Questões de Concurso Sobre interpretação de textos em português

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Q3849549 Português
Hoje eu fui adulto

08h12

Acordei com a certeza de que hoje seria o dia. O dia em que eu colocaria a vida em ordem. Eu não digo “organizar”, porque “organizar” é uma palavra que dá azar. A vida escuta e se sente desafiada. Então eu pensei “apenas alinhar algumas coisas”, com a humildade estratégica de quem quer vencer por cansaço.

08h40

Primeira tarefa de adulto: pagar uma conta antes do vencimento. Um clássico. Abri o aplicativo do banco e, por algum motivo, ele me pediu para reconhecer o rosto. O meu rosto, às 08h40, parecia o de alguém que acabou de sair de uma audiência de cinco horas. O app não reconheceu. Eu também não. Tentamos três vezes e, na terceira, senti que não era uma falha técnica, era um comentário.

09h15

Liguei para resolver uma pendência simples. A gravação me chamou de “você” com uma alegria artificial, como se a máquina tivesse um plano para mim. “Para continuar, digite 1.” Digitei 1. “Desculpe, não entendi.” Digitei 1 de novo, com mais convicção, como se convicção fosse compatível com teclado. “Desculpe, não entendi.” Em algum lugar, alguém programou uma voz para pedir desculpas sem intenção de mudar de comportamento. Um espelho.

09h58

Fui ao mercado com uma lista. A lista era curta, porque eu estava tentando ser uma pessoa melhor. Comprei tudo o que estava na lista, mais três itens que não estavam, e saí com a sensação de vitória. Na porta, percebi que esqueci exatamente o item principal. A vida tem senso de humor. Eu também, mas o dela é mais eficiente.

11h07

Decidi enfrentar o armário. Existe um tipo de maturidade que não aparece em currículo: a coragem de abrir uma gaveta e não fechar com força. Tirei uma pilha de papéis antigos, garantias de coisas que já nem existem, contratos de serviços que eu nem lembro por que contratei, e uma nota fiscal de 2017 que parecia ter sobrevivido por teimosia. Em algum momento, pensei: “Eu devia digitalizar isso.” Logo depois, pensei: “Eu devia digitalizar minha personalidade.”

12h23

Almocei “de forma consciente”. Tradução: comi olhando para a janela, fingindo que eu era uma pessoa contemplativa e não alguém que estava fugindo de notificações. A comida estava boa, e eu senti uma gratidão sincera por ainda existir arroz no mundo. Adulto é isso também, eu acho, elogiar o básico. 

14h10

Resolvi fazer exercício de adulto: dizer “não”. Recebi uma mensagem pedindo um favor. Eu estava cansado e atrasado com tudo, então eu ia dizer “não”. Mas eu disse “claro”, porque meu “não” ainda está em fase de alfabetização. Para compensar, eu escrevi “claro” sem ponto de exclamação, que é o meu jeito atual de impor limites.

15h36

Tentei marcar uma consulta. O atendente pediu documento, data de nascimento, endereço, telefone, e, pelo tom, quase pediu um relato completo das minhas últimas cinco decisões. No fim, não tinha horário. Eu agradeci, como se a ausência de horário fosse uma gentileza oferecida exclusivamente a mim. Desliguei e senti uma coisa estranha, uma mistura de impotência e alívio. Talvez eu não quisesse mesmo resolver nada hoje. Talvez eu goste desse caos, desde que eu possa reclamar dele com propriedade.

18h02

Voltei para casa com sacolas e uma dignidade frágil. Coloquei tudo no lugar e, por quinze minutos, a casa pareceu uma propaganda de vida adulta. Aí eu lembrei da conta que eu não paguei, da pendência que eu não resolvi, do favor que eu aceitei, e do item principal do mercado que eu esqueci. A propaganda acabou, mas ficou a trilha sonora da culpa.

21h17

Pensei em escrever um “plano” para amanhã. Listei metas, horários, prioridades. Li o que escrevi e achei bonito. Quase poético. Eu tenho um talento real para planejar uma pessoa que eu ainda não sou.

23h04

Conclusão do dia: eu fui adulto, sim. Só que do jeito que dá. Adulto não é alguém que controla tudo. Adulto é alguém que falha, anota mentalmente a falha, e tenta falhar com um pouco mais de estilo na próxima vez. Hoje eu falhei com elegância moderada. Amanhã, se a vida deixar, eu subo o nível.


Fonte: Banca Examinadora
No texto, o narrador usa expressões muito comuns em reuniões e na linguagem de produtividade, como “alinhar”, “pendência”, “plano” e “subo o nível”.
Esse vocabulário contribui para:
Alternativas
Q3849548 Português
Hoje eu fui adulto

08h12

Acordei com a certeza de que hoje seria o dia. O dia em que eu colocaria a vida em ordem. Eu não digo “organizar”, porque “organizar” é uma palavra que dá azar. A vida escuta e se sente desafiada. Então eu pensei “apenas alinhar algumas coisas”, com a humildade estratégica de quem quer vencer por cansaço.

08h40

Primeira tarefa de adulto: pagar uma conta antes do vencimento. Um clássico. Abri o aplicativo do banco e, por algum motivo, ele me pediu para reconhecer o rosto. O meu rosto, às 08h40, parecia o de alguém que acabou de sair de uma audiência de cinco horas. O app não reconheceu. Eu também não. Tentamos três vezes e, na terceira, senti que não era uma falha técnica, era um comentário.

09h15

Liguei para resolver uma pendência simples. A gravação me chamou de “você” com uma alegria artificial, como se a máquina tivesse um plano para mim. “Para continuar, digite 1.” Digitei 1. “Desculpe, não entendi.” Digitei 1 de novo, com mais convicção, como se convicção fosse compatível com teclado. “Desculpe, não entendi.” Em algum lugar, alguém programou uma voz para pedir desculpas sem intenção de mudar de comportamento. Um espelho.

09h58

Fui ao mercado com uma lista. A lista era curta, porque eu estava tentando ser uma pessoa melhor. Comprei tudo o que estava na lista, mais três itens que não estavam, e saí com a sensação de vitória. Na porta, percebi que esqueci exatamente o item principal. A vida tem senso de humor. Eu também, mas o dela é mais eficiente.

11h07

Decidi enfrentar o armário. Existe um tipo de maturidade que não aparece em currículo: a coragem de abrir uma gaveta e não fechar com força. Tirei uma pilha de papéis antigos, garantias de coisas que já nem existem, contratos de serviços que eu nem lembro por que contratei, e uma nota fiscal de 2017 que parecia ter sobrevivido por teimosia. Em algum momento, pensei: “Eu devia digitalizar isso.” Logo depois, pensei: “Eu devia digitalizar minha personalidade.”

12h23

Almocei “de forma consciente”. Tradução: comi olhando para a janela, fingindo que eu era uma pessoa contemplativa e não alguém que estava fugindo de notificações. A comida estava boa, e eu senti uma gratidão sincera por ainda existir arroz no mundo. Adulto é isso também, eu acho, elogiar o básico. 

