Em "[...] frequentei várias sessões de terapia de casal, co...

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Q3832561 Português
Texto 1


       Estão vendo aquele homenzinho com um livro aberto diante dos olhos e um headphone amarelo na cabeça? Sou eu. Na mesa ao lado, um casal discute em voz baixa. Não reparam em mim. Uma pessoa com fones de ouvido, mergulhada na leitura, é, em termos sociais, quase inexistente. Pouco se distingue de uma planta num vaso.

       A mulher deve ser uns vinte anos mais jovem que o marido. São ambos magros, delgados, flexíveis, com o ar leve e radiante de quem passou as últimas semanas ao sol, numa praia tropical. Turistas, com certeza. Falam em francês, com uma dicção tão perfeita, tão esplendidamente desenhada, que eu compreendo tudo. Sim, desliguei os fones para os ouvir melhor.

      – Olhe para dentro de você mesmo – diz a mulher. – Antes de tomar qualquer decisão, olha bem para dentro de você.

      O marido sorri:

      – Se olhar para dentro de mim, muito para dentro de mim, estarei olhando para você.

      – A mulher solta uma gargalhada feliz. Segura-lhe o rosto, com carinho:

      – Então olhe muito para dentro de mim, meu amor.

      – Estou olhando...

      Ficam assim os dois, um longo momento.

      – Você se viu, se encontrou? – pergunta por fim a mulher, numa voz muito doce.

     O francês caiu em si (ao menos foi o quе assegurou): Reconheceu todos os seus erros. Prometeu que dali em diante não tomaria nenhuma decisão antes de afundar os olhos nos olhos da mulher. Vi-os partir, minutos mais tarde, mão na mão, alegres como dois adolescentes.

     Voltei a ligar o som e terminei de beber o meu chá gelado. Fiquei pensando no turista francês e na grande arte de desmontar brigas conjugais. Anotei a frase dele, não tanto com a ideia de a usar numa futura crônica, mas, sobretudo, porque me ocorreu que, um dia, me poderia ser muito útil.

    Brigas conjugais ocorrem pelos motivos mais fúteis. Também pelos mais sérios, é claro. Para quem as sofre são tão devastadoras quanto uma guerra civil. São uma guerra civil.

    Nutro enorme admiração pelos psicólogos que medeiam conflitos conjugais. Ao longo das décadas (agora já conto o tempo em décadas) frequentei várias sessões de terapia de casal, com resultados muito diversos. Lembro-me de uma dessas sessões. A psicóloga pediu-nos, a mim e à minha namorada de então, que escrevêssemos uma lista daquilo que admirávamos um no outro. A seguir, teríamos de ler a lista em voz alta. Fui o primeiro. Antes de chegar ao final já eu chorava, já a minha namorada chorava, chorávamos ambos, abraçados um ao outro como náufragos. Quando recuperamos a serenidade vimos que também a psicóloga caíra num pranto vasto e silencioso:

     – Desculpem, desculpem, isto não devia acontecer, fiquei muito emocionada...

    A chave para a resolução de inúmeros conflitos, como os turistas franceses descobriram, passa por mergulhar nos olhos do outro. Olhar o outro nos olhos costuma ser uma experiência redentora. [...]

    Vamos, pois, olhar os outros nos olhos. Pode ser que o mundo melhore um pouco.


AGUALUSA, José Eduardo. Olhos nos olhos. Disponível em:
oglobo.globo.com/cultura/jose-eduardo-
aqualusa/coluna/2024/07/olhos-nos-olhos.ghtml. Acesso em: 01
set. 2024- Adaptado.
Em "[...] frequentei várias sessões de terapia de casal, com resultados muito diversos." (§14), o termo destacado foi corretamente empregado, no contexto. Assinale a opção em que isso também ocorre.
Alternativas

Gabarito comentado

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Gabarito: B

Fundamento decisivo: O comando pede a alternativa em que o termo destacado esteja corretamente empregado no contexto, como ocorre em "[...] frequentei várias sessões de terapia de casal, com resultados muito diversos." (§14). A escolha recai em B porque "por que" introduz interrogativa indireta e equivale a "por qual razão".

