Questões de Concurso Para letras

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Q4324135 Português
TEXTO I

Q1_10.png (272×121)

A perda da linguagem e a perda da liberdade

Ninguém consegue expressar um sentimento ou visão do mundo sem um vocabulário apropriado; sem isso, é impossível traduzir a realidade interior em algo que possa ser transmitido a outra pessoa


Roberto Motta


    São 5h30 da manhã e eu começo a caminhada pela praia do Rio de Janeiro. Há grupos espalhados pela areia, muita gente. Não são banhistas. Estão se recuperando de uma longa noite. Ao redor deles há uma mancha de lixo: garrafas de todos os tipos, embalagens de alimentos industrializados e restos de comida. E o odor de maconha. Caixas de som estão ligadas na potência máxima. As músicas são todas do mesmo tipo: “canções” sem melodia ou harmonia, nas quais vozes desafinadas e desagradáveis – algumas aos berros – se submetem à tirania de ritmos que soam como pancadas. As “letras” são relatos de atos sexuais, uso de drogas e crimes; algumas dessas músicas servem de hinos a facções. Álcool, carboidratos industrializados, drogas e violência: essa foi a dieta da noite na praia, onde a escuridão não acaba quando o sol nasce.

    Essa praia é o meu quintal. Sempre que o mar permite, eu nado. Nos outros dias, eu leio. Não levo nada comigo além dos livros, porque nas praias roubam tudo. Menos livros. Deixo os meus sobre a cadeira quando vou dar um mergulho, sem preocupação. O risco de serem roubados é zero.

    Não tenho uma boa explicação para minha obsessão por leitura. Uma parte do meu cérebro se ilumina quando leio. É uma sensação física. Sempre foi assim. Quando era muito criança, livros já me interessavam. No final da década de 1970, minha mãe me deixava na biblioteca pública de Salvador enquanto ia fazer compras. Não leio em busca de conhecimento ou cultura. Dizer isso seria mentir. Sou curioso sim, e isso me leva a ler de tudo. Preciso de variedade. Mas minha obsessão tem outra origem. É uma necessidade orgânica: sou dependente de leitura. Na falta de livros e revistas, leio bulas de remédio, rótulos de embalagens e manuais de instruções. Para alguém como eu, a internet foi um milagre. Nunca mais fiquei sem ter algo para ler. 

    Além de disponibilizar infinito material de leitura, a internet transformou todo mundo em escritor, nem que sejam apenas de comentários em postagens alheias. Com isso, ficou evidente o prejuízo causado pela degradação da linguagem, um fenômeno encorajado por sistemas políticos populistas como forma de igualdade. É a ideia de que existem muitos “saberes” igualmente importantes, mesmo que alguns desses saberes não saibam nada. O cidadão ocidental confortavelmente instalado em um sistema de bem-estar social que lhe garante a sobrevivência, é alimentado com o equivalente cultural de uma dieta de carboidratos, álcool e maconha. Exatamente como o pessoal da praia do início deste texto. 

    Comentários nas redes sociais expõem a torturante experiência de ter algo a dizer, mas não saber como. A linguagem foi reduzida a seus componentes mais rudimentares, e estão desaparecendo a capacidade de observação e descrição, a sutileza e a moderação necessárias à expressão de ideias e ao exame equilibrado da vida em geral. Tudo se reduz a “amo” ou “odeio” e a “comunistas” versus “fascistas”. Políticos são classificados como santos ou impostores, submetidos aleatoriamente a ataques virulentos ou a adulação desmedida. A cidadania – se é que algo assim já existiu por essas terras – se esfarela junto com a linguagem.

    Ninguém consegue expressar um sentimento ou visão do mundo sem um vocabulário apropriado; sem isso, é impossível traduzir a realidade interior em algo que possa ser transmitido a outra pessoa. Fiz uma postagem com a recomendação do livro Trilogia Cósmica, de C. S. Lewis. Um dos comentários foi feito por alguém que se identificou como Alberto, ex-usuário de tudo. Ele disse: “Minha geração não lê livros. Jogamos games e assistimos vídeos. Acho que estamos certos porque a realidade é líquida. Preferimos receber o resumo da sua geração”. Alberto, o resumo é esse: de todas as perdas que alguém pode sofrer, a perda da linguagem é uma das mais graves, principalmente porque é impossível notar a perda de algo que você nunca teve. 

    Acontece que a linguagem é a ferramenta do raciocínio. Pensamentos são expressos em uma voz interior que usa a linguagem que aprendemos. Até que esses pensamentos sejam articulados, eles não existem de forma consciente. Bom senso e clareza de raciocínio não são privilégio de pessoas instruídas, isso é evidente; existem pessoas simples que conduzem suas vidas com padrões morais elevados e acumulam conquistas pessoais maiores do que as de muitos “intelectuais”. Entretanto, na maioria dos casos – e exceto por um esforço extraordinário – a falta de um vocabulário leva a um embotamento da sensibilidade e do raciocínio, assim como a falta de treinamento leva à atrofia muscular. O universo fica reduzido a um estreito conjunto de experiências mundanas, quase sempre primitivas, quase sempre envolvendo as partes inferiores do corpo. O resultado é um vazio experiencial – um mal tornado ainda mais terrível porque o portador da aflição não consegue nomear a enfermidade. O primeiro impulso é preencher o vazio com barulho, porque o silêncio é insuportável para uma mente que não tem como pensar. Por isso, a onipresença de equipamentos sonoros em todos os lugares e momentos. 

    É impossível encontrar, na minha cidade, uma praia livre de caixas de som, ou uma clínica cujos pacientes, nas salas de espera, não sejam tutelados – não sei se essa é a melhor palavra – por aparelhos de televisão permanentemente ligados. A forma mais popular de anestesia, claro, é o celular: não há desespero existencial que resista a uma sequência de reels. Esse vazio também é preenchido por ideologias e filosofias calamitosas, do neomarxismo woke ao ambientalismo xiita, dos métodos infalíveis para enriquecer com criptomoedas ao extremismo religioso. Improváveis teorias da conspiração se transformam na justificativa existencial de multidões. O lixo criado pelo homem é consumido pelo homem como se fosse o caminho da verdade.

    Permitam-me sugerir a redescoberta da linguagem, por meio da leitura, como remédio. Mas o caminho da libertação não passa apenas por livros – ele exige bons livros. Como disse o filósofo Arthur Schopenhauer: “A arte de não ler é uma arte muito importante. Ela consiste em não se interessar por aquilo que, em determinado momento, esteja ocupando a atenção do público em geral. Quando algum panfleto político ou eclesiástico, ou um romance, ou um poema estiver provocando grande alvoroço, você deve se lembrar de que aquele que escreve para tolos sempre encontra um grande público. Uma condição prévia para ler bons livros é não ler livros ruins: pois a vida é curta”.


Fonte: MOTTA, Roberto. A perda da linguagem e a perda da liberdade. https://revistaoeste.com/revista/edicao-305/a-perda-da-linguagem-e-a-perda-da-liberdade/ 
Sobre as regras de acentuação gráfica, assinale a alternativa cuja afirmação se encontre incorreta.
Alternativas
Q4324134 Português
TEXTO I

Q1_10.png (272×121)

A perda da linguagem e a perda da liberdade

Ninguém consegue expressar um sentimento ou visão do mundo sem um vocabulário apropriado; sem isso, é impossível traduzir a realidade interior em algo que possa ser transmitido a outra pessoa


Roberto Motta


    São 5h30 da manhã e eu começo a caminhada pela praia do Rio de Janeiro. Há grupos espalhados pela areia, muita gente. Não são banhistas. Estão se recuperando de uma longa noite. Ao redor deles há uma mancha de lixo: garrafas de todos os tipos, embalagens de alimentos industrializados e restos de comida. E o odor de maconha. Caixas de som estão ligadas na potência máxima. As músicas são todas do mesmo tipo: “canções” sem melodia ou harmonia, nas quais vozes desafinadas e desagradáveis – algumas aos berros – se submetem à tirania de ritmos que soam como pancadas. As “letras” são relatos de atos sexuais, uso de drogas e crimes; algumas dessas músicas servem de hinos a facções. Álcool, carboidratos industrializados, drogas e violência: essa foi a dieta da noite na praia, onde a escuridão não acaba quando o sol nasce.

    Essa praia é o meu quintal. Sempre que o mar permite, eu nado. Nos outros dias, eu leio. Não levo nada comigo além dos livros, porque nas praias roubam tudo. Menos livros. Deixo os meus sobre a cadeira quando vou dar um mergulho, sem preocupação. O risco de serem roubados é zero.

    Não tenho uma boa explicação para minha obsessão por leitura. Uma parte do meu cérebro se ilumina quando leio. É uma sensação física. Sempre foi assim. Quando era muito criança, livros já me interessavam. No final da década de 1970, minha mãe me deixava na biblioteca pública de Salvador enquanto ia fazer compras. Não leio em busca de conhecimento ou cultura. Dizer isso seria mentir. Sou curioso sim, e isso me leva a ler de tudo. Preciso de variedade. Mas minha obsessão tem outra origem. É uma necessidade orgânica: sou dependente de leitura. Na falta de livros e revistas, leio bulas de remédio, rótulos de embalagens e manuais de instruções. Para alguém como eu, a internet foi um milagre. Nunca mais fiquei sem ter algo para ler. 

    Além de disponibilizar infinito material de leitura, a internet transformou todo mundo em escritor, nem que sejam apenas de comentários em postagens alheias. Com isso, ficou evidente o prejuízo causado pela degradação da linguagem, um fenômeno encorajado por sistemas políticos populistas como forma de igualdade. É a ideia de que existem muitos “saberes” igualmente importantes, mesmo que alguns desses saberes não saibam nada. O cidadão ocidental confortavelmente instalado em um sistema de bem-estar social que lhe garante a sobrevivência, é alimentado com o equivalente cultural de uma dieta de carboidratos, álcool e maconha. Exatamente como o pessoal da praia do início deste texto. 

    Comentários nas redes sociais expõem a torturante experiência de ter algo a dizer, mas não saber como. A linguagem foi reduzida a seus componentes mais rudimentares, e estão desaparecendo a capacidade de observação e descrição, a sutileza e a moderação necessárias à expressão de ideias e ao exame equilibrado da vida em geral. Tudo se reduz a “amo” ou “odeio” e a “comunistas” versus “fascistas”. Políticos são classificados como santos ou impostores, submetidos aleatoriamente a ataques virulentos ou a adulação desmedida. A cidadania – se é que algo assim já existiu por essas terras – se esfarela junto com a linguagem.

