Questões de Concurso
Comentadas sobre interpretação de textos em português
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TEXTO PARA A QUESTÃO.
Desigualdades sociais dificultam acesso à educação infantil no Brasil
As desigualdades socioeconômicas repercutem também no acesso à educação infantil no Brasil. Essa é uma constatação do estudo inédito. O desafio da equidade no acesso à educação infantil: uma análise do CadÚnico e do Censo Escolar, realizado pela Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal, em parceria com o Ministério da Educação (MEC) e o Ministério do Desenvolvimento Social (MDS).
O estudo cruza informações do CadÚnico com o Censo Escolar, a partir de microdados de 2023. A desigualdade pode ser comprovada pelo fato de apenas 30% do total de 10 milhões de crianças de baixa renda na primeira infância, inscritas no CadÚnico, estarem em creches, em dezembro daquele ano. Já na pré-escola, etapa obrigatória da educação básica, apenas 72,5% das crianças de 4 e 5 anos que vivem em famílias de baixa renda no CadÚnico estavam matriculadas.
A presidente da Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal, Mariana Luz, defende muito a creche na vida das crianças, sobretudo na primeira etapa (até 3 anos de idade).
“Ela é muito benéfica, em especial para crianças que estão em alguma situação de vulnerabilidade, porque a gente está falando de a creche ser um espaço de aprendizagem, desenvolvimento, mas também um espaço de segurança”, avaliou.
A desigualdade de acesso à educação infantil pelas famílias de baixa renda é ainda mais acentuada na Região Norte, com taxa de matrícula na creche entre as crianças de baixa renda de 16,4%, em 2023, seguida do Centro-Oeste (25%) e Nordeste (28,7%). Apenas Sudeste (37,6%) e Sul (33,2%) apresentavam taxas um pouco superiores à média nacional de 30% para a população do CadÚnico.
De acordo com o estudo, as diferenças são notadas também na pré-escola, com a taxa de matrícula para as crianças inscritas no CadÚnico variando de 68% a 78% nas regiões do país, com Norte e Nordeste mostrando as menores taxas.
O estudo revela que os municípios menores e com menor Índice de Desenvolvimento Humano Municipal (IDH-M) enfrentam mais dificuldades para garantir vagas, em função de restrições financeiras, ou por falta de capacidade técnica, o que reforça a importância de políticas públicas que apoiem os territórios mais vulneráveis, com objetivo de gerar mais equilíbrio na oferta de educação infantil em todo o país. Mariana Luz afirmou que o papel do setor público é alcançar as comunidades e ofertar o direito das crianças, sejam indígenas, quilombolas, brancas, negras, e garantir que esse direito seja também de qualidade e adequado à realidade de cada grupo, lembrando sempre que a educação básica é um direito da criança.
Fonte: https://agenciabrasil.ebc.com.br/educacao/noticia/2025- 12/desigualdades-sociais-dificulta-acesso-educacao-infantil-no-brasil (adaptado).
TEXTO PARA A QUESTÃO.
Desigualdades sociais dificultam acesso à educação infantil no Brasil
As desigualdades socioeconômicas repercutem também no acesso à educação infantil no Brasil. Essa é uma constatação do estudo inédito. O desafio da equidade no acesso à educação infantil: uma análise do CadÚnico e do Censo Escolar, realizado pela Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal, em parceria com o Ministério da Educação (MEC) e o Ministério do Desenvolvimento Social (MDS).
O estudo cruza informações do CadÚnico com o Censo Escolar, a partir de microdados de 2023. A desigualdade pode ser comprovada pelo fato de apenas 30% do total de 10 milhões de crianças de baixa renda na primeira infância, inscritas no CadÚnico, estarem em creches, em dezembro daquele ano. Já na pré-escola, etapa obrigatória da educação básica, apenas 72,5% das crianças de 4 e 5 anos que vivem em famílias de baixa renda no CadÚnico estavam matriculadas.
A presidente da Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal, Mariana Luz, defende muito a creche na vida das crianças, sobretudo na primeira etapa (até 3 anos de idade).
“Ela é muito benéfica, em especial para crianças que estão em alguma situação de vulnerabilidade, porque a gente está falando de a creche ser um espaço de aprendizagem, desenvolvimento, mas também um espaço de segurança”, avaliou.