Tema central: Emprego correto de formas
Análise das alternativas
A
Errada
O erro está no emprego de "acento". No contexto, a palavra deveria nomear o lugar em que a pessoa estava sentada ao lado da mesa; para isso, o vocábulo adequado é "assento". "Acento" se refere a sinal gráfico, prosódia ou entonação, não a lugar para sentar.
B
Certa
A alternativa B é correta porque "por que" está empregado de modo adequado à estrutura da frase: em "Não sei por que", a expressão introduz interrogativa indireta e corresponde a "por qual razão".
C
Errada
A alternativa não se sustenta como exemplo de emprego correto, porque a frase apresentada contém inadequação gráfica evidente: "Muito's". Segundo a base, isso já compromete a correção normativa do enunciado reproduzido e impede que a alternativa seja aceita como correta no conjunto.
D
Errada
A locução destacada está inadequada ao contexto: a forma esperada, no sentido de "a respeito de", seria "acerca de". Assim, "há cerca" não cumpre a função semântica requerida pela frase.
E
Errada
O erro está na escolha entre "se não" e "senão". Em "não havia outra coisa a fazer", a construção expressa exceção ou única alternativa possível, valor que exige "senão". A forma separada, "se não", tem outro funcionamento e não atende ao sentido da frase.
Pegadinha da questão
A banca reuniu formas parecidas na pronúncia ou na grafia para forçar confusão: "acento/assento", "por que/porque", "há cerca de/acerca de" e "senão/se não". O ponto decisivo era verificar qual delas estava correta no contexto, não apenas escolher a que parecia mais familiar.
Dica para questões semelhantes
  • Leia o comando e identifique se a cobrança é de sentido do texto ou de correção linguística; aqui, o foco é norma-padrão no contexto.
  • Teste a expressão destacada pelo valor que ela assume na frase: em interrogativa indireta, "por que" equivale a "por qual razão".
  • Desconfie de pares muito parecidos na forma ou no som; a banca costuma explorar justamente mudança de sentido por troca mínima.
  • Não isole apenas a palavra sublinhada se a alternativa inteira apresentar problema gráfico ou estrutural que comprometa a correção.

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Comentários

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❌ Errado.

Aqui deveria ser assento (lugar para sentar).

Acento = sinal gráfico ou entonação.

✅ Correto.

“Não sei por que” = “não sei por qual motivo”.

Está corretamente separado, pois vem implícita a palavra “motivo”.

✔ Uso adequado.

❌ Apesar de “taxaram” estar correto (no sentido de “acusaram”), há erro em “Muito's”.

A frase está incorreta.

❌ Errado.

O correto seria acerca de (sobre).

  • há cerca de = tempo aproximado
  • acerca de = sobre

❌ Aqui o correto seria senão (junto), com sentido de “a não ser”.

  • Porque: “por que” está corretamente empregado na alternativa B.

A

Como meu acento estava ao lado da mesa do casal, ouvi a promessa do homem de afundar os olhos nos olhos da mulher.

  • assento = sentar cadeira
  • acento = circunflexo ou agudo

B

Não sei por que, mas pensei em uma música de Chico Buarque ao ouvir a declaração de amor do turista francês a sua amada.

  • por que = por qual motivo

C

Muito's me taxaram de indiscreto quando desliguei os fones para ouvir melhor o que o casal de turistas falava.

  • taxar = impostos
  • tachar = criticar

D

Não. pude deixar de falar há cerca de amor e cumplicidade, a partir da cena tocante e poética que presenciei.

  • há cerca = tempo atrás, passado
  • acerca = sobre assunto
  • a cerca = distância

E

Não havia outra coisa a fazer se não observar o homem praticar "a grande arte de desmontar brigas conjugais".

  • senão = não tinha outro jeito a não ser

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