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Q2201180 Português
Divagação sobre as ilhas

Carlos Drumnond de Andrade

     Quando me acontecer alguma pecúnia, passante de um milhão de cruzeiros, compro uma ilha; não muito longe do litoral, que o litoral faz falta; nem tão perto, também que de lá possa eu aspirar a fumaça e a graxa do porto. Minha ilha (e só de a imaginar já me considero seu habitante) ficará no justo ponto de latitude e longitude, que, pondo-me a coberto de ventos, sereias e pestes, nem me afaste demasiado dos homens nem me obrigue a praticá-los diuturnamente. Porque esta é a ciência e, direi, a arte do bem-viver; uma fuga relativa, e uma não muito estouvada confraternização.
      De há muito sonho esta ilha, se é que não a sonhei sempre. (...)
      E por que nos seduz a ilha? As composições de sombra e luz, o esmalte das relvas, a cristalinidade dos regatos – tudo isso existe fora das ilhas, não é privilégio dela. A mesma solidão existe, com diferentes pressões, nos mais diversos locais, inclusive os de população densa, em terra firme e longa. Resta ainda o argumento da felicidade – “aqui eu não sou feliz”, declara o poeta, para enaltecer, pelo contraste, a sua pasárgada: mas será que se procura realmente nas ilhas uma ocasião de ser feliz ou modo de sê-lo? E só se alcançaria tal mercê, de índole extremamente subjetiva, no regaço de uma ilha, e não igualmente em terra comum?
      Quando penso em comprar uma ilha, nenhuma dessas excelências me seduz mais que as outras, nem todas juntas constituem a razão de meu desejo. (...)
     A ilha me satisfaz por ser uma porção curta de terra (falo de ilhas individuais, não me tentam aventuras marajoaras), um resumo prático, substantivo, dos estirões deste vasto mundo, sem os inconvenientes dele, e com a vantagem de ser quase ficção sem deixar de constituir uma realidade.

Presença da Literatura Brasileira. Modernismo. 5a. edição.
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Alternativas

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Assunto central da questão: Interpretação de Texto — compreender o posicionamento e os desejos do autor a partir de informações explícitas e implícitas no texto.

No concurso para Sargento da Aeronáutica, questões como esta avaliam sua habilidade de identificar a ideia principal e inferir nuances do texto. Para tal, é essencial atenção aos termos-chave, à progressão das ideias e à coesão textual, conforme orientam obras como Cunha & Cintra e Bechara.

Justificativa da resposta correta – Alternativa D:
A alternativa D está de acordo com o texto, pois o autor deseja uma "fuga relativa" — ou seja, não quer o isolamento completo, tampouco a convivência diária exaustiva. Ele busca equilíbrio: ter contato com as pessoas, mas sem excessos ("que... nem me afaste demasiado dos homens nem me obrigue a praticá-los diuturnamente").

Esse raciocínio exige:

  • Leitura **atenta** dos trechos em que o autor delimita sua vontade de contato moderado;
  • Compreensão da expressão "arte do bem-viver: uma fuga relativa", indicando desejo de meio-termo.

Por isso, a D traduz fielmente o desejo do autor, demonstrando domínio da coerência textual.

Análise das alternativas incorretas:

A) O texto não caracteriza a realidade do autor como "opressora", nem expressa desejo de "fugir para uma ilha distante". Ele quer proximidade controlada, não isolamento extremo.
B) Apesar de abordar questões existenciais, o texto não trata explicitamente de amor nem de paixão pela vida.
C) A alternativa distorce as intenções: o autor prefere não estar tão perto do litoral a ponto de sentir a "fumaça e a graxa do porto", o que indica evitar o contato direto com esses aspectos urbanos.

Estratégias para problemas semelhantes:

  • Destacar palavras e expressões que marcam gradação de desejo ou opinião;
  • Desconfiar de alternativas que exageram ou distorcem o argumento original (como "opressora" ou "isolar-se completamente");
  • Buscar o equilíbrio do texto: frequentemente, autores refletem sobre meios-termos, e isso é fundamental para interpretar corretamente.

No cenário da banca, a avaliação dependerá de sua capacidade de localizar nuances e interpretar as intenções do texto. Mantenha foco na análise criteriosa dos termos utilizados pelo autor.

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Comentários

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avante pmpa a vaga é minha

vivia uma realidade opressora e por isso desejava fugir para uma ilha distante.  ERRADO, o autor cita no texto que não é uma ilha "nem tão longe e nem tão perto". -> compro uma ilha; não muito longe do litoral, que o litoral faz falta; nem tão perto.

promove uma reflexão existencial tratando dos temas: amor, solidão e paixão pela vida. -> ERRADO. Em momento algum o autor mostra "paixão pela vida" tanto é que ele quer comprar uma ilha justamente para "tentar ser feliz" -> “aqui eu não sou feliz”, declara o poeta, para enaltecer, pelo contraste, a sua pasárgada: mas será que se procura realmente nas ilhas uma ocasião de ser feliz ou modo de sê-lo?

desejava comprar uma ilha próxima ao litoral, pois assim poderia aspirar a fumaça e a graxa do porto. -> ERRADO. Ele quer comprar uma ilha não tão longe do litoral mas nem tão perto para não ter que aspirar a fumaça e a graxa do porto

deseja, ao comprar uma ilha, ainda ter contato com as pessoas, desde que esse contato não seja prolongado. GABARITO. -> nem me afaste demasiado dos homens nem me obrigue a praticá-los diuturnamente.

Espero ter ajudado, bons estudos!

Nada detém a inexorável marcha do tempo.

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