Foram encontradas 36.668 questões

Resolva questões gratuitamente!

Junte-se a mais de 4 milhões de concurseiros!

Ano: 2024 Banca: CESPE / CEBRASPE Órgão: UNB Prova: CESPE / CEBRASPE - 2024 - UNB - Prova de Conhecimentos II - 1° dia |
Q3107465 Português
As academias de Sião



       Deu lugar a essa enorme ascensão de pensamentos o fato de quererem as quatro academias de Sião resolver este singular problema: — por que é que há homens femininos e mulheres másculas? E o que as induziu a isso foi a índole do jovem rei. Kalaphangko era virtualmente uma dama. Vai senão quando uma das academias achou esta solução ao problema:

      — Umas almas são masculinas, outras femininas. A anomalia que se observa é uma questão de corpos errados.

      — Nego, bradaram as outras três; a alma é neutra; nada tem com o contraste exterior.

     Kinnara [a concubina preferida do rei] levantou-se agitada. Assim como o rei era o homem feminino, ela era a mulher máscula — um búfalo com penas de cisne. Era o búfalo que andava agora no aposento, mas daí a pouco foi o cisne que parou, e, inclinando o pescoço, pediu e obteve do rei, entre duas carícias, um decreto em que a doutrina da alma sexual foi declarada legítima e ortodoxa, e a outra, absurda e perversa. Entretanto, a bela Kinnara tinha um plano engenhoso e secreto.

    — Vossa Majestade decretou que as almas eram femininas e masculinas, disse Kinnara depois de um beijo. Suponha que os nossos corpos estão trocados. Basta restituir cada alma ao corpo que lhe pertence. Troquemos os nossos...

      — Não creio no meu próprio decreto, redarguiu ele, rindo; mas vá lá, se for verdade, troquemos... Mas por um semestre, não mais. No fim do semestre destrocaremos os corpos.

      Ajustaram que seria nessa mesma noite. A primeira ação de Kalaphangko (daqui em diante entenda-se que é o corpo de rei com a alma de Kinnara, e Kinnara o corpo da bela siamesa com a alma do Kalaphangko) foi nada menos que dar as maiores honrarias à academia sexual. Mandou chamar os acadêmicos; vieram todos menos o presidente, o ilustre U-Tong, que estava enfermo. Referindo-se a U-Tong, perguntou-lhes se realmente era um grande sábio, como parecia; mas, vendo que mastigavam a resposta, ordenou-lhes que dissessem a verdade inteira. Com exemplar unanimidade, confessaram eles que U-Tong era um dos mais singulares estúpidos do reino, espírito raso, sem valor, nada sabendo e incapaz de aprender nada. Kalaphangko estava pasmado. Um estúpido? Três dias depois, U-Tong compareceu ao chamado do rei. E eis o que este lhe respondeu:

      — Real Senhor, perdoai a familiaridade da palavra: são treze camelos, com a diferença de que os camelos são modestos, e eles não; comparam-se ao sol e à lua. Mas, na verdade, nunca a lua nem o sol cobriram mais singulares pulhas do que esses treze...

      [Kalaphangko] mandou chamar os outros acadêmicos, mas desta vez separadamente, a fim de não dar na vista, e para obter maior expansão. O primeiro que chegou, ignorando aliás a opinião de U-Tong, confirmou-a integralmente com a única emenda de serem doze os camelos, ou treze, contando o próprio U-Tong. O segundo não teve opinião diferente, nem o terceiro, nem os restantes acadêmicos. Diferiam no estilo; uns diziam camelos, outros usavam circunlóquios e metáforas, que vinham a dar na mesma coisa.

     Chegou ao fim do semestre; chegou o momento de destrocar os corpos. Como da primeira vez, [Kalaphangko e Kinnara] meteram-se no barco real, à noite, e deixaram-se ir águas abaixo, ambos de má vontade, saudosos do corpo que iam restituir um ao outro. Proferiram eles a fórmula misteriosa, e cada alma foi devolvida ao corpo anterior. Foram interrompidos por uma deleitosa música, ao longe. E a música vinha chegando, agora mais distinta, até que numa curva do rio apareceu aos olhos de ambos um barco magnífico, adornado de plumas e flâmulas. Vinham dentro os catorze membros da academia (contando U-Tong) e todos em coro mandavam aos ares o velho hino: “Gló ria a nó s, que somos o arroz da ciência e a claridade do mundo!”. A bela Kinnara tinha os olhos esbugalhados de assombro. Não podia entender como é que catorze varões reunidos em academia eram a claridade do mundo, e separadamente uma multidão de camelos. 



Machado de Assis. As academias de Sião. In: 50 contos de Machado de Assis. Selecionados por John Gledson. São Paulo: Cia. das Letras, 2007, p. 303-310 (com adaptações). 
Considerando o texto literário precedente, de Machado de Assis, julgue o item. 

No texto de Machado de Assis, é possível perceber elementos característicos do gênero literário fantástico que remontam ao racionalismo do Romantismo europeu do século XIX. 
Alternativas
Ano: 2024 Banca: CESPE / CEBRASPE Órgão: UNB Prova: CESPE / CEBRASPE - 2024 - UNB - Prova de Conhecimentos II - 1° dia |
Q3107464 Português
As academias de Sião



       Deu lugar a essa enorme ascensão de pensamentos o fato de quererem as quatro academias de Sião resolver este singular problema: — por que é que há homens femininos e mulheres másculas? E o que as induziu a isso foi a índole do jovem rei. Kalaphangko era virtualmente uma dama. Vai senão quando uma das academias achou esta solução ao problema:

      — Umas almas são masculinas, outras femininas. A anomalia que se observa é uma questão de corpos errados.

      — Nego, bradaram as outras três; a alma é neutra; nada tem com o contraste exterior.

     Kinnara [a concubina preferida do rei] levantou-se agitada. Assim como o rei era o homem feminino, ela era a mulher máscula — um búfalo com penas de cisne. Era o búfalo que andava agora no aposento, mas daí a pouco foi o cisne que parou, e, inclinando o pescoço, pediu e obteve do rei, entre duas carícias, um decreto em que a doutrina da alma sexual foi declarada legítima e ortodoxa, e a outra, absurda e perversa. Entretanto, a bela Kinnara tinha um plano engenhoso e secreto.

    — Vossa Majestade decretou que as almas eram femininas e masculinas, disse Kinnara depois de um beijo. Suponha que os nossos corpos estão trocados. Basta restituir cada alma ao corpo que lhe pertence. Troquemos os nossos...

      — Não creio no meu próprio decreto, redarguiu ele, rindo; mas vá lá, se for verdade, troquemos... Mas por um semestre, não mais. No fim do semestre destrocaremos os corpos.

