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Marcel Mauss propôs-se mostrar primeiramente que a troca se apresenta nas sociedades primitivas menos em forma de transações que de dons recíprocos, e em seguida que estes dons recíprocos ocupam um espaço muito mais importante nessas sociedades que na nossa. Finalmente que esta forma primitiva das trocas não tem somente, nem essencialmente, caráter econômico, mas coloca-nos em face do que chama, numa expressão feliz, “um fato social total”, isto é, dotado de significação simultaneamente social e religiosa, mágica e econômica, utilitária e sentimental, jurídica e moral.
Adaptado de LÉVI-STRAUSS, Claude. La sociologie française”. In: Gurvitch, G. (org.). La sociologie au XX -esiècle. Paris: PUF, 1947, p. 61.
Com base no trecho, é correto afirmar que Marcel Mauss desenvolveu sua noção de troca a partir das ideias de
Antigamente, muitos coletivos indígenas sentiam vergonha de sêlo. Agora “todo mundo quer ser índio”. Antigamente, os especialistas no “processo histórico” diziam que a “condição camponesa” era o devir histórico inexorável e, portanto, a verdade das sociedades indígenas supunha um “modelo “a-histórico”. Mas os índios começam a reivindicar e terminam por obter o reconhecimento constitucional de um estatuto diferenciado permanente dentro da chamada “comunhão nacional”. E então, eles implementam ambiciosos projetos de retradicionalização marcados por um autonomismo “culturalista” que, por instrumentalista e etnicizante, não é menos primordialista nem menos naturalizante. Algumas comunidades rurais do país estão reassumindo sua condição indígena, em um processo de transfiguração étnica.
Adaptado de Entrevista de Eduardo Viveiros de Castros concedida à edição do livro Povos Indígenas no Brasil, Instituto Socioambiental (ISA), 2006.
Com base no trecho, é correto afirmar que ser indígena é
A relação de estranheza entre as chamadas sociedades subdesenvolvidas e a civilização mecânica consiste sobretudo no fato de nelas encontrar o seu próprio produto, ou, mais precisamente, a contrapartida da destruição que ela instaurou para estabelecer sua própria realidade. Ao enfrentar os problemas da industrialização nos países subdesenvolvidos, a civilização ocidental encontrou ali, pela primeira vez, a imagem distorcida, como se congelada por séculos, da destruição que teve que operar para existir.
Adaptado de LÉVI-STRAUSS, Claude. Anthropologie structurale. Paris: Plon, 1958.
Com base no trecho, é correto afirmar que a construção da identidade cultural é marcada por
Os interesses imperiais da antropologia aplicada anglo-saxã não significam que devamos excluir qualquer ideia de aplicação antropológica da problemática concernente às minorias. Ao contrário, significa que este tipo de intervenção não pode ser encarado sem questionar a própria situação minoritária e sem se situar no campo político que a constitui. Deve-se considerar o peso das responsabilidades éticas do antropólogo diante das ameaças que as políticas de “modernização” e “abertura” impõem à dignidade social. Por ética antropológica entendo aqui o engajamento em enunciar o impensado e em se contrapor aos efeitos perversos dessas políticas no cerne das relações e das situações sociais concretas em que se constrói a prática antropológica, e não uma simples adesão genérica ao humanitarismo vitimista convencional.
Adaptado de ALBERT, Bruce. Antropologia aplicada ou “antropologia implicada”? Etnografia, minorias e desenvolvimento. Revista de @ntropologia da UFSCar, 14 (2), 2022 p. 199.
Com base no trecho, assinale a opção que apresenta corretamente a concepção do autor sobre a Antropologia aplicada.
I. Quando praticada por membros da cultura que se propõe estudar, a antropologia perde sua natureza específica e se torna semelhante à arqueologia e história. Pois a antropologia é a ciência da cultura vista de fora e, por isso, a primeira preocupação das pessoas conscientes de sua existência e originalidade deve ser reivindicar o direito de se observar a si mesmas, de dentro. A antropologia sobreviverá num mundo em mudança deixando-se perecer para renascer em novos moldes.
Adaptado de Lévi-Strauss, Claude. Anthropology: Its achievements and future. Current Anthropology 7, nº 3, 1966, p. 126.