A desigualdade de acesso à educação infantil pelas famílias de baixa renda é ainda mais acentuada na Região Norte, com taxa de matrícula na creche entre as crianças de baixa renda de 16,4%, em 2023, seguida do Centro-Oeste (25%) e Nordeste (28,7%). Apenas Sudeste (37,6%) e Sul (33,2%) apresentavam taxas um pouco superiores à média nacional de 30% para a população do CadÚnico.
De acordo com o estudo, as diferenças são notadas também na pré-escola, com a taxa de matrícula para as crianças inscritas no CadÚnico variando de 68% a 78% nas regiões do país, com Norte e Nordeste mostrando as menores taxas.
O estudo revela que os municípios menores e com menor Índice de Desenvolvimento Humano Municipal (IDH-M) enfrentam mais dificuldades para garantir vagas, em função de restrições financeiras, ou por falta de capacidade técnica, o que reforça a importância de políticas públicas que apoiem os territórios mais vulneráveis, com objetivo de gerar mais equilíbrio na oferta de educação infantil em todo o país. Mariana Luz afirmou que o papel do setor público é alcançar as comunidades e ofertar o direito das crianças, sejam indígenas, quilombolas, brancas, negras, e garantir que esse direito seja também de qualidade e adequado à realidade de cada grupo, lembrando sempre que a educação básica é um direito da criança.
Fonte: https://agenciabrasil.ebc.com.br/educacao/noticia/2025- 12/desigualdades-sociais-dificulta-acesso-educacao-infantil-no-brasil (adaptado).
TEXTO PARA A QUESTÃO.
Eu era muito diferente de meus irmãos
Jurava que tinha sido trocado no hospital. Toda criança experimenta essa suspeita, que é uma curiosidade sadia do amor, ao lado dos questionamentos sobre ser desejado ou não.
Eu culpava o mundo por ter nascido tão bagunçado e atrapalhado; nada melhor do que começar acusando meus pais, detentores da verdade sobre minha origem.
Até porque me mostrava bem diferente de meus irmãos: Miguel e Rodrigo, de cabelos cacheados; ou Carla, com um rostinho simétrico, esculpido helenicamente.
Minha feição afundava como uma tina para pisar uvas.
Só resta uma imagem do meu período inicial, com alguns dias de existência. Já possuía olheiras de ressaca, decorrentes talvez de uma madrugada em claro dentro do ventre.
O pescoço não suportava a cabeça enorme, que tropicava levemente para a esquerda. Eu vestia um tip top branco, que acentuava o caráter de assombração, somando-se à minha pele pálida.
Não tirei a hipótese da minha cuca. Tios pegavam no meu pé, em recorrentes chacotas na residência dos avós, aproveitando a minha natural desconfiança para dizer que eu tinha nascido cheio de brotoeja e que, na hora da alta, não constava mais nenhuma marca. Faziam-me crer em duas pessoas distintas: uma no parto e outra ao ir para casa, enrolada na manta.
Existia uma sutileza em minha versão. Não defendia a ideia de ter sido adotado, baseada numa escolha consciente, mas me valia da teoria de ter sido fruto de um engano, vítima de uma confusão no berçário.
Ser adotado me orgulharia. Eu mantinha a crença de que meus pais haviam tomado para si o filho errado.
Desde cedo, investiguei minha vida. Não consegui provar falsidade alguma, tampouco atestar sua veracidade. Não me bastavam o teste do pezinho, a certidão de nascimento, o DNA.
Eu partia do princípio de que me encontrava num lar perfeito, que não combinava comigo, tão torto e problemático: um lento patinho na casca, no meio de cisnes nadando velozes.
Inclusive na escola, para a minha professora, eu divulgava a minha estrambólica tese. Impaciente com a minha precoce crise de identidade, a mãe decidiu terminar de vez com a novela, que estava passando dos limites.
Ela me chamou para a cozinha. Sentou-se na minha frente, calma e resoluta, e retirou uma fotografia de um envelope pardo. Analisei friamente aqueles traços.
Era a minha cópia cuspida e escarrada; entretanto, não era eu.
— É seu avô. Viu? Não há como você não ser de nossa família.
Conformado, baixei o queixo. Quando a mãe concluiu que eu não iria mais reclamar, exclamei, impregnado de pena: “Coitado, ele também foi trocado no hospital!”
Autor: Fabrício Carpinejar - GZH (adaptado).
TEXTO PARA A QUESTÃO.