    Ninguém consegue expressar um sentimento ou visão do mundo sem um vocabulário apropriado; sem isso, é impossível traduzir a realidade interior em algo que possa ser transmitido a outra pessoa. Fiz uma postagem com a recomendação do livro Trilogia Cósmica, de C. S. Lewis. Um dos comentários foi feito por alguém que se identificou como Alberto, ex-usuário de tudo. Ele disse: “Minha geração não lê livros. Jogamos games e assistimos vídeos. Acho que estamos certos porque a realidade é líquida. Preferimos receber o resumo da sua geração”. Alberto, o resumo é esse: de todas as perdas que alguém pode sofrer, a perda da linguagem é uma das mais graves, principalmente porque é impossível notar a perda de algo que você nunca teve. 

    Acontece que a linguagem é a ferramenta do raciocínio. Pensamentos são expressos em uma voz interior que usa a linguagem que aprendemos. Até que esses pensamentos sejam articulados, eles não existem de forma consciente. Bom senso e clareza de raciocínio não são privilégio de pessoas instruídas, isso é evidente; existem pessoas simples que conduzem suas vidas com padrões morais elevados e acumulam conquistas pessoais maiores do que as de muitos “intelectuais”. Entretanto, na maioria dos casos – e exceto por um esforço extraordinário – a falta de um vocabulário leva a um embotamento da sensibilidade e do raciocínio, assim como a falta de treinamento leva à atrofia muscular. O universo fica reduzido a um estreito conjunto de experiências mundanas, quase sempre primitivas, quase sempre envolvendo as partes inferiores do corpo. O resultado é um vazio experiencial – um mal tornado ainda mais terrível porque o portador da aflição não consegue nomear a enfermidade. O primeiro impulso é preencher o vazio com barulho, porque o silêncio é insuportável para uma mente que não tem como pensar. Por isso, a onipresença de equipamentos sonoros em todos os lugares e momentos. 

    É impossível encontrar, na minha cidade, uma praia livre de caixas de som, ou uma clínica cujos pacientes, nas salas de espera, não sejam tutelados – não sei se essa é a melhor palavra – por aparelhos de televisão permanentemente ligados. A forma mais popular de anestesia, claro, é o celular: não há desespero existencial que resista a uma sequência de reels. Esse vazio também é preenchido por ideologias e filosofias calamitosas, do neomarxismo woke ao ambientalismo xiita, dos métodos infalíveis para enriquecer com criptomoedas ao extremismo religioso. Improváveis teorias da conspiração se transformam na justificativa existencial de multidões. O lixo criado pelo homem é consumido pelo homem como se fosse o caminho da verdade.

    Permitam-me sugerir a redescoberta da linguagem, por meio da leitura, como remédio. Mas o caminho da libertação não passa apenas por livros – ele exige bons livros. Como disse o filósofo Arthur Schopenhauer: “A arte de não ler é uma arte muito importante. Ela consiste em não se interessar por aquilo que, em determinado momento, esteja ocupando a atenção do público em geral. Quando algum panfleto político ou eclesiástico, ou um romance, ou um poema estiver provocando grande alvoroço, você deve se lembrar de que aquele que escreve para tolos sempre encontra um grande público. Uma condição prévia para ler bons livros é não ler livros ruins: pois a vida é curta”.


Fonte: MOTTA, Roberto. A perda da linguagem e a perda da liberdade. https://revistaoeste.com/revista/edicao-305/a-perda-da-linguagem-e-a-perda-da-liberdade/ 
Veja cada afirmação abaixo antes de julgar o que se pede.

( ) Em “Quando algum panfleto político ou eclesiástico, ou um romance, ou um poema estiver provocando grande alvoroço, você deve se lembrar de que aquele que escreve para tolos sempre encontra um grande público.” (9º par.) – a presença do pronome oblíquo átono em destaque condiciona a regência do verbo seguinte em relação à necessidade de uso da preposição “de”.
( ) Em “Esse vazio também é preenchido por ideologias e filosofias calamitosas...” (8º par.), a preposição em destaque tem seu uso justificado por uma caso de regência nominal.
( ) Em “Pensamentos são expressos em uma voz interior que usa a linguagem que aprendemos.” (7º par.), os elementos coesivos em destaque possuem papel morfossintático análogo.
( ) Em “Ninguém consegue expressar um sentimento ou visão do mundo sem um vocabulário apropriado; sem isso, é impossível traduzir a realidade interior em algo que possa ser transmitido a outra pessoa.” (6º par.), os vocábulos em destaque pertencem à mesma classe morfológica.
( ) Em “A linguagem foi reduzida a seus componentes mais rudimentares...” (5º par.), o vocábulo em destaque expressa valor semântico de quantidade em relação ao nome que modifica.

Considerando-se V para as afirmativas verdadeiras e F para as falsas, tem-se pela ordem a seguinte sequência:
Alternativas
Q4324133 Português
TEXTO I

Q1_10.png (272×121)

A perda da linguagem e a perda da liberdade

Ninguém consegue expressar um sentimento ou visão do mundo sem um vocabulário apropriado; sem isso, é impossível traduzir a realidade interior em algo que possa ser transmitido a outra pessoa


Roberto Motta


    São 5h30 da manhã e eu começo a caminhada pela praia do Rio de Janeiro. Há grupos espalhados pela areia, muita gente. Não são banhistas. Estão se recuperando de uma longa noite. Ao redor deles há uma mancha de lixo: garrafas de todos os tipos, embalagens de alimentos industrializados e restos de comida. E o odor de maconha. Caixas de som estão ligadas na potência máxima. As músicas são todas do mesmo tipo: “canções” sem melodia ou harmonia, nas quais vozes desafinadas e desagradáveis – algumas aos berros – se submetem à tirania de ritmos que soam como pancadas. As “letras” são relatos de atos sexuais, uso de drogas e crimes; algumas dessas músicas servem de hinos a facções. Álcool, carboidratos industrializados, drogas e violência: essa foi a dieta da noite na praia, onde a escuridão não acaba quando o sol nasce.

    Essa praia é o meu quintal. Sempre que o mar permite, eu nado. Nos outros dias, eu leio. Não levo nada comigo além dos livros, porque nas praias roubam tudo. Menos livros. Deixo os meus sobre a cadeira quando vou dar um mergulho, sem preocupação. O risco de serem roubados é zero.

    Não tenho uma boa explicação para minha obsessão por leitura. Uma parte do meu cérebro se ilumina quando leio. É uma sensação física. Sempre foi assim. Quando era muito criança, livros já me interessavam. No final da década de 1970, minha mãe me deixava na biblioteca pública de Salvador enquanto ia fazer compras. Não leio em busca de conhecimento ou cultura. Dizer isso seria mentir. Sou curioso sim, e isso me leva a ler de tudo. Preciso de variedade. Mas minha obsessão tem outra origem. É uma necessidade orgânica: sou dependente de leitura. Na falta de livros e revistas, leio bulas de remédio, rótulos de embalagens e manuais de instruções. Para alguém como eu, a internet foi um milagre. Nunca mais fiquei sem ter algo para ler. 

    Além de disponibilizar infinito material de leitura, a internet transformou todo mundo em escritor, nem que sejam apenas de comentários em postagens alheias. Com isso, ficou evidente o prejuízo causado pela degradação da linguagem, um fenômeno encorajado por sistemas políticos populistas como forma de igualdade. É a ideia de que existem muitos “saberes” igualmente importantes, mesmo que alguns desses saberes não saibam nada. O cidadão ocidental confortavelmente instalado em um sistema de bem-estar social que lhe garante a sobrevivência, é alimentado com o equivalente cultural de uma dieta de carboidratos, álcool e maconha. Exatamente como o pessoal da praia do início deste texto. 

    Comentários nas redes sociais expõem a torturante experiência de ter algo a dizer, mas não saber como. A linguagem foi reduzida a seus componentes mais rudimentares, e estão desaparecendo a capacidade de observação e descrição, a sutileza e a moderação necessárias à expressão de ideias e ao exame equilibrado da vida em geral. Tudo se reduz a “amo” ou “odeio” e a “comunistas” versus “fascistas”. Políticos são classificados como santos ou impostores, submetidos aleatoriamente a ataques virulentos ou a adulação desmedida. A cidadania – se é que algo assim já existiu por essas terras – se esfarela junto com a linguagem.

    Ninguém consegue expressar um sentimento ou visão do mundo sem um vocabulário apropriado; sem isso, é impossível traduzir a realidade interior em algo que possa ser transmitido a outra pessoa. Fiz uma postagem com a recomendação do livro Trilogia Cósmica, de C. S. Lewis. Um dos comentários foi feito por alguém que se identificou como Alberto, ex-usuário de tudo. Ele disse: “Minha geração não lê livros. Jogamos games e assistimos vídeos. Acho que estamos certos porque a realidade é líquida. Preferimos receber o resumo da sua geração”. Alberto, o resumo é esse: de todas as perdas que alguém pode sofrer, a perda da linguagem é uma das mais graves, principalmente porque é impossível notar a perda de algo que você nunca teve. 

    Acontece que a linguagem é a ferramenta do raciocínio. Pensamentos são expressos em uma voz interior que usa a linguagem que aprendemos. Até que esses pensamentos sejam articulados, eles não existem de forma consciente. Bom senso e clareza de raciocínio não são privilégio de pessoas instruídas, isso é evidente; existem pessoas simples que conduzem suas vidas com padrões morais elevados e acumulam conquistas pessoais maiores do que as de muitos “intelectuais”. Entretanto, na maioria dos casos – e exceto por um esforço extraordinário – a falta de um vocabulário leva a um embotamento da sensibilidade e do raciocínio, assim como a falta de treinamento leva à atrofia muscular. O universo fica reduzido a um estreito conjunto de experiências mundanas, quase sempre primitivas, quase sempre envolvendo as partes inferiores do corpo. O resultado é um vazio experiencial – um mal tornado ainda mais terrível porque o portador da aflição não consegue nomear a enfermidade. O primeiro impulso é preencher o vazio com barulho, porque o silêncio é insuportável para uma mente que não tem como pensar. Por isso, a onipresença de equipamentos sonoros em todos os lugares e momentos. 

    É impossível encontrar, na minha cidade, uma praia livre de caixas de som, ou uma clínica cujos pacientes, nas salas de espera, não sejam tutelados – não sei se essa é a melhor palavra – por aparelhos de televisão permanentemente ligados. A forma mais popular de anestesia, claro, é o celular: não há desespero existencial que resista a uma sequência de reels. Esse vazio também é preenchido por ideologias e filosofias calamitosas, do neomarxismo woke ao ambientalismo xiita, dos métodos infalíveis para enriquecer com criptomoedas ao extremismo religioso. Improváveis teorias da conspiração se transformam na justificativa existencial de multidões. O lixo criado pelo homem é consumido pelo homem como se fosse o caminho da verdade.

    Permitam-me sugerir a redescoberta da linguagem, por meio da leitura, como remédio. Mas o caminho da libertação não passa apenas por livros – ele exige bons livros. Como disse o filósofo Arthur Schopenhauer: “A arte de não ler é uma arte muito importante. Ela consiste em não se interessar por aquilo que, em determinado momento, esteja ocupando a atenção do público em geral. Quando algum panfleto político ou eclesiástico, ou um romance, ou um poema estiver provocando grande alvoroço, você deve se lembrar de que aquele que escreve para tolos sempre encontra um grande público. Uma condição prévia para ler bons livros é não ler livros ruins: pois a vida é curta”.


