Como você corrige os outros? Ana Elisa Ribeiro “Dói me...
“Dói meu ouvido”, diz o conhecido, sabendo que sou professora de português. Ele procura uma cumplicidade comigo, depois de protagonizar uma cena explícita de preconceito linguístico. Um vendedor de água ou de chicletes vem oferecer suas mercadorias, diz “aí, dona, é água e balinha, é as melhó, três por cinco”. Meus ouvidos ouvem, não, obrigada, não compram; os ouvidos dele doem,e também dispensam os doces.
Noutro momento, numa festinha familiar ou de fim de ano, duas ou três pessoas conversa meu madelas pronuncia “gratuíto”, enquanto a outra concorda mal um sujeito e um predicado; a terceira usa impropriamente uma palavra supostamente chique e culta. Novamente, chega alguém mais informado e diz na minha orelha: “você deve sofrer, né?”
Não sofro. Não sofro o tempo todo. Mas noto algumas coisas: (a) que quando esses falares acontecem, há uns segundos de expectativa, quando os olhares vêm na minha direção, aguardando por uma atitude imediata de cá, isto é, uma correção explícita à fala alheia; (b) uma decepção generalizada quando não faço isso, como se fosse uma espécie de maldade ou de omissão de socorro; (c) em seguida, o perdão geral, após a conclusão de que eu provavelmente só não quis constranger ninguém, mas que corrigirei a pessoa em momento oportuno, expondo-a menos.
RIBEIRO, Ana Elisa. “Com você corrige os outros?”. Disponível em: https://revistapessoa.com/artigo/3453/como-voce-corrige-os-outros? Acesso em: 04 mar. 2023.
Conforme Antunes (2007) “a ciência linguística defende que o bom uso da língua é aquele adequado às condições de uso”. Estabelecendo uma relação com o texto de Ana Elisa Ribeiro, classifique as afirmativas como (V) verdadeiras ou (F) falsas.
( ) O uso da língua fora do contexto culto indica falta de conhecimento linguístico e gramatical devendo ser corrigido em diferentes contextos de fala.
( ) O fato da norma culta corresponder a variante de prestígio social, seu uso deve ser priorizado nas situações de interação verbal.
( ) Por ser a língua homogênea e regida pela norma padrão, o emprego de “gratuíto” no contexto apresentado configura um desvio linguístico.
( ) Quanto maior a capacidade do falante real fazer uso das normas e diferentes registros da língua, mais competente ele se apresenta.
A sequência correta de classificação, de cima para baixo, é:
- Gabarito Comentado (1)
- Aulas (2)
- Comentários (6)
- Estatísticas
- Cadernos
- Criar anotações
- Notificar Erro
Gabarito comentado
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Gabarito: B) ( F ) – ( F ) – ( F ) – ( V ).
Tema central: Variação linguística, preconceito linguístico e norma padrão. A questão exige interpretação do texto de Ana Elisa Ribeiro à luz dos estudos de linguística e de autores como Marcos Bagno e Antunes, além de conceitos da gramática normativa.
Justificativa da alternativa correta:
1ª afirmação (F): Dizer que usar a língua fora do contexto culto indica "falta de conhecimento" é preconceito linguístico. A linguística moderna, conforme Antunes e Bagno, reconhece que todas as variantes têm valor comunicativo, pois o bom uso é aquele adequado ao contexto. Corrigir falas naturais em contextos próprios expressa intolerância, não competência.
2ª afirmação (F): A norma culta tem prestígio social, mas não deve ser priorizada em toda situação. Evansildo Bechara ensina que a adequação linguística depende do contexto; impor a variante culta sempre desconsidera a riqueza da diversidade linguística.
3ª afirmação (F): O enunciado diz que a língua é homogênea e subordinada à norma padrão, o que é falso. A língua é heterogênea e repleta de variações. Palavras como “gratuíto” ilustram pronúncias regionais, não desvios obrigatórios segundo Celso Cunha & Cintra.
4ª afirmação (V): Um falante se mostra mais competente quanto maior sua capacidade de circular entre normas, registros e contextos. Isso é competência comunicativa, conforme defendido por Marcuschi e nos próprios Parâmetros Curriculares Nacionais. Saber usar a norma culta e variações populares é um mérito, não infração.
Dicas de interpretação:
Leia atentamente palavras-chave como “homogênea”, “deve”, “obrigatório” e “desvio”, pois esses termos, ao generalizar ou impor padrões, frequentemente apontam afirmações falsas em provas de variação linguística.
Conclusão: A alternativa correta reconhece que a diversidade linguística é valor e não defeito; dominar as variações e saber adequar o uso da língua é sinal de competência, não de menor conhecimento. Questões assim exigem leitura crítica e conhecimento das bases da sociolinguística.
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Comentários
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obvio que configura um desvio kk
Então a palavra "gratuíto" está correta?!
Acredito que o erro esteja em "homogênea"
Esta questão deveria ter o comentário do especialista. Dessa forma cada item explicado seria um bom aprendizado.
O erro deste item III - "Por ser a língua homogênea e regida pela norma padrão, o emprego de “gratuíto” no contexto apresentado configura um desvio linguístico."
A língua não é homogênea, uma vez que ela paira por sobre os falantes. Embora se tenha uma norma padrão, isso não quer dizer que todos sigam essa norma. A língua varia de acordo com vários critérios: geográfico, histórico, por grupos sociais dentre outros.
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