Issé uma imoralidade! -E parece que vai chover de novo.

    A fila parecia uma cobra morta. Abandonada sobre a calçada. Começa rente à porta da Caixa... Descia as escadas. Sapateava no barro do retângulo onde jazia um jardim. Ocupava a frente das lojas ainda fechadas: a pastelaria Canarinho, Casa Rosada Tecidos, Dedé discos... Se perdia Rua da Conceição afora, umedecida pela chuva de ontem e sob ameaça de outra.

    Uma velha de saia godê florida cochilava encostada na pa-rede. Uma sacola de plástico preto presa no braço. O diabo de um velho pitava um cigarro forte. "- A essa hora, meu senhor!?". Baforejava fumaça prum lado e pro outro, como uma locomotiva incensando os presentes, que já devidamente anestesiados pelo cotidiano, nem ligavam. No 6° lugar, estava uma bonitinha. Bem feita de corpo, a diaba! Não fosse essa calça brega de oncinha e essa blusa verde-limão escrito H-u-g-o B-os-s! Réplica! Na certa!
De repente gritos e alvoroço! Algo desfez a fila ali atrás. Esbagaçou-se só o rabo da cobra morta!

    Um ladrão! Avançou na bolsa a tira colo de uma mulher baixinha. Ninguém interveio. Puxou ela pro meio da rua. Puxava a bolsa. A mulher rodopiava levada à dança pela força do ladrão.. Um cara alto, magro, cabelo de pigmaleão... Ele rodava a baixinha para esquerda e para direita e ela ia. A bolsa não. Nem se mexia... Debaixo do sovaco. Alça curta ao ombro. Via-se que era prevenida!

    E foram rodando. Rodando... Rodando. Avançando palmo a passo no meio da rua, se aproximando mais e mais da frente do banco. Duelavam agora na nossa frente. Ninguém intervinha. Fez-se grave silencio. Eu era o 13° da fila. Lugar bom, alto, perto já da escada. De onde eu estava, dava para ouvir o fungado do ladrão, já cansado. A baixinha não desistia... Aqui acolá, gritava: " Me solte, sujeito! Me solte!". Mas ele neco de soltar. Uma hora ela sede! Não posso dar o bote perdido!", devia pensar ele. Risco de linchamento, sempre tem.

     Subiram à calçada aos rodopios. O povo só afastou um pouquinho. Ninguém intervinha.

    Pisotearam o barro molhado. Na verdade, lama mesmo, dentro do retângulo com o jardim morto. Ele puxou com as últimas forças prevendo a fraqueza. Chegou a levantá-la do chão! No em falso, ela escorrega e cai. Apertou a bolsa debaixo do sovaco e pressionou com a outra mão. Foi aí que, impaciente com a resistência indevida de alguém tão pequeno, ele sabugou a mulher na lama, revirando-a de muitos modos possíveis, como faria um cachorro faminto, abocanhando uma presa.

     Ela se encorcovava quanto mais ele sacudia. A bolsa ia sumindo dentro dela, como que movediça! 

    Ele por fim, desistiu. Apontou o dedo silencioso e olhou esbugalhado para ela. Nada disse! Saiu na carreira. Talvez mais com vergonha, do que com medo.

    Ninguém interveio.

    Levantou sozinha. Batendo o barro da roupa, passada à lama. Ajeitou a blusa e a bolsa, intacta, debaixo do sovaco. Com altivez, nem olhou pro povo. Se dirigindo a mim (justo a mim! Que a reconheci no primeiro rodopio... ), pronunciou pausadamente o meu nome: "XXXXXXXXX" e disse:
-Tá vendo aí, meu filho, como são as coisas? Uma pobre velha, não tem ninguém que a defenda! Mas ele vai roubar a mãe dele, esse filho da puta! Por que eu mesmo, ele não rouba não! 
Era dona Zuíla, minha professora do ensino fundamental. Há muitas lições que se pode aprender olhando duma fila. Era a minha vez. Há ainda grande fome também no mundo digital! Sobretudo, de coragem.


(Souza, Auricélio Ferreira de. Objeto urgente: A fila p. 47, 50. São Paulo: Patuá, 2025)

Batendo o barro da roupa, passada à lama.

O uso do acento grave justifica-se pela regência do termo anterior: O particípio "passada", ao indicar que algo foi submetido ou exposto a um estado ou substância, exige a preposição "a".
Presença do artigo A: A palavra lama" é um substantivo feminino que admite o artigo definido "a". Dadas as opções a seguir marque a que não recebe acento grave.
Alternativas
Q4011359 Português
A FILA


Para os que não desistiram


    Antes da conversão do gentio ao maravilhoso mundo digital, havia mais filas no mundo para se esperar a vez. De nascer. De morrer. De usar o telefone... De pedir perdão... Ou amor eterno.

    As pessoas madrugavam, já concebendo, resignadas, a existência clara da lógica de sempre haver mais fila do que atendimento. Havia grande fome no mundo analógico! Sobretudo, de informação. Por isso, havia a fila só para informação. Fila para saber que outra fila tinha que enfrentar, para pegar a senha para entrar noutra fila... Várias encarnações sobre as pernas cansadas. Numa sequência quase infinda, como uma Matriuska, que, ao fim, revela seu nada.

    Em todo canto havia o canto da fila. E o lugar de quem chegava por último, era sempre o da espera horrenda: o fim final... A danação eterna de esperar a vez e ser avisado: "- Por hoje só! Quem quiser, que volte amanhã e pegue a fila!"

     Receita Federal, INPS, INAMPS, COBAL, Correios, Caixa Econômica 'Foderal', Banco do Brasil, Lojas Brasileiras, vulgo LOBRÁS, veja só! (Não existia Havan!). Tudo era boca para fila, sorvedouro de gente para as infra dimensões. "- Na fila aí, minha gente! Borá lá! Se organizando... Um atrás do outro!" Conduzia a voz de comando, ao que, obedientes, perfilavam-se os peixinhos para adentrar na boca do tubarão. 

    Também eu, no meu tempo, gastei muito do cálcio de minhas pernas engrossando filas. Certa vez, a fila da vez e a conformidade (ou comorbidade) do caso, era na Caixa Econômica. Causo de ir ver se tinha direito a FGTS, Fundo de não sei o quê... auxílio... Mensagem perdida numa garrafa que fosse endereçada a mim.

-Essa fila não anda!?

-Só abre às 9. E pra triagem, ainda!

- Issé uma imoralidade! -E parece que vai chover de novo.