Fonte: MOTTA, Roberto. A perda da linguagem e a perda da liberdade. https://revistaoeste.com/revista/edicao-305/a-perda-da-linguagem-e-a-perda-da-liberdade/ 
Sobre os elementos linguísticos componentes do texto I, avalie as afirmações a seguir antes de julgar o que se pede.

I. Os vocábulos “perda” e “uso” se mostram como substantivos abstratos primitivos que dão origem aos seus respectivos verbos derivados: “perder” e “usar”.
II. Em “Uma parte do meu cérebro se ilumina quando leio.” (3º par.), o pronome oblíquo tônico se encontra na posição proclítica, mas não de forma obrigatória.
III. Em “Com isso, ficou evidente o prejuízo causado pela degradação da linguagem, um fenômeno encorajado por sistemas políticos populistas como forma de igualdade.” (4º par.), o vocábulo destacado sofreu o processo de derivação parassintética quanto à inserção de prefixo e sufixo junto ao radical.
IV. Em “É a ideia de que existem muitos ‘saberes’ igualmente importantes, mesmo que alguns desses saberes não saibam nada.” (4º par.), a expressão destacada poderia ser coesivamente substituída por “destes” a fim de manter a correção e o sentido do contexto.

Pode-se afirmar que se encontra correto o que foi afirmado somente em:
Alternativas
Q4324132 Português
TEXTO I

Q1_10.png (272×121)

A perda da linguagem e a perda da liberdade

Ninguém consegue expressar um sentimento ou visão do mundo sem um vocabulário apropriado; sem isso, é impossível traduzir a realidade interior em algo que possa ser transmitido a outra pessoa


Roberto Motta


    São 5h30 da manhã e eu começo a caminhada pela praia do Rio de Janeiro. Há grupos espalhados pela areia, muita gente. Não são banhistas. Estão se recuperando de uma longa noite. Ao redor deles há uma mancha de lixo: garrafas de todos os tipos, embalagens de alimentos industrializados e restos de comida. E o odor de maconha. Caixas de som estão ligadas na potência máxima. As músicas são todas do mesmo tipo: “canções” sem melodia ou harmonia, nas quais vozes desafinadas e desagradáveis – algumas aos berros – se submetem à tirania de ritmos que soam como pancadas. As “letras” são relatos de atos sexuais, uso de drogas e crimes; algumas dessas músicas servem de hinos a facções. Álcool, carboidratos industrializados, drogas e violência: essa foi a dieta da noite na praia, onde a escuridão não acaba quando o sol nasce.

    Essa praia é o meu quintal. Sempre que o mar permite, eu nado. Nos outros dias, eu leio. Não levo nada comigo além dos livros, porque nas praias roubam tudo. Menos livros. Deixo os meus sobre a cadeira quando vou dar um mergulho, sem preocupação. O risco de serem roubados é zero.

    Não tenho uma boa explicação para minha obsessão por leitura. Uma parte do meu cérebro se ilumina quando leio. É uma sensação física. Sempre foi assim. Quando era muito criança, livros já me interessavam. No final da década de 1970, minha mãe me deixava na biblioteca pública de Salvador enquanto ia fazer compras. Não leio em busca de conhecimento ou cultura. Dizer isso seria mentir. Sou curioso sim, e isso me leva a ler de tudo. Preciso de variedade. Mas minha obsessão tem outra origem. É uma necessidade orgânica: sou dependente de leitura. Na falta de livros e revistas, leio bulas de remédio, rótulos de embalagens e manuais de instruções. Para alguém como eu, a internet foi um milagre. Nunca mais fiquei sem ter algo para ler. 

    Além de disponibilizar infinito material de leitura, a internet transformou todo mundo em escritor, nem que sejam apenas de comentários em postagens alheias. Com isso, ficou evidente o prejuízo causado pela degradação da linguagem, um fenômeno encorajado por sistemas políticos populistas como forma de igualdade. É a ideia de que existem muitos “saberes” igualmente importantes, mesmo que alguns desses saberes não saibam nada. O cidadão ocidental confortavelmente instalado em um sistema de bem-estar social que lhe garante a sobrevivência, é alimentado com o equivalente cultural de uma dieta de carboidratos, álcool e maconha. Exatamente como o pessoal da praia do início deste texto. 

    Comentários nas redes sociais expõem a torturante experiência de ter algo a dizer, mas não saber como. A linguagem foi reduzida a seus componentes mais rudimentares, e estão desaparecendo a capacidade de observação e descrição, a sutileza e a moderação necessárias à expressão de ideias e ao exame equilibrado da vida em geral. Tudo se reduz a “amo” ou “odeio” e a “comunistas” versus “fascistas”. Políticos são classificados como santos ou impostores, submetidos aleatoriamente a ataques virulentos ou a adulação desmedida. A cidadania – se é que algo assim já existiu por essas terras – se esfarela junto com a linguagem.

    Ninguém consegue expressar um sentimento ou visão do mundo sem um vocabulário apropriado; sem isso, é impossível traduzir a realidade interior em algo que possa ser transmitido a outra pessoa. Fiz uma postagem com a recomendação do livro Trilogia Cósmica, de C. S. Lewis. Um dos comentários foi feito por alguém que se identificou como Alberto, ex-usuário de tudo. Ele disse: “Minha geração não lê livros. Jogamos games e assistimos vídeos. Acho que estamos certos porque a realidade é líquida. Preferimos receber o resumo da sua geração”. Alberto, o resumo é esse: de todas as perdas que alguém pode sofrer, a perda da linguagem é uma das mais graves, principalmente porque é impossível notar a perda de algo que você nunca teve. 

    Acontece que a linguagem é a ferramenta do raciocínio. Pensamentos são expressos em uma voz interior que usa a linguagem que aprendemos. Até que esses pensamentos sejam articulados, eles não existem de forma consciente. Bom senso e clareza de raciocínio não são privilégio de pessoas instruídas, isso é evidente; existem pessoas simples que conduzem suas vidas com padrões morais elevados e acumulam conquistas pessoais maiores do que as de muitos “intelectuais”. Entretanto, na maioria dos casos – e exceto por um esforço extraordinário – a falta de um vocabulário leva a um embotamento da sensibilidade e do raciocínio, assim como a falta de treinamento leva à atrofia muscular. O universo fica reduzido a um estreito conjunto de experiências mundanas, quase sempre primitivas, quase sempre envolvendo as partes inferiores do corpo. O resultado é um vazio experiencial – um mal tornado ainda mais terrível porque o portador da aflição não consegue nomear a enfermidade. O primeiro impulso é preencher o vazio com barulho, porque o silêncio é insuportável para uma mente que não tem como pensar. Por isso, a onipresença de equipamentos sonoros em todos os lugares e momentos. 

    É impossível encontrar, na minha cidade, uma praia livre de caixas de som, ou uma clínica cujos pacientes, nas salas de espera, não sejam tutelados – não sei se essa é a melhor palavra – por aparelhos de televisão permanentemente ligados. A forma mais popular de anestesia, claro, é o celular: não há desespero existencial que resista a uma sequência de reels. Esse vazio também é preenchido por ideologias e filosofias calamitosas, do neomarxismo woke ao ambientalismo xiita, dos métodos infalíveis para enriquecer com criptomoedas ao extremismo religioso. Improváveis teorias da conspiração se transformam na justificativa existencial de multidões. O lixo criado pelo homem é consumido pelo homem como se fosse o caminho da verdade.

    Permitam-me sugerir a redescoberta da linguagem, por meio da leitura, como remédio. Mas o caminho da libertação não passa apenas por livros – ele exige bons livros. Como disse o filósofo Arthur Schopenhauer: “A arte de não ler é uma arte muito importante. Ela consiste em não se interessar por aquilo que, em determinado momento, esteja ocupando a atenção do público em geral. Quando algum panfleto político ou eclesiástico, ou um romance, ou um poema estiver provocando grande alvoroço, você deve se lembrar de que aquele que escreve para tolos sempre encontra um grande público. Uma condição prévia para ler bons livros é não ler livros ruins: pois a vida é curta”.


Fonte: MOTTA, Roberto. A perda da linguagem e a perda da liberdade. https://revistaoeste.com/revista/edicao-305/a-perda-da-linguagem-e-a-perda-da-liberdade/ 
“As músicas são todas do mesmo tipo: “canções” sem melodia ou harmonia, nas quais vozes desafinadas e desagradáveis – algumas aos berros – se submetem à tirania de ritmos que soam como pancadas. As “letras” são relatos de atos sexuais, uso de drogas e crimes; algumas dessas músicas servem de hinos a facções. Álcool, carboidratos industrializados, drogas e violência: essa foi a dieta da noite na praia, onde a escuridão não acaba quando o sol nasce.”. Progressão textual é um conceito que abrange a continuidade de ideias em torno de uma temática desenvolvida. Colaboram com a efetividade desse conceito mecanismos linguísticos como elementos diversos em torno da Coesão a fim de se edificar a Coerência na macroestrutura. Assim sendo, assinale a alternativa cuja passagem retirada do texto I não se refira contextual e argumentativamente à mesma linha crítica na continuidade de sua elaboração.
Alternativas
Q4324131 Português
TEXTO I

Q1_10.png (272×121)

A perda da linguagem e a perda da liberdade

Ninguém consegue expressar um sentimento ou visão do mundo sem um vocabulário apropriado; sem isso, é impossível traduzir a realidade interior em algo que possa ser transmitido a outra pessoa


Roberto Motta


    São 5h30 da manhã e eu começo a caminhada pela praia do Rio de Janeiro. Há grupos espalhados pela areia, muita gente. Não são banhistas. Estão se recuperando de uma longa noite. Ao redor deles há uma mancha de lixo: garrafas de todos os tipos, embalagens de alimentos industrializados e restos de comida. E o odor de maconha. Caixas de som estão ligadas na potência máxima. As músicas são todas do mesmo tipo: “canções” sem melodia ou harmonia, nas quais vozes desafinadas e desagradáveis – algumas aos berros – se submetem à tirania de ritmos que soam como pancadas. As “letras” são relatos de atos sexuais, uso de drogas e crimes; algumas dessas músicas servem de hinos a facções. Álcool, carboidratos industrializados, drogas e violência: essa foi a dieta da noite na praia, onde a escuridão não acaba quando o sol nasce.

    Essa praia é o meu quintal. Sempre que o mar permite, eu nado. Nos outros dias, eu leio. Não levo nada comigo além dos livros, porque nas praias roubam tudo. Menos livros. Deixo os meus sobre a cadeira quando vou dar um mergulho, sem preocupação. O risco de serem roubados é zero.