14h10

Resolvi fazer exercício de adulto: dizer “não”. Recebi uma mensagem pedindo um favor. Eu estava cansado e atrasado com tudo, então eu ia dizer “não”. Mas eu disse “claro”, porque meu “não” ainda está em fase de alfabetização. Para compensar, eu escrevi “claro” sem ponto de exclamação, que é o meu jeito atual de impor limites.

15h36

Tentei marcar uma consulta. O atendente pediu documento, data de nascimento, endereço, telefone, e, pelo tom, quase pediu um relato completo das minhas últimas cinco decisões. No fim, não tinha horário. Eu agradeci, como se a ausência de horário fosse uma gentileza oferecida exclusivamente a mim. Desliguei e senti uma coisa estranha, uma mistura de impotência e alívio. Talvez eu não quisesse mesmo resolver nada hoje. Talvez eu goste desse caos, desde que eu possa reclamar dele com propriedade.

18h02

Voltei para casa com sacolas e uma dignidade frágil. Coloquei tudo no lugar e, por quinze minutos, a casa pareceu uma propaganda de vida adulta. Aí eu lembrei da conta que eu não paguei, da pendência que eu não resolvi, do favor que eu aceitei, e do item principal do mercado que eu esqueci. A propaganda acabou, mas ficou a trilha sonora da culpa.

21h17

Pensei em escrever um “plano” para amanhã. Listei metas, horários, prioridades. Li o que escrevi e achei bonito. Quase poético. Eu tenho um talento real para planejar uma pessoa que eu ainda não sou.

23h04

Conclusão do dia: eu fui adulto, sim. Só que do jeito que dá. Adulto não é alguém que controla tudo. Adulto é alguém que falha, anota mentalmente a falha, e tenta falhar com um pouco mais de estilo na próxima vez. Hoje eu falhei com elegância moderada. Amanhã, se a vida deixar, eu subo o nível.


Fonte: Banca Examinadora
Considerando o texto como um todo, a ideia principal e a função comunicativa do relato se organizam para: 
Alternativas
Q3849547 Português
Hoje eu fui adulto

08h12

Acordei com a certeza de que hoje seria o dia. O dia em que eu colocaria a vida em ordem. Eu não digo “organizar”, porque “organizar” é uma palavra que dá azar. A vida escuta e se sente desafiada. Então eu pensei “apenas alinhar algumas coisas”, com a humildade estratégica de quem quer vencer por cansaço.

08h40

Primeira tarefa de adulto: pagar uma conta antes do vencimento. Um clássico. Abri o aplicativo do banco e, por algum motivo, ele me pediu para reconhecer o rosto. O meu rosto, às 08h40, parecia o de alguém que acabou de sair de uma audiência de cinco horas. O app não reconheceu. Eu também não. Tentamos três vezes e, na terceira, senti que não era uma falha técnica, era um comentário.

09h15

Liguei para resolver uma pendência simples. A gravação me chamou de “você” com uma alegria artificial, como se a máquina tivesse um plano para mim. “Para continuar, digite 1.” Digitei 1. “Desculpe, não entendi.” Digitei 1 de novo, com mais convicção, como se convicção fosse compatível com teclado. “Desculpe, não entendi.” Em algum lugar, alguém programou uma voz para pedir desculpas sem intenção de mudar de comportamento. Um espelho.

09h58

Fui ao mercado com uma lista. A lista era curta, porque eu estava tentando ser uma pessoa melhor. Comprei tudo o que estava na lista, mais três itens que não estavam, e saí com a sensação de vitória. Na porta, percebi que esqueci exatamente o item principal. A vida tem senso de humor. Eu também, mas o dela é mais eficiente.

11h07

Decidi enfrentar o armário. Existe um tipo de maturidade que não aparece em currículo: a coragem de abrir uma gaveta e não fechar com força. Tirei uma pilha de papéis antigos, garantias de coisas que já nem existem, contratos de serviços que eu nem lembro por que contratei, e uma nota fiscal de 2017 que parecia ter sobrevivido por teimosia. Em algum momento, pensei: “Eu devia digitalizar isso.” Logo depois, pensei: “Eu devia digitalizar minha personalidade.”

12h23

Almocei “de forma consciente”. Tradução: comi olhando para a janela, fingindo que eu era uma pessoa contemplativa e não alguém que estava fugindo de notificações. A comida estava boa, e eu senti uma gratidão sincera por ainda existir arroz no mundo. Adulto é isso também, eu acho, elogiar o básico. 

14h10

Resolvi fazer exercício de adulto: dizer “não”. Recebi uma mensagem pedindo um favor. Eu estava cansado e atrasado com tudo, então eu ia dizer “não”. Mas eu disse “claro”, porque meu “não” ainda está em fase de alfabetização. Para compensar, eu escrevi “claro” sem ponto de exclamação, que é o meu jeito atual de impor limites.

15h36

Tentei marcar uma consulta. O atendente pediu documento, data de nascimento, endereço, telefone, e, pelo tom, quase pediu um relato completo das minhas últimas cinco decisões. No fim, não tinha horário. Eu agradeci, como se a ausência de horário fosse uma gentileza oferecida exclusivamente a mim. Desliguei e senti uma coisa estranha, uma mistura de impotência e alívio. Talvez eu não quisesse mesmo resolver nada hoje. Talvez eu goste desse caos, desde que eu possa reclamar dele com propriedade.

18h02

Voltei para casa com sacolas e uma dignidade frágil. Coloquei tudo no lugar e, por quinze minutos, a casa pareceu uma propaganda de vida adulta. Aí eu lembrei da conta que eu não paguei, da pendência que eu não resolvi, do favor que eu aceitei, e do item principal do mercado que eu esqueci. A propaganda acabou, mas ficou a trilha sonora da culpa.

21h17

Pensei em escrever um “plano” para amanhã. Listei metas, horários, prioridades. Li o que escrevi e achei bonito. Quase poético. Eu tenho um talento real para planejar uma pessoa que eu ainda não sou.

23h04

Conclusão do dia: eu fui adulto, sim. Só que do jeito que dá. Adulto não é alguém que controla tudo. Adulto é alguém que falha, anota mentalmente a falha, e tenta falhar com um pouco mais de estilo na próxima vez. Hoje eu falhei com elegância moderada. Amanhã, se a vida deixar, eu subo o nível.


Fonte: Banca Examinadora
Ao concluir que “falhou com elegância moderada” e que amanhã “sobe o nível”, o narrador:
Alternativas
Q3849546 Português
Hoje eu fui adulto

08h12

Acordei com a certeza de que hoje seria o dia. O dia em que eu colocaria a vida em ordem. Eu não digo “organizar”, porque “organizar” é uma palavra que dá azar. A vida escuta e se sente desafiada. Então eu pensei “apenas alinhar algumas coisas”, com a humildade estratégica de quem quer vencer por cansaço.