    A fila parecia uma cobra morta. Abandonada sobre a calçada. Começa rente à porta da Caixa... Descia as escadas. Sapateava no barro do retângulo onde jazia um jardim. Ocupava a frente das lojas ainda fechadas: a pastelaria Canarinho, Casa Rosada Tecidos, Dedé discos... Se perdia Rua da Conceição afora, umedecida pela chuva de ontem e sob ameaça de outra.

    Uma velha de saia godê florida cochilava encostada na pa-rede. Uma sacola de plástico preto presa no braço. O diabo de um velho pitava um cigarro forte. "- A essa hora, meu senhor!?". Baforejava fumaça prum lado e pro outro, como uma locomotiva incensando os presentes, que já devidamente anestesiados pelo cotidiano, nem ligavam. No 6° lugar, estava uma bonitinha. Bem feita de corpo, a diaba! Não fosse essa calça brega de oncinha e essa blusa verde-limão escrito H-u-g-o B-os-s! Réplica! Na certa!
De repente gritos e alvoroço! Algo desfez a fila ali atrás. Esbagaçou-se só o rabo da cobra morta!

    Um ladrão! Avançou na bolsa a tira colo de uma mulher baixinha. Ninguém interveio. Puxou ela pro meio da rua. Puxava a bolsa. A mulher rodopiava levada à dança pela força do ladrão.. Um cara alto, magro, cabelo de pigmaleão... Ele rodava a baixinha para esquerda e para direita e ela ia. A bolsa não. Nem se mexia... Debaixo do sovaco. Alça curta ao ombro. Via-se que era prevenida!

    E foram rodando. Rodando... Rodando. Avançando palmo a passo no meio da rua, se aproximando mais e mais da frente do banco. Duelavam agora na nossa frente. Ninguém intervinha. Fez-se grave silencio. Eu era o 13° da fila. Lugar bom, alto, perto já da escada. De onde eu estava, dava para ouvir o fungado do ladrão, já cansado. A baixinha não desistia... Aqui acolá, gritava: " Me solte, sujeito! Me solte!". Mas ele neco de soltar. Uma hora ela sede! Não posso dar o bote perdido!", devia pensar ele. Risco de linchamento, sempre tem.

     Subiram à calçada aos rodopios. O povo só afastou um pouquinho. Ninguém intervinha.

    Pisotearam o barro molhado. Na verdade, lama mesmo, dentro do retângulo com o jardim morto. Ele puxou com as últimas forças prevendo a fraqueza. Chegou a levantá-la do chão! No em falso, ela escorrega e cai. Apertou a bolsa debaixo do sovaco e pressionou com a outra mão. Foi aí que, impaciente com a resistência indevida de alguém tão pequeno, ele sabugou a mulher na lama, revirando-a de muitos modos possíveis, como faria um cachorro faminto, abocanhando uma presa.

     Ela se encorcovava quanto mais ele sacudia. A bolsa ia sumindo dentro dela, como que movediça! 

    Ele por fim, desistiu. Apontou o dedo silencioso e olhou esbugalhado para ela. Nada disse! Saiu na carreira. Talvez mais com vergonha, do que com medo.

    Ninguém interveio.

    Levantou sozinha. Batendo o barro da roupa, passada à lama. Ajeitou a blusa e a bolsa, intacta, debaixo do sovaco. Com altivez, nem olhou pro povo. Se dirigindo a mim (justo a mim! Que a reconheci no primeiro rodopio... ), pronunciou pausadamente o meu nome: "XXXXXXXXX" e disse:
-Tá vendo aí, meu filho, como são as coisas? Uma pobre velha, não tem ninguém que a defenda! Mas ele vai roubar a mãe dele, esse filho da puta! Por que eu mesmo, ele não rouba não! 
Era dona Zuíla, minha professora do ensino fundamental. Há muitas lições que se pode aprender olhando duma fila. Era a minha vez. Há ainda grande fome também no mundo digital! Sobretudo, de coragem.


(Souza, Auricélio Ferreira de. Objeto urgente: A fila p. 47, 50. São Paulo: Patuá, 2025)

A fila é um texto ficcional, dentre as muitas características que o compõem, encontra-se a ambiguidade, ou seja, expressões que podem possuir mais de um sentido e, diferentes embora, as significações são pertinentes ao contexto da narrativa. Tal processo ocorre em:
Alternativas
Q4011358 Português
A FILA


Para os que não desistiram


    Antes da conversão do gentio ao maravilhoso mundo digital, havia mais filas no mundo para se esperar a vez. De nascer. De morrer. De usar o telefone... De pedir perdão... Ou amor eterno.

    As pessoas madrugavam, já concebendo, resignadas, a existência clara da lógica de sempre haver mais fila do que atendimento. Havia grande fome no mundo analógico! Sobretudo, de informação. Por isso, havia a fila só para informação. Fila para saber que outra fila tinha que enfrentar, para pegar a senha para entrar noutra fila... Várias encarnações sobre as pernas cansadas. Numa sequência quase infinda, como uma Matriuska, que, ao fim, revela seu nada.

    Em todo canto havia o canto da fila. E o lugar de quem chegava por último, era sempre o da espera horrenda: o fim final... A danação eterna de esperar a vez e ser avisado: "- Por hoje só! Quem quiser, que volte amanhã e pegue a fila!"

     Receita Federal, INPS, INAMPS, COBAL, Correios, Caixa Econômica 'Foderal', Banco do Brasil, Lojas Brasileiras, vulgo LOBRÁS, veja só! (Não existia Havan!). Tudo era boca para fila, sorvedouro de gente para as infra dimensões. "- Na fila aí, minha gente! Borá lá! Se organizando... Um atrás do outro!" Conduzia a voz de comando, ao que, obedientes, perfilavam-se os peixinhos para adentrar na boca do tubarão. 

    Também eu, no meu tempo, gastei muito do cálcio de minhas pernas engrossando filas. Certa vez, a fila da vez e a conformidade (ou comorbidade) do caso, era na Caixa Econômica. Causo de ir ver se tinha direito a FGTS, Fundo de não sei o quê... auxílio... Mensagem perdida numa garrafa que fosse endereçada a mim.

-Essa fila não anda!?

-Só abre às 9. E pra triagem, ainda!

- Issé uma imoralidade! -E parece que vai chover de novo.

    A fila parecia uma cobra morta. Abandonada sobre a calçada. Começa rente à porta da Caixa... Descia as escadas. Sapateava no barro do retângulo onde jazia um jardim. Ocupava a frente das lojas ainda fechadas: a pastelaria Canarinho, Casa Rosada Tecidos, Dedé discos... Se perdia Rua da Conceição afora, umedecida pela chuva de ontem e sob ameaça de outra.

