Em “Eichmann era um homem decepcionantemente comezinho que ...

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Ano: 2017 Banca: VUNESP Órgão: SÃO CAMILO Prova: VUNESP - 2017 - SÃO CAMILO - Processo Seletivo - 2º Semestre de 2017 - Medicina |
Q1799416 Português
Leia o texto de Eliane Brum para responder à questão.

     Hannah Arendt alcançou o conceito de “a banalidade do mal” ao testemunhar o julgamento do nazista Adolf Eichmann, em Jerusalém, e perceber que ele não era um monstro com um cérebro deformado, nem demonstrava um ódio pessoal e profundo pelos judeus. Eichmann era um homem decepcionantemente comezinho que acreditava apenas ter seguido as regras do Estado e obedecido à lei vigente ao desempenhar seu papel no assassinato de milhões de seres humanos. Eichmann seria só mais um burocrata cumprindo ordens que não lhe ocorreu questionar. A banalidade do mal se instala na ausência do pensamento.
      A boçalidade do mal, uma das explicações possíveis para o atual momento, é um fenômeno gerado pela experiência da internet. Ou pelo menos ligado a ela. Desde que as redes sociais abriram a possibilidade de que cada um expressasse livremente, digamos, o seu “eu mais profundo”, a sua “verdade mais intrínseca”, descobrimos a extensão da cloaca humana. O que se passou foi que descobrimos não apenas o que cada um faz entre quatro paredes, mas também o que acontece entre as duas orelhas de cada um. Descobrimos o que cada um de fato pensa sem nenhuma mediação ou freio. E descobrimos que a barbárie íntima e cotidiana sempre esteve lá, aqui, para além do que poderíamos supor, em dimensões da realidade que só a ficção tinha dado conta até então.
      Descobrimos, por exemplo, que aquele vizinho simpático com quem trocávamos amenidades bem educadas no elevador defende o linchamento de homossexuais. E que mesmo os mais comedidos são capazes de exercer sua crueldade e travesti-la de liberdade de expressão. Nas postagens e comentários das redes sociais, seus autores deixam claro o orgulho do seu ódio e muitas vezes também da sua ignorância. Com frequência reivindicam uma condição de “cidadãos de bem” como justificativa para cometer todo o tipo de maldade, assim como para exercer com desenvoltura seu racismo, sua coleção de preconceitos e sua abissal intolerância com qualquer diferença.
    Ainda temos muito a investigar sobre como a internet, uma das poucas coisas que de fato merecem ser chamadas de revolucionárias, transformou a nossa vida e o nosso modo de pensar e a forma como nos enxergamos. A mesma possibilidade de se mostrar, que nos revelou o ódio, gerou também experiências maravilhosas, inclusive de negação do ódio. Do mesmo modo, a internet ampliou a denúncia de atrocidades e a transformação de realidades injustas, tanto quanto tornou o embate no campo da política muito mais democrático.
      Meu objetivo aqui é chamar a atenção para um aspecto que me parece muito profundo e definidor de nossas relações atuais. A sociedade brasileira, assim como outras, mas da sua forma particular, sempre foi atravessada pela violência. Fundada na eliminação do outro, primeiro dos povos indígenas, depois dos negros escravizados, sua base foi o esvaziamento do diferente como pessoa, e seus ecos continuam fortes. A internet trouxe um novo elemento a esse contexto. Quero entender como indivíduos se apropriaram de suas possibilidades para exercer seu ódio – e como essa experiência alterou nosso cotidiano para muito além da rede.

(“A boçalidade do mal”. http://brasil.elpais.com, 02.03.2015. Adaptado.)
Em “Eichmann era um homem decepcionantemente comezinho que acreditava apenas ter seguido as regras do Estado e obedecido à lei vigente ao desempenhar seu papel no assassinato de milhões de seres humanos.” (1° parágrafo), o termo destacado pode ser substituído, sem prejuízo de sentido para o texto, por
Alternativas

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Tema central: A questão exige interpretação de texto com ênfase na semântica, ou seja, no significado da palavra “comezinho” no contexto. Dominar o campo semântico das palavras é essencial em concursos, especialmente para identificar sinônimos adequados conforme a norma-padrão. O elemento-chave aqui é reconhecer o sentido empregado no texto para substituir o termo corretamente.

Justificativa para a alternativa correta – A) comum:

No trecho, "Eichmann era um homem decepcionantemente comezinho", o autor pretende demonstrar que Eichmann, apesar de envolvido em atrocidades, era bem mais trivial do que um “monstro” demonizado. “Comezinho”, segundo o Caldas Aulete e o Dicionário Aurélio, significa algo “banal, corriqueiro, comum”. Portanto, “comum” é o sinônimo que mantém o exato sentido original, reforçando a ideia de banalidade e ausência de excepcionalidade no personagem. A substituição por “comum” não altera o significado nem a força argumentativa do texto.

Análise das alternativas incorretas:

B) malicioso: Aponta para alguém com más intenções ou astúcia, enquanto “comezinho” refere-se ao que é trivial, sem malícia ou dolo implícitos.

C) submisso: Indica obediência ou docilidade. O texto até cita Eichmann como cumpridor de ordens, mas não apresenta “comezinho” como sinônimo direto de “submisso”, e sim de alguém ordinário, sem peculiaridades.

D) prático: Remete à ideia de funcionalidade, utilidade, não ao aspecto de simplicidade ou trivialidade. Não há relação semântica com “comezinho”.

E) perverso: Sinônimo de alguém cruel ou maldoso – oposto ao sentido de banalidade sugerido por “comezinho”. O texto sublinha a banalidade, e não a maldade ativa do personagem.

Estratégia de resolução e atenção: Sempre que for solicitado substituir uma palavra do texto, busque seu significado mais comum em dicionários confiáveis e relacione com o contexto. Palavras aparentemente neutras ou simples são, muitas vezes, as corretas! Fique atento a pegadinhas semânticas, como termos com carga afetiva ou valor diferente do original. Leia o trecho completo e questione: “Se eu trocar, o sentido permanece?” Só marque se SIM!

Segundo Evanildo Bechara, "no campo semântico, apenas sinônimos perfeitos não alteram o sentido nas substituições, e são raros". Por isso, avalie sempre pelo contexto imediato do texto.

Resposta correta: A) comum

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