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Sobre variação linguística em português
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adicto*
fraga**
Refleti muito antes de revelar: também sou usuário de droga. Pense! A mais traiçoeira. Sim, sou dependente químico, como tantos em nossa época, mundo a fora.
Entenda. Eu aspiro oxigênio. Vulgo ar. Aí. Pronto, falei!
Antes de me abrir, pensei primeiro em me tratar. A vergonha me impediu de procurar ajuda. Do ridículo de não ser compreendido ao denunciar esse vício terrível, do qual a sociedade global parece nem tomar conhecimento. Imagine chegar num AA (Aspiradores Anônimos) e declarar: Hoje fiquei quase 3 minutos sem aspirar ar. E anunciar a meta triunfal para a próxima semana: Talvez 4 minutos!
Puizé, aspiro ar desde bebê. Desconfio que minha mãe também consumia doses cavalares de ar durante a gestação. Assim fui contaminado. Ainda bem que na maternidade suspeitaram e logo me entubaram.
Vício remoto da espécie, de quando um anfíbio saiu d´água. Dizem que hoje já somos mais de 7 bilhões de viciados. Até os animais dependem dessa droga. As plantas preferem gás carbônico.
Qualquer viciado em ar sabe como é inflar os pulmões, a ânsia frenética, incessante, ah!, aquela sensação contínua de bem-estar. Vício estúpido, sei. Porque é fatal para todos, questão de tempo. Ninguém sai vivo desse hábito.
Usamos as narinas no piloto automático, nem pensamos no que fazemos. Tem gente até que respira pela boca, forma ainda mais perigosa de ingerir ar, já que a droga leva pra dentro de nós micróbios, vírus e bactérias. Ar é tão perigoso que certas bactérias o evitam, preferem a saudável vida anaeróbica.
Há casos de gente que tenta permanecer o maior tempo possível sem ar; são capazes de mergulho em apneia a grandes profundidades até quase estourarem os pulmões. Não se curam, apenas entram no Livro Guinness. Alpinistas são outros que sobem a alturas com ar rarefeito e lá em cima, narinas semi-abertas, suportam momentos terríveis de falta de ar. Experimentam uma vitória ínfima, só para contar para seus familiares que tentaram, mas, infelizmente, esse gás maldito que envolve o planeta os venceu mais uma vez. Nem o Everest consola.
Taí o problema desse vício: a abundância da substância ao nosso redor. Tal fartura impede, pelo menos, o tráfico. Somos viciados em qualquer ar: aspiramos no trânsito, em meio a plantações regadas a agrotóxicos e ao ar viciado de elevadores e ônibus lotados, recintos fechados.
As autoridades sanitárias nunca tentaram entender tamanha adição. Saber porque as crises de abstinência são tão dramáticas, às vezes poucos segundos. E mesmo como pacientes terminais, ainda assim nos agarramos às máscaras: ar, mais ar, mais, mais!
E nem o irrespirável clima do país em meio a campanhas políticas arrefece o vício. Acho que o ar não será criminalizado.
* Dependente; submisso.
** Autor do texto e colunista no jornal Extraclasse.
(Disponível em: <htt ps://www.extraclasse.org.br/edicoes/2018/09/adicto/>

Toda língua se encontra em constante alteração, evolução e atualização, não sendo um sistema estático e fechado. O uso faz a regra e os falantes utilizam a língua de modo a suprir suas necessidades comunicativas, adaptando-a conforme suas intenções e necessidades.
A esse respeito, leia o texto escrito por Fraga e avalie as afirmações apresentadas sobre variação linguística.
I. Observa-se que, embora o texto se apresente em registro escrito, há ocorrências de características típicas da linguagem oral.
II. Ocorre um distanciamento entre autor e leitor, provocado pelo emprego de palavras com significados pouco conhecidos.
III. São amostras do português culto urbano a maneira de estruturar as frases, o vocabulário e, em algumas passagens, o significado das palavras.
IV. Verifica-se, na construção do texto, uma inadequação vocabular, demonstrada pela seleção de palavras e expressões como, por exemplo, “puizé” e “Vulgo ar”.
V. Identifica-se a variação situacional porque, de acordo com o contexto, há momentos em que é utilizado um registro formal e outros em que se usa o coloquialismo.
Está correto apenas o que se afirma em
Com relação aos aspectos linguísticos desse texto, julgue o item a seguir.
As formas ‘Xô’ e ‘Vâmu’, na linha 5, são marcas de oralidade
e reproduzem a informalidade da fala do condutor do carro de
boi.