    Uma velha de saia godê florida cochilava encostada na pa-rede. Uma sacola de plástico preto presa no braço. O diabo de um velho pitava um cigarro forte. "- A essa hora, meu senhor!?". Baforejava fumaça prum lado e pro outro, como uma locomotiva incensando os presentes, que já devidamente anestesiados pelo cotidiano, nem ligavam. No 6° lugar, estava uma bonitinha. Bem feita de corpo, a diaba! Não fosse essa calça brega de oncinha e essa blusa verde-limão escrito H-u-g-o B-os-s! Réplica! Na certa!
De repente gritos e alvoroço! Algo desfez a fila ali atrás. Esbagaçou-se só o rabo da cobra morta!

    Um ladrão! Avançou na bolsa a tira colo de uma mulher baixinha. Ninguém interveio. Puxou ela pro meio da rua. Puxava a bolsa. A mulher rodopiava levada à dança pela força do ladrão.. Um cara alto, magro, cabelo de pigmaleão... Ele rodava a baixinha para esquerda e para direita e ela ia. A bolsa não. Nem se mexia... Debaixo do sovaco. Alça curta ao ombro. Via-se que era prevenida!

    E foram rodando. Rodando... Rodando. Avançando palmo a passo no meio da rua, se aproximando mais e mais da frente do banco. Duelavam agora na nossa frente. Ninguém intervinha. Fez-se grave silencio. Eu era o 13° da fila. Lugar bom, alto, perto já da escada. De onde eu estava, dava para ouvir o fungado do ladrão, já cansado. A baixinha não desistia... Aqui acolá, gritava: " Me solte, sujeito! Me solte!". Mas ele neco de soltar. Uma hora ela sede! Não posso dar o bote perdido!", devia pensar ele. Risco de linchamento, sempre tem.

     Subiram à calçada aos rodopios. O povo só afastou um pouquinho. Ninguém intervinha.

    Pisotearam o barro molhado. Na verdade, lama mesmo, dentro do retângulo com o jardim morto. Ele puxou com as últimas forças prevendo a fraqueza. Chegou a levantá-la do chão! No em falso, ela escorrega e cai. Apertou a bolsa debaixo do sovaco e pressionou com a outra mão. Foi aí que, impaciente com a resistência indevida de alguém tão pequeno, ele sabugou a mulher na lama, revirando-a de muitos modos possíveis, como faria um cachorro faminto, abocanhando uma presa.

     Ela se encorcovava quanto mais ele sacudia. A bolsa ia sumindo dentro dela, como que movediça! 

    Ele por fim, desistiu. Apontou o dedo silencioso e olhou esbugalhado para ela. Nada disse! Saiu na carreira. Talvez mais com vergonha, do que com medo.

    Ninguém interveio.

    Levantou sozinha. Batendo o barro da roupa, passada à lama. Ajeitou a blusa e a bolsa, intacta, debaixo do sovaco. Com altivez, nem olhou pro povo. Se dirigindo a mim (justo a mim! Que a reconheci no primeiro rodopio... ), pronunciou pausadamente o meu nome: "XXXXXXXXX" e disse:
-Tá vendo aí, meu filho, como são as coisas? Uma pobre velha, não tem ninguém que a defenda! Mas ele vai roubar a mãe dele, esse filho da puta! Por que eu mesmo, ele não rouba não! 
Era dona Zuíla, minha professora do ensino fundamental. Há muitas lições que se pode aprender olhando duma fila. Era a minha vez. Há ainda grande fome também no mundo digital! Sobretudo, de coragem.


(Souza, Auricélio Ferreira de. Objeto urgente: A fila p. 47, 50. São Paulo: Patuá, 2025)

"-Tá vendo aí, meu filho, como são as coisas? Uma pobre velha, não tem ninguém que a defenda! Mas ele vai roubar a mãe dele, esse filho da puta! Por que eu mesmo, ele não rouba não!"

O excerto é parte da fala da personagem que quase teve sua bolsa roubada. Observe a palavra destacada, trata-se de uma questão que acarreta muita dúvida referente à concordância nominal. Dadas as frases a seguir, marque a opção incorreta:
Alternativas
Q4011357 Português
A FILA


Para os que não desistiram


    Antes da conversão do gentio ao maravilhoso mundo digital, havia mais filas no mundo para se esperar a vez. De nascer. De morrer. De usar o telefone... De pedir perdão... Ou amor eterno.

    As pessoas madrugavam, já concebendo, resignadas, a existência clara da lógica de sempre haver mais fila do que atendimento. Havia grande fome no mundo analógico! Sobretudo, de informação. Por isso, havia a fila só para informação. Fila para saber que outra fila tinha que enfrentar, para pegar a senha para entrar noutra fila... Várias encarnações sobre as pernas cansadas. Numa sequência quase infinda, como uma Matriuska, que, ao fim, revela seu nada.

    Em todo canto havia o canto da fila. E o lugar de quem chegava por último, era sempre o da espera horrenda: o fim final... A danação eterna de esperar a vez e ser avisado: "- Por hoje só! Quem quiser, que volte amanhã e pegue a fila!"

     Receita Federal, INPS, INAMPS, COBAL, Correios, Caixa Econômica 'Foderal', Banco do Brasil, Lojas Brasileiras, vulgo LOBRÁS, veja só! (Não existia Havan!). Tudo era boca para fila, sorvedouro de gente para as infra dimensões. "- Na fila aí, minha gente! Borá lá! Se organizando... Um atrás do outro!" Conduzia a voz de comando, ao que, obedientes, perfilavam-se os peixinhos para adentrar na boca do tubarão. 

    Também eu, no meu tempo, gastei muito do cálcio de minhas pernas engrossando filas. Certa vez, a fila da vez e a conformidade (ou comorbidade) do caso, era na Caixa Econômica. Causo de ir ver se tinha direito a FGTS, Fundo de não sei o quê... auxílio... Mensagem perdida numa garrafa que fosse endereçada a mim.

-Essa fila não anda!?

-Só abre às 9. E pra triagem, ainda!

- Issé uma imoralidade! -E parece que vai chover de novo.

    A fila parecia uma cobra morta. Abandonada sobre a calçada. Começa rente à porta da Caixa... Descia as escadas. Sapateava no barro do retângulo onde jazia um jardim. Ocupava a frente das lojas ainda fechadas: a pastelaria Canarinho, Casa Rosada Tecidos, Dedé discos... Se perdia Rua da Conceição afora, umedecida pela chuva de ontem e sob ameaça de outra.

