Questões de Concurso
Comentadas sobre interpretação de textos em português
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"Os desafios para a valorização de comunidades e povos tradicionais no Brasil". Esse foi o tema da redação do ENEM 2022. Rodrigo Junqueira Santiago Simões, de 18 anos, um dos estudantes que tiraram nota mil na redação, elogia o assunto escolhido pelo Instituto Nacional de Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep). Segundo o aluno […], a redação trouxe à tona um tema essencial para o debate público no país, tratando da desvalorização das comunidades e povos tradicionais. "Por mais que haja uma invisibilização sistêmica desses grupos, acredito que grande parte dos estudantes tenham acesso a algum tipo de bagagem de conhecimento sobre esse tema, sobretudo pela experiência cotidiana em um país que é culturalmente marcado pela influência indígena, quilombola, ribeirinha etc.". acredita. Rodrigo avalia que várias perspectivas poderiam ser abordadas na redação, seja do ponto de vista ambiental, econômico, legal ou epistemológico, o que é essencial em um tema abrangente como esse.
ENEM 2022: aluno nota 1.000 na redação elogia tema e dá dicas de estudo para prova. Disponível em: https://vestibular.brasilescola.uol.com.br/enem/enem-2022-aluno-nota-1000-na-redacao-elogia-tema-daprova-e-da-dicas-de-estudo/354182.html. Acesso em: 16mar. 2023.
Qual destas análises sobre o texto está adequada?
O verdadeiro preço de um brinquedo
É comum vermos comerciais direcionados ao público infantil. Coma existência de personagens famosos, músicas para crianças e parques temáticos, a indústria de produtos destinados a essa faixa etária cresce de forma nunca vista antes. No entanto, tendo emvista a idade desse público, surge a pergunta: as crianças estariam preparadas para o bombardeio de consumo que as propagandas veiculam? Há quem duvide da capacidade de convencimento dos meios de comunicação. No entanto, tais artifícios já foram responsáveis por mudar o curso da História. A imprensa, no século XVIII, disseminou as ideias iluministas e foi uma das causas da queda do absolutismo. Mas não é preciso ir tão longe: no Brasil redemocratizado, as propagandas políticas e os debates eleitorais são capazes de definir o resultado de eleições. É impossível negar o impacto provocado por um anúncio ou uma retórica bem estruturada […].
RINALDI, Roberta. Confira exemplos de redações nota 1000 dos últimos anos do ENEM. Disponível em: https://blog.imaginie.com.br/exemplos-de-redacoes-nota-1000/. Acesso em: 3 mar. 2023.
A respeito do texto, foram feitas algumas afirmativas. Classifique-as como (V) verdadeiras ou(F) falsas.
( ) A argumentação do segundo parágrafo apresenta informações históricas. ( ) A pergunta feita no primeiro parágrafo é respondida no segundo parágrafo. ( ) Houve o emprego de mecanismos coesivos adversativos diversificados. ( ) O autor da redação utiliza trechos de relato pessoal na sua argumentação. ( ) O emprego de afirmativas contundentes é um recurso observado no texto.
A sequência correta de classificação, de cima para baixo, é:
“O estudo das linguagens da ciência e da técnica, também conhecidas como linguagens especializadas, mostra sua importância ao servir como facilitador da compreensão e da veiculação de conhecimento entre os autores dos âmbitos especializados. É através desse estudo que se podem compreender e descrever as estruturas textuais, discursivas e linguístico
terminológicas das ciências e das técnicas”. FINATTO, Maria José; ZÍLIO, Leonardo. Textos e termos por Lothar Hoffmann: um convite para o estudo das linguagens técnico-científicas. Porto Alegre: FAPERGS, 2015, p. 11.
O trabalho com os gêneros textuais no contexto do ensino técnico e tecnológico deve levar em consideração, entre outros aspectos, as relações indicadas no texto de Finatto e Zílio. Em qual alternativa há um gênero que contribui para o processo formativo, técnico e profissional de um estudante da área de eletrotécnica?
