A prisionização secundária

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Q4037451 Criminologia
A prisionização secundária
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Gabarito: E

Fundamento decisivo: A questão cobra o conceito criminológico dominante de prisionização secundária, segundo o qual ela não recai sobre a internalização, pelo preso, dos hábitos do cárcere, mas sobre os efeitos do encarceramento em familiares e pessoas próximas, atingidos por controles, constrangimentos, estigmas e pela mediação estatal das relações com a pessoa presa; por isso, a alternativa E é a correta.

Tema central: Prisionização secundária
Análise das alternativas
A
Errada
Está incorreta porque o conceito de prisionização secundária não tem como traço o estreitamento dos vínculos familiares. Em regra, os efeitos são de desgaste, constrangimento, controle institucional e vulnerabilização das relações familiares.
B
Errada
Está incorreta porque a prisionização secundária não reduz a estigmatização decorrente da atuação das agências punitivas. O conceito aponta na direção oposta: expansão dos efeitos estigmatizantes e disciplinadores do sistema penal para familiares e pessoas próximas.
C
Errada
Está incorreta porque confunde a intranscendência da pena com inexistência de efeitos sociais do cárcere sobre terceiros. A base distingue a vedação de transmissão jurídica da pena dos efeitos sociais, materiais e simbólicos do encarceramento, que podem atingir familiares e configurar a prisionização secundária.
D
Errada
Está incorreta porque descreve a prisionização primária: a adoção, pela própria pessoa presa, de costumes, códigos e hábitos do ambiente prisional. A questão perguntava pela modalidade secundária, que recai sobre familiares e pessoas próximas, não sobre o preso.
E
Certa
A alternativa E está correta porque identifica o elemento técnico que caracteriza a prisionização secundária: a extensão dos efeitos do cárcere para além da pessoa presa, alcançando familiares e pessoas do entorno. Entre esses efeitos está a mediação estatal das relações familiares, já que visitas, contatos e interações passam a ser condicionados por regras e controles institucionais próprios da prisão.
Pegadinha da questão
A banca explorou a confusão entre prisionização secundária e a assimilação de hábitos carcerários pelo próprio preso, além da falsa ideia de que a intranscendência da pena impediria qualquer efeito do cárcere sobre familiares.
Dica para questões semelhantes
  • Separe sempre prisionização primária e secundária: a primária atinge o preso; a secundária atinge familiares e pessoas próximas.
  • Se a alternativa mencionar visitas, contatos familiares, controles institucionais ou mediação estatal das relações, o foco tende a ser prisionização secundária.
  • Não use a intranscendência da pena para negar efeitos sociais do cárcere sobre terceiros; ela veda a transmissão jurídica da sanção, não os reflexos fáticos do encarceramento.

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Comentários

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Alternativa A (Incorreta): A prisionização, em qualquer nível, fragiliza os vínculos familiares. O processo de encarceramento gera uma "dessocialização para com a vida extramuros". Além disso, a ausência de vínculos familiares é um fator que influencia negativamente a trajetória do indivíduo, não sendo fortalecida pelo ambiente prisional.

Alternativa B (Incorreta): As agências punitivas (Polícia, MP, Judiciário) e o sistema prisional são vetores de estigmatização, e não de sua redução. O processo de prisionização envolve a "mortificação do eu" e a assunção de uma identidade de criminoso (rótulo), o que aumenta o estigma social.

Alternativa C (Incorreta): Embora o princípio da intranscendência da pena dite que a punição não deve passar da pessoa do condenado, a realidade sociológica da prisionização secundária demonstra que ela ocorre de fato. O sistema acaba por "duplicar a violência" contra os familiares (especialmente mulheres), submetendo-os a humilhações e controles que transcendem a figura do preso.

Alternativa D (Incorreta para este enunciado): Esta alternativa define a prisionização primária. Segundo Donald Clemmer, o processo de prisionização é a "adoção, em maior ou menor grau, do modo de pensar, dos costumes, dos hábitos e das regras gerais da penitenciária" pela pessoa privada de liberdade. A questão, contudo, foca na prisionização secundária.

Alternativa E (Correta): A prisionização secundária decorre da forma como o Estado passa a mediar e controlar as relações familiares. O sistema de justiça criminal funciona como um mecanismo que "reforça o controle patriarcal" e submete a família (que está fora do cárcere) às suas lógicas de violência institucional, humilhação e estereotipia durante as visitas e contatos oficiais. Existe uma interação onde o controle formal (Estado) acaba por moldar e afetar o controle informal (família).

A alternativa E está correta. A prisionização secundária refere-se ao fenômeno em que os efeitos nocivos do cárcere transbordam para as famílias e pessoas próximas ao detento. Ela decorre da MEDIAÇÃO ESTATAL, pois o Estado impõe regras rígidas (revistas vexatórias, burocracia, controle de visitas) que forçam os familiares a se submeterem à lógica e ao estigma da instituição prisional para manter o vínculo afetivo.

Abaixo, a fundamentação dos erros das alternativas incorretas:

  • Erro da A: É um dos fatores que contribui para o .
  • Fundamento: Na verdade, a prisionização secundária contribui para o rompimento ou fragilização desses vínculos, devido à humilhação, ao custo financeiro e ao desgaste emocional impostos às famílias durante o processo de visitação.
  • Erro da B: É um dos fatores que decorrente da atuação das agências punitivas.
  • Fundamento: Pelo contrário, ela amplia e estende a estigmatização aos familiares, que passam a ser tratados pela sociedade e pelas agências estatais quase como se também fossem criminosos ("família de preso").
  • Erro da C: em razão do princípio constitucional da intranscendência da pena.
  • Fundamento: Embora o princípio da intranscendência (Art. 5º, XLV, CF) determine que a pena não passará da pessoa do condenado, a prisionização secundária é justamente a evidência de que, na prática sociológica, esse princípio é violado, pois a família sofre punições fáticas e sociais.
  • Erro da D: Refere-se à .
  • Fundamento: Esta definição refere-se à prisionização primária (ou simplesmente prisionização), conforme o conceito de Donald Clemmer. A secundária foca especificamente no público externo (família e amigos) afetado pelo sistema.

A alternativa correta é a E. A prisionização primária é aquela sofrida diretamente pela pessoa presa, que passa a incorporar hábitos, regras e formas de convivência próprias do cárcere. Já a prisionização secundária atinge familiares e pessoas próximas do preso, que também passam a sofrer efeitos do sistema prisional, como estigma social, controle institucional, revistas, filas, regras de visitação, dependência de autorização estatal e mediação do Estado nas relações familiares. Por isso, ela decorre, entre outros fatores, da mediação estatal das relações entre familiares. A alternativa D descreve a prisionização primária, não a secundária.

Abraços

O Fenômeno da Prisionização (Donald Clemmer)

Prisionização Primária (Foco no PRESO)

  • O que é: O detento absorve a subcultura da prisão (gírias, códigos de lealdade, hierarquia do crime).
  • Efeito: Ocorre a "desculturação" (perda dos valores da sociedade livre) e a "aculturação" (adoção dos valores da cadeia).
  • Consequência: Dificulta a ressocialização do preso.

Prisionização Secundária (Foco na FAMÍLIA)

  • O que é: Os efeitos nocivos da prisão atingem as pessoas ligadas ao preso (mãe, esposa, filhos).
  • Efeito: A relação familiar passa a ser mediada e controlada pelo Estado (regras de visita, revistas vexatórias, envio de comida).
  • Consequência: Estigmatização social da família ("mulher de preso"). Na prática criminológica, é uma quebra do princípio da intranscendência da pena, pois a família é "punida" indiretamente.

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