08h40

Primeira tarefa de adulto: pagar uma conta antes do vencimento. Um clássico. Abri o aplicativo do banco e, por algum motivo, ele me pediu para reconhecer o rosto. O meu rosto, às 08h40, parecia o de alguém que acabou de sair de uma audiência de cinco horas. O app não reconheceu. Eu também não. Tentamos três vezes e, na terceira, senti que não era uma falha técnica, era um comentário.

09h15

Liguei para resolver uma pendência simples. A gravação me chamou de “você” com uma alegria artificial, como se a máquina tivesse um plano para mim. “Para continuar, digite 1.” Digitei 1. “Desculpe, não entendi.” Digitei 1 de novo, com mais convicção, como se convicção fosse compatível com teclado. “Desculpe, não entendi.” Em algum lugar, alguém programou uma voz para pedir desculpas sem intenção de mudar de comportamento. Um espelho.

09h58

Fui ao mercado com uma lista. A lista era curta, porque eu estava tentando ser uma pessoa melhor. Comprei tudo o que estava na lista, mais três itens que não estavam, e saí com a sensação de vitória. Na porta, percebi que esqueci exatamente o item principal. A vida tem senso de humor. Eu também, mas o dela é mais eficiente.

11h07

Decidi enfrentar o armário. Existe um tipo de maturidade que não aparece em currículo: a coragem de abrir uma gaveta e não fechar com força. Tirei uma pilha de papéis antigos, garantias de coisas que já nem existem, contratos de serviços que eu nem lembro por que contratei, e uma nota fiscal de 2017 que parecia ter sobrevivido por teimosia. Em algum momento, pensei: “Eu devia digitalizar isso.” Logo depois, pensei: “Eu devia digitalizar minha personalidade.”

12h23

Almocei “de forma consciente”. Tradução: comi olhando para a janela, fingindo que eu era uma pessoa contemplativa e não alguém que estava fugindo de notificações. A comida estava boa, e eu senti uma gratidão sincera por ainda existir arroz no mundo. Adulto é isso também, eu acho, elogiar o básico. 

14h10

Resolvi fazer exercício de adulto: dizer “não”. Recebi uma mensagem pedindo um favor. Eu estava cansado e atrasado com tudo, então eu ia dizer “não”. Mas eu disse “claro”, porque meu “não” ainda está em fase de alfabetização. Para compensar, eu escrevi “claro” sem ponto de exclamação, que é o meu jeito atual de impor limites.

15h36

Tentei marcar uma consulta. O atendente pediu documento, data de nascimento, endereço, telefone, e, pelo tom, quase pediu um relato completo das minhas últimas cinco decisões. No fim, não tinha horário. Eu agradeci, como se a ausência de horário fosse uma gentileza oferecida exclusivamente a mim. Desliguei e senti uma coisa estranha, uma mistura de impotência e alívio. Talvez eu não quisesse mesmo resolver nada hoje. Talvez eu goste desse caos, desde que eu possa reclamar dele com propriedade.

18h02

Voltei para casa com sacolas e uma dignidade frágil. Coloquei tudo no lugar e, por quinze minutos, a casa pareceu uma propaganda de vida adulta. Aí eu lembrei da conta que eu não paguei, da pendência que eu não resolvi, do favor que eu aceitei, e do item principal do mercado que eu esqueci. A propaganda acabou, mas ficou a trilha sonora da culpa.

21h17

Pensei em escrever um “plano” para amanhã. Listei metas, horários, prioridades. Li o que escrevi e achei bonito. Quase poético. Eu tenho um talento real para planejar uma pessoa que eu ainda não sou.

23h04

Conclusão do dia: eu fui adulto, sim. Só que do jeito que dá. Adulto não é alguém que controla tudo. Adulto é alguém que falha, anota mentalmente a falha, e tenta falhar com um pouco mais de estilo na próxima vez. Hoje eu falhei com elegância moderada. Amanhã, se a vida deixar, eu subo o nível.


Fonte: Banca Examinadora
Ao passar de “Eu devia digitalizar isso” para “Eu devia digitalizar minha personalidade”, o texto sugere: 
Alternativas
Q3849545 Português
Hoje eu fui adulto

08h12

Acordei com a certeza de que hoje seria o dia. O dia em que eu colocaria a vida em ordem. Eu não digo “organizar”, porque “organizar” é uma palavra que dá azar. A vida escuta e se sente desafiada. Então eu pensei “apenas alinhar algumas coisas”, com a humildade estratégica de quem quer vencer por cansaço.

08h40

Primeira tarefa de adulto: pagar uma conta antes do vencimento. Um clássico. Abri o aplicativo do banco e, por algum motivo, ele me pediu para reconhecer o rosto. O meu rosto, às 08h40, parecia o de alguém que acabou de sair de uma audiência de cinco horas. O app não reconheceu. Eu também não. Tentamos três vezes e, na terceira, senti que não era uma falha técnica, era um comentário.

09h15

Liguei para resolver uma pendência simples. A gravação me chamou de “você” com uma alegria artificial, como se a máquina tivesse um plano para mim. “Para continuar, digite 1.” Digitei 1. “Desculpe, não entendi.” Digitei 1 de novo, com mais convicção, como se convicção fosse compatível com teclado. “Desculpe, não entendi.” Em algum lugar, alguém programou uma voz para pedir desculpas sem intenção de mudar de comportamento. Um espelho.

09h58

Fui ao mercado com uma lista. A lista era curta, porque eu estava tentando ser uma pessoa melhor. Comprei tudo o que estava na lista, mais três itens que não estavam, e saí com a sensação de vitória. Na porta, percebi que esqueci exatamente o item principal. A vida tem senso de humor. Eu também, mas o dela é mais eficiente.

11h07

Decidi enfrentar o armário. Existe um tipo de maturidade que não aparece em currículo: a coragem de abrir uma gaveta e não fechar com força. Tirei uma pilha de papéis antigos, garantias de coisas que já nem existem, contratos de serviços que eu nem lembro por que contratei, e uma nota fiscal de 2017 que parecia ter sobrevivido por teimosia. Em algum momento, pensei: “Eu devia digitalizar isso.” Logo depois, pensei: “Eu devia digitalizar minha personalidade.”

12h23

Almocei “de forma consciente”. Tradução: comi olhando para a janela, fingindo que eu era uma pessoa contemplativa e não alguém que estava fugindo de notificações. A comida estava boa, e eu senti uma gratidão sincera por ainda existir arroz no mundo. Adulto é isso também, eu acho, elogiar o básico. 

14h10

Resolvi fazer exercício de adulto: dizer “não”. Recebi uma mensagem pedindo um favor. Eu estava cansado e atrasado com tudo, então eu ia dizer “não”. Mas eu disse “claro”, porque meu “não” ainda está em fase de alfabetização. Para compensar, eu escrevi “claro” sem ponto de exclamação, que é o meu jeito atual de impor limites.