Gloria Perez corrige ortografia em post sobre Travessia, mas erra
Gloria Perez corrigiu a ortografia de uma postagem sobre a audiência de "Travessia" no Twitter, mas outros usuários da rede social apontaram que quem errou foi a autora. A postagem dizia que a audiência do dia 31/12 foi "o pior índice da história para uma novela no horário", ao que Gloria respondeu: "No caso, História é com H maiúsculo, tá? De nada. Feliz ano novo". Na verdade, nesse caso, "história" é grafada com H minúsculo. Caso a postagem se referisse à disciplina escolar, o uso da letra maiúscula seria opcional, segundo o Novo Acordo Ortográfico. Outros usuários da rede social apontaram o erro da autora, que respondeu: "É porque andam confundindo História com história que as fake news fazem a festa”.
Gloria Perez corrige ortografia em post sobre Travessia, mas erra. Disponível em: https://www.uol.com.br/splash/noticias/2023/01/04/gloria-perez-correcao.htm. Acesso em: 2 mar. 2023.
As discussões provocadas no texto são
Considerando-se o trecho de Marcuschi (2008), observe a produção de sentido nesta história em quadrinhos.

Sobre os textos e suas possíveis análises, foram feitas estas afirmativas. Analise-as.
I. Os sentidos são construídos por meio das experiências e conhecimento de mundo dos interlocutores. Dessa maneira, um mesmo enunciado produzido por um autor, com intenções específicas, pode gerar diferentes interpretações a depender de cada interlocutor.
II. Os significados são fixos no próprio enunciado, seja ele oral ou escrito, e devem ser decodificados pelos interlocutores, a partir de um sistema de codificação impessoal e universal para todos os usuários do código.
III. Para produção de sentidos na história em quadrinhos, é necessário considerar os diversos modos semióticos, não somente o código verbal. Nesse processo de significação, o usuário da língua possui um papel agentivo no processo de compreensão textual.
IV. Um enunciado pode ter seu significado alterado em função de fatores contextuais, por exemplo, na língua falada, gestos, movimentos corporais, expressões físicas/faciais, entonação dentre outros. Por isso, a leitura das múltiplas linguagens é importante para a construção de sentido.
Estão corretas as afirmativas
O segredo maior da literatura é justamente o envolvimento único que ela nos proporciona em um mundo feito de palavras. O conhecimento de como esse mundo é articulado, como ele age sobre nós, não eliminará seu poder, antes o fortalecerá porque estará apoiado no conhecimento que ilumina e não na escuridão da ignorância.
O modo como a leitura do texto literário é tratada no texto reflete uma concepção de texto literário e de letramento literário que convergem com todas as assertivas seguir, exceto:

Qual destas análises do poema está correta?
Padre Antônio Vieira Sabei, pois, todos os que sois chamados escravos, que não é escravo tudo o que sois. Todo o homem é composto de corpo e alma; mas o que é e se chama escravo, não é todo o homem, senão só metade dele. Até os Gentios, que tinham pouco conhecimento das almas, conheceram esta verdade e fizeram esta distinção. [...] Excelentemente Sêneca: [...] “Quem cuida que o que se chama escravo é o homem todo, erra e não sabe o que diz: a melhor parte do homem, que é a alma, é isenta" de todo o domínio alheio, e não pode ser cativa. O corpo, e somente o corpo, sim[...]. [...] neste vosso mesmo Brasil, quando quereis dizer que Fulano tem muitos ou poucos escravos, porque dizeis que tem tantas ou tantas peças? - Porque os primeiros que lhes puseram este nome, quiseram significar, sábia e cristãmente, que a sujeição que o escravo tem ao senhor, e o domínio que o senhor tem sobre o escravo, só consiste no corpo. Os homens não são feitos de uma só peça, como os anjos e os brutos. Os anjos e os brutos (para que nos expliquemos assim) são inteiriços; o anjo, por que todo é espírito; o bruto, porque todo é corpo. O homem não. É feito de duas peças - alma e corpo. E porque o senhor do escravo só é senhor de uma destas peças, e a capaz de domínio, que é o corpo, por isso chamais aos vossos escravos peças. E se esta derivação vos não contenta, digamos que chamais peças aos vossos escravos, assim como dizemos: uma peça de ouro, uma peça de prata, uma peça de seda, ou de qualquer outra cousa das que não têm alma. [...]
