IA permite viajar sem sair do sofá
e ainda matar amigos de inveja
Basta rolar o feed por alguns minutos. Nas redes sociais,
surgem fotos de amigos ou influenciadores em cenários
típicos de férias perfeitas: alguém aos pés da Torre Eiffel, em
Paris, outro numa praia de águas azuis do Caribe ou de algum
paraíso nordestino, sem falar no semblante de encantamento
diante do castelo da Disney, nos Estados Unidos da América
(EUA). Na era da tecnologia, não é preciso ser nenhum privilegiado para compartilhar frequentemente fotos assim nas
redes. Aplicativos de inteligência artificial (IA) fazem sucesso
produzindo imagens de pessoas em cenários nos quais elas
nunca pisaram, confundindo muita gente.
A primeira febre de manipulação de fotos com IA foi a aplicação de filtros no estilo de animação, seguida de retratos
de infância recriados em novos cenários. Agora, a onda é compartilhar imagens simulando cenas de turismo, muitas vezes
sem qualquer indicação de que foram geradas artificialmente.
Os recursos estão em aplicativos que também usam a IA para
simular ensaios fotográficos de aniversário nunca comemorados ou fotos em ambiente corporativo (geralmente com
aquele figurino de executivo e cara de conteúdo) para compor
perfis profissionais nas redes.
Para o antropólogo David Nemer, o uso de IA com esse
objetivo diz muito mais sobre a cultura digital contemporânea
no mundo do que sobre “falsidade”. Ele recorre ao conceito
atual de economia da performance, em que a visibilidade digital funciona como capital simbólico. A imagem atrai, mas não
é registro: vira status e narrativa pessoal, numa lógica que já
existia com filtros e programas de edição de fotos.
“O valor não está no que você viveu, mas no que você
consegue mostrar”, diz o antropólogo. “E ainda reforça desigualdades, porque quem já tem mais repertório digital, literacia tecnológica e familiaridade com IA consegue manipular
melhor essas ferramentas e construir imagens mais ‘críveis’,
enquanto outros ficam excluídos ou vulneráveis a julgamentos
morais”.
(Carolina Nalin. O Globo, 07.12.2025. Adaptado.)