Eu era muito diferente de meus irmãos
Jurava que tinha sido trocado no hospital. Toda criança experimenta essa suspeita, que é uma curiosidade sadia do amor, ao lado dos questionamentos sobre ser desejado ou não.
Eu culpava o mundo por ter nascido tão bagunçado e atrapalhado; nada melhor do que começar acusando meus pais, detentores da verdade sobre minha origem.
Até porque me mostrava bem diferente de meus irmãos: Miguel e Rodrigo, de cabelos cacheados; ou Carla, com um rostinho simétrico, esculpido helenicamente.
Minha feição afundava como uma tina para pisar uvas.
Só resta uma imagem do meu período inicial, com alguns dias de existência. Já possuía olheiras de ressaca, decorrentes talvez de uma madrugada em claro dentro do ventre.
O pescoço não suportava a cabeça enorme, que tropicava levemente para a esquerda. Eu vestia um tip top branco, que acentuava o caráter de assombração, somando-se à minha pele pálida.
Não tirei a hipótese da minha cuca. Tios pegavam no meu pé, em recorrentes chacotas na residência dos avós, aproveitando a minha natural desconfiança para dizer que eu tinha nascido cheio de brotoeja e que, na hora da alta, não constava mais nenhuma marca. Faziam-me crer em duas pessoas distintas: uma no parto e outra ao ir para casa, enrolada na manta.
Existia uma sutileza em minha versão. Não defendia a ideia de ter sido adotado, baseada numa escolha consciente, mas me valia da teoria de ter sido fruto de um engano, vítima de uma confusão no berçário.
Ser adotado me orgulharia. Eu mantinha a crença de que meus pais haviam tomado para si o filho errado.
Desde cedo, investiguei minha vida. Não consegui provar falsidade alguma, tampouco atestar sua veracidade. Não me bastavam o teste do pezinho, a certidão de nascimento, o DNA.
Eu partia do princípio de que me encontrava num lar perfeito, que não combinava comigo, tão torto e problemático: um lento patinho na casca, no meio de cisnes nadando velozes.
Inclusive na escola, para a minha professora, eu divulgava a minha estrambólica tese. Impaciente com a minha precoce crise de identidade, a mãe decidiu terminar de vez com a novela, que estava passando dos limites.
Ela me chamou para a cozinha. Sentou-se na minha frente, calma e resoluta, e retirou uma fotografia de um envelope pardo. Analisei friamente aqueles traços.
Era a minha cópia cuspida e escarrada; entretanto, não era eu.
— É seu avô. Viu? Não há como você não ser de nossa família.
Conformado, baixei o queixo. Quando a mãe concluiu que eu não iria mais reclamar, exclamei, impregnado de pena: “Coitado, ele também foi trocado no hospital!”
Autor: Fabrício Carpinejar - GZH (adaptado).
TEXTO PARA A QUESTÃO.
Eu era muito diferente de meus irmãos
Jurava que tinha sido trocado no hospital. Toda criança experimenta essa suspeita, que é uma curiosidade sadia do amor, ao lado dos questionamentos sobre ser desejado ou não.
Eu culpava o mundo por ter nascido tão bagunçado e atrapalhado; nada melhor do que começar acusando meus pais, detentores da verdade sobre minha origem.
Até porque me mostrava bem diferente de meus irmãos: Miguel e Rodrigo, de cabelos cacheados; ou Carla, com um rostinho simétrico, esculpido helenicamente.
Minha feição afundava como uma tina para pisar uvas.
Só resta uma imagem do meu período inicial, com alguns dias de existência. Já possuía olheiras de ressaca, decorrentes talvez de uma madrugada em claro dentro do ventre.
O pescoço não suportava a cabeça enorme, que tropicava levemente para a esquerda. Eu vestia um tip top branco, que acentuava o caráter de assombração, somando-se à minha pele pálida.
Não tirei a hipótese da minha cuca. Tios pegavam no meu pé, em recorrentes chacotas na residência dos avós, aproveitando a minha natural desconfiança para dizer que eu tinha nascido cheio de brotoeja e que, na hora da alta, não constava mais nenhuma marca. Faziam-me crer em duas pessoas distintas: uma no parto e outra ao ir para casa, enrolada na manta.
Existia uma sutileza em minha versão. Não defendia a ideia de ter sido adotado, baseada numa escolha consciente, mas me valia da teoria de ter sido fruto de um engano, vítima de uma confusão no berçário.
