Questões de Concurso
Sobre sintaxe em português
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O nome já diz: servir. A palavra público refere-se a todos. Então, o servidor é de todos, não importa quem seja. Trata-se de um profissional de todos, de forma indiscriminada, não importa a classe social, o gênero ou o nível intelectual do cidadão.
Mas é urgente destacar e reforçar a importância da profissionalização do servidor público. A própria Constituição Federal de 1988 preceitua que os serviços prestados por estes profissionais devem atender aos princípios da legalidade, impessoalidade, moralidade, publicidade e eficiência.
Além disso, o servidor público precisa estar atento às demandas da sociedade. Uma delas é a necessidade de incorporar práticas ambientais, sociais e de governança a fim de mitigar os impactos ambientais globais. Ou seja, trazer para o setor público algo que já é realidade na iniciativa privada há muitos anos: o ESG (Environmental, Social and Governance).
Contudo, cada vez mais desvalorizados, há quem desista de seguir carreira nesse setor. E, com o envelhecimento da população, estima-se que, no futuro, a demanda na área pública será enorme. Segundo levantamento feito pela Escola Nacional de Administração Pública (Enap), a carência de profissionais na rede pública federal pode chegar a 655 mil em 2050, 17% superior ao contingente em atividade hoje.
Caso essa projeção se confirme daqui uns anos, o serviço que já sofre com vários problemas, tende a piorar ainda mais com a falta de recursos humanos qualificados. A missão está longe de ser fácil, mas sabemos que não é impossível de ser cumprida e desempenhada com zelo e dedicação conforme ordena a Lei nº 8.027. Afinal de contas, os avanços na profissionalização da gestão pública começam com o respeito às normas editadas pelo Poder Público. [...]
Disponível em: https://cfa.org.br/servidor-publico-um-profissional-a-servico-da-sociedade-brasileira/. Acesso em: 4 mai. 2026.
Ao analisar os aspectos estruturais que sinalizam a organização e a sequência lógica dos parágrafos do fragmento do texto, é correto afirmar que
O crescimento das casas de apostas online no Brasil impacta diretamente o consumo e a renda das famílias brasileiras. A facilidade de acesso e a promessa de ganhos rápidos atraem um número crescente de brasileiros, que, de acordo com um levantamento de uma instituição bancária, já gastaram cerca de 68 bilhões em jogos virtuais. Na mesma pesquisa, estima-se que 0,22% do PIB tenha sido destinado a apostas online nos últimos 12 meses. Esse avanço demonstra que, à medida que as bets disputam espaços com outras formas de consumo, a renda disponível para educação, saúde e lazer torna-se cada vez mais comprimida.
Os impactos são mais sentidos nas classes sociais mais desfavorecidas. O tipo de jogo conhecido como bet, acessível por aparelhos celulares, tem seu nicho de exploração entre os mais pobres, pela facilidade de acesso e ausência de empecilhos legais e burocráticos de controle. Esse apostador contumaz, geralmente das classes mais desfavorecidas, tende a encarar a aposta como investimento e acredita que, "investindo" pouco dinheiro, pode multiplicá-lo. Quando essa perspectiva se associa a um comportamento compulsivo, ela se torna a fórmula perfeita para o vício e o comprometimento da renda familiar.
Esse cenário afeta não apenas a situação financeira das famílias, mas também a saúde mental dos envolvidos. O ciclo vicioso de apostas pode levar ao desenvolvimento de sintomas de ansiedade, frustração e desesperança, à medida que as perdas se acumulam e as promessas de ganhos nunca se concretizam. De acordo com pesquisa do Instituto Locomotiva, 51% dos brasileiros que apostam sentem aumento de sintomas de ansiedade. Além disso, a pesquisa revela que 42% desse público usa esse vício como uma fuga ilusória das dificuldades cotidianas, mas, ao invés de aliviar o estresse, aprofunda-o com sensações de impotência e isolamento.
Internet: <www.uff.br> (com adaptações).
Considerando os sentidos e aspectos linguísticos do texto precedente, julgue o item a seguir.
Estaria mantida a correção gramatical do texto caso a forma verbal "gastaram" (segundo período do primeiro parágrafo) fosse flexionada na terceira pessoa do singular — gastou.