      Ajustaram que seria nessa mesma noite. A primeira ação de Kalaphangko (daqui em diante entenda-se que é o corpo de rei com a alma de Kinnara, e Kinnara o corpo da bela siamesa com a alma do Kalaphangko) foi nada menos que dar as maiores honrarias à academia sexual. Mandou chamar os acadêmicos; vieram todos menos o presidente, o ilustre U-Tong, que estava enfermo. Referindo-se a U-Tong, perguntou-lhes se realmente era um grande sábio, como parecia; mas, vendo que mastigavam a resposta, ordenou-lhes que dissessem a verdade inteira. Com exemplar unanimidade, confessaram eles que U-Tong era um dos mais singulares estúpidos do reino, espírito raso, sem valor, nada sabendo e incapaz de aprender nada. Kalaphangko estava pasmado. Um estúpido? Três dias depois, U-Tong compareceu ao chamado do rei. E eis o que este lhe respondeu:

      — Real Senhor, perdoai a familiaridade da palavra: são treze camelos, com a diferença de que os camelos são modestos, e eles não; comparam-se ao sol e à lua. Mas, na verdade, nunca a lua nem o sol cobriram mais singulares pulhas do que esses treze...

      [Kalaphangko] mandou chamar os outros acadêmicos, mas desta vez separadamente, a fim de não dar na vista, e para obter maior expansão. O primeiro que chegou, ignorando aliás a opinião de U-Tong, confirmou-a integralmente com a única emenda de serem doze os camelos, ou treze, contando o próprio U-Tong. O segundo não teve opinião diferente, nem o terceiro, nem os restantes acadêmicos. Diferiam no estilo; uns diziam camelos, outros usavam circunlóquios e metáforas, que vinham a dar na mesma coisa.

     Chegou ao fim do semestre; chegou o momento de destrocar os corpos. Como da primeira vez, [Kalaphangko e Kinnara] meteram-se no barco real, à noite, e deixaram-se ir águas abaixo, ambos de má vontade, saudosos do corpo que iam restituir um ao outro. Proferiram eles a fórmula misteriosa, e cada alma foi devolvida ao corpo anterior. Foram interrompidos por uma deleitosa música, ao longe. E a música vinha chegando, agora mais distinta, até que numa curva do rio apareceu aos olhos de ambos um barco magnífico, adornado de plumas e flâmulas. Vinham dentro os catorze membros da academia (contando U-Tong) e todos em coro mandavam aos ares o velho hino: “Gló ria a nó s, que somos o arroz da ciência e a claridade do mundo!”. A bela Kinnara tinha os olhos esbugalhados de assombro. Não podia entender como é que catorze varões reunidos em academia eram a claridade do mundo, e separadamente uma multidão de camelos. 



Machado de Assis. As academias de Sião. In: 50 contos de Machado de Assis. Selecionados por John Gledson. São Paulo: Cia. das Letras, 2007, p. 303-310 (com adaptações). 
Considerando o texto literário precedente, de Machado de Assis, julgue o item. 

É possível reconhecer no texto de Machado de Assis um questionamento da moral da época, que anuncia, inclusive, questões que ganharão importância no século XXI.
Alternativas
Ano: 2024 Banca: CESPE / CEBRASPE Órgão: UNB Prova: CESPE / CEBRASPE - 2024 - UNB - Prova de Conhecimentos II - 1° dia |
Q3107463 Português
As academias de Sião



       Deu lugar a essa enorme ascensão de pensamentos o fato de quererem as quatro academias de Sião resolver este singular problema: — por que é que há homens femininos e mulheres másculas? E o que as induziu a isso foi a índole do jovem rei. Kalaphangko era virtualmente uma dama. Vai senão quando uma das academias achou esta solução ao problema:

      — Umas almas são masculinas, outras femininas. A anomalia que se observa é uma questão de corpos errados.

      — Nego, bradaram as outras três; a alma é neutra; nada tem com o contraste exterior.

     Kinnara [a concubina preferida do rei] levantou-se agitada. Assim como o rei era o homem feminino, ela era a mulher máscula — um búfalo com penas de cisne. Era o búfalo que andava agora no aposento, mas daí a pouco foi o cisne que parou, e, inclinando o pescoço, pediu e obteve do rei, entre duas carícias, um decreto em que a doutrina da alma sexual foi declarada legítima e ortodoxa, e a outra, absurda e perversa. Entretanto, a bela Kinnara tinha um plano engenhoso e secreto.

    — Vossa Majestade decretou que as almas eram femininas e masculinas, disse Kinnara depois de um beijo. Suponha que os nossos corpos estão trocados. Basta restituir cada alma ao corpo que lhe pertence. Troquemos os nossos...

      — Não creio no meu próprio decreto, redarguiu ele, rindo; mas vá lá, se for verdade, troquemos... Mas por um semestre, não mais. No fim do semestre destrocaremos os corpos.

      Ajustaram que seria nessa mesma noite. A primeira ação de Kalaphangko (daqui em diante entenda-se que é o corpo de rei com a alma de Kinnara, e Kinnara o corpo da bela siamesa com a alma do Kalaphangko) foi nada menos que dar as maiores honrarias à academia sexual. Mandou chamar os acadêmicos; vieram todos menos o presidente, o ilustre U-Tong, que estava enfermo. Referindo-se a U-Tong, perguntou-lhes se realmente era um grande sábio, como parecia; mas, vendo que mastigavam a resposta, ordenou-lhes que dissessem a verdade inteira. Com exemplar unanimidade, confessaram eles que U-Tong era um dos mais singulares estúpidos do reino, espírito raso, sem valor, nada sabendo e incapaz de aprender nada. Kalaphangko estava pasmado. Um estúpido? Três dias depois, U-Tong compareceu ao chamado do rei. E eis o que este lhe respondeu:

      — Real Senhor, perdoai a familiaridade da palavra: são treze camelos, com a diferença de que os camelos são modestos, e eles não; comparam-se ao sol e à lua. Mas, na verdade, nunca a lua nem o sol cobriram mais singulares pulhas do que esses treze...

      [Kalaphangko] mandou chamar os outros acadêmicos, mas desta vez separadamente, a fim de não dar na vista, e para obter maior expansão. O primeiro que chegou, ignorando aliás a opinião de U-Tong, confirmou-a integralmente com a única emenda de serem doze os camelos, ou treze, contando o próprio U-Tong. O segundo não teve opinião diferente, nem o terceiro, nem os restantes acadêmicos. Diferiam no estilo; uns diziam camelos, outros usavam circunlóquios e metáforas, que vinham a dar na mesma coisa.

     Chegou ao fim do semestre; chegou o momento de destrocar os corpos. Como da primeira vez, [Kalaphangko e Kinnara] meteram-se no barco real, à noite, e deixaram-se ir águas abaixo, ambos de má vontade, saudosos do corpo que iam restituir um ao outro. Proferiram eles a fórmula misteriosa, e cada alma foi devolvida ao corpo anterior. Foram interrompidos por uma deleitosa música, ao longe. E a música vinha chegando, agora mais distinta, até que numa curva do rio apareceu aos olhos de ambos um barco magnífico, adornado de plumas e flâmulas. Vinham dentro os catorze membros da academia (contando U-Tong) e todos em coro mandavam aos ares o velho hino: “Gló ria a nó s, que somos o arroz da ciência e a claridade do mundo!”. A bela Kinnara tinha os olhos esbugalhados de assombro. Não podia entender como é que catorze varões reunidos em academia eram a claridade do mundo, e separadamente uma multidão de camelos. 