Ser adotado me orgulharia. Eu mantinha a crença de que meus pais haviam tomado para si o filho errado.
Desde cedo, investiguei minha vida. Não consegui provar falsidade alguma, tampouco atestar sua veracidade. Não me bastavam o teste do pezinho, a certidão de nascimento, o DNA.
Eu partia do princípio de que me encontrava num lar perfeito, que não combinava comigo, tão torto e problemático: um lento patinho na casca, no meio de cisnes nadando velozes.
Inclusive na escola, para a minha professora, eu divulgava a minha estrambólica tese. Impaciente com a minha precoce crise de identidade, a mãe decidiu terminar de vez com a novela, que estava passando dos limites.
Ela me chamou para a cozinha. Sentou-se na minha frente, calma e resoluta, e retirou uma fotografia de um envelope pardo. Analisei friamente aqueles traços.
Era a minha cópia cuspida e escarrada; entretanto, não era eu.
— É seu avô. Viu? Não há como você não ser de nossa família.
Conformado, baixei o queixo. Quando a mãe concluiu que eu não iria mais reclamar, exclamei, impregnado de pena: “Coitado, ele também foi trocado no hospital!”
Autor: Fabrício Carpinejar - GZH (adaptado).
No texto, o narrador reconstrói memórias de infância a partir de uma percepção de não pertencimento, marcada por comparações familiares, ironia e autodepreciação. A partir da leitura atenta do texto, analise as assertivas a seguir.
I. A suspeita de ter sido trocado no hospital funciona como metáfora para um conflito identitário precoce, relacionado à sensação de inadequação do narrador em seu núcleo familiar.
II. As descrições físicas exageradas e autoirônicas contribuem para um tom humorístico que atenua a dimensão afetiva do conflito vivido pelo narrador.
III. A revelação final da fotografia do avô resolve completamente a crise do narrador, eliminando o sentimento de deslocamento que permeia o texto.
Das assertivas, pode-se afirmar que:
TEXTO PARA A QUESTÃO.
Happy-condria
Recentemente, um amigo me apresentou a um “especialista em felicidade”. Jesus, pensei, será uma nova profissão que desconheço? Pois é, dizia-se expert em fazer diagnóstico de pessoas das mais variadas classes sociais, para detectar os empecilhos em encontrar instantes plenos e de realização profissional. Desconfiei das intenções do rapaz, mas o ouvi por uns bons trinta minutos. Conclui que a teoria se mostra eficaz, porém dificilmente terá respaldo na prática. E digo isso ancorado em inúmeras leituras e observações que tenho feito ao longo dos anos sobre o tema.
Não dá para usar meras estatísticas para identificar a motivação ou o desânimo frente a uma realidade tão subjetiva como a da mente humana. Tudo bem, podemos estabelecer parâmetros, comparar, concluir. Contudo, é o olhar sobre cada indivíduo que irá determinar as suas prioridades e carências em um mundo em constante mutação.
Devemos ter um cuidado especial: esse desejo de viver sempre imersos na plenitude pode nos conduzir a um projeto irrealizável, querendo editar a existência, salvando só os melhores momentos. Resultado: muitos estão sofrendo da chamada “happy-condria”, uma espécie de obsessão (ou dependência) por estados de euforia, de gozo e prazer. Seria maravilhoso, mas, convenhamos, impossível de acontecer.
Analisei à certa distância o expert que tinha acabado de conhecer. Estava isolado do grupo festivo, bastante silencioso, com uma expressão de tédio. Bem, talvez com ele não esteja funcionando tão bem a sua pregação. Na verdade, nada mais natural: essas oscilações emocionais fazem parte do pacote em que está embrulhada a nossa subjetividade. Ao expor minhas ideias em palestras, enfatizo a importância de cada um desenvolver um roteiro particular e só depois ir agregando proposições alheias. Fórmulas? Jamais! No máximo um convite para refletir sobre os conceitos legados ao longo dos séculos pelos grandes mestres. Evitemos escrever meia dúzia de mandamentos definitivos. Esqueça todo processo mágico que porventura te apresentarem. Será necessário um duro e longo trabalho até aprender a separar o essencial do supérfluo. Aqui começa a descoberta dos reais propósitos a nos servir de guia para a busca desse sentimento que perpassa a história da nossa espécie.