O crescimento das casas de apostas online no Brasil impacta diretamente o consumo e a renda das famílias brasileiras. A facilidade de acesso e a promessa de ganhos rápidos atraem um número crescente de brasileiros, que, de acordo com um levantamento de uma instituição bancária, já gastaram cerca de 68 bilhões em jogos virtuais. Na mesma pesquisa, estima-se que 0,22% do PIB tenha sido destinado a apostas online nos últimos 12 meses. Esse avanço demonstra que, à medida que as bets disputam espaços com outras formas de consumo, a renda disponível para educação, saúde e lazer torna-se cada vez mais comprimida.
Os impactos são mais sentidos nas classes sociais mais desfavorecidas. O tipo de jogo conhecido como bet, acessível por aparelhos celulares, tem seu nicho de exploração entre os mais pobres, pela facilidade de acesso e ausência de empecilhos legais e burocráticos de controle. Esse apostador contumaz, geralmente das classes mais desfavorecidas, tende a encarar a aposta como investimento e acredita que, "investindo" pouco dinheiro, pode multiplicá-lo. Quando essa perspectiva se associa a um comportamento compulsivo, ela se torna a fórmula perfeita para o vício e o comprometimento da renda familiar.
Esse cenário afeta não apenas a situação financeira das famílias, mas também a saúde mental dos envolvidos. O ciclo vicioso de apostas pode levar ao desenvolvimento de sintomas de ansiedade, frustração e desesperança, à medida que as perdas se acumulam e as promessas de ganhos nunca se concretizam. De acordo com pesquisa do Instituto Locomotiva, 51% dos brasileiros que apostam sentem aumento de sintomas de ansiedade. Além disso, a pesquisa revela que 42% desse público usa esse vício como uma fuga ilusória das dificuldades cotidianas, mas, ao invés de aliviar o estresse, aprofunda-o com sensações de impotência e isolamento.
Internet: <www.uff.br> (com adaptações).
Considerando os sentidos e aspectos linguísticos do texto precedente, julgue o item a seguir.
No trecho "O crescimento das casas de apostas online no Brasil impacta diretamente o consumo e a renda das famílias brasileiras" (primeiro parágrafo), o segmento "o consumo e a renda" poderia ser corretamente reescrito como no consumo e na renda, pois, de acordo com a norma padrão, a regência do verbo impactar é variável.
O agrupamento das pessoas em classes sociais não é, ao contrário do que alguns pensam, "apenas uma decisão técnica como outra qualquer". Como tudo no estudo da desigualdade, esse agrupamento reflete decisões políticas, ainda que elas não sejam explícitas. E não é sem razão: a escolha da identificação de classes de uma forma específica tem implicações concretas. O problema não está apenas na terminologia usada, está também na forma como as classes são definidas.
Quem não consegue entender isso pode fazer um exercício simples: identifique pobres como uma classe; considere que quase todo mundo queira erradicar a pobreza; que quase todo mundo queira saber melhor o que é preciso para tanto; defina como pobre 0,1% da população; nesse caso, que medida erradicaria a pobreza? Caridade privada seria suficiente; agora defina como pobre 99,9% da população. A medida recomendada seria uma revolução.
Conclui-se desse exercício que a forma como pesquisas dividem a sociedade em classes tem implicações práticas, pois pesquisa em desigualdade é usada para definir políticas. Quando se coloca uma pessoa numa classe, a tendência é que essa pessoa passe a ser vista como todas as demais pessoas que estão naquela classe e, em alguns casos, passe a ser tratada do mesmo modo pelas políticas.
Qual é a diferença substantiva entre uma pessoa um centavo abaixo da linha de renda que define os benefícios de assistência social e outra um centavo acima? Em renda, irrelevante, mas a classificação elegível e não elegível tem impactos concretos na vida das pessoas. Elas passam ou não pelo buraco da agulha dos critérios de elegibilidade de programas sociais. Alguns programas chegam a ser desenhados com base em classes, por isso o assunto não é apenas um detalhe acadêmico.
Marcelo Medeiros. Os ricos e os pobres. São Paulo: Companhia das Letras, 2023
(com adaptações).
Julgue o item a seguir, relativo às ideias e a aspectos linguísticos do texto precedente.
No período "O problema não está apenas na terminologia usada, está também na forma como as classes são definidas." (final do primeiro parágrafo), a substituição da segunda ocorrência da forma verbal "está" por mas alteraria o sentido estabelecido na coordenação das duas primeiras orações — o sentido de adição passaria a oposição.
