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Q1103049 Português

Ódio ao Semelhante – Sobre a Militância de Tribunal

         Ninguém pode negar o conflito como parte fundamental do fenômeno político. Só existe política porque existem diferenças, discordâncias, visões de mundo que se distanciam, ideologias, lutas por direitos, por hegemonia. Isso quer dizer que no cerne do fenômeno político está a democracia como um desejo de participação que implica as tenções próprias à diferença que busca um lugar no contexto social. [...]

       Esse texto não tem por finalidade tratar da importância do conflito ou da crítica, mas analisar um fenômeno que surgiu, e se potencializou, na era das redes sociais: a “militância de tribunal”. Essa prática é apresentada como manifestação de ativismo político, mas se reduz ao ato de proferir julgamentos, todos de natureza condenatória, contra seus adiversários e, muitas vezes, em desfavor dos próprios parceiros de projeto político. São típicos julgamentos de excessão, nos quais a figura do acusador e do julgador se confundem, não existe uma acusação bem delimitada, nem a oportunidade do acusado se defender. Nesses julgamentos, que muito revela do “militante de tribunal”, os eventuais erros do “acusado”, por um lado, são potencializados, sem qualquer compromisso com a facticidade; por outro, perdem importância para a hipótese previamente formulada pelo acusador-julgador, a partir de preconceitos, perversões, ressentimentos, inveja e, sobretudo, ódio.

        Ódio direcionado ao inimigo, aquele com o qual o “acusador-julgador” não se identifica e, por essa razão, nega a possibilidade de dialogar e, o que tem se tornado cada vez mais frequente, o ódio relacionado ao próximo, aquele que é, ou deveria ser, um aliado nas trincheiras políticas. Ódio que nasce daquilo que Freud chamou de “narcisismo das pequenas diferenças”. Ódio ao semelhante, aquele que admiramos, do qual somos “parceiros”, ao qual, contudo, dedicamos nosso ódio sempre que ele não faz exatamente aquilo que deveria – ou o que nós acreditamos que deveria – fazer.                   Exemplos não faltam. Pense-se na militante feminista que gasta mais tempo a “condenar” outras mulheres, a julgar outros “feminismos”, do que no enfrentamento concreto à dominação masculina. A Internet está cheia de exemplos de especialistas em julgamento e condenação. A caça por sucesso naquilo que imaginam ser o “clubinho das feministas” (por muitas que se dizem feministas enquanto realizam o feminismo como uma mera moral) tem algo da antiga caça às bruxas que regozija até hoje o machismo estrutural. Nunca se verá a “militante de tribunal feminista” em atitude isenta elogiando a postura correta, mas sempre espetacularizando a postura “errada” daquela que deseja condenar. Muitas constroem seus nomes virtuais, seu capital político, aquilo que imaginam ser um verdadeiro protagonismo feminista, no meio dessas pequenas guerras e linchamentos virtuais nas quais se consideram vencedoras pela gritaria. Há, infelizmente, feministas que se perdem, esvaziam o feminismo e servem de espetáculo àqueles que adoram odiar o feminismo. [...] Apoio mesmo, concreto, às grandes lutas do feminismo, isso não, pois não é tão fácil nem deve dar tanto prazer quanto a condenação no tribunal virtual montado em sua própria casa. [...]

A citação de textos autorizados, assim como de depoimentos, constitui um recurso argumentativo empregado na comprovação da tese defendida no texto dissertativo-argumentativo. Ao utilizar a citação de Freud: “narcisismo das pequenas diferenças” pode-se depreender que ocorre:
Alternativas

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Gabarito: A

Tema central da questão: Interpretação de Texto, especialmente no uso de citações como recurso argumentativo em textos dissertativo-argumentativos. A questão pede que você reconheça a função da expressão “narcisismo das pequenas diferenças”, de Freud, no texto.

Justificativa da alternativa correta:
A alternativa A é a correta porque, na argumentação, a citação de Freud serve para ilustrar um fenômeno descrito no texto: o conflito intenso entre pessoas ou grupos muito semelhantes, gerado por pequenas divergências. O autor utiliza esse conceito de Freud para reforçar o argumento de que, em ambientes como as redes sociais, parte do ódio surge exatamente entre quem deveria ser aliado, não por grandes diferenças, mas por pequenas diferenças, como explica Freud em “O mal-estar na civilização”. Isso é um paralelismo semântico: o conceito citado serve como exemplo ou referência conceitual à situação discutida.

Análise das alternativas incorretas:

B) Errada. Não há demonstração de apoio do autor de Freud às atitudes analisadas no texto. A citação não valida nem defende tais comportamentos; apenas os esclarece conceitualmente.

C) Errada. Não se trata de contra-argumentação. O recurso serve para reforçar a tese, não para contestá-la.

D) Errada. A citação de Freud não contraria o texto nem comprova discriminação do autor. Ela explica um fenômeno social observado.

Estratégia de interpretação: Sempre que um texto usar uma citação de autoridade (autor, pesquisador), avalie se ela ilustra, apoia, exemplifica, ou contrapõe as ideias do texto. Contextualize o conceito citado dentro do argumento principal. Evite marcar alternativas que mencionam apoio ou contra-argumentação sem essa relação explícita no texto.

Referências: Bechara (2009) e Cunha & Cintra (2008) apresentam a citação como reforço da argumentação — jamais como apoio moral ou contra-argumento, salvo indicação clara.

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Comentários

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GABARITO: LETRA A

? Ódio direcionado ao inimigo, aquele com o qual o ?acusador-julgador? não se identifica e, por essa razão, nega a possibilidade de dialogar e, o que tem se tornado cada vez mais frequente, o ódio relacionado ao próximo, aquele que é, ou deveria ser, um aliado nas trincheiras políticas. Ódio que nasce daquilo que Freud chamou de ?narcisismo das pequenas diferenças? [...]

? Observa-se que o autor usa de uma citação para reforçar aquilo que é apresentado acerca do "ódio", não há conta-argumentação, pelo contrário, há um reforço, um apoio de ideias.

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? FORÇA, GUERREIROS(AS)!! 

 Ódio direcionado ao inimigo, aquele com o qual o “acusador-julgador” não se identifica e, por essa razão, nega a possibilidade de dialogar e, o que tem se tornado cada vez mais frequente, o ódio relacionado ao próximo, aquele que é, ou deveria ser, um aliado nas trincheiras políticas. Ódio que nasce daquilo que Freud chamou de “narcisismo das pequenas diferenças”. Ódio ao semelhante, aquele que admiramos, do qual somos “parceiros”, ao qual, contudo, dedicamos nosso ódio sempre que ele não faz exatamente aquilo que deveria – ou o que nós acreditamos que deveria – fazer. 

A Uma referência que se enquadra, de acordo com aspectos semelhantes, à situação em questão apresentada no texto.

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