Aprecio o fato de alguém destinar preciosas horas para entender o que nos leva a desejar tão intensamente o bem-estar interior. Somos fruto do tempo que habitamos. Reféns do valor da individualidade, mal conseguimos aprender essa máxima do filósofo Marco Aurélio: “O que não é bom para a colmeia, tampouco o será para a abelha.” Seguimos, no entanto, tentando nos aparelhar mesmo frente à volatilidade do mundo. As coisas importantes são miúdas, estão ausentes das estatísticas. Passam discretamente diante de nós, desejando ser capturadas quando estamos vigilantes.
Na regra de ouro da vida, a atenção é o ingrediente principal.
Autor: Gilmar Marcílio - GZH (adaptado).
TEXTO PARA A QUESTÃO.
Happy-condria
Recentemente, um amigo me apresentou a um “especialista em felicidade”. Jesus, pensei, será uma nova profissão que desconheço? Pois é, dizia-se expert em fazer diagnóstico de pessoas das mais variadas classes sociais, para detectar os empecilhos em encontrar instantes plenos e de realização profissional. Desconfiei das intenções do rapaz, mas o ouvi por uns bons trinta minutos. Conclui que a teoria se mostra eficaz, porém dificilmente terá respaldo na prática. E digo isso ancorado em inúmeras leituras e observações que tenho feito ao longo dos anos sobre o tema.
Não dá para usar meras estatísticas para identificar a motivação ou o desânimo frente a uma realidade tão subjetiva como a da mente humana. Tudo bem, podemos estabelecer parâmetros, comparar, concluir. Contudo, é o olhar sobre cada indivíduo que irá determinar as suas prioridades e carências em um mundo em constante mutação.
Devemos ter um cuidado especial: esse desejo de viver sempre imersos na plenitude pode nos conduzir a um projeto irrealizável, querendo editar a existência, salvando só os melhores momentos. Resultado: muitos estão sofrendo da chamada “happy-condria”, uma espécie de obsessão (ou dependência) por estados de euforia, de gozo e prazer. Seria maravilhoso, mas, convenhamos, impossível de acontecer.
Analisei à certa distância o expert que tinha acabado de conhecer. Estava isolado do grupo festivo, bastante silencioso, com uma expressão de tédio. Bem, talvez com ele não esteja funcionando tão bem a sua pregação. Na verdade, nada mais natural: essas oscilações emocionais fazem parte do pacote em que está embrulhada a nossa subjetividade. Ao expor minhas ideias em palestras, enfatizo a importância de cada um desenvolver um roteiro particular e só depois ir agregando proposições alheias. Fórmulas? Jamais! No máximo um convite para refletir sobre os conceitos legados ao longo dos séculos pelos grandes mestres. Evitemos escrever meia dúzia de mandamentos definitivos. Esqueça todo processo mágico que porventura te apresentarem. Será necessário um duro e longo trabalho até aprender a separar o essencial do supérfluo. Aqui começa a descoberta dos reais propósitos a nos servir de guia para a busca desse sentimento que perpassa a história da nossa espécie.
Aprecio o fato de alguém destinar preciosas horas para entender o que nos leva a desejar tão intensamente o bem-estar interior. Somos fruto do tempo que habitamos. Reféns do valor da individualidade, mal conseguimos aprender essa máxima do filósofo Marco Aurélio: “O que não é bom para a colmeia, tampouco o será para a abelha.” Seguimos, no entanto, tentando nos aparelhar mesmo frente à volatilidade do mundo. As coisas importantes são miúdas, estão ausentes das estatísticas. Passam discretamente diante de nós, desejando ser capturadas quando estamos vigilantes.
Na regra de ouro da vida, a atenção é o ingrediente principal.
Autor: Gilmar Marcílio - GZH (adaptado).
No texto Happy-condria, o autor desenvolve uma reflexão crítica sobre discursos contemporâneos ligados à felicidade, articulando observação empírica, ironia e referências filosóficas. A partir da leitura global do texto, analise as assertivas a seguir.
I. A noção de “happy-condria” é construída como uma crítica à tentativa de medicalizar ou padronizar estados emocionais que, por natureza, são instáveis e subjetivos.
II. A figura do “especialista em felicidade” funciona como contraponto irônico ao argumento central do texto, revelando a distância entre discurso prescritivo e experiência humana concreta.