No Texto 1, percebe-se o uso de uma linguagem mais informal, próxima da língua falada e de acordo com a situação de comunicação retratada. Analise as quatro assertivas a seguir sobre o uso da variante linguística utilizada no texto em análise.
I Em “Eu tenho o sono muito leve, e numa noite dessas (...)” (linhas 1-2), a imprecisão referente à data é própria da linguagem informal.
II Em “Perguntaram-me se o ladrão estava armado (...)” (linha 13), a ênclise é própria da modalidade oral informal.
III Em “O tiro fez um estrago danado no cara!” (linha 24), “danado” é uma gíria muito comum e, nesse contexto, significa “enorme”.
IV Em “(...) e a turma dos direitos humanos, que não perderiam isso por nada neste mundo” (linhas 27-29), há uma problema de concordância, recorrente na variante informal da língua portuguesa.
É verdadeiro o que está contido somente em
Texto I
O VIAJANTE CLANDESTINO
- Não é arvião. Diz-se: avião.
O menino estranhou a emenda de sua mãe. Não mencionava ele uma criatura do ar? A criança tem a vantagem de estrear o mundo, iniciando outro matrimônio entre as coisas e os nomes. Outros a elas se semelham, à vida sempre recém-chegando. São os homens em estado de poesia, essa infância autorizada pelo brilho da palavra.
- Mãe: avioneta é a neta do avião?
Vamos para a sala de espera, ordenou a mãe. Sala de esperas? Que o miúdo acreditava que todas as salas fossem iguais, na viscosa espera de nascer sempre menos. Ela lhe admoestou, prescrevendo juízo. Aquilo era um aeroporto, lugar de respeito. A senhora apontou os passageiros, seus ares graves, sotúrnicos. O menino mediu-se com aquele luto, aceitando os deveres do seu tamanho. Depois, se desenrolou do colo materno, fez sua a sua mão e foi à vidraça. Espreitou os imponentes ruídos, alertou a mãe para um qualquer espanto. Mas a sua voz se arfogou no tropel dos motores.
Eu assistia a criança. Procurava naquele aprendiz de criatura a ingenuidade que nos autoriza a sermos estranhos num mundo que nos estranha. Frágeis onde a mentira credencia os fortes.
Seria aquele menino a fractura por onde, naquela toda frieza, espreitava a humanidade? No aeroporto eu me salvava da angústia através de um exemplar da infância. Valha-nos nós.
O menino agora contemplava as traseiras do céu, seguindo as fumagens, lentas pegadas dos instantâneos aviões. Ele então se fingiu um aeroplano, braços estendidos em asas. Descolava do chão, o mundo sendo seu enorme brinquedo. E viajava por seus infinitos, roçando as malas e as pernas dos passageiros entediados. Até que a mãe debitou suas ordens. Ele que recolhesse a fantasia, aquele lugar era pertença exclusiva dos adultos.
-Arranja-te. Estamos quase a partir.
- Então vou despedir do passaporteiro.
A mãe corrigiu em dupla dose. Primeiro, não ia a nenhuma parte. Segundo, não se chamava assim ao senhor dos passaportes. Mas só no presente o menino se subditava. Porque, em seu sonho, mais adiante, ele se proclama:
-Quando for grande quero ser passaporteiro.
E ele já se antefruía, de farda, dentro do vidro. Ele é que autorizava a subida aos céus.
-Vou estudar para migraceiro.
- És doido, filho. Fica quieto.
O miúdo guardou seus jogos, constreito. Que criança, neste mundo, tem vocação para adulto?
Saímos da sala para o avião. Chuviscava. O menino seguia seus passos quando, na lisura do alcatrão, ele viu o sapo. Encharcado, o bicho saltiritava. Sua boca, maior que o corpo, traduzia o espanto das diferenças. Que fazia ali aquele representante dos primórdios, naquele lugar de futuros apressados?
O menino parou, observente, cuidando os perigos do batráquio. Na imensa incompreensão do asfalto, o bicho seria esmagado por cega e certeira roda
- Mãe, eu posso levar o sapo?
A senhora estremeceu de horror. Olhou vergonhada, pedindo desculpas aos passantes. Então, começou a disputa. A senhora obrigava o braço do filho, os dois se teimavam. Venceu a secular maternidade. O menino, murcho como acento circunflexo, subiu as escadas, ocupou seu lugar, ajeitou o cinto. Do meu assento eu podia ver a tristeza desembrulhando líquidas missangas no seu rosto. Fiz-lhe sinal, ele me encarou de soslado. Então, em seu rosto se acendeu a mais grata bandeira de felicidade. Porque do côncavo de minhas mãos espreitou o focinho do mais clandestino de todos os passageiros.
