Leia o trecho do romance A Falência, de Júlia Lopes de Almei...

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Ano: 2023 Banca: UNICENTRO Órgão: UNICENTRO Prova: UNICENTRO - 2023 - UNICENTRO - Vestibular |
Q3910171 Português
Leia o trecho do romance A Falência, de Júlia Lopes de Almeida, a seguir.
– O livro? – Está aqui. – Já leu? – Já. Trata-se de um amor um pouco parecido com o nosso. – Então não leio. Sei que está cheio de injustiças e de mentiras perversas. Os senhores romancistas não perdoam às mulheres; fazem-nas responsáveis por tudo – como se não pagássemos caro a felicidade que fruímos! Nesses livros tenho sempre medo do fim; revolto-me contra os castigos que eles infligem às nossas culpas, e desespero-me por não poder gritar-lhes: hipócritas! hipócritas! Leve o seu livro; não me torne a trazer desses romances. Basta-me o nosso para eu ter medo do fim. – Não tenha remorsos; o nosso não acabará! – Remorsos... remorsos de quê? Pensa, Gervásio, que, desde o primeiro ano de casado, o meu marido não me traiu também? Qual é a mulher, por mais estúpida, ou mais indiferente, que não adivinhe, que não sinta o adultério do marido no próprio dia em que ele é cometido? Há sempre um vestígio da outra, que se mostra em um gesto, em um perfume, em uma palavra, em um carinho...
(ALMEIDA, J. L. A Falência. São Paulo: Via Leitura, 2018. p.31-32.)
Com base nesse trecho e na leitura integral desse romance, assinale a alternativa correta. 
Alternativas

Gabarito comentado

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Gabarito: A

Fundamento decisivo: O critério decisivo é a construção da personagem por sua fala reflexiva e autoconsciente, em especial no trecho “Os senhores romancistas não perdoam às mulheres; fazem-nas responsáveis por tudo – como se não pagássemos caro a felicidade que fruímos! [...] Basta-me o nosso para eu ter medo do fim.” A passagem evidencia crítica ao julgamento desigual das mulheres, interioridade e conflito moral, o que sustenta a alternativa A.

Tema central: complexidade da protagonista
Análise das alternativas
A
Certa
A alternativa A está correta porque a protagonista não aparece como figura feminina reduzida a impulso ou tipificação simples. Sua fala mostra elaboração subjetiva, consciência crítica sobre a condição feminina, percepção da assimetria entre homens e mulheres e conflito moral diante da própria relação adúltera. No trecho, ela interpreta sua experiência, julga os romancistas, teme o desfecho e tenta racionalizar sua situação. Esse conjunto de traços sustenta a leitura de aprofundamento da complexidade da personagem feminina.
B
Errada
A alternativa erra por extrapolação interpretativa. O trecho sustenta a revolta da protagonista contra a punição desigual das mulheres e contra a hipocrisia dos romancistas, mas não autoriza afirmar que a trajetória das mulheres seja pontuada por “hipocrisia e pela ingenuidade”. No texto, “hipócritas! hipócritas!” refere-se aos romancistas, não às mulheres, e “ingenuidade” não aparece como traço da trajetória feminina.
C
Errada
A alternativa atribui ao texto uma causalidade que ele não apresenta. Em “Qual é a mulher, por mais estúpida, ou mais indiferente, que não adivinhe, que não sinta o adultério do marido...?”, os termos “estúpida” e “indiferente” não são causa do adultério masculino; servem para reforçar que até mesmo uma mulher nessas condições perceberia a traição. Também não há base para dizer que os romancistas respaldam os adultérios dos homens; a crítica da protagonista recai sobre a responsabilização e o castigo impostos às mulheres.
D
Errada
A alternativa erra na identificação das vozes do texto. As três últimas frases do trecho são falas diretas da personagem, inseridas no diálogo, e não comentários críticos interpolados do narrador em terceira pessoa. A carga reflexiva pertence à personagem e não configura intervenção narrativa.
E
Errada
A alternativa confunde fala de personagem com foco narrativo. O trecho reproduz discurso direto entre personagens, o que não comprova que o romance seja narrado em primeira pessoa pela protagonista. Marcas como “nosso”, “tenho” e “meu marido” pertencem à fala da personagem no diálogo, não ao narrador do romance.
Pegadinha da questão
A banca explora sobretudo a confusão entre a primeira pessoa usada na fala da personagem e o foco narrativo do romance, além da tendência de aceitar acréscimos sem base textual, como em B e C.
Dica para questões semelhantes
  • Em questão de personagem, observe se a fala apenas informa fatos ou se revela reflexão, crítica, medo, justificativa e contradição: isso é sinal de densidade psicológica.
  • Não aceite alternativa que acrescente traço valorativo sem apoio expresso no trecho, mesmo que pareça compatível com o tema.
  • Separe sempre narrador e personagem: primeira pessoa em discurso direto não define, por si só, o foco narrativo da obra.

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