O agrupamento das pessoas em classes sociais não é, ao contrário do que alguns pensam, "apenas uma decisão técnica como outra qualquer". Como tudo no estudo da desigualdade, esse agrupamento reflete decisões políticas, ainda que elas não sejam explícitas. E não é sem razão: a escolha da identificação de classes de uma forma específica tem implicações concretas. O problema não está apenas na terminologia usada, está também na forma como as classes são definidas.
Quem não consegue entender isso pode fazer um exercício simples: identifique pobres como uma classe; considere que quase todo mundo queira erradicar a pobreza; que quase todo mundo queira saber melhor o que é preciso para tanto; defina como pobre 0,1% da população; nesse caso, que medida erradicaria a pobreza? Caridade privada seria suficiente; agora defina como pobre 99,9% da população. A medida recomendada seria uma revolução.
Conclui-se desse exercício que a forma como pesquisas dividem a sociedade em classes tem implicações práticas, pois pesquisa em desigualdade é usada para definir políticas. Quando se coloca uma pessoa numa classe, a tendência é que essa pessoa passe a ser vista como todas as demais pessoas que estão naquela classe e, em alguns casos, passe a ser tratada do mesmo modo pelas políticas.
Qual é a diferença substantiva entre uma pessoa um centavo abaixo da linha de renda que define os benefícios de assistência social e outra um centavo acima? Em renda, irrelevante, mas a classificação elegível e não elegível tem impactos concretos na vida das pessoas. Elas passam ou não pelo buraco da agulha dos critérios de elegibilidade de programas sociais. Alguns programas chegam a ser desenhados com base em classes, por isso o assunto não é apenas um detalhe acadêmico.
Marcelo Medeiros. Os ricos e os pobres. São Paulo: Companhia das Letras, 2023
(com adaptações).
Julgue o item a seguir, relativo às ideias e a aspectos linguísticos do texto precedente.
No trecho "esse agrupamento reflete decisões políticas, ainda que elas não sejam explícitas" (primeiro parágrafo), a substituição de "ainda que" por conquanto manteria as relações sintáticas e semânticas estabelecidas originalmente.
Texto

“Não foram observados eventos adversos graves relacionados ao tratamento.” (linhas 25 e 26).
Em relação à classificação do sujeito da oração, assinale a alternativa correta:
Texto

"Dinheiro não lhe emprestei."
Assinale a alternativa CORRETA quanto à análise sintática dos termos da oração.
"Porém não fui tão imprudente",
o vocábulo destacado estabelece, em relação aos versos anteriores, uma relação de:

I. Em “Desde a instalação da República, o Brasil tem se especializado em perder uma oportunidade atrás da outra e nossa imobilidade vai acabar nos apodrecendo” (subtítulo), nota-se em destaque uma perífrase verbal conjugada no Pretérito Perfeito do Indicativo.
II. Em “Os constituintes de 1988 tiveram a humildade de julgar que o trabalho estava imperfeito e previram uma revisão em cinco anos, com aprovação por maioria simples.” (3º par.), o elemento coesivo em destaque foi usado para iniciar uma oração substantiva com função de objeto direto, sendo, portanto, um Pronome Relativo.
III. Em “Desde a instalação da República, o Brasil tem se especializado em perder uma oportunidade atrás da outra e nossa imobilidade vai acabar nos apodrecendo” (subtítulo), a expressão em destaque cumpre a função de complemento nominal do adjetivo no particípio “especializado”.
IV. Em “Quando El-Rey Dom Manuel recebeu a notícia de que Colombo, em nome da Espanha, chegara a terras a oeste...” (5º par.), está em destaque um verbo simples que se equivale morfológica e semanticamente à expressão “havia chegado”.
V. Em “A terra é fértil, o clima é bom, os pomos são atraentes, mas não os colhemos.” (5º par.), a conjunção coordenativa em destaque possui valor semântico de oposição e, por isso, poderia ser substituída pela expressão adversativa “todavia”, a fim de manter a correção gramatical do contexto.
A partir do que foi dito acima, pode-se dizer que se encontra correto o que foi afirmado somente em:

( ) Em “No mesmo domingo, 13 de maio 1888, a regente sancionou a Lei Áurea e a mandou para o Diário Oficial publicar.” (1º par.), o pronome oblíquo átono em destaque cumpre papel anafórico alusivo à expressão Lei Áurea a fim de exercer função de Objeto direto.
