No texto, o narrador reconstrói memórias de infância a part...
TEXTO PARA A QUESTÃO.
Eu era muito diferente de meus irmãos
Jurava que tinha sido trocado no hospital. Toda criança experimenta essa suspeita, que é uma curiosidade sadia do amor, ao lado dos questionamentos sobre ser desejado ou não.
Eu culpava o mundo por ter nascido tão bagunçado e atrapalhado; nada melhor do que começar acusando meus pais, detentores da verdade sobre minha origem.
Até porque me mostrava bem diferente de meus irmãos: Miguel e Rodrigo, de cabelos cacheados; ou Carla, com um rostinho simétrico, esculpido helenicamente.
Minha feição afundava como uma tina para pisar uvas.
Só resta uma imagem do meu período inicial, com alguns dias de existência. Já possuía olheiras de ressaca, decorrentes talvez de uma madrugada em claro dentro do ventre.
O pescoço não suportava a cabeça enorme, que tropicava levemente para a esquerda. Eu vestia um tip top branco, que acentuava o caráter de assombração, somando-se à minha pele pálida.
Não tirei a hipótese da minha cuca. Tios pegavam no meu pé, em recorrentes chacotas na residência dos avós, aproveitando a minha natural desconfiança para dizer que eu tinha nascido cheio de brotoeja e que, na hora da alta, não constava mais nenhuma marca. Faziam-me crer em duas pessoas distintas: uma no parto e outra ao ir para casa, enrolada na manta.
Existia uma sutileza em minha versão. Não defendia a ideia de ter sido adotado, baseada numa escolha consciente, mas me valia da teoria de ter sido fruto de um engano, vítima de uma confusão no berçário.
Ser adotado me orgulharia. Eu mantinha a crença de que meus pais haviam tomado para si o filho errado.
Desde cedo, investiguei minha vida. Não consegui provar falsidade alguma, tampouco atestar sua veracidade. Não me bastavam o teste do pezinho, a certidão de nascimento, o DNA.
Eu partia do princípio de que me encontrava num lar perfeito, que não combinava comigo, tão torto e problemático: um lento patinho na casca, no meio de cisnes nadando velozes.
Inclusive na escola, para a minha professora, eu divulgava a minha estrambólica tese. Impaciente com a minha precoce crise de identidade, a mãe decidiu terminar de vez com a novela, que estava passando dos limites.
Ela me chamou para a cozinha. Sentou-se na minha frente, calma e resoluta, e retirou uma fotografia de um envelope pardo. Analisei friamente aqueles traços.
Era a minha cópia cuspida e escarrada; entretanto, não era eu.
— É seu avô. Viu? Não há como você não ser de nossa família.
Conformado, baixei o queixo. Quando a mãe concluiu que eu não iria mais reclamar, exclamei, impregnado de pena: “Coitado, ele também foi trocado no hospital!”
Autor: Fabrício Carpinejar - GZH (adaptado).
No texto, o narrador reconstrói memórias de infância a partir de uma percepção de não pertencimento, marcada por comparações familiares, ironia e autodepreciação. A partir da leitura atenta do texto, analise as assertivas a seguir.
I. A suspeita de ter sido trocado no hospital funciona como metáfora para um conflito identitário precoce, relacionado à sensação de inadequação do narrador em seu núcleo familiar.
II. As descrições físicas exageradas e autoirônicas contribuem para um tom humorístico que atenua a dimensão afetiva do conflito vivido pelo narrador.
III. A revelação final da fotografia do avô resolve completamente a crise do narrador, eliminando o sentimento de deslocamento que permeia o texto.
Das assertivas, pode-se afirmar que:
Gabarito comentado
Confira o gabarito comentado por um dos nossos professores
Gabarito: A
Fundamento decisivo: A resolução depende da leitura global do texto: a suspeita de ter sido trocado no hospital expressa não pertencimento, as descrições autoirônicas produzem humor, e o final não encerra a crise, porque o narrador mantém a mesma lógica da suspeita.
- Verifique se a inferência proposta acompanha a progressão do texto inteiro, especialmente o desfecho.
- Quando houver autoironia e exagero descritivo, observe se eles produzem humor sem apagar o conflito afetivo.
- Não trate uma evidência apresentada no enredo como aceitação definitiva se o narrador reage com resistência ou ironia.
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