Texto 2
A coisa mais misteriosa que existe: o tempo.
O tempo acaba com tudo: com as árvores, com as
montanhas, com as pedras, com a água - que se
evapora -, com os sentimentos, com os bichos, com os
homens.
O tempo acaba com o vigor físico, com o paladar,
com o olfato, com o interesse pelas coisas; com a vontade
de viajar, de comprar uma roupa nova, de reencontrar um
velho amigo, até com a vontade de viver. É cruel, o tempo.
Quem se salva do passar do tempo? Os que não
pensam, talvez, ou talvez os que só pensem no momento,
aquele que estão vivendo; mas mesmo assim podem
.pensar que já viveram momentos parecidos e muito
melhores que nunca mais vão se repetir, por culpa do
tempo.
Qual de nós não foi mais feliz do que agora? E se
não éramos, achávamos que iríamos ser um dia, quando
tivéssemos mais dinheiro, quando encontrássemos o
verdadeiro amor, quando tivéssemos filhos, quando eles
crescessem, quando, quando, quando. E agora, você
espera exatamente o quê, e a culpa é de quem? Apenas
do tempo. Dele, nada escapa: é o tempo que acaba com
os grandes amores, e com os grandes entusiasmos que
não resistem a ele, que passa e passa. Não são as coisas
que passam: é ele.
Passar é modo de dizer: quando se está muito
feliz, ele voa, e quando se está esperando muito por
alguma coisa, é como se ele tivesse parado.
É como se estivesse sempre contra nós, e quando
acontece de se ter uma vida razoavelmente feliz, um dia
se vê que ela já passou, e com que rapidez.
Mas o tempo às vezes é amigo; quando se tem
uma grande dor, não há dinheiro, viagens, distrações,
trabalho ou aventuras que ajudem: só o tempo.
Não chega a ser um tratamento de choque, rápido,
como se gostaria; é uma coisa vaga, lenta, que não dá
nem para perceber que está acontecendo, mas um dia
você acorda e se dá conta de que o sol está brilhando —
coisa que passou meses sem perceber que acontecia
diariamente -, se olha no espelho, tem uma súbita
vontade de abrir a janela e respirar fundo. Ainda não sabe,
mas está salva. E um dia, muito depois, vai saber que foi o
tempo, e só ele, que a salvou.
Nunca se pensa no poder do tempo, do quanto ele
comanda nossa vida; também nunca se pensa no quanto
ele é precioso, mas um dia você vai lembrar que ele passou e não volta mais. Lembra quando você tinha 20,
30 anos, e se achava infeliz? Se achava, não: era mesmo.
E quando era adolescente, não era também
profundamente infeliz, como é obrigação de todos os
adolescentes?
Mas será que ninguém tem um tio, desses meio
doidos que todo mundo tem, que pegue um desses
meninos ou meninas de 13, 15 anos, sacuda pelos ombros
e diga "pare de achar que tem problemas, viva sua
juventude, não perca tempo sendo complicada, neurótica,
reclamando que sua mãe não te entende e que seu pai
não te dá a devida atenção [...], aproveite a vida".
Para ter uma maturidade com poucos
arrependimentos, é preciso não perder tempo, e mesmo
fazendo uma bobagem atrás da outra, é melhor do que
não fazer nada. Os pais querem que os filhos estudem
para ter uma profissão, e estão certos; mas quem vai dizer
aos adolescentes para eles aproveitarem o tempo para
serem felizes em todos os minutos da vida? Quem? [...]
LEÃO, Danuza. O tempo. Disponível em:
https://www1.folha.uol.com.br/fsp/cotidian/ff1906201104.htm.
Acesso em: 23 set. 2024-Adaptado.