Leia o texto de Eliane Brum para responder à questão.
Hannah Arendt alcançou o conceito de “a banalidade do
mal” ao testemunhar o julgamento do nazista Adolf Eichmann,
em Jerusalém, e perceber que ele não era um monstro com um
cérebro deformado, nem demonstrava um ódio pessoal e profundo pelos judeus. Eichmann era um homem decepcionantemente comezinho que acreditava apenas ter seguido as regras
do Estado e obedecido à lei vigente ao desempenhar seu papel
no assassinato de milhões de seres humanos. Eichmann seria
só mais um burocrata cumprindo ordens que não lhe ocorreu
questionar. A banalidade do mal se instala na ausência do pensamento.
A boçalidade do mal, uma das explicações possíveis para
o atual momento, é um fenômeno gerado pela experiência
da internet. Ou pelo menos ligado a ela. Desde que as redes
sociais abriram a possibilidade de que cada um expressasse
livremente, digamos, o seu “eu mais profundo”, a sua “verdade
mais intrínseca”, descobrimos a extensão da cloaca humana.
O que se passou foi que descobrimos não apenas o que cada
um faz entre quatro paredes, mas também o que acontece entre as duas orelhas de cada um. Descobrimos o que cada um
de fato pensa sem nenhuma mediação ou freio. E descobrimos que a barbárie íntima e cotidiana sempre esteve lá, aqui,
para além do que poderíamos supor, em dimensões da realidade que só a ficção tinha dado conta até então.
Descobrimos, por exemplo, que aquele vizinho simpático
com quem trocávamos amenidades bem educadas no elevador defende o linchamento de homossexuais. E que mesmo os
mais comedidos são capazes de exercer sua crueldade e travesti-la de liberdade de expressão. Nas postagens e comentários das redes sociais, seus autores deixam claro o orgulho
do seu ódio e muitas vezes também da sua ignorância. Com
frequência reivindicam uma condição de “cidadãos de bem”
como justificativa para cometer todo o tipo de maldade, assim
como para exercer com desenvoltura seu racismo, sua coleção de preconceitos e sua abissal intolerância com qualquer
diferença.
Ainda temos muito a investigar sobre como a internet,
uma das poucas coisas que de fato merecem ser chamadas
de revolucionárias, transformou a nossa vida e o nosso modo
de pensar e a forma como nos enxergamos. A mesma possibilidade de se mostrar, que nos revelou o ódio, gerou também
experiências maravilhosas, inclusive de negação do ódio. Do
mesmo modo, a internet ampliou a denúncia de atrocidades e
a transformação de realidades injustas, tanto quanto tornou o
embate no campo da política muito mais democrático.
Meu objetivo aqui é chamar a atenção para um aspecto
que me parece muito profundo e definidor de nossas relações
atuais. A sociedade brasileira, assim como outras, mas da
sua forma particular, sempre foi atravessada pela violência.
Fundada na eliminação do outro, primeiro dos povos indígenas, depois dos negros escravizados, sua base foi o esvaziamento do diferente como pessoa, e seus ecos continuam
fortes. A internet trouxe um novo elemento a esse contexto. Quero entender como indivíduos se apropriaram de suas
possibilidades para exercer seu ódio – e como essa experiência alterou nosso cotidiano para muito além da rede.
(“A boçalidade do mal”. http://brasil.elpais.com, 02.03.2015. Adaptado.)