15h36

Tentei marcar uma consulta. O atendente pediu documento, data de nascimento, endereço, telefone, e, pelo tom, quase pediu um relato completo das minhas últimas cinco decisões. No fim, não tinha horário. Eu agradeci, como se a ausência de horário fosse uma gentileza oferecida exclusivamente a mim. Desliguei e senti uma coisa estranha, uma mistura de impotência e alívio. Talvez eu não quisesse mesmo resolver nada hoje. Talvez eu goste desse caos, desde que eu possa reclamar dele com propriedade.

18h02

Voltei para casa com sacolas e uma dignidade frágil. Coloquei tudo no lugar e, por quinze minutos, a casa pareceu uma propaganda de vida adulta. Aí eu lembrei da conta que eu não paguei, da pendência que eu não resolvi, do favor que eu aceitei, e do item principal do mercado que eu esqueci. A propaganda acabou, mas ficou a trilha sonora da culpa.

21h17

Pensei em escrever um “plano” para amanhã. Listei metas, horários, prioridades. Li o que escrevi e achei bonito. Quase poético. Eu tenho um talento real para planejar uma pessoa que eu ainda não sou.

23h04

Conclusão do dia: eu fui adulto, sim. Só que do jeito que dá. Adulto não é alguém que controla tudo. Adulto é alguém que falha, anota mentalmente a falha, e tenta falhar com um pouco mais de estilo na próxima vez. Hoje eu falhei com elegância moderada. Amanhã, se a vida deixar, eu subo o nível.


Fonte: Banca Examinadora
A sequência “O app não reconheceu. Eu também não.” reforça, sobretudo: 
Alternativas
Q3849544 Português
Hoje eu fui adulto

08h12

Acordei com a certeza de que hoje seria o dia. O dia em que eu colocaria a vida em ordem. Eu não digo “organizar”, porque “organizar” é uma palavra que dá azar. A vida escuta e se sente desafiada. Então eu pensei “apenas alinhar algumas coisas”, com a humildade estratégica de quem quer vencer por cansaço.

08h40

Primeira tarefa de adulto: pagar uma conta antes do vencimento. Um clássico. Abri o aplicativo do banco e, por algum motivo, ele me pediu para reconhecer o rosto. O meu rosto, às 08h40, parecia o de alguém que acabou de sair de uma audiência de cinco horas. O app não reconheceu. Eu também não. Tentamos três vezes e, na terceira, senti que não era uma falha técnica, era um comentário.

09h15

Liguei para resolver uma pendência simples. A gravação me chamou de “você” com uma alegria artificial, como se a máquina tivesse um plano para mim. “Para continuar, digite 1.” Digitei 1. “Desculpe, não entendi.” Digitei 1 de novo, com mais convicção, como se convicção fosse compatível com teclado. “Desculpe, não entendi.” Em algum lugar, alguém programou uma voz para pedir desculpas sem intenção de mudar de comportamento. Um espelho.

09h58

Fui ao mercado com uma lista. A lista era curta, porque eu estava tentando ser uma pessoa melhor. Comprei tudo o que estava na lista, mais três itens que não estavam, e saí com a sensação de vitória. Na porta, percebi que esqueci exatamente o item principal. A vida tem senso de humor. Eu também, mas o dela é mais eficiente.

11h07

Decidi enfrentar o armário. Existe um tipo de maturidade que não aparece em currículo: a coragem de abrir uma gaveta e não fechar com força. Tirei uma pilha de papéis antigos, garantias de coisas que já nem existem, contratos de serviços que eu nem lembro por que contratei, e uma nota fiscal de 2017 que parecia ter sobrevivido por teimosia. Em algum momento, pensei: “Eu devia digitalizar isso.” Logo depois, pensei: “Eu devia digitalizar minha personalidade.”

12h23

Almocei “de forma consciente”. Tradução: comi olhando para a janela, fingindo que eu era uma pessoa contemplativa e não alguém que estava fugindo de notificações. A comida estava boa, e eu senti uma gratidão sincera por ainda existir arroz no mundo. Adulto é isso também, eu acho, elogiar o básico. 

14h10

Resolvi fazer exercício de adulto: dizer “não”. Recebi uma mensagem pedindo um favor. Eu estava cansado e atrasado com tudo, então eu ia dizer “não”. Mas eu disse “claro”, porque meu “não” ainda está em fase de alfabetização. Para compensar, eu escrevi “claro” sem ponto de exclamação, que é o meu jeito atual de impor limites.

15h36

Tentei marcar uma consulta. O atendente pediu documento, data de nascimento, endereço, telefone, e, pelo tom, quase pediu um relato completo das minhas últimas cinco decisões. No fim, não tinha horário. Eu agradeci, como se a ausência de horário fosse uma gentileza oferecida exclusivamente a mim. Desliguei e senti uma coisa estranha, uma mistura de impotência e alívio. Talvez eu não quisesse mesmo resolver nada hoje. Talvez eu goste desse caos, desde que eu possa reclamar dele com propriedade.

18h02

Voltei para casa com sacolas e uma dignidade frágil. Coloquei tudo no lugar e, por quinze minutos, a casa pareceu uma propaganda de vida adulta. Aí eu lembrei da conta que eu não paguei, da pendência que eu não resolvi, do favor que eu aceitei, e do item principal do mercado que eu esqueci. A propaganda acabou, mas ficou a trilha sonora da culpa.

21h17

Pensei em escrever um “plano” para amanhã. Listei metas, horários, prioridades. Li o que escrevi e achei bonito. Quase poético. Eu tenho um talento real para planejar uma pessoa que eu ainda não sou.

23h04

Conclusão do dia: eu fui adulto, sim. Só que do jeito que dá. Adulto não é alguém que controla tudo. Adulto é alguém que falha, anota mentalmente a falha, e tenta falhar com um pouco mais de estilo na próxima vez. Hoje eu falhei com elegância moderada. Amanhã, se a vida deixar, eu subo o nível.


Fonte: Banca Examinadora
Ao dizer que “a vida escuta e se sente desafiada”, o texto produz o efeito de: 
Alternativas
Q3849446 Português
Leia o texto para responder à questão:


A Velha


    A velha era felicíssima. Pois não é verdade que tinha uma boa vida e nada lhe faltava? Só nessa manhã tinha encontrado um lugar vago num banco de jardim, nem demasiado à sombra nem demasiado ao sol, o elétrico1 não vinha excessivamente cheio e também conseguiu lugar, o padeiro disse-lhe bom dia com um ar tão simpático, quando ela deixou em cima do balcão o dinheiro de três carcaças2 , e o empregado da mercearia ficou a conversar depois de lhe dar o troco e perguntou-lhe se gostava daquela nova marca de café.

    Nos meses mais quentes tirava um passe de terceira idade e passeava. No inverno não valia a pena, estava frio e vinha logo a chuva e preferia não sair, por causa do reumatismo.

    Mas, saindo só nos meses mais bonitos, o passe ficava ainda mais barato. Se fizesse a conta do preço a dividir por doze (ah, sabia bem fazer contas, sempre tinha sido esperta na escola) pois se fizesse a conta a dividir por doze ainda era menos que pagava pelo passe.