II. Entre intelectuais indígenas, percebemos uma clara convergência de interesses em sua nova atitude para com o legado dos antropólogos. Autodefesa e autorrepresentação caminham juntas quando os índios se dão conta de que conhecimento é poder e que a escrita é uma poderosa tecnologia para acumular conhecimento. A pletora de livros escritos não poderia ser uma demonstração mais concreta da adoção da escrita por povos tidos como atados para sempre à oralidade. Por que, então, deixar a sabedoria de seu mundo unicamente em mãos forasteiras? Portanto, a antropologia não perecerá, apenas se tornará mais diversificada e atraente.
Adaptado de RAMOS, Alcida. Intelectuais indígenas abraçam a antropologia. Ela ainda será a mesma? Anuário antropológico, v.48, n.1, 2023.
Com base nos trechos, assinale a opção que interpreta corretamente as perspectivas dos autores sobre os efeitos da autoetnografia para a Antropologia.
No município de Vila Velha (ES), uma construtora obteve autorização preliminar para construir edifícios residenciais em área central reconhecida por seu valor histórico e urbanístico, marcada por edificações do início do século XX e práticas culturais tradicionais. Foram identificados indícios de descaracterização da paisagem urbana sem estudos prévios de impacto sobre o patrimônio cultural. Em decorrência disso, o Ministério Público do Estado do Espírito Santo instaurou procedimento para apuração dos fatos. Considerando a complexidade da questão, foi solicitado o apoio do Centro de Apoio Operacional da Defesa do Meio Ambiente, de Bens e Direitos de Valor Artístico, Estético, Histórico, Turístico, Paisagístico e Urbanístico (CAOA).
Considerando as atribuições institucionais do CAOA, assinale a opção que descreve corretamente sua atuação no caso.
Para um antropólogo, a importância da religião está em sua capacidade de servir, para um indivíduo ou para um grupo, como fonte de concepções gerais, embora distintas, do mundo, do eu e das relações entre si, por um lado — seu modelo de — e como fontes de disposições ‘mentais’ não menos distintas — seu modelo para —, por outro. Dessas funções culturais derivam, por sua vez, as funções sociais e psicológicas.
Adaptado de GEERTZ, Clifford. La interpretación de las culturas. Barcelona: Gedisa Editorial, 2003, p. 116.
Com base no trecho, analise as afirmativas a seguir acerca da concepção de religião para Clifford Geertz e assinale (V) para a verdadeira e (F) para a falsa.
( ) A religião opera simultaneamente como um modelo da realidade e como um modelo para a ação, ao articular concepções de mundo e disposições orientadoras da conduta.
( ) As funções sociais e psicológicas da religião decorrem de seu caráter como sistema cultural de significações.
( ) A religião se define principalmente por sua capacidade de organizar institucionalmente a vida social por meio de normas explícitas.
As afirmativas são, respectivamente,
O processo cultural sempre abrange seres humanos que mantém relações definidas uns com os outros, ou seja, são organizados, manuseiam artefatos e comunicam-se entre si pela palavra ou outro tipo de simbolismo. Os artefatos, os grupos organizados e o simbolismo são três dimensões do processo cultural que estão intimamente relacionadas. Podemos dizer que cada artefato é ou um implemento ou ainda um objeto de uso direto, isto é, pertencente à classe dos bens de consumo.
Adaptado de MALINOWSKI, Bronislaw. Uma teoria científica da cultura. Rio de Janeiro: Zahar, 1975, p.141.
Com base no trecho, assinale a opção que identifica corretamente a corrente antropológica à qual se vincula a perspectiva apresentada.
I. A perspectiva defendida por Janet Carsten, conhecida como o novo parentesco, utilizou-se do pensamento de Schneider para pensar a concepção de parentes em função de outras dimensões, diferentes do elo biológico. O esforço para desnaturalizar o lugar da mulher (mãe/esposa); para contestar as opressões de gênero relacionadas ao caráter natural da procriação e das diferenças fisiológicas. Mas Carsten pondera que pensar as “relacionalidades” afastadas da dimensão biológica arrisca colocar outro problema: quaisquer relações poderiam ser vistas, no limite, como relações de parentesco.
Adaptado de MURILLO, Aline Lopes. Cultures of relatedness. In: Enciclopédia de Antropologia. São Paulo: Universidade de São Paulo, Departamento de Antropologia, 2016.