COUTO, Mia. “O viajante clandestino". In:______ . Cronicando. Espanha : Txalaparta , 2011. D i s p o n í v e l em: <www.contioutra.com/o-viajante-clandestino-mia-couto/>. Acesso em: 10 dez. 2018 (adaptado).
A Capa da Revista reproduzida abaixo traz a seguinte manchete: “Sorria. Você está demitido. Como extrair o melhor – um belo pacote de saída e até uma recolocação – no pior momento de sua carreira”.

A respeito do texto verbal e da imagem da capa pode-se afirmar que:
I. O desemprego é apresentado de forma otimista, pois o verbo “sorrir” cria o contraste entre desemprego e recolocação.
II. A imagem sugere um “pé na bunda”, que no vocabulário informal é usado para quem perdeu o emprego.
III. Há um certo grau de formalidade no tratamento do leitor, o que garante certo distanciamento de seu público.
IV. A antítese “melhor” e “pior” cria no leitor a expectativa positiva em relação ao assunto que será tratado na revista.
É CORRETO o que se afirma em:
Leia a crônica “Sketches”, de Luís Fernando Veríssimo.
Dois homens tramando um assalto.
- Valeu, mermão? Tu traz o berro que nóis vamo rendê o caixa bonitinho. Engrossou, enche o cara de chumbo.
Pra arejá.
- Podes crê. Servicinho manero. É só entrá e pegá.
- Tá com o berro aí?
- Tá na mão.
Aparece um guarda.
- Ih, sujou. Disfarça, disfarça...
O guarda passa por eles.
- Discordo terminantemente. O imperativo categórico de Hegel chega a Marx diluído pela fenomenologia de Feurbach.
- Pelo amor de Deus! Isso é o mesmo que dizer que Kierkegaard não passa de um Kant com algumas sílabas a mais. Ou que os iluministas do século 18...
O guarda se afasta.
- O berro, tá recheado?
- Tá.
- Então, vamlá!
Disponível em: https://brainly.com.br/tarefa/1731104. Acesso em: 08.11.18
Com relação à noção de variações linguísticas, considere as afirmações abaixo a partir do fato narrado na crônica:
I. Os dois assaltantes usam a gíria típica de malandros e mudam o nível de linguagem para disfarçar quando o guarda se aproxima.
II. Quando o guarda se aproxima, os dois malandros passam a falar sobre filosofia numa linguagem culta para impressiona-lo, dando a impressão de serem intelectuais.
III. A crônica mostra que há um preconceito com relação ao nível de linguagem que usamos, e, por isso, ela é um fenômeno de exclusão social.
IV. Por ser um estilo coloquial, a gíria só é usada por pessoas de baixa escolaridade, como, por exemplo, assaltantes.
V. A crônica mostra que devemos ter uma consciência linguística para as diferentes situações de uso da linguagem.
Está CORRETO o que se afirma em:
“O sucesso da educação linguística é transformar o falante em um 'poliglota' dentro de sua própria língua nacional" (BECHARA, 2001, p. 38).
BECHARA, Evanildo. Moderna Gramática Portuguesa. 37. ed. Rio de Janeiro: Lucerna, 2001.
Com base na afirmação de Evanildo Bechara e em seus conhecimentos sobre norma padrão e variantes linguísticas, assinale a alternativa CORRETA:
Vício na fala Oswald de Andrade
Para dizerem milho dizem mio Para melhor dizem mió Para pior pió Para telha dizem teia Para telhado dizem teiado E vão fazendo telhados.
As línguas variam de região para região, de grupo social para grupo social, de situação para situação. Nesse poema há a predominância de qual variação linguística?
Carlos Drummond de Andrade
Medos à beira do abismo
"De que a senhora tem medo?", foi a pergunta bastante original numa dessas entrevistas recentes.
Pensei e disse: morro de medo de muita coisa, mas acho que, com o tempo, passei a ser mais corajosa (e achei, eu mesma, graça do que dizia). Principalmente, medo de qualquer mal que possa acontecer a pessoas que eu amo. Acidente, assalto, doença. Sei o que é sentir-se impotente quando algo gravíssimo acontece com alguma delas. No fundo mais fundo da mente, vem a indagação insensata e tola, mas pungente: como não pude proteger meu filho adulto de uma morte súbita no mar que ele amava?