    Não tenho uma boa explicação para minha obsessão por leitura. Uma parte do meu cérebro se ilumina quando leio. É uma sensação física. Sempre foi assim. Quando era muito criança, livros já me interessavam. No final da década de 1970, minha mãe me deixava na biblioteca pública de Salvador enquanto ia fazer compras. Não leio em busca de conhecimento ou cultura. Dizer isso seria mentir. Sou curioso sim, e isso me leva a ler de tudo. Preciso de variedade. Mas minha obsessão tem outra origem. É uma necessidade orgânica: sou dependente de leitura. Na falta de livros e revistas, leio bulas de remédio, rótulos de embalagens e manuais de instruções. Para alguém como eu, a internet foi um milagre. Nunca mais fiquei sem ter algo para ler. 

    Além de disponibilizar infinito material de leitura, a internet transformou todo mundo em escritor, nem que sejam apenas de comentários em postagens alheias. Com isso, ficou evidente o prejuízo causado pela degradação da linguagem, um fenômeno encorajado por sistemas políticos populistas como forma de igualdade. É a ideia de que existem muitos “saberes” igualmente importantes, mesmo que alguns desses saberes não saibam nada. O cidadão ocidental confortavelmente instalado em um sistema de bem-estar social que lhe garante a sobrevivência, é alimentado com o equivalente cultural de uma dieta de carboidratos, álcool e maconha. Exatamente como o pessoal da praia do início deste texto. 

    Comentários nas redes sociais expõem a torturante experiência de ter algo a dizer, mas não saber como. A linguagem foi reduzida a seus componentes mais rudimentares, e estão desaparecendo a capacidade de observação e descrição, a sutileza e a moderação necessárias à expressão de ideias e ao exame equilibrado da vida em geral. Tudo se reduz a “amo” ou “odeio” e a “comunistas” versus “fascistas”. Políticos são classificados como santos ou impostores, submetidos aleatoriamente a ataques virulentos ou a adulação desmedida. A cidadania – se é que algo assim já existiu por essas terras – se esfarela junto com a linguagem.

    Ninguém consegue expressar um sentimento ou visão do mundo sem um vocabulário apropriado; sem isso, é impossível traduzir a realidade interior em algo que possa ser transmitido a outra pessoa. Fiz uma postagem com a recomendação do livro Trilogia Cósmica, de C. S. Lewis. Um dos comentários foi feito por alguém que se identificou como Alberto, ex-usuário de tudo. Ele disse: “Minha geração não lê livros. Jogamos games e assistimos vídeos. Acho que estamos certos porque a realidade é líquida. Preferimos receber o resumo da sua geração”. Alberto, o resumo é esse: de todas as perdas que alguém pode sofrer, a perda da linguagem é uma das mais graves, principalmente porque é impossível notar a perda de algo que você nunca teve. 

    Acontece que a linguagem é a ferramenta do raciocínio. Pensamentos são expressos em uma voz interior que usa a linguagem que aprendemos. Até que esses pensamentos sejam articulados, eles não existem de forma consciente. Bom senso e clareza de raciocínio não são privilégio de pessoas instruídas, isso é evidente; existem pessoas simples que conduzem suas vidas com padrões morais elevados e acumulam conquistas pessoais maiores do que as de muitos “intelectuais”. Entretanto, na maioria dos casos – e exceto por um esforço extraordinário – a falta de um vocabulário leva a um embotamento da sensibilidade e do raciocínio, assim como a falta de treinamento leva à atrofia muscular. O universo fica reduzido a um estreito conjunto de experiências mundanas, quase sempre primitivas, quase sempre envolvendo as partes inferiores do corpo. O resultado é um vazio experiencial – um mal tornado ainda mais terrível porque o portador da aflição não consegue nomear a enfermidade. O primeiro impulso é preencher o vazio com barulho, porque o silêncio é insuportável para uma mente que não tem como pensar. Por isso, a onipresença de equipamentos sonoros em todos os lugares e momentos. 

    É impossível encontrar, na minha cidade, uma praia livre de caixas de som, ou uma clínica cujos pacientes, nas salas de espera, não sejam tutelados – não sei se essa é a melhor palavra – por aparelhos de televisão permanentemente ligados. A forma mais popular de anestesia, claro, é o celular: não há desespero existencial que resista a uma sequência de reels. Esse vazio também é preenchido por ideologias e filosofias calamitosas, do neomarxismo woke ao ambientalismo xiita, dos métodos infalíveis para enriquecer com criptomoedas ao extremismo religioso. Improváveis teorias da conspiração se transformam na justificativa existencial de multidões. O lixo criado pelo homem é consumido pelo homem como se fosse o caminho da verdade.

    Permitam-me sugerir a redescoberta da linguagem, por meio da leitura, como remédio. Mas o caminho da libertação não passa apenas por livros – ele exige bons livros. Como disse o filósofo Arthur Schopenhauer: “A arte de não ler é uma arte muito importante. Ela consiste em não se interessar por aquilo que, em determinado momento, esteja ocupando a atenção do público em geral. Quando algum panfleto político ou eclesiástico, ou um romance, ou um poema estiver provocando grande alvoroço, você deve se lembrar de que aquele que escreve para tolos sempre encontra um grande público. Uma condição prévia para ler bons livros é não ler livros ruins: pois a vida é curta”.


Fonte: MOTTA, Roberto. A perda da linguagem e a perda da liberdade. https://revistaoeste.com/revista/edicao-305/a-perda-da-linguagem-e-a-perda-da-liberdade/ 
Analise cada afirmação abaixo sobre o texto I antes de julgar o que se pede.

( ) Em “Álcool, carboidratos industrializados, drogas e violência: essa foi a dieta da noite na praia, onde a escuridão não acaba quando o sol nasce.” (1º par.), a descrição inicial feita pelo cronista representa que a crítica objetiva do cenário testemunhado por ele se estende para um período ulterior de existência daquele público juvenil.
( ) Em “Não levo nada comigo além dos livros, porque nas praias roubam tudo. Menos livros. Deixo os meus sobre a cadeira quando vou dar um mergulho, sem preocupação. O risco de serem roubados é zero.” (2º par.), nota-se a intencionalidade autoral restritamente ligada à crítica feita em relação à delinquência juvenil. 
( ) Em “A linguagem foi reduzida a seus componentes mais rudimentares, e estão desaparecendo a capacidade de observação e descrição, a sutileza e a moderação necessárias à expressão de ideias e ao exame equilibrado da vida em geral. [...] A cidadania – se é que algo assim já existiu por essas terras – se esfarela junto com a linguagem.” (5º par.), infere-se que, para o autor, o domínio linguístico se relaciona com o desenvolvimento social no que tange à civilidade necessária para o indivíduo julgara si próprio e o meio circundante.
( ) Em “Alberto, o resumo é esse: de todas as perdas que alguém pode sofrer, a perda da linguagem é uma das mais graves, principalmente porque é impossível notar a perda de algo que você nunca teve.” (6º par.), o autor expõe como a articulação do pensamento prescinde de domínio linguístico.
( ) Em “Improváveis teorias da conspiração se transformam na justificativa existencial de multidões.” (8º par.), o autor expõe quão profícuo se mostra a existência das teorias citadas para a formação do espírito coletivo.

Considerando-se V para as afirmativas verdadeiras e F para as falsas, pode-se afirmar que, pela ordem, a sequência correta é:
Alternativas
Q4324130 Português
TEXTO I

Q1_10.png (272×121)

A perda da linguagem e a perda da liberdade

Ninguém consegue expressar um sentimento ou visão do mundo sem um vocabulário apropriado; sem isso, é impossível traduzir a realidade interior em algo que possa ser transmitido a outra pessoa


Roberto Motta


    São 5h30 da manhã e eu começo a caminhada pela praia do Rio de Janeiro. Há grupos espalhados pela areia, muita gente. Não são banhistas. Estão se recuperando de uma longa noite. Ao redor deles há uma mancha de lixo: garrafas de todos os tipos, embalagens de alimentos industrializados e restos de comida. E o odor de maconha. Caixas de som estão ligadas na potência máxima. As músicas são todas do mesmo tipo: “canções” sem melodia ou harmonia, nas quais vozes desafinadas e desagradáveis – algumas aos berros – se submetem à tirania de ritmos que soam como pancadas. As “letras” são relatos de atos sexuais, uso de drogas e crimes; algumas dessas músicas servem de hinos a facções. Álcool, carboidratos industrializados, drogas e violência: essa foi a dieta da noite na praia, onde a escuridão não acaba quando o sol nasce.

    Essa praia é o meu quintal. Sempre que o mar permite, eu nado. Nos outros dias, eu leio. Não levo nada comigo além dos livros, porque nas praias roubam tudo. Menos livros. Deixo os meus sobre a cadeira quando vou dar um mergulho, sem preocupação. O risco de serem roubados é zero.

    Não tenho uma boa explicação para minha obsessão por leitura. Uma parte do meu cérebro se ilumina quando leio. É uma sensação física. Sempre foi assim. Quando era muito criança, livros já me interessavam. No final da década de 1970, minha mãe me deixava na biblioteca pública de Salvador enquanto ia fazer compras. Não leio em busca de conhecimento ou cultura. Dizer isso seria mentir. Sou curioso sim, e isso me leva a ler de tudo. Preciso de variedade. Mas minha obsessão tem outra origem. É uma necessidade orgânica: sou dependente de leitura. Na falta de livros e revistas, leio bulas de remédio, rótulos de embalagens e manuais de instruções. Para alguém como eu, a internet foi um milagre. Nunca mais fiquei sem ter algo para ler. 

    Além de disponibilizar infinito material de leitura, a internet transformou todo mundo em escritor, nem que sejam apenas de comentários em postagens alheias. Com isso, ficou evidente o prejuízo causado pela degradação da linguagem, um fenômeno encorajado por sistemas políticos populistas como forma de igualdade. É a ideia de que existem muitos “saberes” igualmente importantes, mesmo que alguns desses saberes não saibam nada. O cidadão ocidental confortavelmente instalado em um sistema de bem-estar social que lhe garante a sobrevivência, é alimentado com o equivalente cultural de uma dieta de carboidratos, álcool e maconha. Exatamente como o pessoal da praia do início deste texto. 

    Comentários nas redes sociais expõem a torturante experiência de ter algo a dizer, mas não saber como. A linguagem foi reduzida a seus componentes mais rudimentares, e estão desaparecendo a capacidade de observação e descrição, a sutileza e a moderação necessárias à expressão de ideias e ao exame equilibrado da vida em geral. Tudo se reduz a “amo” ou “odeio” e a “comunistas” versus “fascistas”. Políticos são classificados como santos ou impostores, submetidos aleatoriamente a ataques virulentos ou a adulação desmedida. A cidadania – se é que algo assim já existiu por essas terras – se esfarela junto com a linguagem.