II. A Etnologia americanista critica essa nova abordagem do parentesco por considerar que ele carrega o traço eurocêntrico da dicotomia dado/construído, específica do parentesco ocidental, apontando o caráter construído do parentesco para qualquer sociedade. A partir dessas críticas, a ideia de relatedness passou a ser conhecida como parentesco construtivista.
Adaptado de MURILLO, Aline Lopes. 2016. Cultures of relatedness. In: Enciclopédia de Antropologia. São Paulo: Universidade de São Paulo, Departamento de Antropologia, 2016.
Com base nos trechos, assinale a opção que apresenta corretamente a interpretação dos autores sobre a dimensão relacional dos seres humanos.
O corpo que “nós” produzimos é construído por um “nós” amplo. Os pacientes participam ativamente dessas práticas. No consultório, eles falam, permitem que o médico apalpe e avalie suas condições. No laboratório, eles contribuem ao falar pouco, permitindo que o técnico realize medições. No entanto, também é possível investigar o corpo que este ou aquele “nós” produz em outros contextos, fora do hospital. No consultório de nutricionistas, por exemplo, o que constitui o problema central, por exemplo, é o “sobrepeso”. Em relação a isso, os corpos são produzidos como gulosos, como necessitados de nutrientes. Ou ainda são produzidos de maneira distinta, como carentes de satisfação, desejosos de cuidado ou famintos de afeto. Como é possível estudar tudo isso? Atentando ao que acontece em uma prática, interrogando o que cada elemento da cena sugere sobre a realidade em jogo, fazendo perguntas aos participantes para compreender suas perspectivas, e realizando leituras complementares.
Adaptado de MARTIN, Denise et al, Multiple bodies, political ontologies and the logic of care: an interview with Annemarie Mol, Interface, 22(64), 2018, p. 296.
Com base no trecho, assinale a opção que apresenta corretamente o enfoque analítico apresentado.
Este termo aponta não para a destruição física dos homens, mas para a destruição de sua cultura. Portanto, é a destruição sistemática dos modos de vida e pensamento de povos diferentes daqueles que empreendem essa destruição. Este termo pressupõe um discurso de que é praticado para o bem do selvagem. Por exemplo, a doutrina oficial do governo brasileiro quanto à política indigenista: "Nossos índios, proclamam os responsáveis, são seres humanos como os outros. Mas a vida selvagem que levam nas florestas os condena à miséria e à infelicidade. É nosso dever ajudá-los a libertar-se da servidão.
Adaptado de CLASTRES, Pierre. Arqueologia da violência. São Paulo: Editora Cosac & Naify. 2004, pp. 56- 57.
Com base no trecho, assinale a opção que apresenta corretamente o processo cultural descrito.
A sentença “sinto dor” torna-se o canal pelo qual posso sair da inexprimível privacidade e asfixia da minha dor. Isso não significa que eu seja compreendida. Wittgenstein usa o caminho de uma gramática filosófica para dizer que essa não é uma afirmação indicativa, embora possa ter a aparência formal de uma. É o começo de um jogo de linguagem. A dor nessa interpretação não é aquela coisa inexprimível que destrói a comunicação ou marca uma saída da existência da pessoa na linguagem. Em vez disso, ela faz uma reivindicação ao outro, pedindo reconhecimento que pode ser dado ou negado.
Adaptado de DAS, Veena. Vida e palavras: A violência e sua descida ao ordinário. São Paulo: Editora Unifesp, 2020, p. 60.
Com base no trecho, é correto afirmar que a linguagem
Uma big tech desenvolveu um sistema de reconhecimento de imagens integrado a carros autônomos, com base em parâmetros técnicos que sugerem neutralidade e posteriormente adotado por outras empresas do setor. O sistema, ao ser submetido a testes em condições de circulação, apresentou desempenho desigual, com menor acurácia na identificação de pessoas negras. Esse resultado levantou preocupações quanto à confiabilidade e aos riscos implicados em sua aplicação.
Com base no trecho, analise as afirmativas a seguir sobre como o racismo algorítmico se manifesta no caso descrito.
I. A alegada neutralidade da linguagem técnica dos sistemas não impede que os efeitos das escolhas realizadas em seu desenvolvimento reproduzam formas veladas de racismo algorítmico.