    Uma velha de saia godê florida cochilava encostada na pa-rede. Uma sacola de plástico preto presa no braço. O diabo de um velho pitava um cigarro forte. "- A essa hora, meu senhor!?". Baforejava fumaça prum lado e pro outro, como uma locomotiva incensando os presentes, que já devidamente anestesiados pelo cotidiano, nem ligavam. No 6° lugar, estava uma bonitinha. Bem feita de corpo, a diaba! Não fosse essa calça brega de oncinha e essa blusa verde-limão escrito H-u-g-o B-os-s! Réplica! Na certa!
De repente gritos e alvoroço! Algo desfez a fila ali atrás. Esbagaçou-se só o rabo da cobra morta!

    Um ladrão! Avançou na bolsa a tira colo de uma mulher baixinha. Ninguém interveio. Puxou ela pro meio da rua. Puxava a bolsa. A mulher rodopiava levada à dança pela força do ladrão.. Um cara alto, magro, cabelo de pigmaleão... Ele rodava a baixinha para esquerda e para direita e ela ia. A bolsa não. Nem se mexia... Debaixo do sovaco. Alça curta ao ombro. Via-se que era prevenida!

    E foram rodando. Rodando... Rodando. Avançando palmo a passo no meio da rua, se aproximando mais e mais da frente do banco. Duelavam agora na nossa frente. Ninguém intervinha. Fez-se grave silencio. Eu era o 13° da fila. Lugar bom, alto, perto já da escada. De onde eu estava, dava para ouvir o fungado do ladrão, já cansado. A baixinha não desistia... Aqui acolá, gritava: " Me solte, sujeito! Me solte!". Mas ele neco de soltar. Uma hora ela sede! Não posso dar o bote perdido!", devia pensar ele. Risco de linchamento, sempre tem.

     Subiram à calçada aos rodopios. O povo só afastou um pouquinho. Ninguém intervinha.

    Pisotearam o barro molhado. Na verdade, lama mesmo, dentro do retângulo com o jardim morto. Ele puxou com as últimas forças prevendo a fraqueza. Chegou a levantá-la do chão! No em falso, ela escorrega e cai. Apertou a bolsa debaixo do sovaco e pressionou com a outra mão. Foi aí que, impaciente com a resistência indevida de alguém tão pequeno, ele sabugou a mulher na lama, revirando-a de muitos modos possíveis, como faria um cachorro faminto, abocanhando uma presa.

     Ela se encorcovava quanto mais ele sacudia. A bolsa ia sumindo dentro dela, como que movediça! 

    Ele por fim, desistiu. Apontou o dedo silencioso e olhou esbugalhado para ela. Nada disse! Saiu na carreira. Talvez mais com vergonha, do que com medo.

    Ninguém interveio.

    Levantou sozinha. Batendo o barro da roupa, passada à lama. Ajeitou a blusa e a bolsa, intacta, debaixo do sovaco. Com altivez, nem olhou pro povo. Se dirigindo a mim (justo a mim! Que a reconheci no primeiro rodopio... ), pronunciou pausadamente o meu nome: "XXXXXXXXX" e disse:
-Tá vendo aí, meu filho, como são as coisas? Uma pobre velha, não tem ninguém que a defenda! Mas ele vai roubar a mãe dele, esse filho da puta! Por que eu mesmo, ele não rouba não! 
Era dona Zuíla, minha professora do ensino fundamental. Há muitas lições que se pode aprender olhando duma fila. Era a minha vez. Há ainda grande fome também no mundo digital! Sobretudo, de coragem.


(Souza, Auricélio Ferreira de. Objeto urgente: A fila p. 47, 50. São Paulo: Patuá, 2025)

Em uma compreensão mais aprofundada do texto, podemos inferir que:
Alternativas
Q4011356 Português
A FILA


Para os que não desistiram


    Antes da conversão do gentio ao maravilhoso mundo digital, havia mais filas no mundo para se esperar a vez. De nascer. De morrer. De usar o telefone... De pedir perdão... Ou amor eterno.

    As pessoas madrugavam, já concebendo, resignadas, a existência clara da lógica de sempre haver mais fila do que atendimento. Havia grande fome no mundo analógico! Sobretudo, de informação. Por isso, havia a fila só para informação. Fila para saber que outra fila tinha que enfrentar, para pegar a senha para entrar noutra fila... Várias encarnações sobre as pernas cansadas. Numa sequência quase infinda, como uma Matriuska, que, ao fim, revela seu nada.

    Em todo canto havia o canto da fila. E o lugar de quem chegava por último, era sempre o da espera horrenda: o fim final... A danação eterna de esperar a vez e ser avisado: "- Por hoje só! Quem quiser, que volte amanhã e pegue a fila!"

     Receita Federal, INPS, INAMPS, COBAL, Correios, Caixa Econômica 'Foderal', Banco do Brasil, Lojas Brasileiras, vulgo LOBRÁS, veja só! (Não existia Havan!). Tudo era boca para fila, sorvedouro de gente para as infra dimensões. "- Na fila aí, minha gente! Borá lá! Se organizando... Um atrás do outro!" Conduzia a voz de comando, ao que, obedientes, perfilavam-se os peixinhos para adentrar na boca do tubarão. 

    Também eu, no meu tempo, gastei muito do cálcio de minhas pernas engrossando filas. Certa vez, a fila da vez e a conformidade (ou comorbidade) do caso, era na Caixa Econômica. Causo de ir ver se tinha direito a FGTS, Fundo de não sei o quê... auxílio... Mensagem perdida numa garrafa que fosse endereçada a mim.

-Essa fila não anda!?

-Só abre às 9. E pra triagem, ainda!

- Issé uma imoralidade! -E parece que vai chover de novo.

    A fila parecia uma cobra morta. Abandonada sobre a calçada. Começa rente à porta da Caixa... Descia as escadas. Sapateava no barro do retângulo onde jazia um jardim. Ocupava a frente das lojas ainda fechadas: a pastelaria Canarinho, Casa Rosada Tecidos, Dedé discos... Se perdia Rua da Conceição afora, umedecida pela chuva de ontem e sob ameaça de outra.

    Uma velha de saia godê florida cochilava encostada na pa-rede. Uma sacola de plástico preto presa no braço. O diabo de um velho pitava um cigarro forte. "- A essa hora, meu senhor!?". Baforejava fumaça prum lado e pro outro, como uma locomotiva incensando os presentes, que já devidamente anestesiados pelo cotidiano, nem ligavam. No 6° lugar, estava uma bonitinha. Bem feita de corpo, a diaba! Não fosse essa calça brega de oncinha e essa blusa verde-limão escrito H-u-g-o B-os-s! Réplica! Na certa!
De repente gritos e alvoroço! Algo desfez a fila ali atrás. Esbagaçou-se só o rabo da cobra morta!