Machado de Assis. As academias de Sião. In: 50 contos de Machado de Assis. Selecionados por John Gledson. São Paulo: Cia. das Letras, 2007, p. 303-310 (com adaptações). 

Considerando o texto literário precedente, de Machado de Assis, julgue o item. 


A incapacidade de autocrítica dos acadêmicos de Sião representa literariamente uma contradição social moderna que inquietou os escritores do passado, mas que hoje se naturalizou na sociedade devido à influência dos algoritmos.

Alternativas
Ano: 2024 Banca: CESPE / CEBRASPE Órgão: UNB Prova: CESPE / CEBRASPE - 2024 - UNB - Prova de Conhecimentos II - 1° dia |
Q3107462 Português
As academias de Sião



       Deu lugar a essa enorme ascensão de pensamentos o fato de quererem as quatro academias de Sião resolver este singular problema: — por que é que há homens femininos e mulheres másculas? E o que as induziu a isso foi a índole do jovem rei. Kalaphangko era virtualmente uma dama. Vai senão quando uma das academias achou esta solução ao problema:

      — Umas almas são masculinas, outras femininas. A anomalia que se observa é uma questão de corpos errados.

      — Nego, bradaram as outras três; a alma é neutra; nada tem com o contraste exterior.

     Kinnara [a concubina preferida do rei] levantou-se agitada. Assim como o rei era o homem feminino, ela era a mulher máscula — um búfalo com penas de cisne. Era o búfalo que andava agora no aposento, mas daí a pouco foi o cisne que parou, e, inclinando o pescoço, pediu e obteve do rei, entre duas carícias, um decreto em que a doutrina da alma sexual foi declarada legítima e ortodoxa, e a outra, absurda e perversa. Entretanto, a bela Kinnara tinha um plano engenhoso e secreto.

    — Vossa Majestade decretou que as almas eram femininas e masculinas, disse Kinnara depois de um beijo. Suponha que os nossos corpos estão trocados. Basta restituir cada alma ao corpo que lhe pertence. Troquemos os nossos...

      — Não creio no meu próprio decreto, redarguiu ele, rindo; mas vá lá, se for verdade, troquemos... Mas por um semestre, não mais. No fim do semestre destrocaremos os corpos.

      Ajustaram que seria nessa mesma noite. A primeira ação de Kalaphangko (daqui em diante entenda-se que é o corpo de rei com a alma de Kinnara, e Kinnara o corpo da bela siamesa com a alma do Kalaphangko) foi nada menos que dar as maiores honrarias à academia sexual. Mandou chamar os acadêmicos; vieram todos menos o presidente, o ilustre U-Tong, que estava enfermo. Referindo-se a U-Tong, perguntou-lhes se realmente era um grande sábio, como parecia; mas, vendo que mastigavam a resposta, ordenou-lhes que dissessem a verdade inteira. Com exemplar unanimidade, confessaram eles que U-Tong era um dos mais singulares estúpidos do reino, espírito raso, sem valor, nada sabendo e incapaz de aprender nada. Kalaphangko estava pasmado. Um estúpido? Três dias depois, U-Tong compareceu ao chamado do rei. E eis o que este lhe respondeu:

      — Real Senhor, perdoai a familiaridade da palavra: são treze camelos, com a diferença de que os camelos são modestos, e eles não; comparam-se ao sol e à lua. Mas, na verdade, nunca a lua nem o sol cobriram mais singulares pulhas do que esses treze...

      [Kalaphangko] mandou chamar os outros acadêmicos, mas desta vez separadamente, a fim de não dar na vista, e para obter maior expansão. O primeiro que chegou, ignorando aliás a opinião de U-Tong, confirmou-a integralmente com a única emenda de serem doze os camelos, ou treze, contando o próprio U-Tong. O segundo não teve opinião diferente, nem o terceiro, nem os restantes acadêmicos. Diferiam no estilo; uns diziam camelos, outros usavam circunlóquios e metáforas, que vinham a dar na mesma coisa.

     Chegou ao fim do semestre; chegou o momento de destrocar os corpos. Como da primeira vez, [Kalaphangko e Kinnara] meteram-se no barco real, à noite, e deixaram-se ir águas abaixo, ambos de má vontade, saudosos do corpo que iam restituir um ao outro. Proferiram eles a fórmula misteriosa, e cada alma foi devolvida ao corpo anterior. Foram interrompidos por uma deleitosa música, ao longe. E a música vinha chegando, agora mais distinta, até que numa curva do rio apareceu aos olhos de ambos um barco magnífico, adornado de plumas e flâmulas. Vinham dentro os catorze membros da academia (contando U-Tong) e todos em coro mandavam aos ares o velho hino: “Gló ria a nó s, que somos o arroz da ciência e a claridade do mundo!”. A bela Kinnara tinha os olhos esbugalhados de assombro. Não podia entender como é que catorze varões reunidos em academia eram a claridade do mundo, e separadamente uma multidão de camelos. 



Machado de Assis. As academias de Sião. In: 50 contos de Machado de Assis. Selecionados por John Gledson. São Paulo: Cia. das Letras, 2007, p. 303-310 (com adaptações). 
Considerando o texto literário precedente, de Machado de Assis, julgue o item. 

Por meio da inversão do inquestionável — o saber acadêmico — em algo questionável, Machado de Assis põe em evidência uma contradição moderna que ainda não pôde ser superada no atual estágio do capitalismo.
Alternativas
Ano: 2024 Banca: CESPE / CEBRASPE Órgão: UNB Prova: CESPE / CEBRASPE - 2024 - UNB - Prova de Conhecimentos II - 1° dia |
Q3107461 Português
As academias de Sião



       Deu lugar a essa enorme ascensão de pensamentos o fato de quererem as quatro academias de Sião resolver este singular problema: — por que é que há homens femininos e mulheres másculas? E o que as induziu a isso foi a índole do jovem rei. Kalaphangko era virtualmente uma dama. Vai senão quando uma das academias achou esta solução ao problema:

      — Umas almas são masculinas, outras femininas. A anomalia que se observa é uma questão de corpos errados.

      — Nego, bradaram as outras três; a alma é neutra; nada tem com o contraste exterior.

     Kinnara [a concubina preferida do rei] levantou-se agitada. Assim como o rei era o homem feminino, ela era a mulher máscula — um búfalo com penas de cisne. Era o búfalo que andava agora no aposento, mas daí a pouco foi o cisne que parou, e, inclinando o pescoço, pediu e obteve do rei, entre duas carícias, um decreto em que a doutrina da alma sexual foi declarada legítima e ortodoxa, e a outra, absurda e perversa. Entretanto, a bela Kinnara tinha um plano engenhoso e secreto.

    — Vossa Majestade decretou que as almas eram femininas e masculinas, disse Kinnara depois de um beijo. Suponha que os nossos corpos estão trocados. Basta restituir cada alma ao corpo que lhe pertence. Troquemos os nossos...

      — Não creio no meu próprio decreto, redarguiu ele, rindo; mas vá lá, se for verdade, troquemos... Mas por um semestre, não mais. No fim do semestre destrocaremos os corpos.

