Por que a diversão é tão útil para a humanidade Por Pâmela C...
Por Pâmela Carbonari
Quem ama o tédio, divertido lhe parece. Apesar da diversão ser um conceito tão relativo quanto a beleza, a paródia do ditado é tão verdadeira quanto a de que a necessidade é a mãe da invenção. […] O escritor de ciência americano Steven Johnson acredita que o prazer é o motor da inovação. Em seu décimo livro, O poder inovador da diversão: como o prazer e o entretenimento mudaram o mundo, lançado no Brasil pela editora Zahar, ele mostra a importância da música, dos jogos, da mágica, da comida e de outras formas de diversão para chegarmos onde estamos e para que tipo de futuro esses passatempos nos levarão. […] Do jogo de dardos veio a estatística. A flauta de osso pode ser a ancestral do computador que você lê este artigo. As caixas de música serviram de inspiração para os teares. Com uma prosa leve e bemhumorada (à prova de hipocrisias), Johnson explica como tecnologias fundamentais para o nosso tempo nasceram e evoluíram de objetos e engrenagens que não tinham outro objetivo senão entreter. [...] Somos naturalmente hedonistas. E, como você diz, a diversão ajudou a moldar a humanidade. Você acha que o prazer é a chave para a inteligência? Eu não diria que o prazer é “a” chave para a inteligência, mas sim que é um elemento subestimado de inteligência. Em outras palavras, tendemos a supor que pessoas inteligentes usam suas habilidades mentais em busca de problemas sérios que tenham clara utilidade ou recompensa econômica por trás deles. Mas o pensamento inteligente é muitas vezes desencadeado por experiências mais lúdicas, como os nossos ancestrais do Paleolítico que, esculpindo as primeiras flautas de ossos de animais, descobriram como posicionar os buracos para produzir os sons mais interessantes. Essas inovações exigiram uma grande dose de inteligência – dado o estado do conhecimento humano sobre a música e o design de instrumentos há 50 mil anos – mas esse tipo de coisa não era “útil” em nenhum sentido tradicional. A história da diversão sempre esteve à margem dos registros históricos mais sérios e práticos, como guerras, poder e igualdade, por exemplo. Você acha que a diversão estava implícita nesses eventos ou foi ignorada pelos historiadores? Acho que tem sido amplamente ignorada pelos historiadores. E quando foi observada e narrada, os relatos históricos foram muito limitados: há histórias sobre moda, jogos ou temperos, mas como narrativas separadas. Olhamos para a longa história da civilização de maneira diferente se contarmos a história do comportamento “lúdico” como uma categoria mais abrangente – esse era meu objetivo ao escrever O poder inovador da diversão. Essa história é muito mais importante que a maioria das pessoas imagina. Nesse seu último livro, você diz que os prazeres inúteis da vida geralmente nos dão uma pista sobre futuras mudanças na sociedade. O que podemos prever para o futuro a partir dos nossos prazeres mais comuns agora? Provavelmente o melhor exemplo recente foi a mania de Pokémon Go. Eu posso imaginar-nos olhando para trás em 2025, quando muitos de nós estarão usando regularmente dispositivos de realidade aumentada para resolver “problemas sérios” no trabalho, e vamos perceber que a primeira adoção dominante dessa tecnologia veio de pessoas correndo pelas cidades capturando monstros japoneses imaginários em seus telefones. Por que a humanidade precisa se divertir? Esta é uma questão verdadeiramente profunda. Algumas coisas que consideramos divertidas (sexo, comida, por exemplo) têm claras explicações evolutivas sobre por que nossos cérebros devem achá-las prazerosas. Mas o tipo de diversão que descrevo em O Poder Inovador da Diversão – o prazer de ver uma boneca robô imitar um humano, ou a diversão de jogar um jogo de tabuleiro – é mais difícil de explicar. Eu acho que tem a ver com a experiência de novidade e surpresa; uma parte significativa de nossa inteligência vem do nosso interesse em coisas que nos surpreendem desafiando nossas expectativas. Quando experimentamos essas coisas, temos um pequeno estímulo que diz: “Preste atenção nisso, isso é novo”. E assim, ao longo do tempo, os sistemas culturais se desenvolveram para criar experiências cada vez mais elaboradas para surpreender outros seres humanos: desde as primeiras flautas de osso, até os novos e brilhantes padrões de tecido de chita, todas as formas de Pokémon Go. É uma história antiga; temos muito mais oportunidades e tecnologias para nos surpreender do que nossos ancestrais.
Adaptado de: <https://super.abril.com.br/blog/literal/por-que-a-diversao-e-tao-util-para-a-humanidade/>. Acesso em: 22 jun. 2018.
De acordo com o texto, assinale a alternativa correta.
Gabarito comentado
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Tema central: Interpretação de Texto. Esta questão avalia a capacidade do candidato de compreender ideias principais, inferências e relações de causa e consequência presentes em um texto dissertativo.
Justificativa da Alternativa Correta – B:
A alternativa B é a correta, pois interpreta adequadamente a ideia central do texto. O autor afirma que tecnologias que nasceram como formas de diversão podem futuramente influenciar invenções importantes e utilitárias. O exemplo de Pokémon Go deixa claro: algo inicialmente lúdico (um jogo) antecipa o uso de realidade aumentada em contextos sérios e profissionais (“resolver problemas sérios no trabalho”). Assim, o texto indica que aplicativos e tecnologias criadas para o entretenimento podem, surpreendentemente, servir de base para futuras ferramentas práticas.
Estratégias de Interpretação: Busque sempre por exemplos explícitos e relações de causa e efeito ditas pelo autor, evite deduzir além do que está afirmado. Atente-se a palavras-chave como “novidade”, “surpresa”, “inspiração”, que indicam a passagem do lúdico para o útil.
Por que as demais alternativas estão erradas?
A) Incorreta. Não há informação de que as invenções comecem para crianças e depois se estendam à sociedade. O texto aborda a invenção de forma geral, sem limitação etária.
C) Incorreta. O texto não afirma que ferramentas profissionais migrarão para o entretenimento; o movimento citado é o oposto: o lúdico gera ferramentas sérias.
D) Incorreta. O autor não acusa os historiadores de interesse em “vendável”, apenas diz que ignoraram o aspecto lúdico nas grandes narrativas históricas.
E) Incorreta. O texto cita sim a diversão e o prazer como motores da invenção, mas não generaliza nem restringe seu surgimento ao ócio.
Referenciais de Gramática e Interpretação
Conforme Bechara (Moderna Gramática Portuguesa) e Koch (Ler e Compreender), a coerência textual depende da correta ligação das informações dadas no texto com as alternativas. Neste caso, a compreensão do papel da diversão na inovação é central.
Resumo: A resposta correta (B) advém da análise semântica do texto, compreendendo o processo em que o lúdico pode antecipar soluções aplicáveis em contextos profissionais futuros.
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