    Ninguém consegue expressar um sentimento ou visão do mundo sem um vocabulário apropriado; sem isso, é impossível traduzir a realidade interior em algo que possa ser transmitido a outra pessoa. Fiz uma postagem com a recomendação do livro Trilogia Cósmica, de C. S. Lewis. Um dos comentários foi feito por alguém que se identificou como Alberto, ex-usuário de tudo. Ele disse: “Minha geração não lê livros. Jogamos games e assistimos vídeos. Acho que estamos certos porque a realidade é líquida. Preferimos receber o resumo da sua geração”. Alberto, o resumo é esse: de todas as perdas que alguém pode sofrer, a perda da linguagem é uma das mais graves, principalmente porque é impossível notar a perda de algo que você nunca teve. 

    Acontece que a linguagem é a ferramenta do raciocínio. Pensamentos são expressos em uma voz interior que usa a linguagem que aprendemos. Até que esses pensamentos sejam articulados, eles não existem de forma consciente. Bom senso e clareza de raciocínio não são privilégio de pessoas instruídas, isso é evidente; existem pessoas simples que conduzem suas vidas com padrões morais elevados e acumulam conquistas pessoais maiores do que as de muitos “intelectuais”. Entretanto, na maioria dos casos – e exceto por um esforço extraordinário – a falta de um vocabulário leva a um embotamento da sensibilidade e do raciocínio, assim como a falta de treinamento leva à atrofia muscular. O universo fica reduzido a um estreito conjunto de experiências mundanas, quase sempre primitivas, quase sempre envolvendo as partes inferiores do corpo. O resultado é um vazio experiencial – um mal tornado ainda mais terrível porque o portador da aflição não consegue nomear a enfermidade. O primeiro impulso é preencher o vazio com barulho, porque o silêncio é insuportável para uma mente que não tem como pensar. Por isso, a onipresença de equipamentos sonoros em todos os lugares e momentos. 

    É impossível encontrar, na minha cidade, uma praia livre de caixas de som, ou uma clínica cujos pacientes, nas salas de espera, não sejam tutelados – não sei se essa é a melhor palavra – por aparelhos de televisão permanentemente ligados. A forma mais popular de anestesia, claro, é o celular: não há desespero existencial que resista a uma sequência de reels. Esse vazio também é preenchido por ideologias e filosofias calamitosas, do neomarxismo woke ao ambientalismo xiita, dos métodos infalíveis para enriquecer com criptomoedas ao extremismo religioso. Improváveis teorias da conspiração se transformam na justificativa existencial de multidões. O lixo criado pelo homem é consumido pelo homem como se fosse o caminho da verdade.

    Permitam-me sugerir a redescoberta da linguagem, por meio da leitura, como remédio. Mas o caminho da libertação não passa apenas por livros – ele exige bons livros. Como disse o filósofo Arthur Schopenhauer: “A arte de não ler é uma arte muito importante. Ela consiste em não se interessar por aquilo que, em determinado momento, esteja ocupando a atenção do público em geral. Quando algum panfleto político ou eclesiástico, ou um romance, ou um poema estiver provocando grande alvoroço, você deve se lembrar de que aquele que escreve para tolos sempre encontra um grande público. Uma condição prévia para ler bons livros é não ler livros ruins: pois a vida é curta”.


Fonte: MOTTA, Roberto. A perda da linguagem e a perda da liberdade. https://revistaoeste.com/revista/edicao-305/a-perda-da-linguagem-e-a-perda-da-liberdade/ 
Sobre a elaboração do texto I e a exposição de suas ideias, é correto dizer que se trata de um(a):
Alternativas
Q4324129 Português
TEXTO I

Q1_10.png (272×121)

A perda da linguagem e a perda da liberdade

Ninguém consegue expressar um sentimento ou visão do mundo sem um vocabulário apropriado; sem isso, é impossível traduzir a realidade interior em algo que possa ser transmitido a outra pessoa


Roberto Motta


    São 5h30 da manhã e eu começo a caminhada pela praia do Rio de Janeiro. Há grupos espalhados pela areia, muita gente. Não são banhistas. Estão se recuperando de uma longa noite. Ao redor deles há uma mancha de lixo: garrafas de todos os tipos, embalagens de alimentos industrializados e restos de comida. E o odor de maconha. Caixas de som estão ligadas na potência máxima. As músicas são todas do mesmo tipo: “canções” sem melodia ou harmonia, nas quais vozes desafinadas e desagradáveis – algumas aos berros – se submetem à tirania de ritmos que soam como pancadas. As “letras” são relatos de atos sexuais, uso de drogas e crimes; algumas dessas músicas servem de hinos a facções. Álcool, carboidratos industrializados, drogas e violência: essa foi a dieta da noite na praia, onde a escuridão não acaba quando o sol nasce.

    Essa praia é o meu quintal. Sempre que o mar permite, eu nado. Nos outros dias, eu leio. Não levo nada comigo além dos livros, porque nas praias roubam tudo. Menos livros. Deixo os meus sobre a cadeira quando vou dar um mergulho, sem preocupação. O risco de serem roubados é zero.

    Não tenho uma boa explicação para minha obsessão por leitura. Uma parte do meu cérebro se ilumina quando leio. É uma sensação física. Sempre foi assim. Quando era muito criança, livros já me interessavam. No final da década de 1970, minha mãe me deixava na biblioteca pública de Salvador enquanto ia fazer compras. Não leio em busca de conhecimento ou cultura. Dizer isso seria mentir. Sou curioso sim, e isso me leva a ler de tudo. Preciso de variedade. Mas minha obsessão tem outra origem. É uma necessidade orgânica: sou dependente de leitura. Na falta de livros e revistas, leio bulas de remédio, rótulos de embalagens e manuais de instruções. Para alguém como eu, a internet foi um milagre. Nunca mais fiquei sem ter algo para ler. 

    Além de disponibilizar infinito material de leitura, a internet transformou todo mundo em escritor, nem que sejam apenas de comentários em postagens alheias. Com isso, ficou evidente o prejuízo causado pela degradação da linguagem, um fenômeno encorajado por sistemas políticos populistas como forma de igualdade. É a ideia de que existem muitos “saberes” igualmente importantes, mesmo que alguns desses saberes não saibam nada. O cidadão ocidental confortavelmente instalado em um sistema de bem-estar social que lhe garante a sobrevivência, é alimentado com o equivalente cultural de uma dieta de carboidratos, álcool e maconha. Exatamente como o pessoal da praia do início deste texto. 

    Comentários nas redes sociais expõem a torturante experiência de ter algo a dizer, mas não saber como. A linguagem foi reduzida a seus componentes mais rudimentares, e estão desaparecendo a capacidade de observação e descrição, a sutileza e a moderação necessárias à expressão de ideias e ao exame equilibrado da vida em geral. Tudo se reduz a “amo” ou “odeio” e a “comunistas” versus “fascistas”. Políticos são classificados como santos ou impostores, submetidos aleatoriamente a ataques virulentos ou a adulação desmedida. A cidadania – se é que algo assim já existiu por essas terras – se esfarela junto com a linguagem.

    Ninguém consegue expressar um sentimento ou visão do mundo sem um vocabulário apropriado; sem isso, é impossível traduzir a realidade interior em algo que possa ser transmitido a outra pessoa. Fiz uma postagem com a recomendação do livro Trilogia Cósmica, de C. S. Lewis. Um dos comentários foi feito por alguém que se identificou como Alberto, ex-usuário de tudo. Ele disse: “Minha geração não lê livros. Jogamos games e assistimos vídeos. Acho que estamos certos porque a realidade é líquida. Preferimos receber o resumo da sua geração”. Alberto, o resumo é esse: de todas as perdas que alguém pode sofrer, a perda da linguagem é uma das mais graves, principalmente porque é impossível notar a perda de algo que você nunca teve. 

    Acontece que a linguagem é a ferramenta do raciocínio. Pensamentos são expressos em uma voz interior que usa a linguagem que aprendemos. Até que esses pensamentos sejam articulados, eles não existem de forma consciente. Bom senso e clareza de raciocínio não são privilégio de pessoas instruídas, isso é evidente; existem pessoas simples que conduzem suas vidas com padrões morais elevados e acumulam conquistas pessoais maiores do que as de muitos “intelectuais”. Entretanto, na maioria dos casos – e exceto por um esforço extraordinário – a falta de um vocabulário leva a um embotamento da sensibilidade e do raciocínio, assim como a falta de treinamento leva à atrofia muscular. O universo fica reduzido a um estreito conjunto de experiências mundanas, quase sempre primitivas, quase sempre envolvendo as partes inferiores do corpo. O resultado é um vazio experiencial – um mal tornado ainda mais terrível porque o portador da aflição não consegue nomear a enfermidade. O primeiro impulso é preencher o vazio com barulho, porque o silêncio é insuportável para uma mente que não tem como pensar. Por isso, a onipresença de equipamentos sonoros em todos os lugares e momentos. 

    É impossível encontrar, na minha cidade, uma praia livre de caixas de som, ou uma clínica cujos pacientes, nas salas de espera, não sejam tutelados – não sei se essa é a melhor palavra – por aparelhos de televisão permanentemente ligados. A forma mais popular de anestesia, claro, é o celular: não há desespero existencial que resista a uma sequência de reels. Esse vazio também é preenchido por ideologias e filosofias calamitosas, do neomarxismo woke ao ambientalismo xiita, dos métodos infalíveis para enriquecer com criptomoedas ao extremismo religioso. Improváveis teorias da conspiração se transformam na justificativa existencial de multidões. O lixo criado pelo homem é consumido pelo homem como se fosse o caminho da verdade.

    Permitam-me sugerir a redescoberta da linguagem, por meio da leitura, como remédio. Mas o caminho da libertação não passa apenas por livros – ele exige bons livros. Como disse o filósofo Arthur Schopenhauer: “A arte de não ler é uma arte muito importante. Ela consiste em não se interessar por aquilo que, em determinado momento, esteja ocupando a atenção do público em geral. Quando algum panfleto político ou eclesiástico, ou um romance, ou um poema estiver provocando grande alvoroço, você deve se lembrar de que aquele que escreve para tolos sempre encontra um grande público. Uma condição prévia para ler bons livros é não ler livros ruins: pois a vida é curta”.


Fonte: MOTTA, Roberto. A perda da linguagem e a perda da liberdade. https://revistaoeste.com/revista/edicao-305/a-perda-da-linguagem-e-a-perda-da-liberdade/ 
A partir da leitura do texto I e das ideias defendidas por seu autor, pode-se indicar como constatação correta o que se afirma em:
Alternativas
Q4323858 Português



Disponível em https://cartum.folha.uol.com.br/quadrinhos/ 2026/08/21/pessimas-influencias-estela-may.shtml , acesso em 02 de setembro de 2026 (adaptado)

Considerando o emprego dos elementos linguísticos da charge para a construção do sentido, assinale a alternativa correta: 
Alternativas
Q4323857 Português



Disponível em https://cartum.folha.uol.com.br/quadrinhos/ 2026/08/21/pessimas-influencias-estela-may.shtml , acesso em 02 de setembro de 2026 (adaptado)

Considerando a relação entre a linguagem verbal e os elementos visuais da charge, o efeito de sentido é construído pelo conjunto, e a leitura global é entendida que a charge 
Alternativas
Q4323856 Português
Os influenciadores digitais que não existem


       A espanhola Aitana Lopez vive em Barcelona e ganha a vida como influenciadora digital fitness, compartilhando sua rotina de treinos e passeios nas redes sociais para mais de 400 mil seguidores. Tem cerca de 26 anos, é do signo de escorpião, mantém as madeixas pintadas de rosa e tem um corpo exatamente de acordo com os padrões estéticos socialmente impostos. Mas Aitana não existe: ela foi criada por meio de ferramentas hiper-realistas de inteligência artificial generativa.