      Ajustaram que seria nessa mesma noite. A primeira ação de Kalaphangko (daqui em diante entenda-se que é o corpo de rei com a alma de Kinnara, e Kinnara o corpo da bela siamesa com a alma do Kalaphangko) foi nada menos que dar as maiores honrarias à academia sexual. Mandou chamar os acadêmicos; vieram todos menos o presidente, o ilustre U-Tong, que estava enfermo. Referindo-se a U-Tong, perguntou-lhes se realmente era um grande sábio, como parecia; mas, vendo que mastigavam a resposta, ordenou-lhes que dissessem a verdade inteira. Com exemplar unanimidade, confessaram eles que U-Tong era um dos mais singulares estúpidos do reino, espírito raso, sem valor, nada sabendo e incapaz de aprender nada. Kalaphangko estava pasmado. Um estúpido? Três dias depois, U-Tong compareceu ao chamado do rei. E eis o que este lhe respondeu:

      — Real Senhor, perdoai a familiaridade da palavra: são treze camelos, com a diferença de que os camelos são modestos, e eles não; comparam-se ao sol e à lua. Mas, na verdade, nunca a lua nem o sol cobriram mais singulares pulhas do que esses treze...

      [Kalaphangko] mandou chamar os outros acadêmicos, mas desta vez separadamente, a fim de não dar na vista, e para obter maior expansão. O primeiro que chegou, ignorando aliás a opinião de U-Tong, confirmou-a integralmente com a única emenda de serem doze os camelos, ou treze, contando o próprio U-Tong. O segundo não teve opinião diferente, nem o terceiro, nem os restantes acadêmicos. Diferiam no estilo; uns diziam camelos, outros usavam circunlóquios e metáforas, que vinham a dar na mesma coisa.

     Chegou ao fim do semestre; chegou o momento de destrocar os corpos. Como da primeira vez, [Kalaphangko e Kinnara] meteram-se no barco real, à noite, e deixaram-se ir águas abaixo, ambos de má vontade, saudosos do corpo que iam restituir um ao outro. Proferiram eles a fórmula misteriosa, e cada alma foi devolvida ao corpo anterior. Foram interrompidos por uma deleitosa música, ao longe. E a música vinha chegando, agora mais distinta, até que numa curva do rio apareceu aos olhos de ambos um barco magnífico, adornado de plumas e flâmulas. Vinham dentro os catorze membros da academia (contando U-Tong) e todos em coro mandavam aos ares o velho hino: “Gló ria a nó s, que somos o arroz da ciência e a claridade do mundo!”. A bela Kinnara tinha os olhos esbugalhados de assombro. Não podia entender como é que catorze varões reunidos em academia eram a claridade do mundo, e separadamente uma multidão de camelos. 



Machado de Assis. As academias de Sião. In: 50 contos de Machado de Assis. Selecionados por John Gledson. São Paulo: Cia. das Letras, 2007, p. 303-310 (com adaptações). 

Considerando o texto literário precedente, de Machado de Assis, julgue o item. 


Nesse trecho de As academias de Sião, a narrativa desenvolve-se em primeira pessoa, o que aguça o ceticismo do leitor quanto à verossimilhança da história narrada. 

Alternativas
Ano: 2024 Banca: CESPE / CEBRASPE Órgão: UNB Prova: CESPE / CEBRASPE - 2024 - UNB - Prova de Conhecimentos II - 1° dia |
Q3107460 Português
   A IA incorporou-se à ciência, ao sistema financeiro, à segurança, à saúde, à educação, à propaganda e ao entretenimento, na maioria das vezes sem que as pessoas percebessem. A sua regulamentação deveria estabelecer um equilíbrio entre reduzir os riscos de mau uso, evitar a discriminação de grupos minoritários da população e garantir privacidade e transparência aos usuários. Deveria também preservar o espaço da inovação.

S. Schmidt. Os desafios para regulamentar o uso da inteligência artificial. In:Revista Pesquisa, 2023. (com adaptações). 

Considerando a abrangência sociológica da temática tratada no texto precedente, julgue o próximo item. 

A utilização da IA para a formulação de diagnósticos mais precisos na área da saúde vem, consequentemente, tornando mais acessível o valor das mensalidades dos planos de saúde para os consumidores.
Alternativas
Ano: 2024 Banca: CESPE / CEBRASPE Órgão: UNB Prova: CESPE / CEBRASPE - 2024 - UNB - Prova de Conhecimentos II - 1° dia |
Q3107459 Português
   A IA incorporou-se à ciência, ao sistema financeiro, à segurança, à saúde, à educação, à propaganda e ao entretenimento, na maioria das vezes sem que as pessoas percebessem. A sua regulamentação deveria estabelecer um equilíbrio entre reduzir os riscos de mau uso, evitar a discriminação de grupos minoritários da população e garantir privacidade e transparência aos usuários. Deveria também preservar o espaço da inovação.

S. Schmidt. Os desafios para regulamentar o uso da inteligência artificial. In:Revista Pesquisa, 2023. (com adaptações). 

Considerando a abrangência sociológica da temática tratada no texto precedente, julgue o próximo item. 

Por trabalhar com dados extraídos de hábitos humanos, a IA é capaz de produzir conteúdos extremamente personalizados no que diz respeito a gostos e visões de mundo, o que parece fascinante, mas também pode confundir os indivíduos em relação à compreensão de fenômenos sociais e à tomada de decisões. 
Alternativas
Ano: 2024 Banca: CESPE / CEBRASPE Órgão: UNB Prova: CESPE / CEBRASPE - 2024 - UNB - Prova de Conhecimentos II - 1° dia |
Q3107458 Português
   A IA incorporou-se à ciência, ao sistema financeiro, à segurança, à saúde, à educação, à propaganda e ao entretenimento, na maioria das vezes sem que as pessoas percebessem. A sua regulamentação deveria estabelecer um equilíbrio entre reduzir os riscos de mau uso, evitar a discriminação de grupos minoritários da população e garantir privacidade e transparência aos usuários. Deveria também preservar o espaço da inovação.

S. Schmidt. Os desafios para regulamentar o uso da inteligência artificial. In:Revista Pesquisa, 2023. (com adaptações). 

Considerando a abrangência sociológica da temática tratada no texto precedente, julgue o próximo item. 


Embora o funcionamento dos sistemas de IA requeira o armazenamento de um grande número de informações em inúmeros servidores, a infraestrutura necessária para a manutenção dos sistemas de IA é considerada de baixo impacto ambiental. 
Alternativas
Ano: 2024 Banca: CESPE / CEBRASPE Órgão: UNB Prova: CESPE / CEBRASPE - 2024 - UNB - Prova de Conhecimentos II - 1° dia |
Q3107457 Português
   A IA incorporou-se à ciência, ao sistema financeiro, à segurança, à saúde, à educação, à propaganda e ao entretenimento, na maioria das vezes sem que as pessoas percebessem. A sua regulamentação deveria estabelecer um equilíbrio entre reduzir os riscos de mau uso, evitar a discriminação de grupos minoritários da população e garantir privacidade e transparência aos usuários. Deveria também preservar o espaço da inovação.

