Segundo a autora, a “boçalidade do mal”

Próximas questões
Com base no mesmo assunto
Ano: 2017 Banca: VUNESP Órgão: SÃO CAMILO Prova: VUNESP - 2017 - SÃO CAMILO - Processo Seletivo - 2º Semestre de 2017 - Medicina |
Q1799414 Português
Leia o texto de Eliane Brum para responder à questão.

     Hannah Arendt alcançou o conceito de “a banalidade do mal” ao testemunhar o julgamento do nazista Adolf Eichmann, em Jerusalém, e perceber que ele não era um monstro com um cérebro deformado, nem demonstrava um ódio pessoal e profundo pelos judeus. Eichmann era um homem decepcionantemente comezinho que acreditava apenas ter seguido as regras do Estado e obedecido à lei vigente ao desempenhar seu papel no assassinato de milhões de seres humanos. Eichmann seria só mais um burocrata cumprindo ordens que não lhe ocorreu questionar. A banalidade do mal se instala na ausência do pensamento.
      A boçalidade do mal, uma das explicações possíveis para o atual momento, é um fenômeno gerado pela experiência da internet. Ou pelo menos ligado a ela. Desde que as redes sociais abriram a possibilidade de que cada um expressasse livremente, digamos, o seu “eu mais profundo”, a sua “verdade mais intrínseca”, descobrimos a extensão da cloaca humana. O que se passou foi que descobrimos não apenas o que cada um faz entre quatro paredes, mas também o que acontece entre as duas orelhas de cada um. Descobrimos o que cada um de fato pensa sem nenhuma mediação ou freio. E descobrimos que a barbárie íntima e cotidiana sempre esteve lá, aqui, para além do que poderíamos supor, em dimensões da realidade que só a ficção tinha dado conta até então.
      Descobrimos, por exemplo, que aquele vizinho simpático com quem trocávamos amenidades bem educadas no elevador defende o linchamento de homossexuais. E que mesmo os mais comedidos são capazes de exercer sua crueldade e travesti-la de liberdade de expressão. Nas postagens e comentários das redes sociais, seus autores deixam claro o orgulho do seu ódio e muitas vezes também da sua ignorância. Com frequência reivindicam uma condição de “cidadãos de bem” como justificativa para cometer todo o tipo de maldade, assim como para exercer com desenvoltura seu racismo, sua coleção de preconceitos e sua abissal intolerância com qualquer diferença.
    Ainda temos muito a investigar sobre como a internet, uma das poucas coisas que de fato merecem ser chamadas de revolucionárias, transformou a nossa vida e o nosso modo de pensar e a forma como nos enxergamos. A mesma possibilidade de se mostrar, que nos revelou o ódio, gerou também experiências maravilhosas, inclusive de negação do ódio. Do mesmo modo, a internet ampliou a denúncia de atrocidades e a transformação de realidades injustas, tanto quanto tornou o embate no campo da política muito mais democrático.
      Meu objetivo aqui é chamar a atenção para um aspecto que me parece muito profundo e definidor de nossas relações atuais. A sociedade brasileira, assim como outras, mas da sua forma particular, sempre foi atravessada pela violência. Fundada na eliminação do outro, primeiro dos povos indígenas, depois dos negros escravizados, sua base foi o esvaziamento do diferente como pessoa, e seus ecos continuam fortes. A internet trouxe um novo elemento a esse contexto. Quero entender como indivíduos se apropriaram de suas possibilidades para exercer seu ódio – e como essa experiência alterou nosso cotidiano para muito além da rede.

(“A boçalidade do mal”. http://brasil.elpais.com, 02.03.2015. Adaptado.)
Segundo a autora, a “boçalidade do mal”
Alternativas

Gabarito comentado

Confira o gabarito comentado por um dos nossos professores

Tema central da questão: Interpretação de texto, com foco na análise de coerência textual e na identificação precisa da ideia principal do texto, ressaltando relações entre fenômenos sociais e tecnologia.

O comando pede que o candidato interprete, de acordo com o texto de Eliane Brum, o conceito de “boçalidade do mal”. Assim, a estratégia correta é localizar passagens-chave do texto e compreender o sentido exposto pela autora, atentando-se à relação entre internet e fenômenos históricos.

Justificativa da alternativa correta (E):

A alternativa E é a única que estabelece que a “boçalidade do mal” está vinculada à experiência da internet, mas também possui raízes na violência histórica do cotidiano brasileiro. Essa leitura está perfeitamente alinhada à argumentação da autora:

“A sociedade brasileira [...] sempre foi atravessada pela violência. [...] A internet trouxe um novo elemento a esse contexto”.

Dessa forma, a alternativa E oferece plena coerência ao conteúdo do texto: o fenômeno não se restringe ao espaço virtual, mas ultrapassa-o, ligado à depreciação histórica do “outro”.

Análise das alternativas incorretas:

AIncorreta: confunde o conceito de “banalidade do mal” com “boçalidade do mal” e atribui à Alemanha nazista uma origem que o texto não menciona.

BIncorreta: ressalta apenas os aspectos positivos da internet (debate, denúncia), mas omite o foco no ódio e no exercício da maldade, centrais para o conceito trabalhado.

CIncorreta: impõe uma crítica normativa sobre liberdade de expressão e regulação, aspectos não discutidos pela autora.

DIncorreta: limita o fenômeno ao virtual, sem relação concreta com o cotidiano, contrariando o texto, que enfatiza a continuidade histórica da violência.

Estratégias importantes:

Ao interpretar textos, busque sempre as palavras-chave e relações de causa e consequência. Atenção para expressões como “além”, “também”, “mas”, que expandem ou corrigem sentidos.

Reforço de teoria:

Celso Cunha e Lindley Cintra (em “Nova Gramática...”) e Evanildo Bechara ensinam que coerência textual é a base do sentido global do texto — sempre procure a alternativa que abarca o conjunto das ideias, não apenas uma parte isolada.

Gostou do comentário? Deixe sua avaliação aqui embaixo!

Clique para visualizar este gabarito

Visualize o gabarito desta questão clicando no botão abaixo