Segundo o texto, se “a banalidade do mal se instala na ausên...

Próximas questões
Com base no mesmo assunto
Ano: 2017 Banca: VUNESP Órgão: SÃO CAMILO Prova: VUNESP - 2017 - SÃO CAMILO - Processo Seletivo - 2º Semestre de 2017 - Medicina |
Q1799415 Português
Leia o texto de Eliane Brum para responder à questão.

     Hannah Arendt alcançou o conceito de “a banalidade do mal” ao testemunhar o julgamento do nazista Adolf Eichmann, em Jerusalém, e perceber que ele não era um monstro com um cérebro deformado, nem demonstrava um ódio pessoal e profundo pelos judeus. Eichmann era um homem decepcionantemente comezinho que acreditava apenas ter seguido as regras do Estado e obedecido à lei vigente ao desempenhar seu papel no assassinato de milhões de seres humanos. Eichmann seria só mais um burocrata cumprindo ordens que não lhe ocorreu questionar. A banalidade do mal se instala na ausência do pensamento.
      A boçalidade do mal, uma das explicações possíveis para o atual momento, é um fenômeno gerado pela experiência da internet. Ou pelo menos ligado a ela. Desde que as redes sociais abriram a possibilidade de que cada um expressasse livremente, digamos, o seu “eu mais profundo”, a sua “verdade mais intrínseca”, descobrimos a extensão da cloaca humana. O que se passou foi que descobrimos não apenas o que cada um faz entre quatro paredes, mas também o que acontece entre as duas orelhas de cada um. Descobrimos o que cada um de fato pensa sem nenhuma mediação ou freio. E descobrimos que a barbárie íntima e cotidiana sempre esteve lá, aqui, para além do que poderíamos supor, em dimensões da realidade que só a ficção tinha dado conta até então.
      Descobrimos, por exemplo, que aquele vizinho simpático com quem trocávamos amenidades bem educadas no elevador defende o linchamento de homossexuais. E que mesmo os mais comedidos são capazes de exercer sua crueldade e travesti-la de liberdade de expressão. Nas postagens e comentários das redes sociais, seus autores deixam claro o orgulho do seu ódio e muitas vezes também da sua ignorância. Com frequência reivindicam uma condição de “cidadãos de bem” como justificativa para cometer todo o tipo de maldade, assim como para exercer com desenvoltura seu racismo, sua coleção de preconceitos e sua abissal intolerância com qualquer diferença.
    Ainda temos muito a investigar sobre como a internet, uma das poucas coisas que de fato merecem ser chamadas de revolucionárias, transformou a nossa vida e o nosso modo de pensar e a forma como nos enxergamos. A mesma possibilidade de se mostrar, que nos revelou o ódio, gerou também experiências maravilhosas, inclusive de negação do ódio. Do mesmo modo, a internet ampliou a denúncia de atrocidades e a transformação de realidades injustas, tanto quanto tornou o embate no campo da política muito mais democrático.
      Meu objetivo aqui é chamar a atenção para um aspecto que me parece muito profundo e definidor de nossas relações atuais. A sociedade brasileira, assim como outras, mas da sua forma particular, sempre foi atravessada pela violência. Fundada na eliminação do outro, primeiro dos povos indígenas, depois dos negros escravizados, sua base foi o esvaziamento do diferente como pessoa, e seus ecos continuam fortes. A internet trouxe um novo elemento a esse contexto. Quero entender como indivíduos se apropriaram de suas possibilidades para exercer seu ódio – e como essa experiência alterou nosso cotidiano para muito além da rede.

(“A boçalidade do mal”. http://brasil.elpais.com, 02.03.2015. Adaptado.)
Segundo o texto, se “a banalidade do mal se instala na ausência do pensamento”, pode-se inferir que a “boçalidade do mal” ocorre na ausência de
Alternativas

Gabarito comentado

Confira o gabarito comentado por um dos nossos professores

Gabarito comentado – Interpretação de Texto: Inferência

Tema central: Interpretação e inferência textual. A questão exige que o candidato reconheça uma relação de analogia proposta no texto: se “a banalidade do mal se instala na ausência do pensamento”, onde se instala então a “boçalidade do mal”?

Alternativa correta: D) pudor na exposição dos pensamentos mais íntimos

Justificativa: O comando pede uma inferência, ou seja, exige do candidato a habilidade de deduzir uma informação ali presente de forma implícita. A autora descreve que as redes sociais revelaram o que antes ficava oculto nos pensamentos mais íntimos, mostrando “a barbárie íntima e cotidiana”. Ou seja, a “boçalidade do mal” acontece quando as pessoas não têm mais pudor em expor esses pensamentos negativos e preconceituosos. Pudor é o cuidado em preservar a intimidade e evitar expor aquilo que é íntimo ou socialmente condenável.

Segundo Koch & Travaglia, inferência depende de associar informações não explícitas do texto ao conhecimento de mundo: aqui, nota-se que a autora compara a ausência de pensamento à banalidade do mal, e, analogamente, a ausência de pudor à boçalidade do mal nas redes sociais.

Análise das alternativas incorretas:

A) Fala em “ausência de liberdade de expressão”. O texto, ao contrário, mostra excesso ou mau uso dessa liberdade, não sua ausência.

B) Destaca “reflexão sobre a banalidade do mal”, mas o conceito pedido não envolve refletir sobre isso, e sim sobre a disposição em expor publicamente ideias íntimas e preconceituosas.

C) Menciona a ausência de autoconhecimento (“conhecimento do eu mais profundo”). Ocorre que a autora ressalta o contrário: esses pensamentos são, de fato, expostos.

E) Cita “ausência de perspectiva histórica sobre a violência” – erro, pois essa é uma análise paralela feita pela autora, mas não define a “boçalidade do mal”.

Dica para provas: Sempre identifique o termo-chave do texto e relacione as alternativas com os exemplos e situações citadas. Atenção especial à analogia estrutural proposta no enunciado! Busque no texto trechos em que o autor estabelece comparações implícitas; isso costuma cair em provas de vestibular e concursos.

Gostou do comentário? Deixe sua avaliação aqui embaixo!

Clique para visualizar este gabarito

Visualize o gabarito desta questão clicando no botão abaixo