A crônica em forma de diálogo leva o título "Como fazer amor...
"Ah, só podia ser o nosso Gabo!", "Nossa, amo Gabriel García Márquez", "Quanta sensibilidade, perfeito!", "Só mesmo a literatura pra nos trazer tanta verdade humana" são alguns dos comentários que o texto vem suscitando.
Até aí, podia ser uma história bonita: as reflexões de um grande escritor morto sobre o amor continuam a comover leitores no mundo digital, tirando-os do embotamento do dia a dia. Não é inspirador?
Mais do que isso, uma prova de que, mesmo enamorada outra vez do fascismo e à beira de uma catástrofe ambiental sem precedentes, a velha humanidade ainda nos permite ter alguma esperança, certo?
Errado. O sucesso feito por "Como fazer amor" é parte do problema e não da solução. García Márquez é tão autor dessa crônica quanto eu escrevi um romance chamado "Cem Anos de Solidão".
Como eu sei disso? Entre incontáveis razões, porque o escritor colombiano ia preferir encarar um pelotão de fuzilamento a escrever uma frase como "tocar-nos com a ternura dócil de uma carícia que se expanda docemente até morrer num abraço", pérola de pieguice que no tal diálogo tem como resposta "Ai, que lindo". [...]
Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/colunas/sergio-rodrigues/2024/09/a-era-de-ouro-do-analfabetismo-critico.shtml. Acesso em: 08 set. 2024.
No trecho negritado, e no parágrafo que se segue, o autor emprega uma estratégia argumentativa que tem como efeito principal
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Tema central: A questão explora a interpretação de texto com foco em figuras de linguagem, especialmente ironia e hipérbole.
O autor do texto destacado emprega recursos estilísticos para questionar a autoria de uma crônica atribuída a Gabriel García Márquez. O elemento-chave está em afirmar: “García Márquez é tão autor dessa crônica quanto eu escrevi um romance chamado 'Cem Anos de Solidão'”. Trata-se de uma ironia: o autor manifesta o contrário do que realmente quer dizer, ou seja, está destacando que Márquez jamais poderia ser o autor daquela crônica de qualidade duvidosa. Como reforça Bechara, ironia “consiste em dizer o oposto do que se pensa, para efeito crítico.”
No parágrafo seguinte, ao criticar uma frase piegas, o autor contrasta o estilo sofisticado de García Márquez com a simplicidade excessiva do texto “apócrifo”. O traço irônico fortalece o argumento de que a obra não pertence ao afamado escritor.
Justificativa da alternativa correta (B):
A alternativa B está correta por reconhecer a ironia e o contraste estilístico empregados pelo autor. Ele usa humor e crítica indireta para deixar clara a falsa autoria.
Análise das alternativas incorretas:
- A – Errada. Embora haja hipérbole, o principal efeito é a ironia. A alternativa foca no exagero, mas não reconhece o elemento essencial de crítica irônica.
- C – Errada. Sugere que não há contraste estilístico, porém o ponto central é evidenciar a diferença entre o clássico Márquez e o texto popular.
- D – Errada. A alternativa sugere objetividade, mas a abordagem é subjetiva e irônica, e o autor enfatiza o contraste de estilos, não apenas a autoria.
Dica de prova: Ao analisar textos críticos, observe sempre a presença de figuras como ironia e sarcasmo, e procure por frases cuja literalidade esteja em choque com a intenção do autor – isso sinaliza um recurso de linguagem importante na argumentação.
Como apontam Celso Cunha & Lindley Cintra, reconhecer figuras de linguagem é fundamental para uma leitura crítica e interpretativa nos concursos. Treine a identificação de ironias, sobretudo em contextos que envolvam crítica social ou literária.
Alternativa correta: B
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Comentários
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Alguém consegue me explicar?
1. Contexto do trecho:
O autor está falando sobre uma crônica que circula nas redes sociais com o título “Como fazer amor”, atribuída a Gabriel García Márquez.
Ele escreve:
“Errado. García Márquez é tão autor dessa crônica quanto eu escrevi um romance chamado 'Cem Anos de Solidão'.”
Aqui, ele está usando humor e exagero: ele claramente não acredita que García Márquez tenha escrito esse texto.
Em seguida:
“…porque o escritor colombiano ia preferir encarar um pelotão de fuzilamento a escrever uma frase como 'tocar-nos com a ternura dócil de uma carícia que se expanda docemente até morrer num abraço', pérola de pieguice…”
- Ele critica a qualidade do texto (chama de piegas, exagerado).
- Ele faz uma comparação entre o estilo sofisticado do autor real e a crônica atribuída a ele.
2. O que é a estratégia do autor aqui?
O autor não está apenas dizendo que o texto é ruim. Ele está:
- Ironizando a falsa autoria → mostrando que, pelo estilo, García Márquez jamais escreveria aquilo.
- Mostrando contraste → entre a crônica piegas e o estilo consagrado de García Márquez.
- Usando humor e exagero → “ia preferir encarar um pelotão de fuzilamento” é um exagero para mostrar a impossibilidade da autoria.
➡ Isso é uma estratégia argumentativa e irônica: ele quer convencer o leitor de que a crônica não é de García Márquez, mas faz isso de forma divertida e crítica, não apenas dizendo “isso não é do Gabo”.
3. Por que a alternativa B é correta?
B) ironizar a falsa autoria da crônica, evidenciando o contraste entre o estilo sofisticado de Gabriel García Márquez e a pieguice presente no texto atribuído a ele. ✅
- Ela identifica os dois elementos principais: ironia + contraste de estilos.
- Mostra a intenção do autor: convencer sobre a falsidade da autoria usando humor e crítica.
4. Por que as outras alternativas estão erradas:
- A) fala só de hipérbole e prestígio, mas o foco principal não é apenas o prestígio de Cem Anos de Solidão. ❌
- C) fala da aceitação do público, mas o trecho não se concentra em comentários dos leitores, e sim na crítica ao estilo e à autoria. ❌
- D) fala de objetividade, mas o trecho não é objetivo: é irônico, exagerado e crítico. ❌
5.Conclusão:
“O autor está usando humor e exagero para mostrar que a crônica não é de García Márquez. Ele compara o estilo piegas do texto com o estilo consagrado do autor. Esse contraste, junto com a ironia, é a estratégia argumentativa principal. Por isso a resposta correta é B.”
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