Classifique as afirmativas feitas sobre o texto “Sermão vigésimo sétimo, como santíssimo sacramento exposto [...]” como (V) verdadeiras ou (F) falsas.
( ) A associação dos sentidos dos termos peça e corpo, proposta pelo Padre Antônio Vieira na escrita do Sermão, permite a construção de uma relação hiponímica que é sustentada no decorrer do último parágrafo do texto.
( ) A doutrinação religiosa presente no Sermão é marcada pela discussão de temas que revelam interesses políticos e econômicos, o que fica evidente a partir do uso contra positivo destinado aos termos “corpo” e “alma”.
( ) A justificativa do processo de escravização de pessoas é elaborada a partir da ideia de que o ser humano é composto de uma parte material e outra imaterial, estratégia que se institui por meio do uso de antíteses.
( ) A prosa moralista e religiosa presente no Sermão, marcas do estilo cultista predominante na escrita do texto, busca justificar e defender a submissão de pessoas negras à condição de escravização imposta pela estrutura colonial
A sequência correta de classificação, de cima para baixo, é:
Observe a variação linguística exemplificada na tirinha.

Em relação à tirinha, percebe-se que a variação linguística é motivada
“Dói meu ouvido”, diz o conhecido, sabendo que sou professora de português. Ele procura uma cumplicidade comigo, depois de protagonizar uma cena explícita de preconceito linguístico. Um vendedor de água ou de chicletes vem oferecer suas mercadorias, diz “aí, dona, é água e balinha, é as melhó, três por cinco”. Meus ouvidos ouvem, não, obrigada, não compram; os ouvidos dele doem,e também dispensam os doces.
Noutro momento, numa festinha familiar ou de fim de ano, duas ou três pessoas conversa meu madelas pronuncia “gratuíto”, enquanto a outra concorda mal um sujeito e um predicado; a terceira usa impropriamente uma palavra supostamente chique e culta. Novamente, chega alguém mais informado e diz na minha orelha: “você deve sofrer, né?”
Não sofro. Não sofro o tempo todo. Mas noto algumas coisas: (a) que quando esses falares acontecem, há uns segundos de expectativa, quando os olhares vêm na minha direção, aguardando por uma atitude imediata de cá, isto é, uma correção explícita à fala alheia; (b) uma decepção generalizada quando não faço isso, como se fosse uma espécie de maldade ou de omissão de socorro; (c) em seguida, o perdão geral, após a conclusão de que eu provavelmente só não quis constranger ninguém, mas que corrigirei a pessoa em momento oportuno, expondo-a menos.
RIBEIRO, Ana Elisa. “Com você corrige os outros?”. Disponível em: https://revistapessoa.com/artigo/3453/como-voce-corrige-os-outros? Acesso em: 04 mar. 2023.
Conforme Antunes (2007) “a ciência linguística defende que o bom uso da língua é aquele adequado às condições de uso”. Estabelecendo uma relação com o texto de Ana Elisa Ribeiro, classifique as afirmativas como (V) verdadeiras ou (F) falsas.
( ) O uso da língua fora do contexto culto indica falta de conhecimento linguístico e gramatical devendo ser corrigido em diferentes contextos de fala.
( ) O fato da norma culta corresponder a variante de prestígio social, seu uso deve ser priorizado nas situações de interação verbal.
( ) Por ser a língua homogênea e regida pela norma padrão, o emprego de “gratuíto” no contexto apresentado configura um desvio linguístico.
( ) Quanto maior a capacidade do falante real fazer uso das normas e diferentes registros da língua, mais competente ele se apresenta.
A sequência correta de classificação, de cima para baixo, é:

Conforme Travaglia (2009) “[o]s dialetos na dimensão territorial, geográfica ou regional representamavariação que acontece entre pessoas de diferentes regiões em que se fala a mesma língua”. Sendo assim, ao propor uma atividade para se trabalhar as variações linguísticas, a partir da letra de música acima, Antunes (2007) sugere que a escola “saiba desenvolver a capacidade dos alunos para acolher as diferenças, com o máximo respeito por aqueles que as apresentam”.
Com base nos autores, qual destas propostas está mais adequada para o trabalho na disciplina de língua portuguesa com a letra de música apresentada?