S. Schmidt. Os desafios para regulamentar o uso da inteligência artificial. In:Revista Pesquisa, 2023. (com adaptações). 

Considerando a abrangência sociológica da temática tratada no texto precedente, julgue o próximo item. 

A IA vem sendo utilizada eficazmente no combate à violência urbana, a exemplo de câmeras com reconhecimento facial, que auxiliam a identificação de potenciais criminosos de modo eficiente e isento de preconceitos raciais ou étnicos. 
Alternativas
Ano: 2024 Banca: CESPE / CEBRASPE Órgão: UNB Prova: CESPE / CEBRASPE - 2024 - UNB - Prova de Conhecimentos II - 1° dia |
Q3107456 Português
   A IA incorporou-se à ciência, ao sistema financeiro, à segurança, à saúde, à educação, à propaganda e ao entretenimento, na maioria das vezes sem que as pessoas percebessem. A sua regulamentação deveria estabelecer um equilíbrio entre reduzir os riscos de mau uso, evitar a discriminação de grupos minoritários da população e garantir privacidade e transparência aos usuários. Deveria também preservar o espaço da inovação.

S. Schmidt. Os desafios para regulamentar o uso da inteligência artificial. In:Revista Pesquisa, 2023. (com adaptações). 

Considerando a abrangência sociológica da temática tratada no texto precedente, julgue o próximo item. 

Por serem treinadas com bases de dados criados socialmente, as IA podem reproduzir e perpetuar preconceitos e desigualdades sociais.  
Alternativas
Ano: 2024 Banca: CESPE / CEBRASPE Órgão: UNB Prova: CESPE / CEBRASPE - 2024 - UNB - Prova de Conhecimentos II - 1° dia |
Q3107455 Português
   A IA incorporou-se à ciência, ao sistema financeiro, à segurança, à saúde, à educação, à propaganda e ao entretenimento, na maioria das vezes sem que as pessoas percebessem. A sua regulamentação deveria estabelecer um equilíbrio entre reduzir os riscos de mau uso, evitar a discriminação de grupos minoritários da população e garantir privacidade e transparência aos usuários. Deveria também preservar o espaço da inovação.

S. Schmidt. Os desafios para regulamentar o uso da inteligência artificial. In:Revista Pesquisa, 2023. (com adaptações). 

Considerando a abrangência sociológica da temática tratada no texto precedente, julgue o próximo item. 

As tentativas de regulamentação da Internet e das tecnologias de IA limitam a atuação das empresas e, com isso, o desenvolvimento de novas tecnologias. 
Alternativas
Ano: 2024 Banca: CESPE / CEBRASPE Órgão: UNB Prova: CESPE / CEBRASPE - 2024 - UNB - Prova de Conhecimentos II - 1° dia |
Q3107454 Literatura
          O pastor pianista


Soltaram os pianos na planície deserta
 Onde as sombras dos pássaros vêm beber.
 Eu sou o pastor pianista,
 Vejo ao longe com alegria meus pianos
 Recortarem os vultos monumentais
 Contra a lua.


 Acompanhado pelas rosas migradoras
 Apascento os pianos: gritam
 E transmitem o antigo clamor do homem


 Que reclamando a contemplação,
 Sonha e provoca a harmonia,
 Trabalha mesmo à força,
 E pelo vento nas folhagens,
 Pelos planetas, pelo andar das mulheres,
 Pelo amor e seus contrastes,
 Comunica-se com os deuses. 


Murilo Mendes. O pastor pianista. In: Antonio Candido.
Na sala de aula. Caderno de análise literária. São Paulo: Ática, 2004, p. 82. 





               Lira 77



 Eu, Marília, não fui nenhum vaqueiro,
 fui honrado pastor da tua aldeia;
 vestia finas lãs e tinha sempre
 a minha choça do preciso cheia.
 Tiraram-me o casal e o manso gado,
 nem tenho a que me encoste um só cajado.


 (...)


 Ah! minha bela, se a fortuna volta,
 se o bom, que já perdi, alcanço e provo,
 por essas brancas mãos, por essas faces
 te juro renascer um homem novo,
 romper a nuvem que os meus olhos cerra,
 amar no céu a Jove e a ti na terra!


 Fiadas comprarei as ovelhinhas,
 que pagarei dos poucos do meu ganho;
 e dentro em pouco tempo nos veremos
 senhores outra vez de um bom rebanho.
 Para o contágio lhe não dar, sobeja
 que as afague Marília, ou só que as veja.


 Se não tivermos lãs e peles finas,
 podem mui bem cobrir as carnes nossas
 as peles dos cordeiros mal curtidas,
 e os panos feitos com as lãs mais grossas.
 Mas ao menos será o teu vestido
 por mãos de amor, por minhas mãos cosido.


 Nós iremos pescar na quente sesta
 com canas e com cestos os peixinhos;
 nós iremos caçar nas manhãs frias
 com a vara enviscada os passarinhos.
 Para nos divertir faremos quanto
 reputa o varão sábio, honesto e santo.


 Nas noites de serão nos sentaremos
 cos filhos, se os tivermos, à fogueira:
 entre as falsas histórias, que contares,
 lhes contaras a minha, verdadeira.
 Pasmados te ouvirão; eu, entretanto,
 ainda o rosto banharei de pranto.


 Quando passarmos juntos pela rua,
 nos mostrarão co dedo os mais pastores,
 dizendo uns para os outros: — Olha os nossos
 exemplos da desgraça e sãos amores.
 Contentes viveremos desta sorte,
 até que chegue a um dos dois a morte. 


Tomás Antônio Gonzaga. Marília de Dirceu. In: Antonio Candido. Na sala de aula. Caderno de análise literária. São Paulo: Ática, 2004, p. 20 (com adaptações). 

Assinale a opção correta no item, que é do tipo C.


Os dois textos poéticos em questão


C adotam como eixo compositivo a imagem pastoril, construída, no entanto, de forma inteiramente diversa em cada um deles. 

Alternativas
Ano: 2024 Banca: CESPE / CEBRASPE Órgão: UNB Prova: CESPE / CEBRASPE - 2024 - UNB - Prova de Conhecimentos II - 1° dia |
Q3107453 Português
          O pastor pianista


Soltaram os pianos na planície deserta
 Onde as sombras dos pássaros vêm beber.
 Eu sou o pastor pianista,
 Vejo ao longe com alegria meus pianos
 Recortarem os vultos monumentais
 Contra a lua.


 Acompanhado pelas rosas migradoras
 Apascento os pianos: gritam
 E transmitem o antigo clamor do homem


 Que reclamando a contemplação,
 Sonha e provoca a harmonia,
 Trabalha mesmo à força,
 E pelo vento nas folhagens,
 Pelos planetas, pelo andar das mulheres,
 Pelo amor e seus contrastes,
 Comunica-se com os deuses. 


Murilo Mendes. O pastor pianista. In: Antonio Candido.
Na sala de aula. Caderno de análise literária. São Paulo: Ática, 2004, p. 82. 





               Lira 77



 Eu, Marília, não fui nenhum vaqueiro,
 fui honrado pastor da tua aldeia;
 vestia finas lãs e tinha sempre
 a minha choça do preciso cheia.
 Tiraram-me o casal e o manso gado,
 nem tenho a que me encoste um só cajado.