    Um ladrão! Avançou na bolsa a tira colo de uma mulher baixinha. Ninguém interveio. Puxou ela pro meio da rua. Puxava a bolsa. A mulher rodopiava levada à dança pela força do ladrão.. Um cara alto, magro, cabelo de pigmaleão... Ele rodava a baixinha para esquerda e para direita e ela ia. A bolsa não. Nem se mexia... Debaixo do sovaco. Alça curta ao ombro. Via-se que era prevenida!

    E foram rodando. Rodando... Rodando. Avançando palmo a passo no meio da rua, se aproximando mais e mais da frente do banco. Duelavam agora na nossa frente. Ninguém intervinha. Fez-se grave silencio. Eu era o 13° da fila. Lugar bom, alto, perto já da escada. De onde eu estava, dava para ouvir o fungado do ladrão, já cansado. A baixinha não desistia... Aqui acolá, gritava: " Me solte, sujeito! Me solte!". Mas ele neco de soltar. Uma hora ela sede! Não posso dar o bote perdido!", devia pensar ele. Risco de linchamento, sempre tem.

     Subiram à calçada aos rodopios. O povo só afastou um pouquinho. Ninguém intervinha.

    Pisotearam o barro molhado. Na verdade, lama mesmo, dentro do retângulo com o jardim morto. Ele puxou com as últimas forças prevendo a fraqueza. Chegou a levantá-la do chão! No em falso, ela escorrega e cai. Apertou a bolsa debaixo do sovaco e pressionou com a outra mão. Foi aí que, impaciente com a resistência indevida de alguém tão pequeno, ele sabugou a mulher na lama, revirando-a de muitos modos possíveis, como faria um cachorro faminto, abocanhando uma presa.

     Ela se encorcovava quanto mais ele sacudia. A bolsa ia sumindo dentro dela, como que movediça! 

    Ele por fim, desistiu. Apontou o dedo silencioso e olhou esbugalhado para ela. Nada disse! Saiu na carreira. Talvez mais com vergonha, do que com medo.

    Ninguém interveio.

    Levantou sozinha. Batendo o barro da roupa, passada à lama. Ajeitou a blusa e a bolsa, intacta, debaixo do sovaco. Com altivez, nem olhou pro povo. Se dirigindo a mim (justo a mim! Que a reconheci no primeiro rodopio... ), pronunciou pausadamente o meu nome: "XXXXXXXXX" e disse:
-Tá vendo aí, meu filho, como são as coisas? Uma pobre velha, não tem ninguém que a defenda! Mas ele vai roubar a mãe dele, esse filho da puta! Por que eu mesmo, ele não rouba não! 
Era dona Zuíla, minha professora do ensino fundamental. Há muitas lições que se pode aprender olhando duma fila. Era a minha vez. Há ainda grande fome também no mundo digital! Sobretudo, de coragem.


(Souza, Auricélio Ferreira de. Objeto urgente: A fila p. 47, 50. São Paulo: Patuá, 2025)

Retirando o discurso direto, 0 texto é composto por vinte parágrafos. A partir do nono parágrafo há a expressão em sequência repetitiva: "ninguém interveio/intervinha." A utilização de tal processo representa: 
Alternativas
Q4011355 Português
A FILA


Para os que não desistiram


    Antes da conversão do gentio ao maravilhoso mundo digital, havia mais filas no mundo para se esperar a vez. De nascer. De morrer. De usar o telefone... De pedir perdão... Ou amor eterno.

    As pessoas madrugavam, já concebendo, resignadas, a existência clara da lógica de sempre haver mais fila do que atendimento. Havia grande fome no mundo analógico! Sobretudo, de informação. Por isso, havia a fila só para informação. Fila para saber que outra fila tinha que enfrentar, para pegar a senha para entrar noutra fila... Várias encarnações sobre as pernas cansadas. Numa sequência quase infinda, como uma Matriuska, que, ao fim, revela seu nada.

    Em todo canto havia o canto da fila. E o lugar de quem chegava por último, era sempre o da espera horrenda: o fim final... A danação eterna de esperar a vez e ser avisado: "- Por hoje só! Quem quiser, que volte amanhã e pegue a fila!"

     Receita Federal, INPS, INAMPS, COBAL, Correios, Caixa Econômica 'Foderal', Banco do Brasil, Lojas Brasileiras, vulgo LOBRÁS, veja só! (Não existia Havan!). Tudo era boca para fila, sorvedouro de gente para as infra dimensões. "- Na fila aí, minha gente! Borá lá! Se organizando... Um atrás do outro!" Conduzia a voz de comando, ao que, obedientes, perfilavam-se os peixinhos para adentrar na boca do tubarão. 

    Também eu, no meu tempo, gastei muito do cálcio de minhas pernas engrossando filas. Certa vez, a fila da vez e a conformidade (ou comorbidade) do caso, era na Caixa Econômica. Causo de ir ver se tinha direito a FGTS, Fundo de não sei o quê... auxílio... Mensagem perdida numa garrafa que fosse endereçada a mim.

-Essa fila não anda!?

-Só abre às 9. E pra triagem, ainda!

- Issé uma imoralidade! -E parece que vai chover de novo.

    A fila parecia uma cobra morta. Abandonada sobre a calçada. Começa rente à porta da Caixa... Descia as escadas. Sapateava no barro do retângulo onde jazia um jardim. Ocupava a frente das lojas ainda fechadas: a pastelaria Canarinho, Casa Rosada Tecidos, Dedé discos... Se perdia Rua da Conceição afora, umedecida pela chuva de ontem e sob ameaça de outra.

    Uma velha de saia godê florida cochilava encostada na pa-rede. Uma sacola de plástico preto presa no braço. O diabo de um velho pitava um cigarro forte. "- A essa hora, meu senhor!?". Baforejava fumaça prum lado e pro outro, como uma locomotiva incensando os presentes, que já devidamente anestesiados pelo cotidiano, nem ligavam. No 6° lugar, estava uma bonitinha. Bem feita de corpo, a diaba! Não fosse essa calça brega de oncinha e essa blusa verde-limão escrito H-u-g-o B-os-s! Réplica! Na certa!
De repente gritos e alvoroço! Algo desfez a fila ali atrás. Esbagaçou-se só o rabo da cobra morta!

    Um ladrão! Avançou na bolsa a tira colo de uma mulher baixinha. Ninguém interveio. Puxou ela pro meio da rua. Puxava a bolsa. A mulher rodopiava levada à dança pela força do ladrão.. Um cara alto, magro, cabelo de pigmaleão... Ele rodava a baixinha para esquerda e para direita e ela ia. A bolsa não. Nem se mexia... Debaixo do sovaco. Alça curta ao ombro. Via-se que era prevenida!