III. A citação de Marco Aurélio reforça a defesa de uma felicidade centrada exclusivamente na individualidade, desvinculada de qualquer dimensão coletiva.
Das assertivas, pode-se afirmar que:
Texto para a questão:
Saber o destino
(Ramires Linhares)
Um dia, Albert Einstein estava viajando de trem após sair da Universidade de Princeton, e o cobrador entrou no vagão para conferir as passagens. O jovem reconheceu imediatamente o famoso cientista, que começou a procurar o bilhete nos bolsos do paletó, da calça, na pequena mala, mas não encontrava.
Percebendo a situação, o cobrador disse com tranquilidade:
- Dr. Einstein, sei quem o senhor é. Todos aqui sabem. Tenho certeza de que o senhor comprou a passagem. Não se preocupe.
Einstein agradeceu com um sorriso. O cobrador seguiu adiante, mas antes de sair do vagão, olhou para trás e viu Einstein ajoelhado, procurando o bilhete debaixo do assento.
Intrigado, voltou e insistiu:
- Como eu disse, não há problema algum. Sabemos quem o senhor é, fique tranquilo.
Foi então que Einstein respondeu, com toda a sua genial simplicidade:
- Meu jovem, eu também sei quem eu sou. O que eu não sei é para onde estou indo. Por isso preciso encontrar o meu bilhete.
Não há comprovação de que tal história tenha realmente acontecido, no entanto há uma importante mensagem nela contida: identidade não substitui direção.
Saber quem você é, seu nome, sua história, suas conquistas, nada disso garante que você vá ao lugar certo. Reconhecimento, inteligência, status ou talento não dizem nada sobre o rumo da sua vida se você não tiver clareza de propósito.
Assim a historinha da viagem de Einstein ensina que não basta ser alguém importante; é preciso saber para onde se vai. Que a confiança dos outros em você não elimina a necessidade de autoconhecimento e escolha consciente. E que até os mais brilhantes precisam parar, se ajoelhar e conferir o próprio “bilhete”, que pode ser entendido como os seus valores, metas e decisões.
Acho que, neste contexto, o verdadeiro risco não era nem o homem ter perdido o bilhete, era ter seguido uma viagem sem saber o destino.
Disponível em: https://diariodosul.com.br/colunistas/ramires-linhares/saber-o-destino-38537
Texto para a questão:
Saber o destino
(Ramires Linhares)
Um dia, Albert Einstein estava viajando de trem após sair da Universidade de Princeton, e o cobrador entrou no vagão para conferir as passagens. O jovem reconheceu imediatamente o famoso cientista, que começou a procurar o bilhete nos bolsos do paletó, da calça, na pequena mala, mas não encontrava.
Percebendo a situação, o cobrador disse com tranquilidade:
- Dr. Einstein, sei quem o senhor é. Todos aqui sabem. Tenho certeza de que o senhor comprou a passagem. Não se preocupe.
Einstein agradeceu com um sorriso. O cobrador seguiu adiante, mas antes de sair do vagão, olhou para trás e viu Einstein ajoelhado, procurando o bilhete debaixo do assento.
Intrigado, voltou e insistiu:
- Como eu disse, não há problema algum. Sabemos quem o senhor é, fique tranquilo.
Foi então que Einstein respondeu, com toda a sua genial simplicidade:
- Meu jovem, eu também sei quem eu sou. O que eu não sei é para onde estou indo. Por isso preciso encontrar o meu bilhete.
Não há comprovação de que tal história tenha realmente acontecido, no entanto há uma importante mensagem nela contida: identidade não substitui direção.
Saber quem você é, seu nome, sua história, suas conquistas, nada disso garante que você vá ao lugar certo. Reconhecimento, inteligência, status ou talento não dizem nada sobre o rumo da sua vida se você não tiver clareza de propósito.
Assim a historinha da viagem de Einstein ensina que não basta ser alguém importante; é preciso saber para onde se vai. Que a confiança dos outros em você não elimina a necessidade de autoconhecimento e escolha consciente. E que até os mais brilhantes precisam parar, se ajoelhar e conferir o próprio “bilhete”, que pode ser entendido como os seus valores, metas e decisões.
Acho que, neste contexto, o verdadeiro risco não era nem o homem ter perdido o bilhete, era ter seguido uma viagem sem saber o destino.
Disponível em: https://diariodosul.com.br/colunistas/ramires-linhares/saber-o-destino-38537