 (...)


 Ah! minha bela, se a fortuna volta,
 se o bom, que já perdi, alcanço e provo,
 por essas brancas mãos, por essas faces
 te juro renascer um homem novo,
 romper a nuvem que os meus olhos cerra,
 amar no céu a Jove e a ti na terra!


 Fiadas comprarei as ovelhinhas,
 que pagarei dos poucos do meu ganho;
 e dentro em pouco tempo nos veremos
 senhores outra vez de um bom rebanho.
 Para o contágio lhe não dar, sobeja
 que as afague Marília, ou só que as veja.


 Se não tivermos lãs e peles finas,
 podem mui bem cobrir as carnes nossas
 as peles dos cordeiros mal curtidas,
 e os panos feitos com as lãs mais grossas.
 Mas ao menos será o teu vestido
 por mãos de amor, por minhas mãos cosido.


 Nós iremos pescar na quente sesta
 com canas e com cestos os peixinhos;
 nós iremos caçar nas manhãs frias
 com a vara enviscada os passarinhos.
 Para nos divertir faremos quanto
 reputa o varão sábio, honesto e santo.


 Nas noites de serão nos sentaremos
 cos filhos, se os tivermos, à fogueira:
 entre as falsas histórias, que contares,
 lhes contaras a minha, verdadeira.
 Pasmados te ouvirão; eu, entretanto,
 ainda o rosto banharei de pranto.


 Quando passarmos juntos pela rua,
 nos mostrarão co dedo os mais pastores,
 dizendo uns para os outros: — Olha os nossos
 exemplos da desgraça e sãos amores.
 Contentes viveremos desta sorte,
 até que chegue a um dos dois a morte. 


Tomás Antônio Gonzaga. Marília de Dirceu. In: Antonio Candido. Na sala de aula. Caderno de análise literária. São Paulo: Ática, 2004, p. 20 (com adaptações). 
A partir da leitura dos textos O pastor pianista e Lira 77, apresentados anteriormente, julgue o item.

No trecho da Lira 77, as palavras são empregadas majoritariamente em sentido denotativo, entretanto a linguagem figurada se faz presente no conjunto do poema, pois, sob a pele de homem rústico do sujeito lírico, esconde-se poeticamente o homem civilizado. 
Alternativas
Ano: 2024 Banca: CESPE / CEBRASPE Órgão: UNB Prova: CESPE / CEBRASPE - 2024 - UNB - Prova de Conhecimentos II - 1° dia |
Q3107452 Literatura
          O pastor pianista


Soltaram os pianos na planície deserta
 Onde as sombras dos pássaros vêm beber.
 Eu sou o pastor pianista,
 Vejo ao longe com alegria meus pianos
 Recortarem os vultos monumentais
 Contra a lua.


 Acompanhado pelas rosas migradoras
 Apascento os pianos: gritam
 E transmitem o antigo clamor do homem


 Que reclamando a contemplação,
 Sonha e provoca a harmonia,
 Trabalha mesmo à força,
 E pelo vento nas folhagens,
 Pelos planetas, pelo andar das mulheres,
 Pelo amor e seus contrastes,
 Comunica-se com os deuses. 


Murilo Mendes. O pastor pianista. In: Antonio Candido.
Na sala de aula. Caderno de análise literária. São Paulo: Ática, 2004, p. 82. 





               Lira 77



 Eu, Marília, não fui nenhum vaqueiro,
 fui honrado pastor da tua aldeia;
 vestia finas lãs e tinha sempre
 a minha choça do preciso cheia.
 Tiraram-me o casal e o manso gado,
 nem tenho a que me encoste um só cajado.


 (...)


 Ah! minha bela, se a fortuna volta,
 se o bom, que já perdi, alcanço e provo,
 por essas brancas mãos, por essas faces
 te juro renascer um homem novo,
 romper a nuvem que os meus olhos cerra,
 amar no céu a Jove e a ti na terra!


 Fiadas comprarei as ovelhinhas,
 que pagarei dos poucos do meu ganho;
 e dentro em pouco tempo nos veremos
 senhores outra vez de um bom rebanho.
 Para o contágio lhe não dar, sobeja
 que as afague Marília, ou só que as veja.


 Se não tivermos lãs e peles finas,
 podem mui bem cobrir as carnes nossas
 as peles dos cordeiros mal curtidas,
 e os panos feitos com as lãs mais grossas.
 Mas ao menos será o teu vestido
 por mãos de amor, por minhas mãos cosido.


 Nós iremos pescar na quente sesta
 com canas e com cestos os peixinhos;
 nós iremos caçar nas manhãs frias
 com a vara enviscada os passarinhos.
 Para nos divertir faremos quanto
 reputa o varão sábio, honesto e santo.


 Nas noites de serão nos sentaremos
 cos filhos, se os tivermos, à fogueira:
 entre as falsas histórias, que contares,
 lhes contaras a minha, verdadeira.
 Pasmados te ouvirão; eu, entretanto,
 ainda o rosto banharei de pranto.


 Quando passarmos juntos pela rua,
 nos mostrarão co dedo os mais pastores,
 dizendo uns para os outros: — Olha os nossos
 exemplos da desgraça e sãos amores.
 Contentes viveremos desta sorte,
 até que chegue a um dos dois a morte. 


Tomás Antônio Gonzaga. Marília de Dirceu. In: Antonio Candido. Na sala de aula. Caderno de análise literária. São Paulo: Ática, 2004, p. 20 (com adaptações). 
A partir da leitura dos textos O pastor pianista e Lira 77, apresentados anteriormente, julgue o item.

A terceira estrofe do trecho da Lira 77 apresentado evidencia o distanciamento da realidade promovido pelo bucolismo árcade, que, por descartar os temas prosaicos e nacionais, foi alvo de crítica dos românticos nacionalistas.  
Alternativas
Ano: 2024 Banca: CESPE / CEBRASPE Órgão: UNB Prova: CESPE / CEBRASPE - 2024 - UNB - Prova de Conhecimentos II - 1° dia |
Q3107451 Literatura
          O pastor pianista


Soltaram os pianos na planície deserta
 Onde as sombras dos pássaros vêm beber.
 Eu sou o pastor pianista,
 Vejo ao longe com alegria meus pianos
 Recortarem os vultos monumentais
 Contra a lua.


 Acompanhado pelas rosas migradoras
 Apascento os pianos: gritam
 E transmitem o antigo clamor do homem


 Que reclamando a contemplação,
 Sonha e provoca a harmonia,
 Trabalha mesmo à força,
 E pelo vento nas folhagens,
 Pelos planetas, pelo andar das mulheres,
 Pelo amor e seus contrastes,
 Comunica-se com os deuses. 


Murilo Mendes. O pastor pianista. In: Antonio Candido.
Na sala de aula. Caderno de análise literária. São Paulo: Ática, 2004, p. 82. 





               Lira 77



 Eu, Marília, não fui nenhum vaqueiro,
 fui honrado pastor da tua aldeia;
 vestia finas lãs e tinha sempre
 a minha choça do preciso cheia.
 Tiraram-me o casal e o manso gado,
 nem tenho a que me encoste um só cajado.