    E foram rodando. Rodando... Rodando. Avançando palmo a passo no meio da rua, se aproximando mais e mais da frente do banco. Duelavam agora na nossa frente. Ninguém intervinha. Fez-se grave silencio. Eu era o 13° da fila. Lugar bom, alto, perto já da escada. De onde eu estava, dava para ouvir o fungado do ladrão, já cansado. A baixinha não desistia... Aqui acolá, gritava: " Me solte, sujeito! Me solte!". Mas ele neco de soltar. Uma hora ela sede! Não posso dar o bote perdido!", devia pensar ele. Risco de linchamento, sempre tem.

     Subiram à calçada aos rodopios. O povo só afastou um pouquinho. Ninguém intervinha.

    Pisotearam o barro molhado. Na verdade, lama mesmo, dentro do retângulo com o jardim morto. Ele puxou com as últimas forças prevendo a fraqueza. Chegou a levantá-la do chão! No em falso, ela escorrega e cai. Apertou a bolsa debaixo do sovaco e pressionou com a outra mão. Foi aí que, impaciente com a resistência indevida de alguém tão pequeno, ele sabugou a mulher na lama, revirando-a de muitos modos possíveis, como faria um cachorro faminto, abocanhando uma presa.

     Ela se encorcovava quanto mais ele sacudia. A bolsa ia sumindo dentro dela, como que movediça! 

    Ele por fim, desistiu. Apontou o dedo silencioso e olhou esbugalhado para ela. Nada disse! Saiu na carreira. Talvez mais com vergonha, do que com medo.

    Ninguém interveio.

    Levantou sozinha. Batendo o barro da roupa, passada à lama. Ajeitou a blusa e a bolsa, intacta, debaixo do sovaco. Com altivez, nem olhou pro povo. Se dirigindo a mim (justo a mim! Que a reconheci no primeiro rodopio... ), pronunciou pausadamente o meu nome: "XXXXXXXXX" e disse:
-Tá vendo aí, meu filho, como são as coisas? Uma pobre velha, não tem ninguém que a defenda! Mas ele vai roubar a mãe dele, esse filho da puta! Por que eu mesmo, ele não rouba não! 
Era dona Zuíla, minha professora do ensino fundamental. Há muitas lições que se pode aprender olhando duma fila. Era a minha vez. Há ainda grande fome também no mundo digital! Sobretudo, de coragem.


(Souza, Auricélio Ferreira de. Objeto urgente: A fila p. 47, 50. São Paulo: Patuá, 2025)

Ao longo do texto o narrador fala em "fome no mundo...", utilizando-se de uma linguagem figurada. Podemos dizer que tal expressão representa emoção e sentimento distintos respectivamente representados por: 
Alternativas
Q4011354 Português
A FILA


Para os que não desistiram


    Antes da conversão do gentio ao maravilhoso mundo digital, havia mais filas no mundo para se esperar a vez. De nascer. De morrer. De usar o telefone... De pedir perdão... Ou amor eterno.

    As pessoas madrugavam, já concebendo, resignadas, a existência clara da lógica de sempre haver mais fila do que atendimento. Havia grande fome no mundo analógico! Sobretudo, de informação. Por isso, havia a fila só para informação. Fila para saber que outra fila tinha que enfrentar, para pegar a senha para entrar noutra fila... Várias encarnações sobre as pernas cansadas. Numa sequência quase infinda, como uma Matriuska, que, ao fim, revela seu nada.

    Em todo canto havia o canto da fila. E o lugar de quem chegava por último, era sempre o da espera horrenda: o fim final... A danação eterna de esperar a vez e ser avisado: "- Por hoje só! Quem quiser, que volte amanhã e pegue a fila!"

     Receita Federal, INPS, INAMPS, COBAL, Correios, Caixa Econômica 'Foderal', Banco do Brasil, Lojas Brasileiras, vulgo LOBRÁS, veja só! (Não existia Havan!). Tudo era boca para fila, sorvedouro de gente para as infra dimensões. "- Na fila aí, minha gente! Borá lá! Se organizando... Um atrás do outro!" Conduzia a voz de comando, ao que, obedientes, perfilavam-se os peixinhos para adentrar na boca do tubarão. 

    Também eu, no meu tempo, gastei muito do cálcio de minhas pernas engrossando filas. Certa vez, a fila da vez e a conformidade (ou comorbidade) do caso, era na Caixa Econômica. Causo de ir ver se tinha direito a FGTS, Fundo de não sei o quê... auxílio... Mensagem perdida numa garrafa que fosse endereçada a mim.

-Essa fila não anda!?

-Só abre às 9. E pra triagem, ainda!

- Issé uma imoralidade! -E parece que vai chover de novo.

    A fila parecia uma cobra morta. Abandonada sobre a calçada. Começa rente à porta da Caixa... Descia as escadas. Sapateava no barro do retângulo onde jazia um jardim. Ocupava a frente das lojas ainda fechadas: a pastelaria Canarinho, Casa Rosada Tecidos, Dedé discos... Se perdia Rua da Conceição afora, umedecida pela chuva de ontem e sob ameaça de outra.

    Uma velha de saia godê florida cochilava encostada na pa-rede. Uma sacola de plástico preto presa no braço. O diabo de um velho pitava um cigarro forte. "- A essa hora, meu senhor!?". Baforejava fumaça prum lado e pro outro, como uma locomotiva incensando os presentes, que já devidamente anestesiados pelo cotidiano, nem ligavam. No 6° lugar, estava uma bonitinha. Bem feita de corpo, a diaba! Não fosse essa calça brega de oncinha e essa blusa verde-limão escrito H-u-g-o B-os-s! Réplica! Na certa!
De repente gritos e alvoroço! Algo desfez a fila ali atrás. Esbagaçou-se só o rabo da cobra morta!

    Um ladrão! Avançou na bolsa a tira colo de uma mulher baixinha. Ninguém interveio. Puxou ela pro meio da rua. Puxava a bolsa. A mulher rodopiava levada à dança pela força do ladrão.. Um cara alto, magro, cabelo de pigmaleão... Ele rodava a baixinha para esquerda e para direita e ela ia. A bolsa não. Nem se mexia... Debaixo do sovaco. Alça curta ao ombro. Via-se que era prevenida!

    E foram rodando. Rodando... Rodando. Avançando palmo a passo no meio da rua, se aproximando mais e mais da frente do banco. Duelavam agora na nossa frente. Ninguém intervinha. Fez-se grave silencio. Eu era o 13° da fila. Lugar bom, alto, perto já da escada. De onde eu estava, dava para ouvir o fungado do ladrão, já cansado. A baixinha não desistia... Aqui acolá, gritava: " Me solte, sujeito! Me solte!". Mas ele neco de soltar. Uma hora ela sede! Não posso dar o bote perdido!", devia pensar ele. Risco de linchamento, sempre tem.