      Em seu perfil no Instagram, a bio diz: "criadora de conteúdo de IA; fitness e estilo de vida virtuais". Há o nome da empresa que a representa —na verdade, a agência que a criou— e a indicação de que é uma embaixadora da OpenArt, uma plataforma de IA. Para grande parte do público, isso pode não ser suficiente para entender que a moça nas fotos na academia e no litoral europeu é simplesmente uma ficção.

     Influencers criados por IA não são exatamente uma novidade, mas vêm tomando as mídias sociais com mais força nos últimos dois anos. Se há uma década víamos figuras como a robô Miquela, considerada uma das primeiras do tipo, exibirem-se para os seus mais de 2 milhões de seguidores nas mídias sociais, hoje o cenário está muito mais complexo.

    Isso porque, além da nossa experiência virtual ter se plataformizado significativamente, o que fomentou a criação de um mercado de influência digital, o avanço expressivo da IA tem alterado a nossa noção de realidade. E, nessa conjuntura, não podemos esquecer da avalanche de desinformação a que somos submetidos diariamente.

      Essa equação pode ser extremamente perigosa se olharmos para os nichos desses influenciadores irreais. Um levantamento recente da organização sem fins lucrativos CTRL+Z encontrou, no YouTube, 29 canais em língua portuguesa de médicos criados por IA. Os dados mostram que os vídeos publicados nesses perfis ultrapassavam 70 milhões de visualizações. Após uma reportagem da BBC Brasil denunciar o problema, alguns perfis foram excluídos pela plataforma por ferir as suas diretrizes.

      Ao ameaçar a integridade das informações que produzimos e consumimos, os influenciadores fotorrealistas escancaram a complexidade do ecossistema digital atual. O combate aos riscos que muitos deles oferecem requer vigilância rigorosa de governos e empresas de tecnologia, aliada a iniciativas urgentes de educação digital e midiática que ultrapassem os muros das escolas. Ainda que algumas dessas figuras pareçam inofensivas, é fundamental compreendermos o que (e quem) está por trás das telas.

      No fim das contas, o perigo não é apenas a existência desses avatares sintéticos, mas a opacidade em torno deles. Sem sinalização clara de IA e sem letramento digital, o público pode ficar cada vez mais vulnerável. Se muitos influencers de carne e osso já divulgam discursos e serviços extremamente questionáveis e até antiéticos, não seria diferente com aqueles que não existem materialmente. Por isso, exigir transparência e educar a população já deixaram, há tempos, de ser uma opção para a saúde dos ambientes informacionais e para a sustentabilidade da democracia.


Texto disponível em https://www1.folha.uol.com.br/educacao/2026/08/os-influenciadores-digitais-que-naoexistem.shtml , acesso em 01 de setembro de 2026 (adaptado).

No trecho “Por isso, exigir transparência e educar a população já deixaram, há tempos, de ser uma opção para a saúde dos ambientes informacionais e para a sustentabilidade da democracia.”, o recurso expressivo empregado contribui para a construção do argumento. Assinale a alternativa correta:
Alternativas
Q4323855 Português
Os influenciadores digitais que não existem


       A espanhola Aitana Lopez vive em Barcelona e ganha a vida como influenciadora digital fitness, compartilhando sua rotina de treinos e passeios nas redes sociais para mais de 400 mil seguidores. Tem cerca de 26 anos, é do signo de escorpião, mantém as madeixas pintadas de rosa e tem um corpo exatamente de acordo com os padrões estéticos socialmente impostos. Mas Aitana não existe: ela foi criada por meio de ferramentas hiper-realistas de inteligência artificial generativa.

      Em seu perfil no Instagram, a bio diz: "criadora de conteúdo de IA; fitness e estilo de vida virtuais". Há o nome da empresa que a representa —na verdade, a agência que a criou— e a indicação de que é uma embaixadora da OpenArt, uma plataforma de IA. Para grande parte do público, isso pode não ser suficiente para entender que a moça nas fotos na academia e no litoral europeu é simplesmente uma ficção.

     Influencers criados por IA não são exatamente uma novidade, mas vêm tomando as mídias sociais com mais força nos últimos dois anos. Se há uma década víamos figuras como a robô Miquela, considerada uma das primeiras do tipo, exibirem-se para os seus mais de 2 milhões de seguidores nas mídias sociais, hoje o cenário está muito mais complexo.

    Isso porque, além da nossa experiência virtual ter se plataformizado significativamente, o que fomentou a criação de um mercado de influência digital, o avanço expressivo da IA tem alterado a nossa noção de realidade. E, nessa conjuntura, não podemos esquecer da avalanche de desinformação a que somos submetidos diariamente.

      Essa equação pode ser extremamente perigosa se olharmos para os nichos desses influenciadores irreais. Um levantamento recente da organização sem fins lucrativos CTRL+Z encontrou, no YouTube, 29 canais em língua portuguesa de médicos criados por IA. Os dados mostram que os vídeos publicados nesses perfis ultrapassavam 70 milhões de visualizações. Após uma reportagem da BBC Brasil denunciar o problema, alguns perfis foram excluídos pela plataforma por ferir as suas diretrizes.

      Ao ameaçar a integridade das informações que produzimos e consumimos, os influenciadores fotorrealistas escancaram a complexidade do ecossistema digital atual. O combate aos riscos que muitos deles oferecem requer vigilância rigorosa de governos e empresas de tecnologia, aliada a iniciativas urgentes de educação digital e midiática que ultrapassem os muros das escolas. Ainda que algumas dessas figuras pareçam inofensivas, é fundamental compreendermos o que (e quem) está por trás das telas.

      No fim das contas, o perigo não é apenas a existência desses avatares sintéticos, mas a opacidade em torno deles. Sem sinalização clara de IA e sem letramento digital, o público pode ficar cada vez mais vulnerável. Se muitos influencers de carne e osso já divulgam discursos e serviços extremamente questionáveis e até antiéticos, não seria diferente com aqueles que não existem materialmente. Por isso, exigir transparência e educar a população já deixaram, há tempos, de ser uma opção para a saúde dos ambientes informacionais e para a sustentabilidade da democracia.


Texto disponível em https://www1.folha.uol.com.br/educacao/2026/08/os-influenciadores-digitais-que-naoexistem.shtml , acesso em 01 de setembro de 2026 (adaptado).

Considerando os recursos referentes à morfologia da língua portuguesa empregados no texto, assinale a alternativa em que a análise do processo de formação da palavra está correta: 
Alternativas
Q4323854 Português
Os influenciadores digitais que não existem


       A espanhola Aitana Lopez vive em Barcelona e ganha a vida como influenciadora digital fitness, compartilhando sua rotina de treinos e passeios nas redes sociais para mais de 400 mil seguidores. Tem cerca de 26 anos, é do signo de escorpião, mantém as madeixas pintadas de rosa e tem um corpo exatamente de acordo com os padrões estéticos socialmente impostos. Mas Aitana não existe: ela foi criada por meio de ferramentas hiper-realistas de inteligência artificial generativa.

      Em seu perfil no Instagram, a bio diz: "criadora de conteúdo de IA; fitness e estilo de vida virtuais". Há o nome da empresa que a representa —na verdade, a agência que a criou— e a indicação de que é uma embaixadora da OpenArt, uma plataforma de IA. Para grande parte do público, isso pode não ser suficiente para entender que a moça nas fotos na academia e no litoral europeu é simplesmente uma ficção.

     Influencers criados por IA não são exatamente uma novidade, mas vêm tomando as mídias sociais com mais força nos últimos dois anos. Se há uma década víamos figuras como a robô Miquela, considerada uma das primeiras do tipo, exibirem-se para os seus mais de 2 milhões de seguidores nas mídias sociais, hoje o cenário está muito mais complexo.

    Isso porque, além da nossa experiência virtual ter se plataformizado significativamente, o que fomentou a criação de um mercado de influência digital, o avanço expressivo da IA tem alterado a nossa noção de realidade. E, nessa conjuntura, não podemos esquecer da avalanche de desinformação a que somos submetidos diariamente.

      Essa equação pode ser extremamente perigosa se olharmos para os nichos desses influenciadores irreais. Um levantamento recente da organização sem fins lucrativos CTRL+Z encontrou, no YouTube, 29 canais em língua portuguesa de médicos criados por IA. Os dados mostram que os vídeos publicados nesses perfis ultrapassavam 70 milhões de visualizações. Após uma reportagem da BBC Brasil denunciar o problema, alguns perfis foram excluídos pela plataforma por ferir as suas diretrizes.

      Ao ameaçar a integridade das informações que produzimos e consumimos, os influenciadores fotorrealistas escancaram a complexidade do ecossistema digital atual. O combate aos riscos que muitos deles oferecem requer vigilância rigorosa de governos e empresas de tecnologia, aliada a iniciativas urgentes de educação digital e midiática que ultrapassem os muros das escolas. Ainda que algumas dessas figuras pareçam inofensivas, é fundamental compreendermos o que (e quem) está por trás das telas.

      No fim das contas, o perigo não é apenas a existência desses avatares sintéticos, mas a opacidade em torno deles. Sem sinalização clara de IA e sem letramento digital, o público pode ficar cada vez mais vulnerável. Se muitos influencers de carne e osso já divulgam discursos e serviços extremamente questionáveis e até antiéticos, não seria diferente com aqueles que não existem materialmente. Por isso, exigir transparência e educar a população já deixaram, há tempos, de ser uma opção para a saúde dos ambientes informacionais e para a sustentabilidade da democracia.


Texto disponível em https://www1.folha.uol.com.br/educacao/2026/08/os-influenciadores-digitais-que-naoexistem.shtml , acesso em 01 de setembro de 2026 (adaptado).

No texto, afirma-se que “o avanço expressivo da IA tem alterado a nossa noção de realidade” e, posteriormente, que “o perigo não é apenas a existência desses avatares sintéticos, mas a opacidade em torno deles.” Considerando o emprego discursivo de “realidade” e “opacidade”, quanto à relação semântica construída, está correto o que se afirma em:
Alternativas
Q4323853 Português
Os influenciadores digitais que não existem


       A espanhola Aitana Lopez vive em Barcelona e ganha a vida como influenciadora digital fitness, compartilhando sua rotina de treinos e passeios nas redes sociais para mais de 400 mil seguidores. Tem cerca de 26 anos, é do signo de escorpião, mantém as madeixas pintadas de rosa e tem um corpo exatamente de acordo com os padrões estéticos socialmente impostos. Mas Aitana não existe: ela foi criada por meio de ferramentas hiper-realistas de inteligência artificial generativa.