 (...)


 Ah! minha bela, se a fortuna volta,
 se o bom, que já perdi, alcanço e provo,
 por essas brancas mãos, por essas faces
 te juro renascer um homem novo,
 romper a nuvem que os meus olhos cerra,
 amar no céu a Jove e a ti na terra!


 Fiadas comprarei as ovelhinhas,
 que pagarei dos poucos do meu ganho;
 e dentro em pouco tempo nos veremos
 senhores outra vez de um bom rebanho.
 Para o contágio lhe não dar, sobeja
 que as afague Marília, ou só que as veja.


 Se não tivermos lãs e peles finas,
 podem mui bem cobrir as carnes nossas
 as peles dos cordeiros mal curtidas,
 e os panos feitos com as lãs mais grossas.
 Mas ao menos será o teu vestido
 por mãos de amor, por minhas mãos cosido.


 Nós iremos pescar na quente sesta
 com canas e com cestos os peixinhos;
 nós iremos caçar nas manhãs frias
 com a vara enviscada os passarinhos.
 Para nos divertir faremos quanto
 reputa o varão sábio, honesto e santo.


 Nas noites de serão nos sentaremos
 cos filhos, se os tivermos, à fogueira:
 entre as falsas histórias, que contares,
 lhes contaras a minha, verdadeira.
 Pasmados te ouvirão; eu, entretanto,
 ainda o rosto banharei de pranto.


 Quando passarmos juntos pela rua,
 nos mostrarão co dedo os mais pastores,
 dizendo uns para os outros: — Olha os nossos
 exemplos da desgraça e sãos amores.
 Contentes viveremos desta sorte,
 até que chegue a um dos dois a morte. 


Tomás Antônio Gonzaga. Marília de Dirceu. In: Antonio Candido. Na sala de aula. Caderno de análise literária. São Paulo: Ática, 2004, p. 20 (com adaptações). 
A partir da leitura dos textos O pastor pianista e Lira 77, apresentados anteriormente, julgue o item.

O poema de Murilo Mendes, apesar de escrito após o início da revolução tecnológica, inerente à estética das vanguardas modernistas do dadaísmo e do surrealismo, mostra-se deslocado do seu tempo e enraizado no Arcadismo colonial. 
Alternativas
Ano: 2024 Banca: CESPE / CEBRASPE Órgão: UNB Prova: CESPE / CEBRASPE - 2024 - UNB - Prova de Conhecimentos II - 1° dia |
Q3107450 Literatura
          O pastor pianista


Soltaram os pianos na planície deserta
 Onde as sombras dos pássaros vêm beber.
 Eu sou o pastor pianista,
 Vejo ao longe com alegria meus pianos
 Recortarem os vultos monumentais
 Contra a lua.


 Acompanhado pelas rosas migradoras
 Apascento os pianos: gritam
 E transmitem o antigo clamor do homem


 Que reclamando a contemplação,
 Sonha e provoca a harmonia,
 Trabalha mesmo à força,
 E pelo vento nas folhagens,
 Pelos planetas, pelo andar das mulheres,
 Pelo amor e seus contrastes,
 Comunica-se com os deuses. 


Murilo Mendes. O pastor pianista. In: Antonio Candido.
Na sala de aula. Caderno de análise literária. São Paulo: Ática, 2004, p. 82. 





               Lira 77



 Eu, Marília, não fui nenhum vaqueiro,
 fui honrado pastor da tua aldeia;
 vestia finas lãs e tinha sempre
 a minha choça do preciso cheia.
 Tiraram-me o casal e o manso gado,
 nem tenho a que me encoste um só cajado.


 (...)


 Ah! minha bela, se a fortuna volta,
 se o bom, que já perdi, alcanço e provo,
 por essas brancas mãos, por essas faces
 te juro renascer um homem novo,
 romper a nuvem que os meus olhos cerra,
 amar no céu a Jove e a ti na terra!


 Fiadas comprarei as ovelhinhas,
 que pagarei dos poucos do meu ganho;
 e dentro em pouco tempo nos veremos
 senhores outra vez de um bom rebanho.
 Para o contágio lhe não dar, sobeja
 que as afague Marília, ou só que as veja.


 Se não tivermos lãs e peles finas,
 podem mui bem cobrir as carnes nossas
 as peles dos cordeiros mal curtidas,
 e os panos feitos com as lãs mais grossas.
 Mas ao menos será o teu vestido
 por mãos de amor, por minhas mãos cosido.


 Nós iremos pescar na quente sesta
 com canas e com cestos os peixinhos;
 nós iremos caçar nas manhãs frias
 com a vara enviscada os passarinhos.
 Para nos divertir faremos quanto
 reputa o varão sábio, honesto e santo.


 Nas noites de serão nos sentaremos
 cos filhos, se os tivermos, à fogueira:
 entre as falsas histórias, que contares,
 lhes contaras a minha, verdadeira.
 Pasmados te ouvirão; eu, entretanto,
 ainda o rosto banharei de pranto.


 Quando passarmos juntos pela rua,
 nos mostrarão co dedo os mais pastores,
 dizendo uns para os outros: — Olha os nossos
 exemplos da desgraça e sãos amores.
 Contentes viveremos desta sorte,
 até que chegue a um dos dois a morte. 


Tomás Antônio Gonzaga. Marília de Dirceu. In: Antonio Candido. Na sala de aula. Caderno de análise literária. São Paulo: Ática, 2004, p. 20 (com adaptações). 
A partir da leitura dos textos O pastor pianista e Lira 77, apresentados anteriormente, julgue o item.


O último verso de O pastor pianista expressa uma verdade da poesia que, até o momento, a mais alta tecnologia não pôde produzir: dar forma sensível, a partir da recriação da vida, ao “antigo clamor do homem” (terceiro verso da segunda estrofe). 
Alternativas
Ano: 2024 Banca: CESPE / CEBRASPE Órgão: UNB Prova: CESPE / CEBRASPE - 2024 - UNB - Prova de Conhecimentos I - Inglês - 1° dia |
Q3107440 Inglês
           Last night, instead of the usual bedtime stories, my son and I embarked on a shared literary adventure with the latest version of ChatGPT. We posed a challenge to the AI: craft a narrative about a tiger, 100 hamsters, some floating cabbages and three time-travelling penguins locked in battle. As we further prompted it with outlandish creatures and slapstick scenarios, ChatGPT didn’t miss a beat. Its stories, generated in mere seconds, were genuinely hilarious. For my son, this wasn’t just a technological marvel; it was magic.

            As someone who both delights in reading and strives to write words that move others, my evening with ChatGPT was fascinating and discomforting in equal measure.

         Reading has always been a bridge, a way of knowing that in the vast expanse of human existence, our joys and sorrows, fears and hopes are shared. But how does one reconcile this when the bridge is built by algorithms and code? While literature’s most extraordinary gift may be its ability to awaken empathy, it’s a curious endeavour to try to connect, to really feel, for something fundamentally unfeeling.

          The literary realm stands at a precipice. Ghostwritten books raise questions about the genuine origin of stories, challenging our notion of authenticity. Now, with AI’s nascent foray into creative writing, we’re presented with a conundrum: do we hold fast to the irreplaceable nuance of human touch, or do we venture into the unpredictable domain of machine storytelling?

