Sermão vigésimo sétimo, com o santíssimo sacramento expost...

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Q2170724 Português
Sermão vigésimo sétimo, com o santíssimo sacramento exposto[...]
Padre Antônio Vieira          Sabei, pois, todos os que sois chamados escravos, que não é escravo tudo o que sois. Todo  o homem é composto de corpo e alma; mas o que é e se chama escravo, não é todo o homem, senão só metade dele. Até os Gentios, que tinham pouco conhecimento das almas, conheceram esta verdade e fizeram esta distinção. [...] Excelentemente Sêneca: [...] “Quem cuida que o que se chama escravo é o homem todo, erra e não sabe o que diz: a melhor parte do homem, que é a alma, é isenta" de todo o domínio alheio, e não pode ser cativa. O corpo, e somente o corpo, sim[...].      [...] neste vosso mesmo Brasil, quando quereis dizer que Fulano tem muitos ou poucos escravos, porque dizeis que tem tantas ou tantas peças? - Porque os primeiros que lhes puseram este nome, quiseram significar, sábia e cristãmente, que a sujeição que o escravo tem ao senhor, e o domínio que o senhor tem sobre o escravo, só consiste no corpo. Os homens não são feitos de uma só peça, como os anjos e os brutos. Os anjos e os brutos (para que nos expliquemos assim) são inteiriços; o anjo, por que todo é espírito; o bruto, porque todo é corpo. O homem não. É feito de duas peças - alma e corpo. E porque o senhor do escravo só é senhor de uma destas peças, e a capaz de domínio, que é o corpo, por isso chamais aos vossos escravos peças. E se esta derivação vos não contenta, digamos que chamais peças aos vossos escravos, assim como dizemos: uma peça de ouro, uma peça de prata, uma peça de seda, ou de qualquer outra cousa das que não têm alma. [...]
Classifique as afirmativas feitas sobre o texto “Sermão vigésimo sétimo, como santíssimo sacramento exposto [...]” como (V) verdadeiras ou (F) falsas.
( ) A associação dos sentidos dos termos peça e corpo, proposta pelo Padre Antônio Vieira na escrita do Sermão, permite a construção de uma relação hiponímica que é sustentada no decorrer do último parágrafo do texto.
( ) A doutrinação religiosa presente no Sermão é marcada pela discussão de temas que revelam interesses políticos e econômicos, o que fica evidente a partir do uso contra positivo destinado aos termos “corpo” e “alma”.
( ) A justificativa do processo de escravização de pessoas é elaborada a partir da ideia de que o ser humano é composto de uma parte material e outra imaterial, estratégia que se institui por meio do uso de antíteses.
( ) A prosa moralista e religiosa presente no Sermão, marcas do estilo cultista predominante na escrita do texto, busca justificar e defender a submissão de pessoas negras à condição de escravização imposta pela estrutura colonial

A sequência correta de classificação, de cima para baixo, é:
Alternativas

Gabarito comentado

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Gabarito: C) ( F ) – ( V ) – ( V ) – ( F )

Tema central: Interpretação de texto, explorando compreensão semântica (hiponímia), figuras de linguagem (antítese) e análise crítica do discurso (intencionalidade do autor e o contexto histórico-social).

1ª afirmativa (FALSA): A relação proposta entre “peça” e “corpo” no texto não é de hiponímia. Pela semântica normativa, hiponímia ocorre quando um termo específico está incluído em outro mais geral (exemplo: “rosa” é hipônimo de “flor”). No texto, “peça” designa o escravo enquanto objeto, mas não é subcategoria de “corpo”, logo a relação é de comparação metafórica e não semântica de inclusão. Segundo Bechara ("Moderna Gramática Portuguesa"), a hiponímia exige relação de classe, que não se aplica aqui.

2ª afirmativa (VERDADEIRA): O sermão revela temas religiosos associados a interesses políticos e econômicos, usando o contraste entre “corpo” e “alma” (“uso contrapositivo”). Vieira constrói sua argumentação afirmando que a escravidão é apenas do corpo, mantendo a alma “livre”, visando justificar a ordem social vigente.

3ª afirmativa (VERDADEIRA): Vieira de fato justifica a escravização pela dualidade entre materialidade (corpo) e espiritualidade (alma), evidenciando uma antítese. Conforme Cunha & Cintra, antítese é figura que põe em contraste ideias opostas, ressaltando aspectos morais e ideológicos no sermão (exemplo: “o anjo, por que todo é espírito; o bruto, porque todo é corpo. O homem não.”).

4ª afirmativa (FALSA): Embora o sermão apresente linguagem cultista e argumentos de época, não tem como foco defender a submissão de negros, mas sim argumentar sobre a separação entre domínio do corpo e da alma. Analisar intencionalidade requer atenção: o texto não explicita defesa da escravidão. Ponto importante para questões de concurso é evitar generalizações históricas sem base textual explícita.

Estratégias para provas: Observe se a relação entre termos é de pertencimento real (hiponímia) ou apenas comparação; reconheça figuras de linguagem (como antítese) e cuidado com afirmações generalizantes sobre intenções do autor.

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