    Gostava sobretudo do elétrico da circulação, dava a volta à cidade sem ter de sair, e ainda por cima bem instalada, conseguia ficar quase sempre ao pé da janela. Ou, se não conseguisse na primeira volta, era certo que conseguia na segunda, porque, entretanto, sairia quem fosse à janela e era só empurrar-se um pouco e ocupar o lugar do outro, e então sim, via tudo como se estivesse no cinema.

    Ao cinema propriamente ia pouco, há vários anos até que já não ia. Não era só por ser caro, é que às vezes as cadeiras estavam gastas e faziam-lhe doer as costas, e também nunca sabia se ia gostar dos filmes. E se não gostasse não podia fazer como na televisão e mudar de canal ou desligar, tinha de aguentar até ao fim, ou sair. E era um grande desconsolo sair a meio, já lhe tinha acontecido mais do que uma vez.

    Por isso não ia cinema. Televisão via bastante, claro, mas dava-lhe mais gozo andar de elétrico. Em vez de ficar fechada em casa, andava no meio das pessoas e das ruas, mas sem se cansar, bem sentada. Gozando o espetáculo dos outros — olha ali aquela montra3 iluminada, aquele homem a correr, aquela mulher ajoujada4 com o cesto das couves. E ela ali, recostada na cadeira, sem carregar pesos, nem sequer o peso do seu próprio corpo — dava-lhe vontade de rir, tamanha facilidade.


(Teolinda Gersão. Histórias de Ver e Andar, 2002. Adaptado)


1 bonde

2 pãezinhos

3 vitrine

4 sobrecarregada 
Considere as passagens:

•  Só nessa manhã tinha encontrado um lugar vago num banco de jardim… (1° parágrafo)
•  Mas, saindo só nos meses mais bonitos, o passe ficava ainda mais barato. (3° parágrafo)
•  Gostava sobretudo do elétrico da circulação, dava a volta à cidade sem ter de sair… (4° parágrafo)
•  Não era só por ser caro, é que às vezes as cadeiras estavam gastas… (5° parágrafo)

Sem prejuízo de sentido ao texto, as expressões destacadas podem ser substituídas, correta e respectivamente, por:
Alternativas
Q3849182 Português
A Velha


   A velha era felicíssima. Pois não é verdade que tinha uma boa vida e nada lhe faltava? Só nessa manhã tinha encontrado um lugar vago num banco de jardim, nem demasiado à sombra nem demasiado ao sol, o elétrico1 não vinha excessivamente cheio e também conseguiu lugar, o padeiro disse-lhe bom dia com um ar tão simpático, quando ela deixou em cima do balcão o dinheiro de três carcaças2 , e o empregado da mercearia ficou a conversar depois de lhe dar o troco e perguntou-lhe se gostava daquela nova marca de café.

   Nos meses mais quentes tirava um passe de terceira idade e passeava. No inverno não valia a pena, estava frio e vinha logo a chuva e preferia não sair, por causa do reumatismo.

   Mas, saindo só nos meses mais bonitos, o passe ficava ainda mais barato. Se fizesse a conta do preço a dividir por doze (ah, sabia bem fazer contas, sempre tinha sido esperta na escola) pois se fizesse a conta a dividir por doze ainda era menos que pagava pelo passe.

   Gostava sobretudo do elétrico da circulação, dava a volta à cidade sem ter de sair, e ainda por cima bem instalada, conseguia ficar quase sempre ao pé da janela. Ou, se não conseguisse na primeira volta, era certo que conseguia na segunda, porque, entretanto, sairia quem fosse à janela e era só empurrar-se um pouco e ocupar o lugar do outro, e então sim, via tudo como se estivesse no cinema.

   Ao cinema propriamente ia pouco, há vários anos até que já não ia. Não era só por ser caro, é que às vezes as cadeiras estavam gastas e faziam-lhe doer as costas, e também nunca sabia se ia gostar dos filmes. E se não gostasse não podia fazer como na televisão e mudar de canal ou desligar, tinha de aguentar até ao fim, ou sair. E era um grande desconsolo sair a meio, já lhe tinha acontecido mais do que uma vez.

    Por isso não ia cinema. Televisão via bastante, claro, mas dava-lhe mais gozo andar de elétrico. Em vez de ficar fechada em casa, andava no meio das pessoas e das ruas, mas sem se cansar, bem sentada. Gozando o espetáculo dos outros — olha ali aquela montra3 iluminada, aquele homem a correr, aquela mulher ajoujada4 com o cesto das couves. E ela ali, recostada na cadeira, sem carregar pesos, nem sequer o peso do seu próprio corpo — dava-lhe vontade de rir, tamanha facilidade.


(Teolinda Gersão. Histórias de Ver e Andar, 2002. Adaptado)


1 bonde
2 pãezinhos
3 vitrine
4 sobrecarregada
Na passagem do 4⁠º parágrafo “Ou, se não conseguisse na primeira volta, era certo que conseguia na segunda, porque, entretanto, sairia quem fosse à janela e era só empurrar-se um pouco…”, as expressões destacadas estabelecem, correta e respectivamente, relações de sentido de
Alternativas
Q3849171 Português
Cuidar de quem cuida


         Responder a uma pergunta várias vezes, lidar com uma crise de agressividade e insistir para que o ente querido se alimente ou tome banho. Esses são alguns dos desafios enfrentados por brasileiros que assumem a tarefa de cuidar de um familiar idoso com demência. Na sua maioria, são mulheres, mas há também homens, filhos e filhas ou netos e netas, que se dedicam àqueles que precisam de ajuda, compreensão e afeto.

     Não raro, o peso dessa rotina implica angústia, estresse e depressão, com o adoecimento de toda a família. Para atenuar esse sofrimento, o Ministério da Saúde traz a boa notícia de que está desenvolvendo um protocolo de terapia em parceria com o Hospital Alemão Oswaldo Cruz, de São Paulo. Batizado de Estratégias para Cuidadores em Demência (Escada), o projeto-piloto é uma adaptação do protocolo britânico Start. Ou seja, foi testado e aprovado.

      O Hospital Oswaldo Cruz treina agentes comunitários que replicam o protocolo junto dos cuidadores, que passam por oito sessões, com suporte psicológico, nas quais aprendem técnicas de manejo do estresse. O projeto está em andamento em Vitória (ES), Manaus (AM), Chapecó (SC), Teresina (PI), Cuiabá (MT), Guarapuava (PR) e Benevides (PA).

     Os cuidadores são estimulados a refletir sobre o que é a demência e como a sobrecarga do cuidado pode impactar a sua saúde; a reconhecer os padrões de comportamento do idoso e o seu próprio comportamento para evitar gatilhos e reações negativas ou impulsivas; a fortalecer a comunicação com a pessoa com demência e com outros membros da família; a evitar a solidão; a resgatar pequenos prazeres; e a planejar o futuro. Não menos importante, há técnicas de relaxamento, com exercícios de respiração, meditação e alongamento.