     Subiram à calçada aos rodopios. O povo só afastou um pouquinho. Ninguém intervinha.

    Pisotearam o barro molhado. Na verdade, lama mesmo, dentro do retângulo com o jardim morto. Ele puxou com as últimas forças prevendo a fraqueza. Chegou a levantá-la do chão! No em falso, ela escorrega e cai. Apertou a bolsa debaixo do sovaco e pressionou com a outra mão. Foi aí que, impaciente com a resistência indevida de alguém tão pequeno, ele sabugou a mulher na lama, revirando-a de muitos modos possíveis, como faria um cachorro faminto, abocanhando uma presa.

     Ela se encorcovava quanto mais ele sacudia. A bolsa ia sumindo dentro dela, como que movediça! 

    Ele por fim, desistiu. Apontou o dedo silencioso e olhou esbugalhado para ela. Nada disse! Saiu na carreira. Talvez mais com vergonha, do que com medo.

    Ninguém interveio.

    Levantou sozinha. Batendo o barro da roupa, passada à lama. Ajeitou a blusa e a bolsa, intacta, debaixo do sovaco. Com altivez, nem olhou pro povo. Se dirigindo a mim (justo a mim! Que a reconheci no primeiro rodopio... ), pronunciou pausadamente o meu nome: "XXXXXXXXX" e disse:
-Tá vendo aí, meu filho, como são as coisas? Uma pobre velha, não tem ninguém que a defenda! Mas ele vai roubar a mãe dele, esse filho da puta! Por que eu mesmo, ele não rouba não! 
Era dona Zuíla, minha professora do ensino fundamental. Há muitas lições que se pode aprender olhando duma fila. Era a minha vez. Há ainda grande fome também no mundo digital! Sobretudo, de coragem.


(Souza, Auricélio Ferreira de. Objeto urgente: A fila p. 47, 50. São Paulo: Patuá, 2025)

Numa sequência quase infinda, como uma Matriuska, que, ao fim, revela seu nada. Esse fragmento possui seu sentido expresso em: 
Alternativas
Q4011353 Português
A FILA


Para os que não desistiram


    Antes da conversão do gentio ao maravilhoso mundo digital, havia mais filas no mundo para se esperar a vez. De nascer. De morrer. De usar o telefone... De pedir perdão... Ou amor eterno.

    As pessoas madrugavam, já concebendo, resignadas, a existência clara da lógica de sempre haver mais fila do que atendimento. Havia grande fome no mundo analógico! Sobretudo, de informação. Por isso, havia a fila só para informação. Fila para saber que outra fila tinha que enfrentar, para pegar a senha para entrar noutra fila... Várias encarnações sobre as pernas cansadas. Numa sequência quase infinda, como uma Matriuska, que, ao fim, revela seu nada.

    Em todo canto havia o canto da fila. E o lugar de quem chegava por último, era sempre o da espera horrenda: o fim final... A danação eterna de esperar a vez e ser avisado: "- Por hoje só! Quem quiser, que volte amanhã e pegue a fila!"

     Receita Federal, INPS, INAMPS, COBAL, Correios, Caixa Econômica 'Foderal', Banco do Brasil, Lojas Brasileiras, vulgo LOBRÁS, veja só! (Não existia Havan!). Tudo era boca para fila, sorvedouro de gente para as infra dimensões. "- Na fila aí, minha gente! Borá lá! Se organizando... Um atrás do outro!" Conduzia a voz de comando, ao que, obedientes, perfilavam-se os peixinhos para adentrar na boca do tubarão. 

    Também eu, no meu tempo, gastei muito do cálcio de minhas pernas engrossando filas. Certa vez, a fila da vez e a conformidade (ou comorbidade) do caso, era na Caixa Econômica. Causo de ir ver se tinha direito a FGTS, Fundo de não sei o quê... auxílio... Mensagem perdida numa garrafa que fosse endereçada a mim.

-Essa fila não anda!?

-Só abre às 9. E pra triagem, ainda!

- Issé uma imoralidade! -E parece que vai chover de novo.

    A fila parecia uma cobra morta. Abandonada sobre a calçada. Começa rente à porta da Caixa... Descia as escadas. Sapateava no barro do retângulo onde jazia um jardim. Ocupava a frente das lojas ainda fechadas: a pastelaria Canarinho, Casa Rosada Tecidos, Dedé discos... Se perdia Rua da Conceição afora, umedecida pela chuva de ontem e sob ameaça de outra.

    Uma velha de saia godê florida cochilava encostada na pa-rede. Uma sacola de plástico preto presa no braço. O diabo de um velho pitava um cigarro forte. "- A essa hora, meu senhor!?". Baforejava fumaça prum lado e pro outro, como uma locomotiva incensando os presentes, que já devidamente anestesiados pelo cotidiano, nem ligavam. No 6° lugar, estava uma bonitinha. Bem feita de corpo, a diaba! Não fosse essa calça brega de oncinha e essa blusa verde-limão escrito H-u-g-o B-os-s! Réplica! Na certa!
De repente gritos e alvoroço! Algo desfez a fila ali atrás. Esbagaçou-se só o rabo da cobra morta!

    Um ladrão! Avançou na bolsa a tira colo de uma mulher baixinha. Ninguém interveio. Puxou ela pro meio da rua. Puxava a bolsa. A mulher rodopiava levada à dança pela força do ladrão.. Um cara alto, magro, cabelo de pigmaleão... Ele rodava a baixinha para esquerda e para direita e ela ia. A bolsa não. Nem se mexia... Debaixo do sovaco. Alça curta ao ombro. Via-se que era prevenida!

    E foram rodando. Rodando... Rodando. Avançando palmo a passo no meio da rua, se aproximando mais e mais da frente do banco. Duelavam agora na nossa frente. Ninguém intervinha. Fez-se grave silencio. Eu era o 13° da fila. Lugar bom, alto, perto já da escada. De onde eu estava, dava para ouvir o fungado do ladrão, já cansado. A baixinha não desistia... Aqui acolá, gritava: " Me solte, sujeito! Me solte!". Mas ele neco de soltar. Uma hora ela sede! Não posso dar o bote perdido!", devia pensar ele. Risco de linchamento, sempre tem.

     Subiram à calçada aos rodopios. O povo só afastou um pouquinho. Ninguém intervinha.