      Em seu perfil no Instagram, a bio diz: "criadora de conteúdo de IA; fitness e estilo de vida virtuais". Há o nome da empresa que a representa —na verdade, a agência que a criou— e a indicação de que é uma embaixadora da OpenArt, uma plataforma de IA. Para grande parte do público, isso pode não ser suficiente para entender que a moça nas fotos na academia e no litoral europeu é simplesmente uma ficção.

     Influencers criados por IA não são exatamente uma novidade, mas vêm tomando as mídias sociais com mais força nos últimos dois anos. Se há uma década víamos figuras como a robô Miquela, considerada uma das primeiras do tipo, exibirem-se para os seus mais de 2 milhões de seguidores nas mídias sociais, hoje o cenário está muito mais complexo.

    Isso porque, além da nossa experiência virtual ter se plataformizado significativamente, o que fomentou a criação de um mercado de influência digital, o avanço expressivo da IA tem alterado a nossa noção de realidade. E, nessa conjuntura, não podemos esquecer da avalanche de desinformação a que somos submetidos diariamente.

      Essa equação pode ser extremamente perigosa se olharmos para os nichos desses influenciadores irreais. Um levantamento recente da organização sem fins lucrativos CTRL+Z encontrou, no YouTube, 29 canais em língua portuguesa de médicos criados por IA. Os dados mostram que os vídeos publicados nesses perfis ultrapassavam 70 milhões de visualizações. Após uma reportagem da BBC Brasil denunciar o problema, alguns perfis foram excluídos pela plataforma por ferir as suas diretrizes.

      Ao ameaçar a integridade das informações que produzimos e consumimos, os influenciadores fotorrealistas escancaram a complexidade do ecossistema digital atual. O combate aos riscos que muitos deles oferecem requer vigilância rigorosa de governos e empresas de tecnologia, aliada a iniciativas urgentes de educação digital e midiática que ultrapassem os muros das escolas. Ainda que algumas dessas figuras pareçam inofensivas, é fundamental compreendermos o que (e quem) está por trás das telas.

      No fim das contas, o perigo não é apenas a existência desses avatares sintéticos, mas a opacidade em torno deles. Sem sinalização clara de IA e sem letramento digital, o público pode ficar cada vez mais vulnerável. Se muitos influencers de carne e osso já divulgam discursos e serviços extremamente questionáveis e até antiéticos, não seria diferente com aqueles que não existem materialmente. Por isso, exigir transparência e educar a população já deixaram, há tempos, de ser uma opção para a saúde dos ambientes informacionais e para a sustentabilidade da democracia.


Texto disponível em https://www1.folha.uol.com.br/educacao/2026/08/os-influenciadores-digitais-que-naoexistem.shtml , acesso em 01 de setembro de 2026 (adaptado).

No texto, encontra-se a construção “exibirem-se para os seus mais de 2 milhões de seguidores”. Considerando a norma-padrão e os fatores sintáticos que condicionam a colocação pronominal, assinale a alternativa correta:
Alternativas
Q4323852 Português
Os influenciadores digitais que não existem


       A espanhola Aitana Lopez vive em Barcelona e ganha a vida como influenciadora digital fitness, compartilhando sua rotina de treinos e passeios nas redes sociais para mais de 400 mil seguidores. Tem cerca de 26 anos, é do signo de escorpião, mantém as madeixas pintadas de rosa e tem um corpo exatamente de acordo com os padrões estéticos socialmente impostos. Mas Aitana não existe: ela foi criada por meio de ferramentas hiper-realistas de inteligência artificial generativa.

      Em seu perfil no Instagram, a bio diz: "criadora de conteúdo de IA; fitness e estilo de vida virtuais". Há o nome da empresa que a representa —na verdade, a agência que a criou— e a indicação de que é uma embaixadora da OpenArt, uma plataforma de IA. Para grande parte do público, isso pode não ser suficiente para entender que a moça nas fotos na academia e no litoral europeu é simplesmente uma ficção.

     Influencers criados por IA não são exatamente uma novidade, mas vêm tomando as mídias sociais com mais força nos últimos dois anos. Se há uma década víamos figuras como a robô Miquela, considerada uma das primeiras do tipo, exibirem-se para os seus mais de 2 milhões de seguidores nas mídias sociais, hoje o cenário está muito mais complexo.

    Isso porque, além da nossa experiência virtual ter se plataformizado significativamente, o que fomentou a criação de um mercado de influência digital, o avanço expressivo da IA tem alterado a nossa noção de realidade. E, nessa conjuntura, não podemos esquecer da avalanche de desinformação a que somos submetidos diariamente.

      Essa equação pode ser extremamente perigosa se olharmos para os nichos desses influenciadores irreais. Um levantamento recente da organização sem fins lucrativos CTRL+Z encontrou, no YouTube, 29 canais em língua portuguesa de médicos criados por IA. Os dados mostram que os vídeos publicados nesses perfis ultrapassavam 70 milhões de visualizações. Após uma reportagem da BBC Brasil denunciar o problema, alguns perfis foram excluídos pela plataforma por ferir as suas diretrizes.

      Ao ameaçar a integridade das informações que produzimos e consumimos, os influenciadores fotorrealistas escancaram a complexidade do ecossistema digital atual. O combate aos riscos que muitos deles oferecem requer vigilância rigorosa de governos e empresas de tecnologia, aliada a iniciativas urgentes de educação digital e midiática que ultrapassem os muros das escolas. Ainda que algumas dessas figuras pareçam inofensivas, é fundamental compreendermos o que (e quem) está por trás das telas.

      No fim das contas, o perigo não é apenas a existência desses avatares sintéticos, mas a opacidade em torno deles. Sem sinalização clara de IA e sem letramento digital, o público pode ficar cada vez mais vulnerável. Se muitos influencers de carne e osso já divulgam discursos e serviços extremamente questionáveis e até antiéticos, não seria diferente com aqueles que não existem materialmente. Por isso, exigir transparência e educar a população já deixaram, há tempos, de ser uma opção para a saúde dos ambientes informacionais e para a sustentabilidade da democracia.


Texto disponível em https://www1.folha.uol.com.br/educacao/2026/08/os-influenciadores-digitais-que-naoexistem.shtml , acesso em 01 de setembro de 2026 (adaptado).

No período “Se muitos influencers de carne e osso já divulgam discursos e serviços extremamente questionáveis e até antiéticos, não seria diferente com aqueles que não existem materialmente.”, a relação estabelecida entre as orações é fundamental para a argumentação desenvolvida. Assinale a alternativa que identifica corretamente a estrutura sintática e o valor semântico da primeira oração:
Alternativas
Q4323851 Português
Os influenciadores digitais que não existem


       A espanhola Aitana Lopez vive em Barcelona e ganha a vida como influenciadora digital fitness, compartilhando sua rotina de treinos e passeios nas redes sociais para mais de 400 mil seguidores. Tem cerca de 26 anos, é do signo de escorpião, mantém as madeixas pintadas de rosa e tem um corpo exatamente de acordo com os padrões estéticos socialmente impostos. Mas Aitana não existe: ela foi criada por meio de ferramentas hiper-realistas de inteligência artificial generativa.

      Em seu perfil no Instagram, a bio diz: "criadora de conteúdo de IA; fitness e estilo de vida virtuais". Há o nome da empresa que a representa —na verdade, a agência que a criou— e a indicação de que é uma embaixadora da OpenArt, uma plataforma de IA. Para grande parte do público, isso pode não ser suficiente para entender que a moça nas fotos na academia e no litoral europeu é simplesmente uma ficção.

     Influencers criados por IA não são exatamente uma novidade, mas vêm tomando as mídias sociais com mais força nos últimos dois anos. Se há uma década víamos figuras como a robô Miquela, considerada uma das primeiras do tipo, exibirem-se para os seus mais de 2 milhões de seguidores nas mídias sociais, hoje o cenário está muito mais complexo.

    Isso porque, além da nossa experiência virtual ter se plataformizado significativamente, o que fomentou a criação de um mercado de influência digital, o avanço expressivo da IA tem alterado a nossa noção de realidade. E, nessa conjuntura, não podemos esquecer da avalanche de desinformação a que somos submetidos diariamente.

      Essa equação pode ser extremamente perigosa se olharmos para os nichos desses influenciadores irreais. Um levantamento recente da organização sem fins lucrativos CTRL+Z encontrou, no YouTube, 29 canais em língua portuguesa de médicos criados por IA. Os dados mostram que os vídeos publicados nesses perfis ultrapassavam 70 milhões de visualizações. Após uma reportagem da BBC Brasil denunciar o problema, alguns perfis foram excluídos pela plataforma por ferir as suas diretrizes.

      Ao ameaçar a integridade das informações que produzimos e consumimos, os influenciadores fotorrealistas escancaram a complexidade do ecossistema digital atual. O combate aos riscos que muitos deles oferecem requer vigilância rigorosa de governos e empresas de tecnologia, aliada a iniciativas urgentes de educação digital e midiática que ultrapassem os muros das escolas. Ainda que algumas dessas figuras pareçam inofensivas, é fundamental compreendermos o que (e quem) está por trás das telas.

      No fim das contas, o perigo não é apenas a existência desses avatares sintéticos, mas a opacidade em torno deles. Sem sinalização clara de IA e sem letramento digital, o público pode ficar cada vez mais vulnerável. Se muitos influencers de carne e osso já divulgam discursos e serviços extremamente questionáveis e até antiéticos, não seria diferente com aqueles que não existem materialmente. Por isso, exigir transparência e educar a população já deixaram, há tempos, de ser uma opção para a saúde dos ambientes informacionais e para a sustentabilidade da democracia.


Texto disponível em https://www1.folha.uol.com.br/educacao/2026/08/os-influenciadores-digitais-que-naoexistem.shtml , acesso em 01 de setembro de 2026 (adaptado).

Considerando o emprego dos recursos linguísticos no texto sobre influenciadores digitais produzidos por inteligência artificial, analise as afirmativas a seguir.

I. No título “Os influenciadores digitais que não existem”, o pronome relativo “que” introduz uma oração subordinada adjetiva restritiva, delimitando o referente de “influenciadores digitais”.
II. Em “o avanço expressivo da IA tem alterado a nossa noção de realidade”, o termo “da IA” exerce função de complemento nominal e estabelece relação sintática com “avanço”.
III. Em “a que somos submetidos diariamente”, o emprego do vocábulo “a” antes do pronome relativo está relacionado à regência do verbo “submeter”, e o uso da crase, nesse contexto de escrita, é facultativo.
IV. Em “Isso porque, além da nossa experiência virtual ter se plataformizado significativamente”, a locução verbal “ter se plataformizado” apresenta o verbo principal flexionado na forma nominal de particípio para manter concordância nominal com “isso”.
V. No segmento “não seria diferente com aqueles que não existem materialmente”, a oração introduzida por “que” exerce função de adjunto adnominal do termo “aqueles”.