       O autocuidado, enfim, entrou na agenda do Sistema Único de Saúde (SUS). Já não era sem tempo, haja vista que, segundo o Relatório Nacional sobre a Demência: Epidemiologia, (Re)Conhecimento e Projeções Futuras, divulgado pelo Ministério da Saúde em setembro do ano passado, 8,5% da população com 60 anos ou mais convive com a demência. São nada menos do que 1,8 milhão de brasileiros idosos nessa condição. Para piorar, projetam-se 5,7 milhões de pessoas com demência na terceira idade até 2050.

    Tais números mostram que o projeto Escada é mais do que bem-vindo. Com o avanço da expectativa de vida do brasileiro, essa é uma política pública necessária. Oxalá seu teste seja um sucesso e, em breve, essa iniciativa seja replicada por todo o SUS, em todo o país. Só assim serão garantidas saúde mental e qualidade de vida àqueles que cuidam dos seus e precisam cuidar de si mesmos.


(Editorial, Disponível em: https://www.estadao.com.br/opiniao, 02.11.2025. Adaptado)
Com a frase do 5⁠º parágrafo “Já não era sem tempo…”, o editorial manifesta, em relação ao projeto-piloto Escada, seu ponto de vista
Alternativas
Q3849131 Português
Leia o texto para responder à questão:


A Velha

     A velha era felicíssima. Pois não é verdade que tinha uma boa vida e nada lhe faltava? Só nessa manhã tinha encontrado um lugar vago num banco de jardim, nem demasiado à sombra nem demasiado ao sol, o elétrico1 não vinha excessivamente cheio e também conseguiu lugar, o padeiro disse-lhe bom dia com um ar tão simpático, quando ela deixou em cima do balcão o dinheiro de três carcaças2 , e o empregado da mercearia ficou a conversar depois de lhe dar o troco e perguntou-lhe se gostava daquela nova marca de café.

     Nos meses mais quentes tirava um passe de terceira idade e passeava. No inverno não valia a pena, estava frio e vinha logo a chuva e preferia não sair, por causa do reumatismo.

    Mas, saindo só nos meses mais bonitos, o passe ficava ainda mais barato. Se fizesse a conta do preço a dividir por doze (ah, sabia bem fazer contas, sempre tinha sido esperta na escola) pois se fizesse a conta a dividir por doze ainda era menos que pagava pelo passe.

   Gostava sobretudo do elétrico da circulação, dava a volta à cidade sem ter de sair, e ainda por cima bem instalada, conseguia ficar quase sempre ao pé da janela. Ou, se não conseguisse na primeira volta, era certo que conseguia na segunda, porque, entretanto, sairia quem fosse à janela e era só empurrar-se um pouco e ocupar o lugar do outro, e então sim, via tudo como se estivesse no cinema.

   Ao cinema propriamente ia pouco, há vários anos até que já não ia. Não era só por ser caro, é que às vezes as cadeiras estavam gastas e faziam-lhe doer as costas, e também nunca sabia se ia gostar dos filmes. E se não gostasse não podia fazer como na televisão e mudar de canal ou desligar, tinha de aguentar até ao fim, ou sair. E era um grande desconsolo sair a meio, já lhe tinha acontecido mais do que uma vez.

   Por isso não ia cinema. Televisão via bastante, claro, mas dava-lhe mais gozo andar de elétrico. Em vez de ficar fechada em casa, andava no meio das pessoas e das ruas, mas sem se cansar, bem sentada. Gozando o espetáculo dos outros — olha ali aquela montra3 iluminada, aquele homem a correr, aquela mulher ajoujada4 com o cesto das couves. E ela ali, recostada na cadeira, sem carregar pesos, nem sequer o peso do seu próprio corpo — dava-lhe vontade de rir, tamanha facilidade.


(Teolinda Gersão. Histórias de Ver e Andar, 2002. Adaptado)


1bonde

2pãezinhos

3vitrine

4sobrecarregada 
Considere as passagens:

•  Só nessa manhã tinha encontrado um lugar vago num banco de jardim… (1o parágrafo)
•  Mas, saindo só nos meses mais bonitos, o passe ficava ainda mais barato. (3o parágrafo)
•  Gostava sobretudo do elétrico da circulação, dava a volta à cidade sem ter de sair… (4o parágrafo)
•  Não era só por ser caro, é que às vezes as cadeiras estavam gastas… (5o parágrafo)

Sem prejuízo de sentido ao texto, as expressões destacadas podem ser substituídas, correta e respectivamente, por:
Alternativas
Q3848856 Português
Leia o texto para responder à questão:


A Velha

     A velha era felicíssima. Pois não é verdade que tinha uma boa vida e nada lhe faltava? Só nessa manhã tinha encontrado um lugar vago num banco de jardim, nem demasiado à sombra nem demasiado ao sol, o elétrico1 não vinha excessivamente cheio e também conseguiu lugar, o padeiro disse-lhe bom dia com um ar tão simpático, quando ela deixou em cima do balcão o dinheiro de três carcaças2 , e o empregado da mercearia ficou a conversar depois de lhe dar o troco e perguntou-lhe se gostava daquela nova marca de café.

     Nos meses mais quentes tirava um passe de terceira idade e passeava. No inverno não valia a pena, estava frio e vinha logo a chuva e preferia não sair, por causa do reumatismo.

    Mas, saindo só nos meses mais bonitos, o passe ficava ainda mais barato. Se fizesse a conta do preço a dividir por doze (ah, sabia bem fazer contas, sempre tinha sido esperta na escola) pois se fizesse a conta a dividir por doze ainda era menos que pagava pelo passe.

   Gostava sobretudo do elétrico da circulação, dava a volta à cidade sem ter de sair, e ainda por cima bem instalada, conseguia ficar quase sempre ao pé da janela. Ou, se não conseguisse na primeira volta, era certo que conseguia na segunda, porque, entretanto, sairia quem fosse à janela e era só empurrar-se um pouco e ocupar o lugar do outro, e então sim, via tudo como se estivesse no cinema.

   Ao cinema propriamente ia pouco, há vários anos até que já não ia. Não era só por ser caro, é que às vezes as cadeiras estavam gastas e faziam-lhe doer as costas, e também nunca sabia se ia gostar dos filmes. E se não gostasse não podia fazer como na televisão e mudar de canal ou desligar, tinha de aguentar até ao fim, ou sair. E era um grande desconsolo sair a meio, já lhe tinha acontecido mais do que uma vez.

   Por isso não ia cinema. Televisão via bastante, claro, mas dava-lhe mais gozo andar de elétrico. Em vez de ficar fechada em casa, andava no meio das pessoas e das ruas, mas sem se cansar, bem sentada. Gozando o espetáculo dos outros — olha ali aquela montra3 iluminada, aquele homem a correr, aquela mulher ajoujada4 com o cesto das couves. E ela ali, recostada na cadeira, sem carregar pesos, nem sequer o peso do seu próprio corpo — dava-lhe vontade de rir, tamanha facilidade.


