Ozempic e outros remédios inspirados
em
veneno de animais
Craig Russell / Role, The Conversation*
24 setembro 2023
Poucos sabem, mas muitos dos remédios que usamos
hoje em dia têm origens exóticas. Um exemplo é a
semaglutida, conhecida pelas marcas comerciais Wegovy
e Ozempic. O popular medicamento, usado para o
tratamento do sobrepeso e da obesidade, foi, na verdade,
inspirado no veneno do lagarto conhecido como monstrode-gila (Heloderma suspectum). Cientistas descobriram
que um hormônio do veneno desse réptil, chamado
exendina-4, poderia ser usado para o tratamento de
diabetes tipo 2. [...]
O monstro-de-gila não é o único réptil que inspirou
medicações inovadoras. O veneno da jararaca brasileira
(Bothrops jararaca) levou ao desenvolvimento de uma
classe de drogas conhecidas como inibidores da enzima
de conversão da angiotensina (IECAs). No final dos anos
1960, pesquisadores estudaram o veneno dessa cobra e
seus efeitos sobre a pressão sanguínea. Eles isolaram um
peptídeo do veneno, que poderia inibir uma enzima
conhecida como enzima de conversão da angiotensina
(ECA) e, assim, reduzir a pressão sanguínea. O
experimento resultou no desenvolvimento de uma versão
sintética do peptídeo, chamada captopril. Embora o
captopril seja raramente receitado hoje em dia, ele levou
à geração seguinte de inibidores da ECA, como o
enalapril, amplamente indicado para o tratamento da
pressão alta e problemas cardíacos.
Os venenos de criaturas da terra e do mar são uma rica
fonte de compostos medicinais. Os caramujos são
conhecidos por produzirem uma série de peptídeos no seu
veneno que servem para imobilizar suas presas. E uma
versão sintética de um dos peptídeos encontrados no
veneno dos caramujos é utilizada no medicamento
analgésico ziconotida.
Outra criatura marinha, a ascídia caribenha, forneceu
o medicamento contra o câncer, a trabectedina. Estudos
realizados com trabectedina demonstraram resultados
positivos no tratamento de câncer dos tecidos moles
avançado, como lipossarcoma e leiomiossarcoma,
tumores malignos e agressivos difíceis de tratar. Em
2015, a Administração de Alimentos e Drogas dos
Estados Unidos (FDA, na sigla em inglês), a agência de
vigilância sanitária americana, aprovou, em caráter de
urgência, o uso da trabectedina para o tratamento destes
tipos de câncer em pacientes com câncer dos tecidos
moles avançado que não reagiram à quimioterapia.
Anticoagulantes
As sanguessugas usadas na medicina também
forneceram medicações que salvam vidas humanas.
Quando essas criaturas se agarram a uma pessoa para
sugar seu sangue, elas injetam compostos, como hirudina
e calina, para evitar que o sangue das vítimas coagule.
As drogas anticoagulantes bivalirudina e desirudina
são derivadas de hirudina. Essas medicações são
administradas a pessoas com alto risco de coágulos
sanguíneos, como as portadoras de fibrilação atrial, um
tipo de arritmia cardíaca. Nelas, se um coágulo sanguíneo
obstruir uma artéria, ele pode causar uma parada cardíaca
ou AVC (Acidente Vascular Cerebral, popularmente
conhecido como derrame).
Já outro coagulante chamado varfarina data dos anos
1920, quando bovinos começaram a morrer nos Estados
Unidos e no Canadá, vítimas de uma misteriosa doença
que causava sangramento nos animais. Descobriu-se que
a causa era o trevo-doce mofado, usado para alimentar o
gado. O composto prejudicial do mofo que causava o
sangramento chama-se dicumarol, que foi desenvolvido
para gerar a varfarina. A varfarina foi inicialmente
vendida como raticida, por ser muito eficaz para causar
sangramento interno nos roedores. Mas os pesquisadores
logo perceberam seu possível uso terapêutico em seres
humanos como anticoagulante. A medicação decolou de
verdade em 1955, quando o então presidente americano
Dwight Eisenhower (1890-1969) sofreu um ataque
cardíaco e foi tratado com varfarina, com sucesso.
Descoberta explosiva
Já a nitroglicerina foi descoberta no século 19. Ela é
derivada de glicerol e foi inicialmente observada pelas
suas propriedades explosivas. Mas seu poder medicinal
logo foi reconhecido.
Homens de meia-idade que trabalhavam com
explosivos, como os construtores de ferrovias,
observavam, às vezes, que suas dores no peito diminuíam
depois que manuseavam bananas de dinamite.
Pesquisadores médicos ouviram esta história e
desenvolveram um medicamento baseado em
nitroglicerina para reduzir sintomas de angina (dor
torácica causada pela falta de sangue), dilatando os vasos
sanguíneos e aumentando o fluxo de sangue para o
coração. A droga é utilizada até hoje, apesar do seu
irritante efeito colateral de acionar os detectores de
explosivos nos aeroportos.
Por fim, precisamos agradecer ao gás mostarda, uma
arma química mortal, por ter nos fornecido a
quimioterapia. Durante a 1ª Guerra Mundial, cientistas
observaram que o gás mostarda destrói o tecido linfático.
Eles passaram, então, a cogitar se a substância poderia
destruir células cancerosas em nódulos linfáticos.
Mas foi apenas nos anos 1940 que a mostarda nitrogenada
(um derivado do gás mostarda) foi utilizada pela primeira
vez para tratar um paciente com câncer no sangue.
E diversas medicações derivadas de agentes mostarda
foram desenvolvidas posteriormente.
As medicações modernas continuarão sendo
projetadas principalmente em computadores — e, cada
vez mais, utilizando inteligência artificial. Mas os
pesquisadores seguirão buscando inspiração para novos
remédios em locais estranhos e maravilhosos.
RUSSELL, Craig. Ozempic e outros remédios inspirados em veneno de
animais. BBC Brasil, 24 de setembro de 2023. Disponível em:
https://www.bbc.com/portuguese/articles/c515q5neqdgo. Acesso em: 27 set.
2023.