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Q1102711 Português
Texto I para responder às questões de 21 a 35.

Ódio ao Semelhante – Sobre a Militância de Tribunal

    Ninguém pode negar o conflito como parte fundamental do fenômeno político. Só existe política porque existem diferenças, discordâncias, visões de mundo que se distanciam, ideologias, lutas por direitos, por hegemonia. Isso quer dizer que no cerne do fenômeno político está a democracia como um desejo de participação que implica as tenções próprias à diferença que busca um lugar no contexto social. [...]     
    Esse texto não tem por finalidade tratar da importância do conflito ou da crítica, mas analisar um fenômeno que surgiu, e se potencializou, na era das redes sociais: a “militância de tribunal”. Essa prática é apresentada como manifestação de ativismo político, mas se reduz ao ato de proferir julgamentos, todos de natureza condenatória, contra seus adiversários e, muitas vezes, em desfavor dos próprios parceiros de projeto político. São típicos julgamentos de excessão, nos quais a figura do acusador e do julgador se confundem, não existe uma acusação bem delimitada, nem a oportunidade do acusado se defender. Nesses julgamentos, que muito revela do “militante de tribunal”, os eventuais erros do “acusado”, por um lado, são potencializados, sem qualquer compromisso com a facticidade; por outro, perdem importância para a hipótese previamente formulada pelo acusador-julgador, a partir de preconceitos, perversões, ressentimentos, inveja e, sobretudo, ódio.
    Ódio direcionado ao inimigo, aquele com o qual o “acusador-julgador” não se identifica e, por essa razão, nega a possibilidade de dialogar e, o que tem se tornado cada vez mais frequente, o ódio relacionado ao próximo, aquele que é, ou deveria ser, um aliado nas trincheiras políticas. Ódio que nasce daquilo que Freud chamou de “narcisismo das pequenas diferenças”. Ódio ao semelhante, aquele que admiramos, do qual somos “parceiros”, ao qual, contudo, dedicamos nosso ódio sempre que ele não faz exatamente aquilo que deveria – ou o que nós acreditamos que deveria – fazer.
   Exemplos não faltam. Pense-se na militante feminista que gasta mais tempo a “condenar” outras mulheres, a julgar outros “feminismos”, do que no enfrentamento concreto à dominação masculina. A Internet está cheia de exemplos de especialistas em julgamento e condenação. A caça por sucesso naquilo que imaginam ser o “clubinho das feministas” (por muitas que se dizem feministas enquanto realizam o feminismo como uma mera moral) tem algo da antiga caça às bruxas que regozija até hoje o machismo estrutural. Nunca se verá a “militante de tribunal feminista” em atitude isenta elogiando a postura correta, mas sempre espetacularizando a postura “errada” daquela que deseja condenar. Muitas constroem seus nomes virtuais, seu capital político, aquilo que imaginam ser um verdadeiro protagonismo feminista, no meio dessas pequenas guerras e linchamentos virtuais nas quais se consideram vencedoras pela gritaria. Há, infelizmente, feministas que se perdem, esvaziam o feminismo e servem de espetáculo àqueles que adoram odiar o feminismo. [...] Apoio mesmo, concreto, às grandes lutas do feminismo, isso não, pois não é tão fácil nem deve dar tanto prazer quanto a condenação no tribunal virtual montado em sua própria casa. [...]
(Marcia Tiburi e Rubens Casara. Disponível em: http://revistacult.uol.com.br/home/2016/01/odio-ao-semelhante-sobre-a-militancia-detribunal/. Publicado dia: 10/01/2016. Adaptado.)
Os argumentos apresentados constituem um dos recursos para a construção da tipologia textual apresentada. Como característica de tal texto, as ideias e opiniões do autor são explicitadas com base em tais argumentos. Diante da forma como o assunto é trazido ao texto, pode-se afirmar que os sentimentos dos autores em relação ao assunto tratado são de:
Alternativas

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Gabarito Comentado: Alternativa C – Tristeza e desaprovação

1. Tema central: A questão exige interpretação de texto, com foco na análise da tipologia textual argumentativa e na identificação da função emotiva, visando perceber os sentimentos dos autores sobre o tema tratado.

2. Justificativa da alternativa correta:

A escolha da alternativa C – Tristeza e desaprovação fundamenta-se na maneira como os autores descrevem o fenômeno da “militância de tribunal”. O texto utiliza palavras e expressões que traduzem um tom pesaroso (“infelizmente, feministas que se perdem…”, “se esvaziam o feminismo…”), revelando tristeza ao constatar o enfraquecimento da causa por atitudes internas de julgamento e condenação. Por outro lado, a crítica explícita a tais práticas traduz desaprovação: os autores rejeitam o comportamento analisado e apontam suas consequências negativas.

Do ponto de vista da norma-padrão e segundo gramáticas como a de Celso Cunha & Lindley Cintra, a tipologia textual argumentativa se caracteriza por apresentar opiniões explicitamente fundamentadas – e os sentimentos do autor são traduzidos principalmente pela escolha lexical (“nunca se verá... em atitude isenta elogiando…”, “caça às bruxas…”, “pequenas guerras e linchamentos virtuais…”).

3. Análise das alternativas incorretas:

  • A) Ódio e decepção: Apesar de o texto falar sobre o “ódio” como tema de análise, em nenhum momento os autores expressam ódio pessoal. O sentimento é apenas objeto de reflexão, não um sentimento experienciado pelos autores.
  • B) Revolta e ansiedade: A crítica é racional e argumentativa, sem demonstrações de revolta intensa ou tensão típica da ansiedade; os autores mantêm um tom ponderado.
  • D) Perplexidade e esgotamento: Não há evidências de surpresa (perplexidade) ou de desânimo/cansaço (esgotamento) ao longo do texto; a linguagem permanece crítica e analítica.

Dica para provas: Sempre distinga o sentimento do autor em relação ao fato descrito, e não confunda tema abordado com emoção do autor.

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Comentários

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GABARITO: LETRA C

? Há, infelizmente, feministas que se perdem, esvaziam o feminismo e servem de espetáculo àqueles que adoram odiar o feminismo. [...] Apoio mesmo, concreto, às grandes lutas do feminismo, isso não, pois não é tão fácil nem deve dar tanto prazer quanto a condenação no tribunal virtual montado em sua própria casa. [...]

? O valor mais nítido apresentado é o de desaprovação acerca da atitude de inúmeras pessoas, conforme o exemplo apresentado nesse trecho.

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