(Teolinda Gersão. Histórias de Ver e Andar, 2002. Adaptado)


1 bonde

2 pãezinhos

3 vitrine

4 sobrecarregada
Considere as passagens:

•  Só nessa manhã tinha encontrado um lugar vago num banco de jardim… (1o parágrafo)
•  Mas, saindo só nos meses mais bonitos, o passe ficava ainda mais barato. (3o parágrafo)
•  Gostava sobretudo do elétrico da circulação, dava a volta à cidade sem ter de sair… (4o parágrafo)
•  Não era só por ser caro, é que às vezes as cadeiras estavam gastas… (5o parágrafo)

Sem prejuízo de sentido ao texto, as expressões destacadas podem ser substituídas, correta e respectivamente, por:
Alternativas
Q3848693 Português
Complete corretamente a lacuna abaixo com o termo que se encontra literalmente no texto:
Relações interpessoais são o conjunto de __________ que, facilitando a comunicação e as linguagens, estabelece laços sólidos nas relações humanas. 
Alternativas
Q3848683 Português
Observe o enunciado abaixo e assinale a alternativa que apresenta o termo que preenche corretamente a lacuna:
As tecnologias estão cada vez mais próximas do professor e do aluno, em qualquer momento; são mais ricas, complexas e __________. 
Alternativas
Q3848681 Português
Observe o enunciado abaixo e assinale a alternativa que apresenta o termo que preenche corretamente a lacuna:
As políticas e diretrizes __________ estão transpassadas por disputas entre manter estilos normatizantes ou optar por orientações mais políticas. 
Alternativas
Q3848511 Português

Leia o texto a seguir para responder à questão.


Um grande passo para a humanidade


    Para os meninos de hoje, as viagens do ônibus espacial são rotina e dizem muito pouco, quando não passam desapercebidas, porque não têm mais emoção e se sucedem com frequência, como se fizessem eternamente parte do dia a dia humano.


    Mas, quando eu era criança, a conquista do espaço implicava emoções fortes. De repente, Flash Gordon deixava de ser ficção para se materializar nos foguetes russos e americanos que subiam aos céus, levando primeiro cachorros, como a Laica, e depois homens, para dar a volta do planeta em órbitas fantásticas, onde aparecíamos aos seus olhos pintados de azuis.

    
(...)

    
    De repente, ainda que seguindo os passos de um cronograma lógico e rigoroso, estávamos na Lua, com tudo de mítico e lúdico que esse voo tinha.


    Num dia de julho, o homem rompeu a cadeia que o prendia à Terra desde o começo da nossa história; dali para a frente, a nova fronteira seria os confins do espaço.


    O planeta parou para assistir, pela televisão, ao pouso do módulo lunar na superfície da Lua.


    Meu Deus do céu, assistir pela televisão o homem andar na Lua!


   Não bastava o feito fantástico, a capacidade intelectual e a coragem envolvidas; ainda por cima, nós, míseros mortais espalhados pela superfície do nosso planeta menor, tínhamos a chance de ver, ao vivo, pelas telas das televisões ligadas nos quatro cantos da Terra, a história ser feita, no momento em que a história era feita; na marca maravilhosa gravada para sempre — como um padrão real plantado no cosmos — da pegada da sola da bota de um homem na superfície da Lua.


MENDONÇA, Antonio Penteado. Um grande passo para a humanidade. Crônicas da Cidade. Disponível em  <https://cronicasdacidade.com.br/cronicas/2021/>


“Num dia de julho o homem rompeu a cadeia que o prendia à Terra desde o começo da nossa história”
A palavra destacada no trecho acima é sinônima de: 
Alternativas
Q3848510 Português

Leia o texto a seguir para responder à questão.


Um grande passo para a humanidade


    Para os meninos de hoje, as viagens do ônibus espacial são rotina e dizem muito pouco, quando não passam desapercebidas, porque não têm mais emoção e se sucedem com frequência, como se fizessem eternamente parte do dia a dia humano.


    Mas, quando eu era criança, a conquista do espaço implicava emoções fortes. De repente, Flash Gordon deixava de ser ficção para se materializar nos foguetes russos e americanos que subiam aos céus, levando primeiro cachorros, como a Laica, e depois homens, para dar a volta do planeta em órbitas fantásticas, onde aparecíamos aos seus olhos pintados de azuis.

    
(...)

    
    De repente, ainda que seguindo os passos de um cronograma lógico e rigoroso, estávamos na Lua, com tudo de mítico e lúdico que esse voo tinha.


    Num dia de julho, o homem rompeu a cadeia que o prendia à Terra desde o começo da nossa história; dali para a frente, a nova fronteira seria os confins do espaço.


    O planeta parou para assistir, pela televisão, ao pouso do módulo lunar na superfície da Lua.


    Meu Deus do céu, assistir pela televisão o homem andar na Lua!


   Não bastava o feito fantástico, a capacidade intelectual e a coragem envolvidas; ainda por cima, nós, míseros mortais espalhados pela superfície do nosso planeta menor, tínhamos a chance de ver, ao vivo, pelas telas das televisões ligadas nos quatro cantos da Terra, a história ser feita, no momento em que a história era feita; na marca maravilhosa gravada para sempre — como um padrão real plantado no cosmos — da pegada da sola da bota de um homem na superfície da Lua.


MENDONÇA, Antonio Penteado. Um grande passo para a humanidade. Crônicas da Cidade. Disponível em  <https://cronicasdacidade.com.br/cronicas/2021/>


O autor do texto “Um grande passo para a humanidade” apresenta as ideias na forma de: 
Alternativas
Q3848509 Português

Leia o texto a seguir para responder à questão.


Um grande passo para a humanidade


    Para os meninos de hoje, as viagens do ônibus espacial são rotina e dizem muito pouco, quando não passam desapercebidas, porque não têm mais emoção e se sucedem com frequência, como se fizessem eternamente parte do dia a dia humano.


    Mas, quando eu era criança, a conquista do espaço implicava emoções fortes. De repente, Flash Gordon deixava de ser ficção para se materializar nos foguetes russos e americanos que subiam aos céus, levando primeiro cachorros, como a Laica, e depois homens, para dar a volta do planeta em órbitas fantásticas, onde aparecíamos aos seus olhos pintados de azuis.

    
(...)

    
    De repente, ainda que seguindo os passos de um cronograma lógico e rigoroso, estávamos na Lua, com tudo de mítico e lúdico que esse voo tinha.


    Num dia de julho, o homem rompeu a cadeia que o prendia à Terra desde o começo da nossa história; dali para a frente, a nova fronteira seria os confins do espaço.


    O planeta parou para assistir, pela televisão, ao pouso do módulo lunar na superfície da Lua.


    Meu Deus do céu, assistir pela televisão o homem andar na Lua!