Ana Elisa Ribeiro
Resumo: Com base nos conceitos de letramento, sistema de mídia e mídias mosaiquicas e apoiado em uma concepção de hipertexto não exclusivamente digital, este trabalho mostra a relação de grupos de leitores com a leitura de jornais impressos e digitais. Este estudo de caso foi desenvolvido com alunos de uma instituição privada de ensino superior, em Belo Horizonte. Após a aplicação de questionários sobre hábitos e frequência de leitura de jornais, foram selecionados 23 alunos para fazer testes de navegação e leitura. Algumas habilidades de leitura foram medidas com base na matriz de Língua Portuguesa do Saeb. Com base nos resultados, faz-se a diferenciação entre habilidades de navegação e habilidades de leitura. Os resultados também sugerem certa assimetria entre navegação e leitura (compreensão), já que nem sempre os navegadores mais hábeis compreendem o que leem, assim como nem sempre aqueles que mostram dificuldades em navegar têm mau desempenho em leitura. Conclui-se que a leitura se constrói a partir de uma sobreposição complexa de habilidades. Embora seja importante que o leitor desenvolva letramentos vários, é possível apresentar habilidades assimétricas em relação a diferentes aspectos da leitura.
Palavras-chave: Letramento digital; Hipertexto; Jornalismo digital; Habilidades de leitura.
RIBEIRO, Ana Elisa. Navegar sem ler, ler sem navegar e outras combinações de habilidades do leitor. Educ. Rev. [online]. 2009, vol.25, n.03, pp.75-102.
Considerando a função referencial como predominante na mensagem, classifique-as afirmativas como (V) verdadeiras ou (F) falsas:
( ) A mensagem é centrada no emissor, uma vez que o autor apresenta resultados de uma pesquisa desenvolvida por ele próprio.
( ) O texto tem por objetivo informar o leitor sobre as diferenças entre habilidade de navegação e habilidade de leitura.
( ) O propósito comunicativo do texto é apresentar uma ideia clara sobre o estudo, por meio da linguagem denotativa.
( ) A mensagem poderá ser decodificada por qualquer leitor que domine o código linguístico, pois o texto é resultado da codificação do emissor.
A sequência correta de classificação, de cima para baixo, é:

Com base nas intenções comunicativas e nos recursos linguísticos e visuais empregados em um texto, determinadas funções são atribuídas à linguagem. A função que predomina nessa campanha publicitária é a conativa, uma vez que ela
Instrução: A questão refere-se ao texto abaixo. Os destaques ao longo do texto estão citados nas questões.
Prefiro acreditar que pensar que um dia nos sentiremos prontos o suficiente é utopia
Por Pedro Guerra

- (Disponível em: https://gauchazh.clicrbs.com.br/pioneiro/colunistas – texto adaptado especialmente para esta
prova).
Instrução: A questão refere-se ao texto abaixo. Os destaques ao longo do texto estão citados nas questões.
Prefiro acreditar que pensar que um dia nos sentiremos prontos o suficiente é utopia
Por Pedro Guerra

- (Disponível em: https://gauchazh.clicrbs.com.br/pioneiro/colunistas – texto adaptado especialmente para esta
prova).
“Certa vez escutei, em um programa de empreendedorismo, que se você não sente vergonha de algo que já fez, é porque começou tarde demais”.
Sobre o período acima, analise as assertivas que seguem, assinalando V, se verdadeiras, ou F, se falsas.
( ) As duas ocorrências da palavra ‘que’ introduzem orações subordinadas adjetivas, funcionando, portanto, como pronomes relativos. ( ) A palavra se introduz uma oração adverbial condicional. ( ) O vocábulo ‘porque’ poderia ser substituído por ‘já que’.
A ordem correta de preenchimento dos parênteses, de cima para baixo, é:
(_) Em quase 70 anos de existência da Disneylândia, personagens em cadeiras de rodas continuam sem aparecer na atração.
(_) A principal atração natalina, a “It’s a Small World”, ganhou dois novos personagens em cadeiras de rodas, os quais não apareciam anteriormente na atração.
(_) A “It’s a Small World” foi criada para a Feira Mundial de Nova York de 1964-1965, mas não fez grande sucesso.