Disfarçamos nossos tantos medos. Fingimos ser superiores, batendo grandes papos sobre dinheiro, futebol, sacanagem, política, ninguém levando porrada – como diria Fernando, o Pessoa. Empregamos palavras grandiosas, até solenes, que usamos como tapa-olhos ou máscaras para que a verdade não nos cuspa na cara, e nos defendemos do rumor que nos ameaça botando fones de ouvido enquanto caminhamos na esteira, para ficarmos em forma.
Mas, individualmente, temos medo e solidão; como país, presenciamos escândalos nunca antes vistos. A violência é cotidiana, o narcotráfico nos ameaça, mais pessoas foram assassinadas por aqui do que nas guerras ao redor do mundo nos últimos anos. Andamos encolhidos dentro de casa. Estão cada vez mais altos os muros do medo e do silêncio.
A gente se lamenta, dá palpites e entrevistas, organiza seminários. Resultado? Parece que nenhum. Eleições? Melhor não saber. Mas sou da tribo (não tão pequena) dos que não se conformam. Não acredito em revolução a não ser pessoal. Em algumas coisas, sou antipaticamente individualista. Quando reuniões, comissões, projetos e planos não resolvem – é o mais comum –, pode-se tentar o mais simples. Às vezes, ser simples é original: começar pela gente mesmo. Em casa. Com as drogas, por exemplo, por que não?
Cada vez que, seja por trágica dependência, seja por aquilo que minha velha mãe chamava "fazer-se de interessante", um de nós consome uma droga qualquer (mesmo o cigarrinho de maconha dividido com a turma), está botando no cano de uma arma a bala – perdida ou não – que vai matar uma criança, uma mãe de família, um trabalhador. Nosso filho, quem sabe.
Disfarçamos nossos tantos medos. Fingimos ser superiores, batendo grandes papos sobre dinheiro, futebol, sacanagem, política.
Há quem me deteste por essas afirmações, dizendo que sou moralista, radical. Não sou. Apenas observo, acompanho, muito drama desnecessário, talvez evitável – mas a gente preferia ignorar o abismo. Há muitos anos, visitei várias vezes uma famosa clínica de reabilitação em São Paulo. Alguém muito querido de amigos meus estava lá internado, e voltava com frequência. O que vi, senti, me disseram e eu mesma presenciei nunca vai me deixar.
Num jantar, há muitos anos, um conhecido desabafou com grande culpa que costumava fazer-se de pai amigão fumando maconha com os filhos adolescentes, para estar mais próximo deles. Um dos meninos sofreu gravíssimos problemas de adicção pelo resto da vida, morreu de overdose e nem todo o amor dos pais, dos irmãos, ajudou em nada.
Sim, a vida pode ser muito cruel. Nas tragédias familiares, só há vítimas, embora alguns devam ser mais responsáveis do que outros. Não tem graça nenhuma brincar na beira do abismo.
Disponível em: https://gauchazh.clicrbs.com.br/colunistas/lya-luft/noticia/2018/09/medos-abeira-do-abismo-cjmmrnsma00w301pilpj8qa05.html Acesso em 11 nov. 2018
(Concurso Milagres/2018) Observe a charge e responda corretamente:

(Concurso Milagres/2018) Observe a charge e responda corretamente:

I – A charge ganha força quando pensamos que tradicionalmente o ensino de Língua Portuguesa no Brasil se voltava para a exploração da gramática normativa. Mas hoje a disciplina Português passou a interagir nos currículos escolares brasileiros como um processo de interação entre sujeitos e assim essa flexibilização linguística corrobora com a ideia de que não existe o certo e o errado;
II – Apenas as regras gramaticais são capazes de promover o ensino de Português, é inadmissível uma pessoa construir sequências como a exposta na charge;
III - No que se refere à linguagem oral, é importante que o ensino de Português se paute no conhecimento das áreas afins para tornar possível a compreensão do papel da escola no desenvolvimento de uma aprendizagem que tem lugar fora dela. Não se trata de ensinar a falar ou a fala ''correta'', mas sim as falas adequadas ao contexto de uso;
IV – A charge mostra que o domínio da
língua tem estreita relação com a
possibilidade de plena participação social,
pois é por meio dela que o homem se
comunica, tem acesso à informação,
expressa e defende pontos de vista,
partilha ou constrói visões de mundo,
produz conhecimento.