   Não bastava o feito fantástico, a capacidade intelectual e a coragem envolvidas; ainda por cima, nós, míseros mortais espalhados pela superfície do nosso planeta menor, tínhamos a chance de ver, ao vivo, pelas telas das televisões ligadas nos quatro cantos da Terra, a história ser feita, no momento em que a história era feita; na marca maravilhosa gravada para sempre — como um padrão real plantado no cosmos — da pegada da sola da bota de um homem na superfície da Lua.


MENDONÇA, Antonio Penteado. Um grande passo para a humanidade. Crônicas da Cidade. Disponível em  <https://cronicasdacidade.com.br/cronicas/2021/>


No texto “Um grande passo para a humanidade”, o autor demonstra: 
Alternativas
Q3848213 Português

Leia o texto a seguir para responder à questão:


    Acreditou-se por muito tempo que, deixando-se de lado a Revolução Industrial, a produção de bens de consumo nunca aumentou de forma tão rápida e robusta quanto por obra da invenção da agricultura. Graças à agricultura, pensava-se, os grupos humanos puderam tornar-se sedentários e assegurar uma provisão regular, conservando os grãos. Como dispunham de excedentes, as sociedades puderam dar-se ao luxo de manter indivíduos ou classes ‒ chefes, nobres, sacerdotes, artesãos ‒ que não participavam da produção de alimentos. No espaço de quatro ou cinco milênios, a impulsão dada pela agricultura e mantida por ela teria levado os homens de um modo de vida precário, ameaçado pela fome, a uma existência estável, primeiro em aldeias e finalmente em impérios.

    Essas eram as visões que prevaleciam até recentemente. Hoje, essa reconstrução simples e grandiosa da história humana jaz em ruínas. Pesquisas entre os povos sem agricultura, voltadas para questões como tempo de trabalho, produtividade e valor nutricional dos alimentos, demonstram que a maior parte deles leva uma vida confortável. Meios geográficos que, por ignorância de seus recursos naturais, julgávamos miseráveis reservam para aqueles que ali vivem grande quantidade de espécies vegetais muito apropriadas para a alimentação. Descobriu-se, por exemplo, que os indígenas das regiões desérticas da Califórnia, onde hoje uma pequena população branca subsiste com dificuldade, consumiam uma grande variedade de plantas selvagens de alto valor nutritivo.

    Calculou-se que, entre os povos que viviam da caça e da coleta de produtos selvagens, um homem supria as necessidades de quatro ou cinco pessoas, ou seja, tinha uma produtividade superior à de muitos camponeses europeus. Além disso, o tempo gasto com a procura de alimentos não excedia a média de três horas diárias, para uma produção alimentar bastante equilibrada e que ultrapassava 2 mil calorias por pessoa (média que inclui crianças e idosos).


(Claude Lévi-Strauss. Somos todos canibais, 2022. Adaptado)

O autor demonstra que está ultrapassada a ideia segundo a qual a agricultura teria 
Alternativas
Q3848207 Português

Leia o texto a seguir para responder à questão:


    Tudo o que ouvi dizer de minha avó materna devo à insistência com que abordei o assunto. Minha mãe gostava de contar casos de família depois do jantar, sentada à mesa da copa ou numa poltrona de couro da sala, mas esse ela muitas vezes evitava com habilidade. Dizia que ainda era menina quando minha avó morreu, que as coisas que sabia tinha escutado entre os oito e os doze anos de idade, que a partir daí o convívio com a mãe ficou muito prejudicado ou então que sua memória andava fraca ultimamente. A impressão que me dava, vendo-a passar o dedo em cima de um friso da toalha ou de um veio saliente no braço da poltrona, era a de alguém que no primeiro instante se recorda e no seguinte abafa compulsivamente as imagens evocadas. Os motivos alegados podiam ser reais, mas não era verdade que sua memória estivesse fraca; pelo contrário, os anos pareciam beneficiá-la com as reflexões da velhice e a busca silenciosa de um sentido para a experiência. Além disso, era inevitável que mencionasse sua mãe como personagem relevante da sua história pessoal, o que acabou levando à composição de um quadro inteligível, ainda que sumário, dos sofrimentos de minha avó.


(Modesto Carone, Resumo de Ana, 1998)

Durante as conversas com a mãe, o narrador sente que ela
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Q3848118 Português
A Velha


   A velha era felicíssima. Pois não é verdade que tinha uma boa vida e nada lhe faltava? Só nessa manhã tinha encontrado um lugar vago num banco de jardim, nem demasiado à sombra nem demasiado ao sol, o elétrico1 não vinha excessivamente cheio e também conseguiu lugar, o padeiro disse-lhe bom dia com um ar tão simpático, quando ela deixou em cima do balcão o dinheiro de três carcaças2 , e o empregado da mercearia ficou a conversar depois de lhe dar o troco e perguntou-lhe se gostava daquela nova marca de café.

   Nos meses mais quentes tirava um passe de terceira idade e passeava. No inverno não valia a pena, estava frio e vinha logo a chuva e preferia não sair, por causa do reumatismo.

   Mas, saindo só nos meses mais bonitos, o passe ficava ainda mais barato. Se fizesse a conta do preço a dividir por doze (ah, sabia bem fazer contas, sempre tinha sido esperta na escola) pois se fizesse a conta a dividir por doze ainda era menos que pagava pelo passe.

   Gostava sobretudo do elétrico da circulação, dava a volta à cidade sem ter de sair, e ainda por cima bem instalada, conseguia ficar quase sempre ao pé da janela. Ou, se não conseguisse na primeira volta, era certo que conseguia na segunda, porque, entretanto, sairia quem fosse à janela e era só empurrar-se um pouco e ocupar o lugar do outro, e então sim, via tudo como se estivesse no cinema.

   Ao cinema propriamente ia pouco, há vários anos até que já não ia. Não era só por ser caro, é que às vezes as cadeiras estavam gastas e faziam-lhe doer as costas, e também nunca sabia se ia gostar dos filmes. E se não gostasse não podia fazer como na televisão e mudar de canal ou desligar, tinha de aguentar até ao fim, ou sair. E era um grande desconsolo sair a meio, já lhe tinha acontecido mais do que uma vez.

    Por isso não ia cinema. Televisão via bastante, claro, mas dava-lhe mais gozo andar de elétrico. Em vez de ficar fechada em casa, andava no meio das pessoas e das ruas, mas sem se cansar, bem sentada. Gozando o espetáculo dos outros — olha ali aquela montra3 iluminada, aquele homem a correr, aquela mulher ajoujada4 com o cesto das couves. E ela ali, recostada na cadeira, sem carregar pesos, nem sequer o peso do seu próprio corpo — dava-lhe vontade de rir, tamanha facilidade.


(Teolinda Gersão. Histórias de Ver e Andar, 2002. Adaptado)


1 bonde
2 pãezinhos
3 vitrine
4 sobrecarregada
O texto deixa claro que a Velha
Alternativas
Respostas
8441: E
8442: C
8443: D
8444: B
8445: E
8446: A
8447: A
8448: A
8449: C
8450: D
8451: E
8452: C
8453: C
8454: D
8455: D
8456: E
8457: A
8458: D
8459: E
8460: B