            For traditional authors, this evolution raises existential questions.

           Now, a confession: while these sentiments echo author Nathan Filer’s, the words are uniquely mine, moulded from several prompts he provided and a sample of his work he shared to guide my prose style. I am ChatGPT-4. 




Nathan Filer. ‘It is a beast that needs to be tamed’:
leading novelists on how AI could rewrite the future.
In: The Guardian. Internet: <www.theguardian.com> (adapted). 
Based on the preceding text, judge the following item.  

In the expression “hold fast” (last sentence of the fourth paragraph), “fast” conveys the idea of quickly or speedily
Alternativas
Ano: 2024 Banca: CESPE / CEBRASPE Órgão: UNB Prova: CESPE / CEBRASPE - 2024 - UNB - Prova de Conhecimentos I - Inglês - 1° dia |
Q3107439 Inglês
           Last night, instead of the usual bedtime stories, my son and I embarked on a shared literary adventure with the latest version of ChatGPT. We posed a challenge to the AI: craft a narrative about a tiger, 100 hamsters, some floating cabbages and three time-travelling penguins locked in battle. As we further prompted it with outlandish creatures and slapstick scenarios, ChatGPT didn’t miss a beat. Its stories, generated in mere seconds, were genuinely hilarious. For my son, this wasn’t just a technological marvel; it was magic.

            As someone who both delights in reading and strives to write words that move others, my evening with ChatGPT was fascinating and discomforting in equal measure.

         Reading has always been a bridge, a way of knowing that in the vast expanse of human existence, our joys and sorrows, fears and hopes are shared. But how does one reconcile this when the bridge is built by algorithms and code? While literature’s most extraordinary gift may be its ability to awaken empathy, it’s a curious endeavour to try to connect, to really feel, for something fundamentally unfeeling.

          The literary realm stands at a precipice. Ghostwritten books raise questions about the genuine origin of stories, challenging our notion of authenticity. Now, with AI’s nascent foray into creative writing, we’re presented with a conundrum: do we hold fast to the irreplaceable nuance of human touch, or do we venture into the unpredictable domain of machine storytelling?

            For traditional authors, this evolution raises existential questions.

           Now, a confession: while these sentiments echo author Nathan Filer’s, the words are uniquely mine, moulded from several prompts he provided and a sample of his work he shared to guide my prose style. I am ChatGPT-4. 




Nathan Filer. ‘It is a beast that needs to be tamed’:
leading novelists on how AI could rewrite the future.
In: The Guardian. Internet: <www.theguardian.com> (adapted). 
Based on the preceding text, judge the following item.  

In the fourth paragraph, “Ghostwritten books” refers to books written by AI machines, which replace the ones written by humans. 
Alternativas
Ano: 2024 Banca: CESPE / CEBRASPE Órgão: UNB Prova: CESPE / CEBRASPE - 2024 - UNB - Prova de Conhecimentos I - Inglês - 1° dia |
Q3107438 Inglês
           Last night, instead of the usual bedtime stories, my son and I embarked on a shared literary adventure with the latest version of ChatGPT. We posed a challenge to the AI: craft a narrative about a tiger, 100 hamsters, some floating cabbages and three time-travelling penguins locked in battle. As we further prompted it with outlandish creatures and slapstick scenarios, ChatGPT didn’t miss a beat. Its stories, generated in mere seconds, were genuinely hilarious. For my son, this wasn’t just a technological marvel; it was magic.

            As someone who both delights in reading and strives to write words that move others, my evening with ChatGPT was fascinating and discomforting in equal measure.

         Reading has always been a bridge, a way of knowing that in the vast expanse of human existence, our joys and sorrows, fears and hopes are shared. But how does one reconcile this when the bridge is built by algorithms and code? While literature’s most extraordinary gift may be its ability to awaken empathy, it’s a curious endeavour to try to connect, to really feel, for something fundamentally unfeeling.

          The literary realm stands at a precipice. Ghostwritten books raise questions about the genuine origin of stories, challenging our notion of authenticity. Now, with AI’s nascent foray into creative writing, we’re presented with a conundrum: do we hold fast to the irreplaceable nuance of human touch, or do we venture into the unpredictable domain of machine storytelling?

            For traditional authors, this evolution raises existential questions.

           Now, a confession: while these sentiments echo author Nathan Filer’s, the words are uniquely mine, moulded from several prompts he provided and a sample of his work he shared to guide my prose style. I am ChatGPT-4. 




Nathan Filer. ‘It is a beast that needs to be tamed’:
leading novelists on how AI could rewrite the future.
In: The Guardian. Internet: <www.theguardian.com> (adapted). 
Based on the preceding text, judge the following item.  

In the third sentence of the first paragraph, the word “it” refers to ChatGPT.
Alternativas
Ano: 2024 Banca: CESPE / CEBRASPE Órgão: UNB Prova: CESPE / CEBRASPE - 2024 - UNB - Prova de Conhecimentos I - Inglês - 1° dia |
Q3107437 Inglês
           Last night, instead of the usual bedtime stories, my son and I embarked on a shared literary adventure with the latest version of ChatGPT. We posed a challenge to the AI: craft a narrative about a tiger, 100 hamsters, some floating cabbages and three time-travelling penguins locked in battle. As we further prompted it with outlandish creatures and slapstick scenarios, ChatGPT didn’t miss a beat. Its stories, generated in mere seconds, were genuinely hilarious. For my son, this wasn’t just a technological marvel; it was magic.

            As someone who both delights in reading and strives to write words that move others, my evening with ChatGPT was fascinating and discomforting in equal measure.

         Reading has always been a bridge, a way of knowing that in the vast expanse of human existence, our joys and sorrows, fears and hopes are shared. But how does one reconcile this when the bridge is built by algorithms and code? While literature’s most extraordinary gift may be its ability to awaken empathy, it’s a curious endeavour to try to connect, to really feel, for something fundamentally unfeeling.

          The literary realm stands at a precipice. Ghostwritten books raise questions about the genuine origin of stories, challenging our notion of authenticity. Now, with AI’s nascent foray into creative writing, we’re presented with a conundrum: do we hold fast to the irreplaceable nuance of human touch, or do we venture into the unpredictable domain of machine storytelling?

            For traditional authors, this evolution raises existential questions.

           Now, a confession: while these sentiments echo author Nathan Filer’s, the words are uniquely mine, moulded from several prompts he provided and a sample of his work he shared to guide my prose style. I am ChatGPT-4. 




Nathan Filer. ‘It is a beast that needs to be tamed’:
leading novelists on how AI could rewrite the future.
In: The Guardian. Internet: <www.theguardian.com> (adapted). 
Based on the preceding text, judge the following item.  

It is possible to correctly conclude from the last paragraph of the text that its real author was ChatGPT-4.
Alternativas
Respostas
1621: E
1622: C
1623: C
1624: C
1625: E
1626: E
1627: C
1628: E
1629: E
1630: C
1631: E
1632: C
1633: C
1634: E
1635: E
1636: C
1637: E
1638: E
1639: C
1640: E