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Q1103008 Português
Texto I para responder às questões de 21 a 35.

Ódio ao Semelhante – Sobre a Militância de Tribunal

    Ninguém pode negar o conflito como parte fundamental do fenômeno político. Só existe política porque existem diferenças, discordâncias, visões de mundo que se distanciam, ideologias, lutas por direitos, por hegemonia. Isso quer dizer que no cerne do fenômeno político está a democracia como um desejo de participação que implica as tenções próprias à diferença que busca um lugar no contexto social. [...]
    Esse texto não tem por finalidade tratar da importância do conflito ou da crítica, mas analisar um fenômeno que surgiu, e se potencializou, na era das redes sociais: a “militância de tribunal”. Essa prática é apresentada como manifestação de ativismo político, mas se reduz ao ato de proferir julgamentos, todos de natureza condenatória, contra seus adiversários e, muitas vezes, em desfavor dos próprios parceiros de projeto político. São típicos julgamentos de excessão, nos quais a figura do acusador e do julgador se confundem, não existe uma acusação bem delimitada, nem a oportunidade do acusado se defender. Nesses julgamentos, que muito revela do “militante de tribunal”, os eventuais erros do “acusado”, por um lado, são potencializados, sem qualquer compromisso com a facticidade; por outro, perdem importância para a hipótese previamente formulada pelo acusador-julgador, a partir de preconceitos, perversões, ressentimentos, inveja e, sobretudo, ódio.
    Ódio direcionado ao inimigo, aquele com o qual o “acusador-julgador” não se identifica e, por essa razão, nega a possibilidade de dialogar e, o que tem se tornado cada vez mais frequente, o ódio relacionado ao próximo, aquele que é, ou deveria ser, um aliado nas trincheiras políticas. Ódio que nasce daquilo que Freud chamou de “narcisismo das pequenas diferenças”. Ódio ao semelhante, aquele que admiramos, do qual somos “parceiros”, ao qual, contudo, dedicamos nosso ódio sempre que ele não faz exatamente aquilo que deveria – ou o que nós acreditamos que deveria – fazer.
    Exemplos não faltam. Pense-se na militante feminista que gasta mais tempo a “condenar” outras mulheres, a julgar outros “feminismos”, do que no enfrentamento concreto à dominação masculina. A Internet está cheia de exemplos de especialistas em julgamento e condenação. A caça por sucesso naquilo que imaginam ser o “clubinho das feministas” (por muitas que se dizem feministas enquanto realizam o feminismo como uma mera moral) tem algo da antiga caça às bruxas que regozija até hoje o machismo estrutural. Nunca se verá a “militante de tribunal feminista” em atitude isenta elogiando a postura correta, mas sempre espetacularizando a postura “errada” daquela que deseja condenar. Muitas constroem seus nomes virtuais, seu capital político, aquilo que imaginam ser um verdadeiro protagonismo feminista, no meio dessas pequenas guerras e linchamentos virtuais nas quais se consideram vencedoras pela gritaria. Há, infelizmente, feministas que se perdem, esvaziam o feminismo e servem de espetáculo àqueles que adoram odiar o feminismo. [...] Apoio mesmo, concreto, às grandes lutas do feminismo, isso não, pois não é tão fácil nem deve dar tanto prazer quanto a condenação no tribunal virtual montado em sua própria casa. [...]
(Marcia Tiburi e Rubens Casara. Disponível em: http://revistacult.uol.com.br/home/2016/01/odio-ao-semelhante-sobre-a-militancia-detribunal/. Publicado dia: 10/01/2016. Adaptado.)
Acerca do emprego da expressão “trincheiras políticas”, no 3º§, é correto afirmar que
Alternativas

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Tema central: A questão aborda interpretação de texto, especificamente o entendimento de figuras de linguagem, destacando o uso de metáforas e suas consequências para o sentido e a coesão textual.

Justificativa da alternativa correta (B):

A expressão “trincheiras políticas” é um claro exemplo de metáfora. Segundo gramáticos como Evanildo Bechara e Cunha & Cintra, a metáfora é uma figura que realiza uma comparação implícita entre elementos de naturezas distintas, sem usar conectivos explícitos (“como”, “tal qual”). No texto, “trincheiras” remete ao campo de batalha militar. Ao adicionar “políticas”, o autor transfere características desse universo (conflito, enfrentamento) ao ambiente político, construindo a ideia de posições firmes e embates ideológicos.

Portanto, a alternativa B é correta: há uma ideia de comparação entre elementos de duas situações distintas (guerra e política), perfeitamente alinhada ao conceito de metáfora conforme a norma-padrão.

Análise das alternativas incorretas:

A) Errada. “Trincheiras políticas” não é expressão coloquial, é metafórica e não tem sentido próximo de “triunfo político”, o que mudaria drasticamente o significado original.

C) Errada. Não há recurso à ironia no emprego de “trincheiras políticas”. A intenção do autor é ilustrar a seriedade dos conflitos no ambiente político, não ridicularizá-los.

D) Errada. A expressão não é pejorativa em si; pode até indicar enfrentamento, mas seu uso no texto não carrega conotação negativa ao termo, apenas descreve o ambiente de disputa em que os sujeitos estão inseridos.

Estratégias recomendadas:

Em questões assim, busque:
• Identificar possíveis figuras de linguagem e questionar se há equivalência entre as alternativas apresentadas e o sentido central do texto.
• Atenção para alternativas que propõem substituições de termos; nem toda palavra metafórica pode ser trocada por outra sem alterar o sentido.
• Desconfie de respostas que envolvam “colocação coloquial”, ironia ou sentido pejorativo sem estes estarem claramente evidentes no texto.

Referências: Bechara (“Moderna Gramática”) e Cunha & Cintra (“Nova Gramática do Português Contemporâneo”), capítulos de figuras de linguagem.

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Comentários

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GABARITO: LETRA B

? Ódio direcionado ao inimigo, aquele com o qual o ?acusador-julgador? não se identifica e, por essa razão, nega a possibilidade de dialogar e, o que tem se tornado cada vez mais frequente, o ódio relacionado ao próximo, aquele que é, ou deveria ser, um aliado nas trincheiras políticas.

? Observa-se o uso da metáfora, consiste em uma comparação implícita entre algo de mundo distinto, "trincheiras" são os lugares de abrigo dos combatentes, muito ilustrado em filmes; o autor usa isso para comparar a política a um campo de guerra.

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? FORÇA, GUERREIROS(AS)!! 

Relacionou o "próximo", como um aliado naquilo que pelo qual se luta.

Metáfora. Puts

Letra B

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