(_) O CEO da Disability: IN afirmou que a Disney claramente vê o benefício de atrair um público maior ao se tornar mais inclusiva.
No terreiro rústico da Fazenda Paraíso, nos anos da minha adolescência, era certa e esperada aquela comunicação anual. [...] Vinha dos campos e da mangueira um cheiro fecundo de vegetais e de apojo, mugidos intercalados da vacada, que à tarde mansamente descia dos pastos, procurando a frente da fazenda. O terreiro rústico participava desses encantamentos. Naquela comunhão sagrada e rotineira, a gente se sentia feliz e nem se lembrava de que não havia nenhum dinheiro na casa. Pela manhã, muito cedo, meu avô ia verificar o moinho de fubá de milho, o rendimento da noite. O velho e pesado monjolo subia e descia compassado, escachoando água do cocho, cavado no madeirame pesado e bruto. [...] E partia das mangueiras e abacateiros frondosos o arrulho gemido da juriti. Às sete horas, vinha para cima da grande mesa familiar, rodeada de bancos pesados e rudes, a grande panela de mucilagem, mingau de fubá canjica, fino e adocicado, cozido no leite ainda morno do curral. [...] Comia-se com vontade e comida tão boa como aquela nunca houve em parte alguma. O arroz, fumaçando numa travessa imensa de louça antiga, rescendia a pimenta de cheiro. O frango ensopado em molho de açafrão e cebolinha verde, e mais coentro e salsa. O feijão saboroso, a couve com torresmos, enfarinhada ou rasgadinha à mineira, mandioca adocicada e farinha, ainda quentinha da torrada. Comia-se à moda velha. Repetia-se o bocado, rapava-se o prato. Depois, o quintal, os engenhos, o goiabal, os cajueiros, o rego-d’água. Tínhamos ali o nosso Universo. Vivia-se na Paz de Deus. Eram essas coisas na Fazenda Paraíso. E como todo paraíso, só valeu depois de perdido.
CORALINA, Cora. Melhores Poemas: Cora Coralina; seleção Darcy França Denófrio. São Paulo: Global, 2017.
Nesse poema de Cora Coralina, nota-se que o leitor é naturalmente levado a deleitar-se no universo poético idílico, cujos versos representam a ativação da memória, utilizando formas imagéticas e linguísticas que evidenciam lembranças carregadas de afetividade, simplicidade e nostalgia. Assim, a figura de linguagem empregada como recurso expressivo, na construção estético-literária do poema, é:
Chega um dia de falta de assunto. Ou, mais propriamente, de falta de apetite para os milhares de assuntos. Escrever é triste. Impede a conjugação de tantos outros verbos. Os dedos sobre o teclado, as letras se reunindo com maior ou menor velocidade, mas com igual indiferença pelo que vão dizendo, enquanto lá fora a vida estoura não só em bombas como também em dádivas de toda natureza, inclusive a simples claridade da hora, vedada a você, que está de olho na maquininha. O mundo deixa de ser realidade quente para se reduzir a marginália, purê de palavras, reflexos no espelho (infiel) do dicionário. O que você perde em viver, escrevinhando sobre a vida. Não apenas o sol, mas tudo que ele ilumina. [...] E então vem o tédio. De Senhor dos Assuntos, passar a espectador enfastiado de espetáculo. Tantos fatos simultâneos e entrechocantes, o absurdo promovido a regra de jogo, excesso de vibração, dificuldade em abranger a cena com o simples par de olhos e uma fatigada atenção. Tudo se repete na linha do imprevisto, pois ao imprevisto sucede outro, num mecanismo de monotonia explosiva. Na hora ingrata de escrever, como optar entre as variedades de insólito? E que dizer, que não seja invalidado pelo acontecimento de logo mais, ou de agora mesmo? [...] Entretanto, aí está você, casmurro e indisposto para a tarefa de encher o papel de sinaizinhos pretos. [...]
Disponível em: <https://www.blogderocha.com.br/hoje-nao-escrevo-carlos-drummond-de-andrade/>. Acesso em: 25 mar. 2023.
Carlos Drummond de Andrade, nome indispensável para a história da Literatura Brasileira, é autor do texto “Hoje não escrevo”, que se configura como sendo: