Questões de Vestibular Comentadas sobre português

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Ano: 2024 Banca: COMVEST - UNICAMP Órgão: UNICAMP Prova: COMVEST - UNICAMP - 2024 - UNICAMP - Vestibular |
Q3107222 Português
Qual o macete de ‘Macetando’?

Macetar, verbo transitivo: “golpear (alguém ou algo) com maceta ou macete, um martelo de cabo curto”. A definição está nos dicionários, mas o carnaval, como de praxe, mascarou o significado a seu bel-prazer. O coro da multidão que acompanhou Ivete Sangalo na abertura da folia de Salvador comprova que essa é a época ideal para enriquecer o vocabulário. Música gravada pela cantora baiana com participação de Ludmilla, “Macetando” despontou como hit nacional ao encher a boca do povo com o refrão-chiclete: “Ah, bebê, é a Veveta que tá no comando / Macetando, macetando, macetando...”.
(Adaptado de CUNHA, G. Qual o macete de ‘macetando’? O Globo (versão online), 10/02/2024.)


Na letra da música em questão, um dos aspectos que contribuem para o mascaramento do significado de macetar é
Alternativas
Q3042312 Português

Texto 8



“Divertida Mente 2” já é o maior sucesso de bilheteira da história da Pixar


A animação “Divertida Mente 2”, da Pixar, lançado há pouco mais de três semanas, está sendo um sucesso nas bilheterias e, no Brasil, se tornou a maior bilheteria da história. Isso porque Divertida Mente 2 arrecadou até agora R$ 355 milhões. Com o número, a animação ultrapassou o marco de Vingadores: Ultimato, que abocanhou R$ 353 milhões no país em 2019.


Além do sucesso no Brasil, a continuação conquistou números impressionantes mundialmente. Ao todo, Divertida Mente 2 atingiu US$ 1.29 bilhão e entrou para a lista de animações com maiores bilheterias do cinema, ultrapassando Frozen: Uma Aventura Congelante (US$1.28 bi) e Os Incríveis 2 (US$1.24 bi) .Além disso, Divertida Mente 2 também chamou atenção por ter levado apenas 19 dias para passar a marca de US$ 1 bilhão mundialmente – antes disso, o recorde era de Frozen 2, com 25 dias.



Disponível em: https://istoe.com.br/divertidamente-2-ja-e-o-maior-sucesso-de-bilheteira-da-historia-dapixar/#:~:text=Isso%20porque%20Divertida%20Mente%202,continua%C3%A7%C3%A3o%20conquistou%20n%C3%BAmeros%20impressionante s%20mundialmente. Acesso em: 16 jul. 2024. Adaptado.

A construção de sentido do texto provém da organização de palavras e frases, gerando relações semânticas, marcadas por determinados operadores argumentativos. A esse respeito, é possível afirmar sobre os termos destacados, no texto 08, que
Alternativas
Q3042311 Português

Texto 8



“Divertida Mente 2” já é o maior sucesso de bilheteira da história da Pixar


A animação “Divertida Mente 2”, da Pixar, lançado há pouco mais de três semanas, está sendo um sucesso nas bilheterias e, no Brasil, se tornou a maior bilheteria da história. Isso porque Divertida Mente 2 arrecadou até agora R$ 355 milhões. Com o número, a animação ultrapassou o marco de Vingadores: Ultimato, que abocanhou R$ 353 milhões no país em 2019.


Além do sucesso no Brasil, a continuação conquistou números impressionantes mundialmente. Ao todo, Divertida Mente 2 atingiu US$ 1.29 bilhão e entrou para a lista de animações com maiores bilheterias do cinema, ultrapassando Frozen: Uma Aventura Congelante (US$1.28 bi) e Os Incríveis 2 (US$1.24 bi) .Além disso, Divertida Mente 2 também chamou atenção por ter levado apenas 19 dias para passar a marca de US$ 1 bilhão mundialmente – antes disso, o recorde era de Frozen 2, com 25 dias.



Disponível em: https://istoe.com.br/divertidamente-2-ja-e-o-maior-sucesso-de-bilheteira-da-historia-dapixar/#:~:text=Isso%20porque%20Divertida%20Mente%202,continua%C3%A7%C3%A3o%20conquistou%20n%C3%BAmeros%20impressionante s%20mundialmente. Acesso em: 16 jul. 2024. Adaptado.

Analise as afirmativas a seguir e marque a alternativa que melhor caracteriza o texto lido. 
Alternativas
Q3042305 Português

Texto 1


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A partir da leitura do texto do quadrinho e dos recursos verbais e não verbais que constituem esse gênero textual, é CORRETO afirmar que:

Alternativas
Ano: 2023 Banca: UNICENTRO Órgão: UNICENTRO Prova: UNICENTRO - 2023 - UNICENTRO - Vestibular |
Q3910171 Português
Leia o trecho do romance A Falência, de Júlia Lopes de Almeida, a seguir.
– O livro? – Está aqui. – Já leu? – Já. Trata-se de um amor um pouco parecido com o nosso. – Então não leio. Sei que está cheio de injustiças e de mentiras perversas. Os senhores romancistas não perdoam às mulheres; fazem-nas responsáveis por tudo – como se não pagássemos caro a felicidade que fruímos! Nesses livros tenho sempre medo do fim; revolto-me contra os castigos que eles infligem às nossas culpas, e desespero-me por não poder gritar-lhes: hipócritas! hipócritas! Leve o seu livro; não me torne a trazer desses romances. Basta-me o nosso para eu ter medo do fim. – Não tenha remorsos; o nosso não acabará! – Remorsos... remorsos de quê? Pensa, Gervásio, que, desde o primeiro ano de casado, o meu marido não me traiu também? Qual é a mulher, por mais estúpida, ou mais indiferente, que não adivinhe, que não sinta o adultério do marido no próprio dia em que ele é cometido? Há sempre um vestígio da outra, que se mostra em um gesto, em um perfume, em uma palavra, em um carinho...
(ALMEIDA, J. L. A Falência. São Paulo: Via Leitura, 2018. p.31-32.)
Com base nesse trecho e na leitura integral desse romance, assinale a alternativa correta. 
Alternativas
Ano: 2023 Banca: UNICENTRO Órgão: UNICENTRO Prova: UNICENTRO - 2023 - UNICENTRO - Vestibular |
Q3910168 Português
Leia o texto a seguir e responda à questão.

An old drug offers a new way to stop STIs

July 11, 2023 5:04 AM ET
By Will Stone

A promising line of attack against sexually transmitted infections puts a cheap and widely available medication to a new use. The treatment – a form of post-exposure prophylaxis, or PEP – is a dose of the antibiotic doxycycline taken in the hours immediately after sex which works to extinguish an STI before it leads to symptoms or spreads to others. A growing body of research shows using doxycycline in this way can substantially lower the risk of contracting three of the most common bacterial STIs – chlamydia, gonorrhea and syphilis. Called doxy-PEP, the preventative treatment has instilled enough confidence that the Center for Disease Control and Prevention plans to roll out guidance later this summer to give doctors and public health departments a roadmap for how to offer it. While doxy-PEP will not be recommended for everyone, including most women, and the implications for antibiotic resistance need to be closely monitored, experts say its potential to curb the rising rates of STIs cannot be ignored. “Our efforts to control STIs for the last 50 years have not succeeded,” says Dr. Edward Hook, a professor of medicine and epidemiology at the University Alabama, Birmingham. “It’s time to do something different.”

(Disponível em: . Acesso em: 11 set. 2023.)
Acerca dos recursos de construção do texto, considere as afirmativas a seguir.
I. As expressões “marinheiros da esquadra de Cabral” e “colonização real do território” são empregadas como sinônimas na progressão textual.
II. O uso do trecho “embranquecer a população brasileira” exemplifica uma figura de linguagem chamada hipérbole.
III. Os trechos “falantes de idiomas diferentes” e “ambiente multilíngue” apresentam equivalência de sentidos no contexto utilizado.
IV. O uso da expressão “Brasil cada vez mais negro” está no sentido denotativo, conforme as informações veiculadas no texto.
Assinale a alternativa correta.
Alternativas
Ano: 2023 Banca: UNICENTRO Órgão: UNICENTRO Prova: UNICENTRO - 2023 - UNICENTRO - Vestibular |
Q3910167 Português
Leia o texto a seguir e responda à questão.

An old drug offers a new way to stop STIs

July 11, 2023 5:04 AM ET
By Will Stone

A promising line of attack against sexually transmitted infections puts a cheap and widely available medication to a new use. The treatment – a form of post-exposure prophylaxis, or PEP – is a dose of the antibiotic doxycycline taken in the hours immediately after sex which works to extinguish an STI before it leads to symptoms or spreads to others. A growing body of research shows using doxycycline in this way can substantially lower the risk of contracting three of the most common bacterial STIs – chlamydia, gonorrhea and syphilis. Called doxy-PEP, the preventative treatment has instilled enough confidence that the Center for Disease Control and Prevention plans to roll out guidance later this summer to give doctors and public health departments a roadmap for how to offer it. While doxy-PEP will not be recommended for everyone, including most women, and the implications for antibiotic resistance need to be closely monitored, experts say its potential to curb the rising rates of STIs cannot be ignored. “Our efforts to control STIs for the last 50 years have not succeeded,” says Dr. Edward Hook, a professor of medicine and epidemiology at the University Alabama, Birmingham. “It’s time to do something different.”

(Disponível em: . Acesso em: 11 set. 2023.)
Sobre os recursos linguístico-semânticos utilizados no texto, considere as afirmativas a seguir.
I. Em “num ambiente multilíngue cuja única constante era o português”, o pronome “cuja” pode ser substituído pelo termo “onde”, sem prejuízo de sentido.
II. No fragmento “a fim de garantir a manutenção de um modelo europeu”, a expressão “a fim de” indica a finalidade das atitudes vivenciadas no Brasil.
III. No trecho “onde havia africanos lusitanizados e portugueses”, a palavra “onde” pode ser substituída pela expressão “em que” sem alterar o sentido original.
IV. No trecho “ciclos econômicos como o do açúcar e o do café”, o termo “como” foi empregado para exemplificar as informações apresentadas.
Assinale a alternativa correta.
Alternativas
Ano: 2023 Banca: UNICENTRO Órgão: UNICENTRO Prova: UNICENTRO - 2023 - UNICENTRO - Vestibular |
Q3910166 Português
Leia o texto a seguir e responda à questão.

Aquela narrativa-padrão segundo a qual não houve tensões e conflitos em nossa formação linguística, que dizia que o português se instalou no Brasil e foi apenas “influenciado” pelas línguas dos povos originários e escravizados (ou, como ouvi na escola, de índios e escravos), já se provou inadequada para descrever o tamanho do impacto que tiveram na trajetória do nosso país as línguas que existiam aqui quando se deu o desembarque dos marinheiros da esquadra de Cabral.

A mesma coisa, você já deve estar imaginando, se aplica ao estudo das alterações geradas em nosso idioma pela presença dos africanos escravizados desde os primeiros momentos da colonização real do território, e de modo bem mais acentuado a partir do estabelecimento de ciclos econômicos como o do açúcar e o do café, que dependiam da exploração cada vez mais intensiva de números crescentes de escravizados. Não é à toa que, descontada a fortuna singular do nheengatu, cujo destino ia se desenrolando numa área que estava (e, em certa medida, ainda está) “isolada” do Brasil litorâneo e mais densamente povoado, o fim do período de ouro da língua geral paulista coincida com o início desse novo modelo econômico.

Num movimento que partia fundamentalmente do Nordeste açucareiro (onde as línguas gerais nunca tiveram a mesma prevalência), o Brasil de brancos e indígenas seria substituído por um Brasil cada vez mais negro. E de maneira curiosa, e até irônica, como veremos, quando se pensa nas tentativas conscientes de embranquecer a população brasileira a partir de meados do século XIX, a fim de garantir a manutenção de um modelo europeu, talvez o fator determinante para a vitória do português em terras brasileiras tenha sido a dispersão dessa mão de obra negra por seu território. [...]

Uma alteração importante nesse nosso ponto de vista é a noção de que alguns escravizados podem já ter chegado ao Brasil com graus variados de conhecimento da língua portuguesa. Primeiro, porque a presença do idioma em Angola ia se estabelecendo como uma realidade. Segundo, pelo fato de que as pessoas capturadas em regiões no interior com frequência acabavam passando longos períodos presas nos entrepostos do litoral. Nessas feitorias, onde havia africanos lusitanizados e portugueses, é possível que a língua estivesse se instalando como instrumento de contato entre falantes de idiomas diferentes. Antes de aportarem no Rio de Janeiro ou em Salvador, essas pessoas faziam viagens transatlânticas que, a depender dos pontos de partida e de chegada, podiam se estender por cerca de três meses, de novo num ambiente multilíngue cuja única constante era o português.

(GALINDO, C. W. Latim em pó: um passeio pela formação do nosso português. São Paulo: Companhia das Letras, 2022. p.164- 165;172.) 
Em relação à formação das palavras usadas no texto, assinale a alternativa correta. 
Alternativas
Ano: 2023 Banca: UNICENTRO Órgão: UNICENTRO Prova: UNICENTRO - 2023 - UNICENTRO - Vestibular |
Q3910165 Português
Leia o texto a seguir e responda à questão.

Aquela narrativa-padrão segundo a qual não houve tensões e conflitos em nossa formação linguística, que dizia que o português se instalou no Brasil e foi apenas “influenciado” pelas línguas dos povos originários e escravizados (ou, como ouvi na escola, de índios e escravos), já se provou inadequada para descrever o tamanho do impacto que tiveram na trajetória do nosso país as línguas que existiam aqui quando se deu o desembarque dos marinheiros da esquadra de Cabral.

A mesma coisa, você já deve estar imaginando, se aplica ao estudo das alterações geradas em nosso idioma pela presença dos africanos escravizados desde os primeiros momentos da colonização real do território, e de modo bem mais acentuado a partir do estabelecimento de ciclos econômicos como o do açúcar e o do café, que dependiam da exploração cada vez mais intensiva de números crescentes de escravizados. Não é à toa que, descontada a fortuna singular do nheengatu, cujo destino ia se desenrolando numa área que estava (e, em certa medida, ainda está) “isolada” do Brasil litorâneo e mais densamente povoado, o fim do período de ouro da língua geral paulista coincida com o início desse novo modelo econômico.

Num movimento que partia fundamentalmente do Nordeste açucareiro (onde as línguas gerais nunca tiveram a mesma prevalência), o Brasil de brancos e indígenas seria substituído por um Brasil cada vez mais negro. E de maneira curiosa, e até irônica, como veremos, quando se pensa nas tentativas conscientes de embranquecer a população brasileira a partir de meados do século XIX, a fim de garantir a manutenção de um modelo europeu, talvez o fator determinante para a vitória do português em terras brasileiras tenha sido a dispersão dessa mão de obra negra por seu território. [...]

Uma alteração importante nesse nosso ponto de vista é a noção de que alguns escravizados podem já ter chegado ao Brasil com graus variados de conhecimento da língua portuguesa. Primeiro, porque a presença do idioma em Angola ia se estabelecendo como uma realidade. Segundo, pelo fato de que as pessoas capturadas em regiões no interior com frequência acabavam passando longos períodos presas nos entrepostos do litoral. Nessas feitorias, onde havia africanos lusitanizados e portugueses, é possível que a língua estivesse se instalando como instrumento de contato entre falantes de idiomas diferentes. Antes de aportarem no Rio de Janeiro ou em Salvador, essas pessoas faziam viagens transatlânticas que, a depender dos pontos de partida e de chegada, podiam se estender por cerca de três meses, de novo num ambiente multilíngue cuja única constante era o português.

(GALINDO, C. W. Latim em pó: um passeio pela formação do nosso português. São Paulo: Companhia das Letras, 2022. p.164- 165;172.) 
Acerca dos recursos linguísticos empregados no texto, considere as afirmativas a seguir.
I. As aspas usadas em determinadas palavras do texto servem para enfatizar ou ironizar as ideias apresentadas.
II. O uso dos parênteses ao longo do texto gera um efeito de sentido redundante às ideias que são expostas.
III. No segundo parágrafo, o uso do termo “você” tem o objetivo de tornar o texto mais formal devido ao assunto tratado.
IV. No terceiro parágrafo, o uso da expressão “como veremos” indica a inclusão do leitor no processo de leitura.
Assinale a alternativa correta.
Alternativas
Ano: 2023 Banca: UNICENTRO Órgão: UNICENTRO Prova: UNICENTRO - 2023 - UNICENTRO - Vestibular |
Q3910164 Português
Leia o texto a seguir e responda à questão.

Aquela narrativa-padrão segundo a qual não houve tensões e conflitos em nossa formação linguística, que dizia que o português se instalou no Brasil e foi apenas “influenciado” pelas línguas dos povos originários e escravizados (ou, como ouvi na escola, de índios e escravos), já se provou inadequada para descrever o tamanho do impacto que tiveram na trajetória do nosso país as línguas que existiam aqui quando se deu o desembarque dos marinheiros da esquadra de Cabral.

A mesma coisa, você já deve estar imaginando, se aplica ao estudo das alterações geradas em nosso idioma pela presença dos africanos escravizados desde os primeiros momentos da colonização real do território, e de modo bem mais acentuado a partir do estabelecimento de ciclos econômicos como o do açúcar e o do café, que dependiam da exploração cada vez mais intensiva de números crescentes de escravizados. Não é à toa que, descontada a fortuna singular do nheengatu, cujo destino ia se desenrolando numa área que estava (e, em certa medida, ainda está) “isolada” do Brasil litorâneo e mais densamente povoado, o fim do período de ouro da língua geral paulista coincida com o início desse novo modelo econômico.

Num movimento que partia fundamentalmente do Nordeste açucareiro (onde as línguas gerais nunca tiveram a mesma prevalência), o Brasil de brancos e indígenas seria substituído por um Brasil cada vez mais negro. E de maneira curiosa, e até irônica, como veremos, quando se pensa nas tentativas conscientes de embranquecer a população brasileira a partir de meados do século XIX, a fim de garantir a manutenção de um modelo europeu, talvez o fator determinante para a vitória do português em terras brasileiras tenha sido a dispersão dessa mão de obra negra por seu território. [...]

Uma alteração importante nesse nosso ponto de vista é a noção de que alguns escravizados podem já ter chegado ao Brasil com graus variados de conhecimento da língua portuguesa. Primeiro, porque a presença do idioma em Angola ia se estabelecendo como uma realidade. Segundo, pelo fato de que as pessoas capturadas em regiões no interior com frequência acabavam passando longos períodos presas nos entrepostos do litoral. Nessas feitorias, onde havia africanos lusitanizados e portugueses, é possível que a língua estivesse se instalando como instrumento de contato entre falantes de idiomas diferentes. Antes de aportarem no Rio de Janeiro ou em Salvador, essas pessoas faziam viagens transatlânticas que, a depender dos pontos de partida e de chegada, podiam se estender por cerca de três meses, de novo num ambiente multilíngue cuja única constante era o português.

(GALINDO, C. W. Latim em pó: um passeio pela formação do nosso português. São Paulo: Companhia das Letras, 2022. p.164- 165;172.) 
Sobre as ideias veiculadas no texto, assinale a alternativa correta.
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Ano: 2023 Banca: CECIERJ Órgão: CEDERJ Prova: CECIERJ - 2023 - CEDERJ - Vestibular - Primeiro Semestre |
Q3777740 Português
Considere o texto sobre a agricultura nacional.

A agricultura brasileira é reconhecida como altamente competitiva e geradora de empregos, de riqueza, de alimentos, de fibras e de bioenergia para o Brasil e para outros países. É um dos setores que mais contribui para o crescimento do PIB nacional e que responde por 21% da soma de todas as riquezas produzidas, um quinto de todos os empregos e 43,2% das exportações brasileiras.

Disponível em: https://www.embrapa.br/vii-plano-diretor/aagricultura-brasileira. Acesso em: 25 out. 2023. Adaptado.

No território nacional, o setor agrícola é responsável pela manutenção do: 
Alternativas
Ano: 2023 Banca: UNEB Órgão: UNEB Prova: UNEB - 2023 - UNEB - Vestibular - 1º Dia |
Q3728798 Português
Texto A

    De repente a ladeira começou a animar-se. Do largo da sé, da Baixa dos Sapateiros, do Carmo, surgiram homens e mulheres apressados e aflitos. Não vinham pela morte de Pedro Archanjo, sábio autor de livros sobre miscigenação, talvez definitivos, e, sim, pela morte de Ojuobá, os olhos de Xangô, um pai daquele povo. Do castelo de Ester, a notícia se propagara de boca em boca, de porta em porta, de casarão em casarão, rua afora, escada acima, ladeira abaixo e nos becos. Chegou ao largo da Sé a tempo de embarcar nos primeiros bondes e ônibus.
    Mulheres arrancadas do sono ou dos braços de tardos fregueses para a lágrima e a lamentação. Trabalhadores de horário preciso, vagabundos sem relógio de ponto, bêbados e mendigos, habitantes dos sobradões, dos infectos cortiços, árabes de prestação, moços e velhos, gente de santo e comerciantes do Terreiro de Jesus, um carroceiro com sua carroça, e Ester, um quimono sobre a nudez mostrando tudo a quem quisesse ver. Mas, quem ia se aproveitar, se ela puxava os cabelos e batia nos peitos:
    — Ai, Archanjo, meu santo, por que não disse que estava doente? Como eu ia saber? Agora, Ojuobá, como vai ser? Tu era a luz da gente, nossos olhos de ver, nossa boca de falar. Tu era a coragem da gente e nosso entendimento. Tu sabia de ontem e de amanhã, quem mais vai saber?
    Quem, ai, quem? Na hora do espanto, homens e mulheres encaravam a morte nua e crua, ali na sarjeta, despida de qualquer enfeite, do menor consolo. Pedro Archanjo Ojuobá ainda não se fizera memória, tão somente morte e nada mais.


AMADO, Jorge. Tenda dos milagres. Disponível em: <https://www.terra.com.br/diversao/infograficos/jorge-amado-centenario/pdf/tenda-dos-milagres.pdf.> Acesso em: 12 dez. 2022.


Texto B

    Já naquela hora a notícia da inesperada morte de Quincas Berro D’água circulava pelas ruas da Bahia. É bem verdade que os pequenos comerciantes do Mercado não fecharam suas portas em sinal de luto. Em compensação, imediatamente aumentaram os preços dos balangandãs, das bolsas de palha, das esculturas de barro que vendiam aos turistas, assim homenageavam o morto. Houve nas imediações do Mercado ajuntamentos precipitados, pareciam comícios relâmpagos, gente andando de um lado para outro, a notícia no ar, subindo o Elevador Lacerda, viajando nos bondes para a Calçada, ia de ônibus para a Feira de Santana. Debulhou-se em lágrimas a graciosa negra Paula, ante seu tabuleiro de beijus de tapioca. Não viria Berro D’água naquela tarde dizerlhe galanteios torneados, espiar-lhe os seios vastos, propor-lhe indecências, fazendo-a rir.
    Nos saveiros de velas arriadas, os homens do reino de Iemanjá, os bronzeados marinheiros, não escondiam sua decepcionada surpresa: como pudera acontecer essa morte num quarto do Tabuão, como fora o velho marinheiro desencarnar numa cama? Não proclamara, peremptório, e tantas vezes, Quincas Berro D’água, com voz e jeito capazes de convencer ao mais descrente, que jamais morreria em terra, que só um túmulo era digno de sua picardia: o mar banhado de lua, as águas sem fim? 

AMADO, Jorge. A morte e a morte de Quincas Berro D’água. Rio de janeiro: Record, 1991, p. 53.
Texto C

    “Esta cidade acabou-se”, pensou Gregório de Matos, olhando pela janela do sobrado, no terreiro de Jesus. “Não é mais a Bahia. Antigamente, havia muito respeito. Hoje, até dentro da praça, nas barbas da infantaria, nas bochechas dos granachas, na frente da forca, fazem assaltos à vista.” [...]          As pessoas que caminhavam pela praça naquele momento eram, na maioria, negros, escravos ou mestiços trabalhadores. Muitos iam para as igrejas. Os sinos chamavam, repicando.
    Da janela, Gregório de Matos acompanhou com os olhos a passagem do governador entre pessoas de diversos mundos e reinos distintos. Reinóis, que chamavam de maganos, fugidos de seus país ou degredados de seus reinos por terem cometidos crimes, pobres que não tinham o que comer em sua terra, ambiciosos, aventureiros, ingênuos desonestos, desesperançados, saltavam sem cessar no cais da colônia. Alguns chegavam em extrema miséria, descalços, rotos, despidos, e pouco tempo depois retornavam, ricos, com casas alugadas, dinheiro e navios. [...] Eram também persas, magores, armênios, gregos, infiéis e outros gentios. [...] A todos, a cidade dava entrada.

MIRANDA, Ana. Boca do Inferno. São Paulo: Companhia das Letras, 1989, p. 13-14.

Sobre o texto C – Boca do Inferno – comparado aos textos A e B, marque V ou F, conforme sejam verdadeiras ou falsas as afirmativas acerca deles.

( ) O texto C, com a personagem Gregório de Matos, reitera a proposta literária da obra Tenda dos Milagres, em que Pedro Arcanjo ficou conhecido, no meio acadêmico cultural, pelas suas observações sociais sobre a cidade da Bahia. 
( ) O texto C apresenta-se mais rico de informações sobre o processo de formação étnica e cultural em que se construiu a sociedade da cidade da Bahia que os demais textos.
( ) As descrições que entremeiam as narrativas dos três textos, permitem dizer que as obras apresentam um mesmo contexto social e histórico da cidade da Bahia.
( ) O uso de um discurso indireto, enquanto recurso de estilo literário, está presente no texto C, assim como o de um discurso direto, no texto A.
( ) O registro de alguns deslizes no uso da língua portuguesa em relação à norma culta ocorre, indistintamente, nos três fragmentos.

A alternativa que contém a sequência correta, de cima para baixo, é a
Alternativas
Ano: 2023 Banca: UNEB Órgão: UNEB Prova: UNEB - 2023 - UNEB - Vestibular - 1º Dia |
Q3728797 Português
Texto A

    De repente a ladeira começou a animar-se. Do largo da sé, da Baixa dos Sapateiros, do Carmo, surgiram homens e mulheres apressados e aflitos. Não vinham pela morte de Pedro Archanjo, sábio autor de livros sobre miscigenação, talvez definitivos, e, sim, pela morte de Ojuobá, os olhos de Xangô, um pai daquele povo. Do castelo de Ester, a notícia se propagara de boca em boca, de porta em porta, de casarão em casarão, rua afora, escada acima, ladeira abaixo e nos becos. Chegou ao largo da Sé a tempo de embarcar nos primeiros bondes e ônibus.
    Mulheres arrancadas do sono ou dos braços de tardos fregueses para a lágrima e a lamentação. Trabalhadores de horário preciso, vagabundos sem relógio de ponto, bêbados e mendigos, habitantes dos sobradões, dos infectos cortiços, árabes de prestação, moços e velhos, gente de santo e comerciantes do Terreiro de Jesus, um carroceiro com sua carroça, e Ester, um quimono sobre a nudez mostrando tudo a quem quisesse ver. Mas, quem ia se aproveitar, se ela puxava os cabelos e batia nos peitos:
    — Ai, Archanjo, meu santo, por que não disse que estava doente? Como eu ia saber? Agora, Ojuobá, como vai ser? Tu era a luz da gente, nossos olhos de ver, nossa boca de falar. Tu era a coragem da gente e nosso entendimento. Tu sabia de ontem e de amanhã, quem mais vai saber?
    Quem, ai, quem? Na hora do espanto, homens e mulheres encaravam a morte nua e crua, ali na sarjeta, despida de qualquer enfeite, do menor consolo. Pedro Archanjo Ojuobá ainda não se fizera memória, tão somente morte e nada mais.


AMADO, Jorge. Tenda dos milagres. Disponível em: <https://www.terra.com.br/diversao/infograficos/jorge-amado-centenario/pdf/tenda-dos-milagres.pdf.> Acesso em: 12 dez. 2022.


Texto B

    Já naquela hora a notícia da inesperada morte de Quincas Berro D’água circulava pelas ruas da Bahia. É bem verdade que os pequenos comerciantes do Mercado não fecharam suas portas em sinal de luto. Em compensação, imediatamente aumentaram os preços dos balangandãs, das bolsas de palha, das esculturas de barro que vendiam aos turistas, assim homenageavam o morto. Houve nas imediações do Mercado ajuntamentos precipitados, pareciam comícios relâmpagos, gente andando de um lado para outro, a notícia no ar, subindo o Elevador Lacerda, viajando nos bondes para a Calçada, ia de ônibus para a Feira de Santana. Debulhou-se em lágrimas a graciosa negra Paula, ante seu tabuleiro de beijus de tapioca. Não viria Berro D’água naquela tarde dizerlhe galanteios torneados, espiar-lhe os seios vastos, propor-lhe indecências, fazendo-a rir.
    Nos saveiros de velas arriadas, os homens do reino de Iemanjá, os bronzeados marinheiros, não escondiam sua decepcionada surpresa: como pudera acontecer essa morte num quarto do Tabuão, como fora o velho marinheiro desencarnar numa cama? Não proclamara, peremptório, e tantas vezes, Quincas Berro D’água, com voz e jeito capazes de convencer ao mais descrente, que jamais morreria em terra, que só um túmulo era digno de sua picardia: o mar banhado de lua, as águas sem fim? 

AMADO, Jorge. A morte e a morte de Quincas Berro D’água. Rio de janeiro: Record, 1991, p. 53.
Os textos A e B, embora retirados de obras distintas, apresentam semelhanças em variados aspectos na sua construção.

As afirmativas que encontram respaldo nos fragmentos ou no contexto geral das suas obras estão em

I. A temática abordada nos fragmentos se estende por toda narrativa nas duas obras, tendo seu ponto alto nos desfechos, quando se concretiza o desejo das personagens principais.
II. A obra do texto A relata a vida de Arcanjo em dois tempos distintos: um como homem do povo e seu modo de vida, e outro como homem público, respeitado pela intelectualidade baiana, enquanto que, na obra do texto B, a vida de Quincas é apresentada de maneira inversa.  
III. Nas duas obras, o ponto de vista da narração dá-se sob o olhar de um narrador onisciente, e suas personagens fazem uso de uma linguagem apropriada à realidade delas, diferenciando-se, porém, na intenção literária de cada.
IV. O cenário apresentado e o tempo transcorrido em que se processam as narrativas, desde seu início até o final, dão-se de maneira idêntica, entremeando passado e presente em iguais condições sociais e profissionais de seus personagens, Pedro Arcanjo e Berro D’água.
V. As circunstâncias em que se deu a morte de Pedro Arcanjo e Berro D’água, o comportamento de seus amigos em relação ao fato e o desenrolar do fluxo das narrativas, desde a morte até o final, apresenta-se, de maneira idêntica, nas duas obras.

A alternativa em que todas as afirmativas indicadas estão corretas é a
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Ano: 2023 Banca: UEMA Órgão: UEMA Prova: UEMA - 2023 - UEMA - Vestibular |
Q3728708 Português
O trecho a seguir faz parte do livro, Um amor conquistado: o mito do amor materno, escrito pela pesquisadora francesa Elisabeth Badinter que desenvolveu uma análise crítica, a partir de uma perspectiva histórica e cultural das sociedades ocidentais, sobre a maneira que a ideia do amor materno é concebida e reproduzida socialmente.
      O amor materno é apenas um sentimento humano. E como todo sentimento, é incerto, frágil e imperfeito. (...) Observando-se a evolução das atitudes maternas, constata-se que o interesse e a dedicação à criança se manifestam ou não se manifestam. A ternura existe ou não existe. As diferentes maneiras de expressar o amor materno vão do mais ao menos, passando pelo nada, ou o quase nada. Na França, em meados do século XVIII o envio das crianças para a casa de amas se estende por todas as camadas da sociedade urbana. Dos mais pobres aos mais ricos, nas pequenas ou grandes cidades, a entrega dos filhos aos exclusivos cuidados de uma ama é um fenômeno generalizado.Todavia, é no último terço do século XVIII que se opera uma espécie de revolução das mentalidades. A imagem da mãe, de seu papel e de sua importância, modifica-se radicalmente, ainda que, na prática, os comportamentos tardassem a se alterar. São inúmeras as publicações que recomendam às mães cuidar pessoalmente dos filhos e lhes "ordenam" amamentá-los. Elas impõem, à mulher, a obrigação de ser mãe antes de tudo, e engendram o mito que continuará bem vivo duzentos anos mais tarde: o do instinto materno, ou do amor espontâneo de toda mãe pelo filho. Moralistas, administradores, médicos puseram-se em campo e expuseram seus argumentos mais sutis para persuadi-las a retornar a melhores sentimentos e a "dar novamente o seio". Outro discurso, mais sedutor aos seus ouvidos, esboçava-se atrás desse primeiro. Era o discurso da felicidade e da igualdade que as atingia acima de tudo. Durante quase dois séculos, todos os ideólogos lhes prometeram mundos e fundos se assumissem suas tarefas maternas: “Sede boas mães, e sereis felizes e respeitadas. Tornai-vos indispensáveis na família, e obtereis o direito de cidadania”. A curiosa, a ambiciosa, a audaciosa metamorfoseia-se numa criatura modesta e ponderada, cujas ambições não ultrapassam os limites do lar.
BADINTER, Elisabeth. Um amor conquistado: o mito do amor materno. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1985. Adaptado  
Ao analisar, sociologicamente, o texto, é correto afirmar que esse sentimento materno é
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Ano: 2023 Banca: UEMA Órgão: UEMA Prova: UEMA - 2023 - UEMA - Vestibular |
Q3728702 Português
Os casos de feminicídio, no século XXI, têm sido constantemente anunciados na mídia. Embora possa parecer “algo novo”, já se afirmava a violência à mulher em séculos anteriores. Leia os textos sobre o tema. O primeiro descreve as formas de opressão sofridas pelas mulheres; o segundo define o conceito de feminicídio no mundo contemporâneo.

TEXTO I
NAS MÃOS DE UM HOMEM, A LÓGICA É MUITAS VEZES VIOLÊNCIA
0 casamento incita o homem a um imperialismo caprichoso: a tentação de dominar é a mais universal, a mais irresistível que existe; muitas vezes não basta ao esposo ser aprovado, admirado, aconselhar, guiar: ele ordena, representa o papel de soberano. Todos os rancores acumulados em sua infância, durante sua vida, acumulados quotidianamente entre os outros homens cuja existência o freia e fere, ele descarrega em casa, acenando para a mulher com sua autoridade; mima a violência, a força, a intransigência: dá ordens com voz severa, ou grita, bate na mesa; essa comédia é para a mulher uma realidade quotidiana. Ele se acha tão convencido de seus direitos que a menor autonomia conservada pela mulher lhe parece uma rebeldia; gostaria de impedi-la de respirar sem ele.
BEAUVOIR, Simone. Segundo Sexo. São Paulo, Nova Fonteira: 2020.

TEXTO II
O CONCEITO DE FEMINICÍDIO
“Trata-se de um crime de ódio. O conceito surgiu na década de 1970 com o fim de reconhecer e dar visibilidade à discriminação, opressão, desigualdade e violência sistemática contra as mulheres, que, em sua forma mais aguda, culmina na morte. Essa forma de assassinato não constitui um evento isolado e nem repentino ou inesperado; ao contrário, faz parte de um processo contínuo de violências, cujas raízes misóginas caracterizam o uso de violência extrema. Inclui uma vasta gama de abusos, desde verbais, físicos e sexuais, como o estupro, e diversas formas de mutilação e de barbárie.”
Eleonora Menicucci
https://dossies.agenciapatriciagalvao.org.br/feminicidio/capitulos/o-que-e-feminicidio/#o-que-e-feminicidio.  
Da leitura dos dois textos, pode-se afirmar que Beauvoir já identificava, nos anos 40 do século XX, que a violência contra a mulher sempre foi
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Ano: 2023 Banca: UEMA Órgão: UEMA Prova: UEMA - 2023 - UEMA - Vestibular |
Q3728679 Português
Conceição Evaristo nasceu numa favela da zona sul de Belo Horizonte. Trabalhava como empregada doméstica, até concluir o Curso Normal, já então com 25 anos. Mudou-se para o Rio de Janeiro, tendo estudado Letras em uma universidade pública, a UFRJ. Suas obras abordam temas como discriminação racial, de gênero e de classe. A pobreza e a vulnerabilidade da população afro-brasileira, envolvendo mulheres e homens, é a tônica da autora em Olhos D’Água.

O conto Maria serve de base para responder à questão.


MARIA

    Maria estava parada há mais de meia hora no ponto do ônibus. Estava cansada de esperar. Se a distância fosse menor, teria ido a pé. Era preciso mesmo ir se acostumando com a caminhada. O preço da passagem estava aumentando tanto! Além do cansaço, a sacola estava pesada. No dia anterior, no domingo, havia tido festa na casa da patroa. Ela levava para casa os restos.
[...]
 
    Quando o ônibus apontou lá na esquina, Maria abaixou o corpo, pegando a sacola que estava no chão entre as suas pernas. O ônibus não estava cheio, havia lugares. Ela poderia descansar um pouco, cochilar até a hora da descida. Ao entrar, um homem levantou lá de trás, do último banco, fazendo um sinal para o trocador. Passou em silêncio, pagando a passagem dele e de Maria. Ela reconheceu o homem. Quanto tempo, que saudades! Como era difícil continuar a vida sem ele. Maria sentou-se na frente. O homem sentou-se a seu lado. Ela se lembrou do passado. Do homem deitado com ela. Da vida dos dois no barraco. Dos primeiros enjoos. Da barriga enorme que todos diziam de gêmeos, e da alegria dele. Que bom! Nasceu! Era um menino! E haveria de se tornar um homem. Maria viu, sem olhar, que era o pai de seu filho. Ele continuava o mesmo. Bonito, grande, o olhar assustado não se fixando em nada e em ninguém. Sentiu uma mágoa imensa. Por que não podia ser de uma outra forma? Por que não podiam ser felizes? E o menino, Maria? Como vai o menino? cochichou o homem. Sabe que sinto falta de vocês? Tenho um buraco no peito, tamanha a saudade! Tou sozinho! Não arrumei, não quis mais ninguém. Você já teve outros... outros filhos? A mulher baixou os olhos como que pedindo perdão. É. Ela teve mais dois filhos, mas não tinha ninguém também.
[...]

    O homem falava, mas continuava estático, preso, fixo no banco. Cochichava com Maria as palavras, sem, entretanto, virar para o lado dela. Ela sabia o que o homem dizia. Ele estava dizendo de dor, de prazer, de alegria, de filho, de vida, de morte, de despedida. Do buraco-saudade no peito dele... Desta vez ele cochichou um pouquinho mais alto. Ela, ainda sem ouvir direito, adivinhou a fala dele: um abraço, um beijo, um carinho no filho. E, logo após, levantou rápido sacando a arma. Outro lá atrás gritou que era um assalto. Maria estava com muito medo. Não dos assaltantes. Não da morte. Sim da vida. Tinha três filhos. O mais velho, com onze anos, era filho daquele homem que estava ali na frente com uma arma na mão. O de lá de trás vinha recolhendo tudo. O motorista seguia a viagem. Havia o silêncio de todos no ônibus. Apenas a voz do outro se ouvia pedindo aos passageiros que entregassem tudo rapidamente. O medo da vida em Maria ia aumentando. Meu Deus, como seria a vida dos seus filhos?
[...]

    Os assaltantes desceram rápido. (...). Ela não conhecia assaltante algum. Conhecia o pai de seu primeiro filho. Conhecia o homem que tinha sido dela e que ela ainda amava tanto. Ouviu uma voz: Negra safada, vai ver que estava de coleio com os dois. Outra voz vinda lá do fundo do ônibus acrescentou: Calma, gente! Se ela estivesse junto com eles, teria descido também. Alguém argumentou que ela não tinha descido só para disfarçar. Estava mesmo com os ladrões. Foi a única a não ser assaltada. Mentira, eu não fui e não sei por quê. Maria olhou na direção de onde vinha a voz e viu um rapazinho negro e magro, com feições de menino e que relembravam vagamente o seu filho. A primeira voz, a que acordou a coragem de todos, tornou-se um grito: Aquela puta, aquela negra safada estava com os ladrões! O dono da voz levantou e se encaminhou em direção à Maria. A mulher teve medo e raiva. Que merda! Não conhecia assaltante algum. Não devia satisfação a ninguém. Olha só, a negra ainda é atrevida, disse o homem, lascando um tapa no rosto da mulher. Alguém gritou: Lincha! Lincha! Lincha!... Uns passageiros desceram e outros voaram em direção à Maria. O motorista tinha parado o ônibus para defender a passageira:

— Calma pessoal! Que loucura é esta? Eu conheço esta mulher de vista. Todos os dias, mais ou menos neste horário, ela toma o ônibus comigo. Está vindo do trabalho, da luta para sustentar os filhos...

    Lincha! Lincha! Lincha! Maria punha sangue pela boca, pelo nariz e pelos ouvidos. A sacola havia arrebentado e as frutas rolavam pelo chão. Será que os meninos iriam gostar de melão?

    Tudo foi tão rápido, tão breve, Maria tinha saudades de seu ex-homem. Por que estavam fazendo isto com ela? O homem havia segredado um abraço, um beijo, um carinho no filho. Ela precisava chegar em casa para transmitir o recado. Estavam todos armados com facas a laser que cortam até a vida. Quando o ônibus esvaziou, quando chegou a polícia, o corpo da mulher estava todo dilacerado, todo pisoteado.

Maria queria tanto dizer ao filho que o pai havia mandado um abraço, um beijo, um carinho.


EVARISTO, Conceição. Olhos D’Água. Rio de Janeiro: Pallas: Fundação Biblioteca Nacional, 2016.
A linguagem tem funções que levam em consideração a intencionalidade do emissor, o que pode ser exemplificado na cena final do conto que, apesar de retratar uma situação que se poderia tornar manchete de jornal, portanto referencial, leva o leitor a observar
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Ano: 2023 Banca: UEMA Órgão: UEMA Prova: UEMA - 2023 - UEMA - Vestibular |
Q3728678 Português
Conceição Evaristo nasceu numa favela da zona sul de Belo Horizonte. Trabalhava como empregada doméstica, até concluir o Curso Normal, já então com 25 anos. Mudou-se para o Rio de Janeiro, tendo estudado Letras em uma universidade pública, a UFRJ. Suas obras abordam temas como discriminação racial, de gênero e de classe. A pobreza e a vulnerabilidade da população afro-brasileira, envolvendo mulheres e homens, é a tônica da autora em Olhos D’Água.

O conto Maria serve de base para responder à questão.


MARIA

    Maria estava parada há mais de meia hora no ponto do ônibus. Estava cansada de esperar. Se a distância fosse menor, teria ido a pé. Era preciso mesmo ir se acostumando com a caminhada. O preço da passagem estava aumentando tanto! Além do cansaço, a sacola estava pesada. No dia anterior, no domingo, havia tido festa na casa da patroa. Ela levava para casa os restos.
[...]
 
    Quando o ônibus apontou lá na esquina, Maria abaixou o corpo, pegando a sacola que estava no chão entre as suas pernas. O ônibus não estava cheio, havia lugares. Ela poderia descansar um pouco, cochilar até a hora da descida. Ao entrar, um homem levantou lá de trás, do último banco, fazendo um sinal para o trocador. Passou em silêncio, pagando a passagem dele e de Maria. Ela reconheceu o homem. Quanto tempo, que saudades! Como era difícil continuar a vida sem ele. Maria sentou-se na frente. O homem sentou-se a seu lado. Ela se lembrou do passado. Do homem deitado com ela. Da vida dos dois no barraco. Dos primeiros enjoos. Da barriga enorme que todos diziam de gêmeos, e da alegria dele. Que bom! Nasceu! Era um menino! E haveria de se tornar um homem. Maria viu, sem olhar, que era o pai de seu filho. Ele continuava o mesmo. Bonito, grande, o olhar assustado não se fixando em nada e em ninguém. Sentiu uma mágoa imensa. Por que não podia ser de uma outra forma? Por que não podiam ser felizes? E o menino, Maria? Como vai o menino? cochichou o homem. Sabe que sinto falta de vocês? Tenho um buraco no peito, tamanha a saudade! Tou sozinho! Não arrumei, não quis mais ninguém. Você já teve outros... outros filhos? A mulher baixou os olhos como que pedindo perdão. É. Ela teve mais dois filhos, mas não tinha ninguém também.
[...]

    O homem falava, mas continuava estático, preso, fixo no banco. Cochichava com Maria as palavras, sem, entretanto, virar para o lado dela. Ela sabia o que o homem dizia. Ele estava dizendo de dor, de prazer, de alegria, de filho, de vida, de morte, de despedida. Do buraco-saudade no peito dele... Desta vez ele cochichou um pouquinho mais alto. Ela, ainda sem ouvir direito, adivinhou a fala dele: um abraço, um beijo, um carinho no filho. E, logo após, levantou rápido sacando a arma. Outro lá atrás gritou que era um assalto. Maria estava com muito medo. Não dos assaltantes. Não da morte. Sim da vida. Tinha três filhos. O mais velho, com onze anos, era filho daquele homem que estava ali na frente com uma arma na mão. O de lá de trás vinha recolhendo tudo. O motorista seguia a viagem. Havia o silêncio de todos no ônibus. Apenas a voz do outro se ouvia pedindo aos passageiros que entregassem tudo rapidamente. O medo da vida em Maria ia aumentando. Meu Deus, como seria a vida dos seus filhos?
[...]

    Os assaltantes desceram rápido. (...). Ela não conhecia assaltante algum. Conhecia o pai de seu primeiro filho. Conhecia o homem que tinha sido dela e que ela ainda amava tanto. Ouviu uma voz: Negra safada, vai ver que estava de coleio com os dois. Outra voz vinda lá do fundo do ônibus acrescentou: Calma, gente! Se ela estivesse junto com eles, teria descido também. Alguém argumentou que ela não tinha descido só para disfarçar. Estava mesmo com os ladrões. Foi a única a não ser assaltada. Mentira, eu não fui e não sei por quê. Maria olhou na direção de onde vinha a voz e viu um rapazinho negro e magro, com feições de menino e que relembravam vagamente o seu filho. A primeira voz, a que acordou a coragem de todos, tornou-se um grito: Aquela puta, aquela negra safada estava com os ladrões! O dono da voz levantou e se encaminhou em direção à Maria. A mulher teve medo e raiva. Que merda! Não conhecia assaltante algum. Não devia satisfação a ninguém. Olha só, a negra ainda é atrevida, disse o homem, lascando um tapa no rosto da mulher. Alguém gritou: Lincha! Lincha! Lincha!... Uns passageiros desceram e outros voaram em direção à Maria. O motorista tinha parado o ônibus para defender a passageira:

— Calma pessoal! Que loucura é esta? Eu conheço esta mulher de vista. Todos os dias, mais ou menos neste horário, ela toma o ônibus comigo. Está vindo do trabalho, da luta para sustentar os filhos...

    Lincha! Lincha! Lincha! Maria punha sangue pela boca, pelo nariz e pelos ouvidos. A sacola havia arrebentado e as frutas rolavam pelo chão. Será que os meninos iriam gostar de melão?

    Tudo foi tão rápido, tão breve, Maria tinha saudades de seu ex-homem. Por que estavam fazendo isto com ela? O homem havia segredado um abraço, um beijo, um carinho no filho. Ela precisava chegar em casa para transmitir o recado. Estavam todos armados com facas a laser que cortam até a vida. Quando o ônibus esvaziou, quando chegou a polícia, o corpo da mulher estava todo dilacerado, todo pisoteado.

Maria queria tanto dizer ao filho que o pai havia mandado um abraço, um beijo, um carinho.


EVARISTO, Conceição. Olhos D’Água. Rio de Janeiro: Pallas: Fundação Biblioteca Nacional, 2016.
As palavras denotativas, modernamente, são consideradas marcadores discursivos, que contribuem para a coesão, a ligação entre as partes do texto.
No trecho “Olha só, a negra ainda é atrevida, disse o homem, lascando um tapa no rosto da mulher.”, a função semântica do termo sublinhado é
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Ano: 2023 Banca: UEMA Órgão: UEMA Prova: UEMA - 2023 - UEMA - Vestibular |
Q3728676 Português
Conceição Evaristo nasceu numa favela da zona sul de Belo Horizonte. Trabalhava como empregada doméstica, até concluir o Curso Normal, já então com 25 anos. Mudou-se para o Rio de Janeiro, tendo estudado Letras em uma universidade pública, a UFRJ. Suas obras abordam temas como discriminação racial, de gênero e de classe. A pobreza e a vulnerabilidade da população afro-brasileira, envolvendo mulheres e homens, é a tônica da autora em Olhos D’Água.

O conto Maria serve de base para responder à questão.


MARIA

    Maria estava parada há mais de meia hora no ponto do ônibus. Estava cansada de esperar. Se a distância fosse menor, teria ido a pé. Era preciso mesmo ir se acostumando com a caminhada. O preço da passagem estava aumentando tanto! Além do cansaço, a sacola estava pesada. No dia anterior, no domingo, havia tido festa na casa da patroa. Ela levava para casa os restos.
[...]
 
    Quando o ônibus apontou lá na esquina, Maria abaixou o corpo, pegando a sacola que estava no chão entre as suas pernas. O ônibus não estava cheio, havia lugares. Ela poderia descansar um pouco, cochilar até a hora da descida. Ao entrar, um homem levantou lá de trás, do último banco, fazendo um sinal para o trocador. Passou em silêncio, pagando a passagem dele e de Maria. Ela reconheceu o homem. Quanto tempo, que saudades! Como era difícil continuar a vida sem ele. Maria sentou-se na frente. O homem sentou-se a seu lado. Ela se lembrou do passado. Do homem deitado com ela. Da vida dos dois no barraco. Dos primeiros enjoos. Da barriga enorme que todos diziam de gêmeos, e da alegria dele. Que bom! Nasceu! Era um menino! E haveria de se tornar um homem. Maria viu, sem olhar, que era o pai de seu filho. Ele continuava o mesmo. Bonito, grande, o olhar assustado não se fixando em nada e em ninguém. Sentiu uma mágoa imensa. Por que não podia ser de uma outra forma? Por que não podiam ser felizes? E o menino, Maria? Como vai o menino? cochichou o homem. Sabe que sinto falta de vocês? Tenho um buraco no peito, tamanha a saudade! Tou sozinho! Não arrumei, não quis mais ninguém. Você já teve outros... outros filhos? A mulher baixou os olhos como que pedindo perdão. É. Ela teve mais dois filhos, mas não tinha ninguém também.
[...]

    O homem falava, mas continuava estático, preso, fixo no banco. Cochichava com Maria as palavras, sem, entretanto, virar para o lado dela. Ela sabia o que o homem dizia. Ele estava dizendo de dor, de prazer, de alegria, de filho, de vida, de morte, de despedida. Do buraco-saudade no peito dele... Desta vez ele cochichou um pouquinho mais alto. Ela, ainda sem ouvir direito, adivinhou a fala dele: um abraço, um beijo, um carinho no filho. E, logo após, levantou rápido sacando a arma. Outro lá atrás gritou que era um assalto. Maria estava com muito medo. Não dos assaltantes. Não da morte. Sim da vida. Tinha três filhos. O mais velho, com onze anos, era filho daquele homem que estava ali na frente com uma arma na mão. O de lá de trás vinha recolhendo tudo. O motorista seguia a viagem. Havia o silêncio de todos no ônibus. Apenas a voz do outro se ouvia pedindo aos passageiros que entregassem tudo rapidamente. O medo da vida em Maria ia aumentando. Meu Deus, como seria a vida dos seus filhos?
[...]

    Os assaltantes desceram rápido. (...). Ela não conhecia assaltante algum. Conhecia o pai de seu primeiro filho. Conhecia o homem que tinha sido dela e que ela ainda amava tanto. Ouviu uma voz: Negra safada, vai ver que estava de coleio com os dois. Outra voz vinda lá do fundo do ônibus acrescentou: Calma, gente! Se ela estivesse junto com eles, teria descido também. Alguém argumentou que ela não tinha descido só para disfarçar. Estava mesmo com os ladrões. Foi a única a não ser assaltada. Mentira, eu não fui e não sei por quê. Maria olhou na direção de onde vinha a voz e viu um rapazinho negro e magro, com feições de menino e que relembravam vagamente o seu filho. A primeira voz, a que acordou a coragem de todos, tornou-se um grito: Aquela puta, aquela negra safada estava com os ladrões! O dono da voz levantou e se encaminhou em direção à Maria. A mulher teve medo e raiva. Que merda! Não conhecia assaltante algum. Não devia satisfação a ninguém. Olha só, a negra ainda é atrevida, disse o homem, lascando um tapa no rosto da mulher. Alguém gritou: Lincha! Lincha! Lincha!... Uns passageiros desceram e outros voaram em direção à Maria. O motorista tinha parado o ônibus para defender a passageira:

— Calma pessoal! Que loucura é esta? Eu conheço esta mulher de vista. Todos os dias, mais ou menos neste horário, ela toma o ônibus comigo. Está vindo do trabalho, da luta para sustentar os filhos...

    Lincha! Lincha! Lincha! Maria punha sangue pela boca, pelo nariz e pelos ouvidos. A sacola havia arrebentado e as frutas rolavam pelo chão. Será que os meninos iriam gostar de melão?

    Tudo foi tão rápido, tão breve, Maria tinha saudades de seu ex-homem. Por que estavam fazendo isto com ela? O homem havia segredado um abraço, um beijo, um carinho no filho. Ela precisava chegar em casa para transmitir o recado. Estavam todos armados com facas a laser que cortam até a vida. Quando o ônibus esvaziou, quando chegou a polícia, o corpo da mulher estava todo dilacerado, todo pisoteado.

Maria queria tanto dizer ao filho que o pai havia mandado um abraço, um beijo, um carinho.


EVARISTO, Conceição. Olhos D’Água. Rio de Janeiro: Pallas: Fundação Biblioteca Nacional, 2016.
“Maria viu, sem olhar, que era o pai de seu filho. Ele continuava o mesmo. Bonito, grande, o olhar assustado não se fixando em nada e em ninguém. Por que não podia ser de outra forma? Por que não podiam ser felizes?”
Essa passagem inicia uma sequência que caracteriza a
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Ano: 2023 Banca: UEMA Órgão: UEMA Prova: UEMA - 2023 - UEMA - Vestibular |
Q3728675 Português
Conceição Evaristo nasceu numa favela da zona sul de Belo Horizonte. Trabalhava como empregada doméstica, até concluir o Curso Normal, já então com 25 anos. Mudou-se para o Rio de Janeiro, tendo estudado Letras em uma universidade pública, a UFRJ. Suas obras abordam temas como discriminação racial, de gênero e de classe. A pobreza e a vulnerabilidade da população afro-brasileira, envolvendo mulheres e homens, é a tônica da autora em Olhos D’Água.

O conto Maria serve de base para responder à questão.


MARIA

    Maria estava parada há mais de meia hora no ponto do ônibus. Estava cansada de esperar. Se a distância fosse menor, teria ido a pé. Era preciso mesmo ir se acostumando com a caminhada. O preço da passagem estava aumentando tanto! Além do cansaço, a sacola estava pesada. No dia anterior, no domingo, havia tido festa na casa da patroa. Ela levava para casa os restos.
[...]
 
    Quando o ônibus apontou lá na esquina, Maria abaixou o corpo, pegando a sacola que estava no chão entre as suas pernas. O ônibus não estava cheio, havia lugares. Ela poderia descansar um pouco, cochilar até a hora da descida. Ao entrar, um homem levantou lá de trás, do último banco, fazendo um sinal para o trocador. Passou em silêncio, pagando a passagem dele e de Maria. Ela reconheceu o homem. Quanto tempo, que saudades! Como era difícil continuar a vida sem ele. Maria sentou-se na frente. O homem sentou-se a seu lado. Ela se lembrou do passado. Do homem deitado com ela. Da vida dos dois no barraco. Dos primeiros enjoos. Da barriga enorme que todos diziam de gêmeos, e da alegria dele. Que bom! Nasceu! Era um menino! E haveria de se tornar um homem. Maria viu, sem olhar, que era o pai de seu filho. Ele continuava o mesmo. Bonito, grande, o olhar assustado não se fixando em nada e em ninguém. Sentiu uma mágoa imensa. Por que não podia ser de uma outra forma? Por que não podiam ser felizes? E o menino, Maria? Como vai o menino? cochichou o homem. Sabe que sinto falta de vocês? Tenho um buraco no peito, tamanha a saudade! Tou sozinho! Não arrumei, não quis mais ninguém. Você já teve outros... outros filhos? A mulher baixou os olhos como que pedindo perdão. É. Ela teve mais dois filhos, mas não tinha ninguém também.
[...]

    O homem falava, mas continuava estático, preso, fixo no banco. Cochichava com Maria as palavras, sem, entretanto, virar para o lado dela. Ela sabia o que o homem dizia. Ele estava dizendo de dor, de prazer, de alegria, de filho, de vida, de morte, de despedida. Do buraco-saudade no peito dele... Desta vez ele cochichou um pouquinho mais alto. Ela, ainda sem ouvir direito, adivinhou a fala dele: um abraço, um beijo, um carinho no filho. E, logo após, levantou rápido sacando a arma. Outro lá atrás gritou que era um assalto. Maria estava com muito medo. Não dos assaltantes. Não da morte. Sim da vida. Tinha três filhos. O mais velho, com onze anos, era filho daquele homem que estava ali na frente com uma arma na mão. O de lá de trás vinha recolhendo tudo. O motorista seguia a viagem. Havia o silêncio de todos no ônibus. Apenas a voz do outro se ouvia pedindo aos passageiros que entregassem tudo rapidamente. O medo da vida em Maria ia aumentando. Meu Deus, como seria a vida dos seus filhos?
[...]

    Os assaltantes desceram rápido. (...). Ela não conhecia assaltante algum. Conhecia o pai de seu primeiro filho. Conhecia o homem que tinha sido dela e que ela ainda amava tanto. Ouviu uma voz: Negra safada, vai ver que estava de coleio com os dois. Outra voz vinda lá do fundo do ônibus acrescentou: Calma, gente! Se ela estivesse junto com eles, teria descido também. Alguém argumentou que ela não tinha descido só para disfarçar. Estava mesmo com os ladrões. Foi a única a não ser assaltada. Mentira, eu não fui e não sei por quê. Maria olhou na direção de onde vinha a voz e viu um rapazinho negro e magro, com feições de menino e que relembravam vagamente o seu filho. A primeira voz, a que acordou a coragem de todos, tornou-se um grito: Aquela puta, aquela negra safada estava com os ladrões! O dono da voz levantou e se encaminhou em direção à Maria. A mulher teve medo e raiva. Que merda! Não conhecia assaltante algum. Não devia satisfação a ninguém. Olha só, a negra ainda é atrevida, disse o homem, lascando um tapa no rosto da mulher. Alguém gritou: Lincha! Lincha! Lincha!... Uns passageiros desceram e outros voaram em direção à Maria. O motorista tinha parado o ônibus para defender a passageira:

— Calma pessoal! Que loucura é esta? Eu conheço esta mulher de vista. Todos os dias, mais ou menos neste horário, ela toma o ônibus comigo. Está vindo do trabalho, da luta para sustentar os filhos...

    Lincha! Lincha! Lincha! Maria punha sangue pela boca, pelo nariz e pelos ouvidos. A sacola havia arrebentado e as frutas rolavam pelo chão. Será que os meninos iriam gostar de melão?

    Tudo foi tão rápido, tão breve, Maria tinha saudades de seu ex-homem. Por que estavam fazendo isto com ela? O homem havia segredado um abraço, um beijo, um carinho no filho. Ela precisava chegar em casa para transmitir o recado. Estavam todos armados com facas a laser que cortam até a vida. Quando o ônibus esvaziou, quando chegou a polícia, o corpo da mulher estava todo dilacerado, todo pisoteado.

Maria queria tanto dizer ao filho que o pai havia mandado um abraço, um beijo, um carinho.


EVARISTO, Conceição. Olhos D’Água. Rio de Janeiro: Pallas: Fundação Biblioteca Nacional, 2016.
No início do conto, primeiro parágrafo, a personagem Maria não é definida, nem apresentada ao leitor, porque o enunciador tem a expectativa de
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Ano: 2023 Banca: UEMA Órgão: UEMA Prova: UEMA - 2023 - UEMA - Vestibular |
Q3728673 Português
Na década de 80, a canção Mulher (Sexo frágil) fez muito sucesso. Trata-se de uma declaração sobre a força feminina, que se vale do poder que as mulheres têm na relação com os homens. Ao mesmo tempo que a canção mostra a realidade de como a mulher é vista na sociedade, o eu lírico marca a posição de quão equivocada é essa perspectiva.
Mulher (Sexo frágil) Canção de Erasmo Carlos

Dizem que a mulher é o sexo frágil Mas que mentira absurda! Eu que faço parte da rotina de uma delas Sei que a força está com elas
Vejam como é forte a que eu conheço Sua sapiência não tem preço Satisfaz meu ego se fingindo submissa Mas no fundo me enfeitiça
Quando eu chego em casa à noitinha Quero uma mulher só minha Mas pra quem deu luz não tem mais jeito Porque um filho quer seu peito
O outro já reclama a sua mão E o outro quer o amor que ela tiver Quatro homens dependentes e carentes Da força da mulher   Mulher, mulher Do barro de que você foi gerada Me veio inspiração Pra decantar você nessa canção
Na escola em que você foi ensinada Jamais tirei um dez Sou forte mas não chego aos seus pés
Mulher, mulher Mulher, mulher

https://www.letras.mus.br/erasmo-carlos/  
A letra da canção deixa transparecer o machismo vigente na sociedade. Essa assertiva está comprovada nos seguintes versos:
Alternativas
Respostas
401: D
402: B
403: A
404: D
405: A
406: C
407: E
408: A
409: B
410: C
411: C
412: E
413: B
414: E
415: C
416: D
417: E
418: A
419: D
420: C