Estão correto apenas os itens: 
Alternativas
Q4323850 Português
Os influenciadores digitais que não existem


       A espanhola Aitana Lopez vive em Barcelona e ganha a vida como influenciadora digital fitness, compartilhando sua rotina de treinos e passeios nas redes sociais para mais de 400 mil seguidores. Tem cerca de 26 anos, é do signo de escorpião, mantém as madeixas pintadas de rosa e tem um corpo exatamente de acordo com os padrões estéticos socialmente impostos. Mas Aitana não existe: ela foi criada por meio de ferramentas hiper-realistas de inteligência artificial generativa.

      Em seu perfil no Instagram, a bio diz: "criadora de conteúdo de IA; fitness e estilo de vida virtuais". Há o nome da empresa que a representa —na verdade, a agência que a criou— e a indicação de que é uma embaixadora da OpenArt, uma plataforma de IA. Para grande parte do público, isso pode não ser suficiente para entender que a moça nas fotos na academia e no litoral europeu é simplesmente uma ficção.

     Influencers criados por IA não são exatamente uma novidade, mas vêm tomando as mídias sociais com mais força nos últimos dois anos. Se há uma década víamos figuras como a robô Miquela, considerada uma das primeiras do tipo, exibirem-se para os seus mais de 2 milhões de seguidores nas mídias sociais, hoje o cenário está muito mais complexo.

    Isso porque, além da nossa experiência virtual ter se plataformizado significativamente, o que fomentou a criação de um mercado de influência digital, o avanço expressivo da IA tem alterado a nossa noção de realidade. E, nessa conjuntura, não podemos esquecer da avalanche de desinformação a que somos submetidos diariamente.

      Essa equação pode ser extremamente perigosa se olharmos para os nichos desses influenciadores irreais. Um levantamento recente da organização sem fins lucrativos CTRL+Z encontrou, no YouTube, 29 canais em língua portuguesa de médicos criados por IA. Os dados mostram que os vídeos publicados nesses perfis ultrapassavam 70 milhões de visualizações. Após uma reportagem da BBC Brasil denunciar o problema, alguns perfis foram excluídos pela plataforma por ferir as suas diretrizes.

      Ao ameaçar a integridade das informações que produzimos e consumimos, os influenciadores fotorrealistas escancaram a complexidade do ecossistema digital atual. O combate aos riscos que muitos deles oferecem requer vigilância rigorosa de governos e empresas de tecnologia, aliada a iniciativas urgentes de educação digital e midiática que ultrapassem os muros das escolas. Ainda que algumas dessas figuras pareçam inofensivas, é fundamental compreendermos o que (e quem) está por trás das telas.

      No fim das contas, o perigo não é apenas a existência desses avatares sintéticos, mas a opacidade em torno deles. Sem sinalização clara de IA e sem letramento digital, o público pode ficar cada vez mais vulnerável. Se muitos influencers de carne e osso já divulgam discursos e serviços extremamente questionáveis e até antiéticos, não seria diferente com aqueles que não existem materialmente. Por isso, exigir transparência e educar a população já deixaram, há tempos, de ser uma opção para a saúde dos ambientes informacionais e para a sustentabilidade da democracia.


Texto disponível em https://www1.folha.uol.com.br/educacao/2026/08/os-influenciadores-digitais-que-naoexistem.shtml , acesso em 01 de setembro de 2026 (adaptado).

Analise o excerto: “Isso porque, além da nossa experiência virtual ter se plataformizado significativamente, o que fomentou a criação de um mercado de influência digital, o avanço expressivo da IA tem alterado a nossa noção de realidade.”, os elementos de coesão contribuem para a articulação e para a progressão das ideias apresentadas no texto. Assinale a alternativa correta acerca dos recursos da coesão textual: 
Alternativas
Q4323849 Português
Os influenciadores digitais que não existem


       A espanhola Aitana Lopez vive em Barcelona e ganha a vida como influenciadora digital fitness, compartilhando sua rotina de treinos e passeios nas redes sociais para mais de 400 mil seguidores. Tem cerca de 26 anos, é do signo de escorpião, mantém as madeixas pintadas de rosa e tem um corpo exatamente de acordo com os padrões estéticos socialmente impostos. Mas Aitana não existe: ela foi criada por meio de ferramentas hiper-realistas de inteligência artificial generativa.

      Em seu perfil no Instagram, a bio diz: "criadora de conteúdo de IA; fitness e estilo de vida virtuais". Há o nome da empresa que a representa —na verdade, a agência que a criou— e a indicação de que é uma embaixadora da OpenArt, uma plataforma de IA. Para grande parte do público, isso pode não ser suficiente para entender que a moça nas fotos na academia e no litoral europeu é simplesmente uma ficção.

     Influencers criados por IA não são exatamente uma novidade, mas vêm tomando as mídias sociais com mais força nos últimos dois anos. Se há uma década víamos figuras como a robô Miquela, considerada uma das primeiras do tipo, exibirem-se para os seus mais de 2 milhões de seguidores nas mídias sociais, hoje o cenário está muito mais complexo.

    Isso porque, além da nossa experiência virtual ter se plataformizado significativamente, o que fomentou a criação de um mercado de influência digital, o avanço expressivo da IA tem alterado a nossa noção de realidade. E, nessa conjuntura, não podemos esquecer da avalanche de desinformação a que somos submetidos diariamente.

      Essa equação pode ser extremamente perigosa se olharmos para os nichos desses influenciadores irreais. Um levantamento recente da organização sem fins lucrativos CTRL+Z encontrou, no YouTube, 29 canais em língua portuguesa de médicos criados por IA. Os dados mostram que os vídeos publicados nesses perfis ultrapassavam 70 milhões de visualizações. Após uma reportagem da BBC Brasil denunciar o problema, alguns perfis foram excluídos pela plataforma por ferir as suas diretrizes.

      Ao ameaçar a integridade das informações que produzimos e consumimos, os influenciadores fotorrealistas escancaram a complexidade do ecossistema digital atual. O combate aos riscos que muitos deles oferecem requer vigilância rigorosa de governos e empresas de tecnologia, aliada a iniciativas urgentes de educação digital e midiática que ultrapassem os muros das escolas. Ainda que algumas dessas figuras pareçam inofensivas, é fundamental compreendermos o que (e quem) está por trás das telas.

      No fim das contas, o perigo não é apenas a existência desses avatares sintéticos, mas a opacidade em torno deles. Sem sinalização clara de IA e sem letramento digital, o público pode ficar cada vez mais vulnerável. Se muitos influencers de carne e osso já divulgam discursos e serviços extremamente questionáveis e até antiéticos, não seria diferente com aqueles que não existem materialmente. Por isso, exigir transparência e educar a população já deixaram, há tempos, de ser uma opção para a saúde dos ambientes informacionais e para a sustentabilidade da democracia.


Texto disponível em https://www1.folha.uol.com.br/educacao/2026/08/os-influenciadores-digitais-que-naoexistem.shtml , acesso em 01 de setembro de 2026 (adaptado).

Nesse gênero, em análise predomina a argumentação. Nesse sentido, a ideia central focalizada pelo locutor do texto é: 
Alternativas
Q4323704 Linguística
O conceito de variação linguística é essencial para combater o preconceito linguístico na escola. Marcos Bagno defende que a língua é heterogênea e variável. Nesse contexto, o professor deve abordar as variedades linguísticas (regionais, sociais, estilísticas) de forma a valorizar a cultura do aluno e ampliar seu repertório. Acerca desse tema, marque V, para as afirmativas verdadeiras, e F, para as falsas:

(__)O erro de português deve ser combatido a todo custo, pois existe apenas uma forma correta de falar, que é a norma culta padrão.
(__)A escola deve ensinar a norma culta padrão como uma das variedades da língua, necessária para o acesso a bens culturais e espaços de poder, sem estigmatizar a fala do aluno.
(__)Todas as variedades linguísticas possuem gramática própria e lógica interna, sendo adequadas aos seus respectivos contextos de uso.
(__)O preconceito linguístico é um instrumento de discriminação social, pois desvaloriza os falantes de variedades desprestigiadas.

Após análise, assinale a alternativa que apresenta a sequência correta dos itens acima, de cima para baixo:
Alternativas
Q4323654 Português

A educação pode ser um fator de coesão, se procurar ter em conta a diversidade dos indivíduos e dos grupos humanos, evitando tornar-se um fator de exclusão social. A respeito da educação e da luta contra as exclusões, analise as partes que seguem:



Os sistemas educativos formais são, muitas vezes, acusados de limitar a realização pessoal, impondo a todas as crianças o mesmo modelo cultural e intelectual, sem ter em conta a diversidade dos talentos individuais (1ª parte). Tendem cada vez mais, por exemplo, a privilegiar o desenvolvimento do conhecimento abstrato em detrimento de outras qualidades humanas como a imaginação, a aptidão para comunicar, o gosto pela animação do trabalho em equipe o sentido do belo, a dimensão espiritual ou a habilidade manual (2ª parte). De acordo com as suas aptidões e os seus gostos pessoais, que são diversos desde o nascimento, porém, todas as crianças podem retirar as mesmas vantagens dos recursos educativos comuns (3ª parte).



Sobre as partes, está(ão) CORRETA(S):

Alternativas
Q4323434 Braille
A inclusão de alunos com deficiência visual nas aulas de música requer adaptações metodológicas e o conhecimento de sistemas específicos de notação. Um professor recebe um aluno cego que já possui conhecimentos musicais prévios. Acerca da Musicografia Braille e estratégias de inclusão, marque (V) para as afirmativas verdadeiras e (F) para as falsas:

(__)A Musicografia Braille é um sistema de notação musical linear que utiliza a mesma célula de seis pontos do Braille literário para representar notas, valores rítmicos e outros sinais musicais.
(__)Para alunos cegos, a percepção auditiva substitui completamente a necessidade de qualquer tipo de partitura ou registro escrito, tornando a musicografia dispensável em qualquer nível de ensino.
(__)A musicografia braille permite a escrita de melodias e harmonias simultâneas verticalmente, exatamente como na partitura em tinta convencional (pentagrama).
(__)O ensino de música para cegos deve priorizar a memória auditiva e o tato, sendo a musicografia uma ferramenta de apoio para a autonomia na leitura e escrita.

Após análise, assinale a alternativa que apresenta a sequência correta dos itens acima, de cima para baixo:
Alternativas
Respostas
3221: C
3222: E
3223: B
3224: D
3225: E
3226: A
3227: C
3228: E
3229: C
3230: D
3231: D
3232: A
3233: B
3234: B
3235: D
3236: E
3237: C
3238: D
3239: B
3240: C