II. A inferior acurácia na identificação de pessoas negras revela a presença de vieses raciais no sistema, o qual estabelece a branquitude como parâmetro normativo de referência.
III. O desempenho desigual do sistema implica efeitos sociotécnicos diferenciados, pois expõe grupos raciais de maneira desigual a riscos e erros operacionais e compromete a equidade de sua aplicação.
Está correto o que se afirma em
Se nossa impressão pode apoiar-se não somente sobre nossa lembrança, mas também sobre a de outros, nossa confiança na exatidão de nossa evocação será maior, como se uma mesma experiência fosse começada, não somente pela mesma pessoa, mas por várias.
Adaptado de HALBWACHS, M. A Memória coletiva. São Paulo: Vértice/Revista dos Tribunais, 1990, p. 25.
Com base no trecho, assinale a opção que expressa corretamente a concepção de memória em Halbwachs.
I. O termo Antropoceno mantém uma distância produtiva em relação à ideia de “Homem”, que é uma construção moderna. “Homem” não significa apenas humanos, mas um tipo específico de ser formulado pelo Iluminismo e por processos de modernização e regulação estatal. Foi esse “Homem” que produziu o estado atual do mundo. Incorporar essa dimensão no termo Antropoceno pode permitir refletir sobre a contradição de buscar soluções no mesmo agente que produziu os problemas. Compartilho das preocupações quanto ao Antropoceno como uma forma de arrogância de que o mundo atual seria resultado da ação de uma única espécie. Ao mesmo tempo, o conceito contém uma contradição produtiva que pode ser explorada. Justamente por ainda ser múltiplo e indefinido, o Antropoceno mantém um potencial.
Adaptado de TSING, Anna. Anthropologists Are Talking – About the Anthropocene. Ethnos, vol. 81:3, 2016, p. 541.
II. Designar o período atual como Antropoceno significa dizer a todas as demais disciplinas que a tarefa de articular “antropologia física” e “antropologia cultural” já não é mais exclusiva da antropologia. Todos estão agora convergindo para enfrentar a mesma experiência que a antropologia vivenciou desde o início do século XIX: como fazer coexistir ossos e divindades. Poder-se-ia objetar que não há motivo para entusiasmo diante da repetição do antigo e desgastado embate entre dimensões “físicas” e “sociais” na definição da evolução e da existência humana. Concordo. No entanto, o conceito de Antropoceno introduz um terceiro elemento com potencial para subverter esse quadro: ao afirmar que a agência humana se tornou a principal força geológica que molda a Terra, coloca-se a questão da responsabilidade.
Adaptado de LATOUR, Bruno. Anthropology at the Time of the Anthropocene - a personal view of what is to be studied. Lecture in American Association of Anthropologists, 2014, pp.3-4.
Com base nos trechos, assinale a opção que apresenta corretamente as interpretações dos autores sobre o conceito de Antropoceno.
Pode-se acreditar no mundo das ideias platônicas. Nesse caso, o pluralismo jurídico, como o monismo, existe em algum lugar, para além de nossas próprias escolhas subjetivas. Ou então, tal como eu, pode-se ser partidário de teorias realistas do direito. O direito é deste mundo, e a norma se torna o que os homens fazem em sua vida concreta. Isso significa que o pluralismo jurídico é um instrumento. Por razões históricas, a antropologia jurídica nasceu do fenômeno colonial, com relações com os povos nativos. Os primeiros antropólogos do direito estudaram os costumes e pretenderam reconhecer a existência de vários “sistemas de direito”. Digamos que o pluralismo jurídico está do lado dos dominados. Inversamente, os defensores de um Estado forte e centralizador estão do lado do monismo jurídico. Isso quer dizer que essas escolhas teóricas são também escolhas políticas.
Adaptado FILHO, Orlando. Entrevista com Norbert Rouland. Revista de Direito. Mackenzie, v.12, n.2, 2018, p. 21.
Com base no trecho, é correto afirmar que a Antropologia Jurídica
A respeito do parentesco, com base nessa leitura, assinale a afirmativa correta.
A inclusão de uma língua no INDL implica
Assinale a opção que exemplifica uma abordagem compatível com os princípios rondonianos.
Assinale a opção que exemplifica, corretamente, essa abordagem.