    Pisotearam o barro molhado. Na verdade, lama mesmo, dentro do retângulo com o jardim morto. Ele puxou com as últimas forças prevendo a fraqueza. Chegou a levantá-la do chão! No em falso, ela escorrega e cai. Apertou a bolsa debaixo do sovaco e pressionou com a outra mão. Foi aí que, impaciente com a resistência indevida de alguém tão pequeno, ele sabugou a mulher na lama, revirando-a de muitos modos possíveis, como faria um cachorro faminto, abocanhando uma presa.

     Ela se encorcovava quanto mais ele sacudia. A bolsa ia sumindo dentro dela, como que movediça! 

    Ele por fim, desistiu. Apontou o dedo silencioso e olhou esbugalhado para ela. Nada disse! Saiu na carreira. Talvez mais com vergonha, do que com medo.

    Ninguém interveio.

    Levantou sozinha. Batendo o barro da roupa, passada à lama. Ajeitou a blusa e a bolsa, intacta, debaixo do sovaco. Com altivez, nem olhou pro povo. Se dirigindo a mim (justo a mim! Que a reconheci no primeiro rodopio... ), pronunciou pausadamente o meu nome: "XXXXXXXXX" e disse:
-Tá vendo aí, meu filho, como são as coisas? Uma pobre velha, não tem ninguém que a defenda! Mas ele vai roubar a mãe dele, esse filho da puta! Por que eu mesmo, ele não rouba não! 
Era dona Zuíla, minha professora do ensino fundamental. Há muitas lições que se pode aprender olhando duma fila. Era a minha vez. Há ainda grande fome também no mundo digital! Sobretudo, de coragem.


(Souza, Auricélio Ferreira de. Objeto urgente: A fila p. 47, 50. São Paulo: Patuá, 2025)

O texto nos permite inferir:

I. Há uma crítica poética à era digital e nostalgia por um tempo em que as interações e até mesmo os processos naturais da vida (nascer, morrer) ou sociais (pedir perdão, amor eterno, usar o telefone) envolviam a espera e a conexão humana mais direta.
II. As filas são vistas como parte de uma experiência humana, onde as pessoas interagem ou pelo menos compartilham o mesmo espaço tempo.
II No "maravilhoso mundo digital", muitas dessas "filas" (esperas por comunicação, por serviços, por respostas) foram substituídas por interações instantâneas e virtuais, que, embora eficientes, podem ser consideradas mais impessoais ou menos "vivas" do que a interação face a face. Este é o principal motivo da falta de empatia.
IV. A implicação é que a tecnologia nos conectou à internet, mas nos desconectou de alguma forma das pessoas e do ritmo natural da vida, onde a paciência e a presença eram mais valorizadas.
V. É um lamento lírico pela perda do envolvimento coletivo e da profundidade das relações que a espera e a interação física deveriam proporcionar.
Alternativas
Q4001064 Psicologia
À luz das normativas do Conselho Federal de Psicologia (CFP) e das legislações vigentes, qual das alternativas abaixo define CORRETAMENTE a concepção de Clínica Ampliada e a elaboração do Projeto Terapêutico Singular (PTS) no Centro de Atenção Psicossocial (CAPS)?
Alternativas
Q4001063 Direito da Criança e do Adolescente - Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) - Lei nº 8.069 de 1990
Um(a) psicólogo(a) que atua em uma Unidade Básica de Saúde (UBS) acompanha uma criança de 9 anos. Durante os atendimentos, o profissional identifica fortes indícios de negligência crônica e maus-tratos psicológicos, evidenciados por privação de cuidados médicos, evasão escolar e constante depreciação e humilhação por parte dos pais. Diante do caso apresentado, qual deve ser a conduta técnica e legal do(a) psicólogo(a)?
Alternativas
Q4001062 Estatuto da Pessoa Idosa - Lei nº 10.741 de 2003
O envelhecimento populacional é uma realidade e a cada dia aumentam as demandas por atendimento e acompanhamento de idosos no sistema público de saúde. Frequentemente, famílias buscam intervir nas decisões clínicas de seus entes, presumindo a perda de capacidade civil devido à idade avançada. À luz da Lei nº 10.741/2003 que dispõe sobre Estatuto da Pessoa Idosa, como a(o) psicóloga(o) deve atuar frente a uma pessoa idosa, no domínio de suas faculdades mentais, que diverge da família quanto à escolha de seu tratamento de saúde?
Alternativas
Q4001061 Psicologia
A atuação no Centro de Referência Especializado de Assistência Social (CREAS) tem como pilar o trabalho em equipe interdisciplinar. Essa dinâmica exige o estudo conjunto de casos e a construção coletiva do Plano de Acompanhamento Individual e/ou Familiar. Diante da necessidade de integrar as ações de proteção social, como a(o) psicóloga(o) deve manejar o sigilo profissional ao compartilhar informações no âmbito da equipe técnica?
Alternativas
Q4001060 Saúde Pública
A Política Nacional de Humanização (PNH) é concebida como uma política transversal que atravessa as diferentes ações e instâncias do Sistema Único de Saúde (SUS). A PNH compreende que as chamadas "práticas desumanizadoras" nos serviços de saúde são, frequentemente, expressões concretas de formas precárias de organização do trabalho e da gestão.

A partir desse contexto, analise as asserções a seguir e a relação proposta entre elas.
I- Na perspectiva da PNH, a qualificação do cuidado prestado ao usuário (modelo de atenção) é indissociável da democratização dos processos de trabalho (modelo de gestão), exigindo a inclusão ativa dos trabalhadores na tomada de decisão por meio de dispositivos como a cogestão e a atuação do apoiador institucional.
PORQUE
II- A cogestão reconhece a importância de se valorizar o saber do trabalhador da saúde; o modelo de atenção clínica deve operar em dissonância com o modelo de gestão administrativa, a fim de evitar que as relações de poder e os inevitáveis conflitos políticos da instituição interfiram na objetividade técnica do cuidado prestado ao usuário.

A respeito dessas asserções, é CORRETO afirmar que:
Alternativas
Q4001059 Psicologia
A Lei nº 8.080/1990 estabelece que a saúde possui fatores determinantes e condicionantes, exigindo do Sistema Único de Saúde (SUS) a garantia da integralidade da assistência. Considerando a articulação entre prevenção e cura prevista na norma, como a(o) psicóloga(o) deve estruturar sua prática clínica e institucional no sistema para efetivamente superar o tradicional modelo puramente curativo e biomédico? 
Alternativas
Respostas
1961: D
1962: C
1963: C
1964: B
1965: D
1966: D
1967: B
1968: B
1969: C
1970: E
1971: E
1972: A
1973: C
1974: A
1975: A
1976: D
1977: D
1978: E
1979: C
1980: B