( ) Em “Leopoldina, regente enquanto o marido estava fora da capital, enviou ao Príncipe Pedro mensagem para que não esperasse mais: ‘O pomo está maduro; colhei-o já, senão apodrece’.” (1º par.), o trecho em destaque seria gramaticalmente reescrito, mantendo o seu valor semântico, pela seguinte proposta: “Leopoldina, regente enquanto o marido estava fora da capital, enviou-lhe mensagem para que não esperasse mais: “O pomo está maduro; o colhei já, se não apodrece”.
( ) Em “Só vou citar os pomos que caíram de podres em que fui contemporâneo, a começar pela oportunidade de termos assento permanente no Conselho de Segurança da ONU, com poder de veto.” (2º par.), as expressões em destaque sofreram respectivamente os seguintes processos de formação de palavras: Sigla e Derivação Regressiva
( ) Em “Os constituintes de 1988 tiveram a humildade de julgar que o trabalho estava imperfeito e previram uma revisão em cinco anos, com aprovação por maioria simples.” (3º par.), os vocábulos em destaque possuem sufixos diversos, porém utilizados com o mesmo propósito de formação de Substantivos derivados.
( ) Em “O Brasil seria um gigantesco paraíso fiscal, com um único imposto de 1% sobre a movimentação bancária. Havia crise na Ásia e centenas de bilhões de dólares procuravam um país para pousar.” (4º par.), as expressões destacadas foram acentuadas devido à mesma regra, embora possuam tonicidade silábica distinta.
Considerando-se V para as afirmativas verdadeiras e F para as falsas, pode-se dizer que a sequência correta, pela ordem, está presente em:
A carteira
... De repente, Honório olhou para o chão e viu uma carteira. Abaixar-se, apanhá-la e guardá-la foi obra de alguns instantes. Ninguém o viu, salvo um homem que estava à porta de uma loja, e que, sem o conhecer, lhe disse rindo:
– Olhe, se não dá por ela; perdia-a de uma vez.
– É verdade – concordou Honório envergonhado.
Para avaliar a oportunidade desta carteira, é preciso saber que Honório tem de pagar amanhã uma dívida, quatrocentos e tantos mil-réis, e a carteira trazia o bojo recheado. A dívida não parece grande para um homem da posição de Honório, que advoga; mas todas as quantias são grandes ou pequenas, segundo as circunstâncias, e as dele não podiam ser piores. Gastos de família excessivos, a princípio por servir a parentes, e depois por agradar à mulher, que vivia aborrecida da solidão; baile daqui, jantar dali, chapéus, leques, tanta cousa mais, que não havia remédio senão ir descontando o futuro. Endividou-se. Começou pelas contas de lojas e armazéns; passou aos empréstimos, duzentos a um, trezentos a outro, quinhentos a outro, e tudo a crescer, e os bailes a darem-se, e os jantares a comerem-se, um turbilhão perpétuo, uma voragem.
– Tu agora vais bem, não? – dizia-lhe ultimamente o Gustavo C..., advogado e familiar da casa.
– Agora vou – mentiu o Honório.
A verdade é que ia mal. Poucas causas, de pequena monta, e constituintes remissos; por desgraça perdera ultimamente um processo, em que fundara grandes esperanças. Não só recebeu pouco, mas até parece que ele lhe tirou alguma cousa à reputação jurídica; em todo caso, andavam mofinas nos jornais.
Dona Amélia não sabia nada; ele não contava nada à mulher, bons ou maus negócios. Não contava nada a ninguém. Fingia- -se tão alegre como se nadasse em um mar de prosperidades. Quando o Gustavo, que ia todas as noites à casa dele, dizia uma ou duas pilhérias, ele respondia com três e quatro; e depois ia ouvir os trechos de música alemã, que D. Amélia tocava muito bem ao piano, e que o Gustavo escutava com indizível prazer, ou jogavam cartas, ou simplesmente falavam de política.
Um dia, a mulher foi achá-lo dando muitos beijos à filha, criança de quatro anos, e viu-lhe os olhos molhados; ficou espantada, e perguntou-lhe o que era.
– Nada, nada.
Compreende-se que era o medo do futuro e o horror da miséria. Mas as esperanças voltavam com facilidade. A ideia de que os dias melhores tinham de vir dava-lhe conforto para a luta. Estava com trinta e quatro anos; era o princípio da carreira; todos os princípios são difíceis. E toca a trabalhar, a esperar, a gastar, a pedir fiado ou emprestado, para pagar mal, e a más horas.
A dívida urgente de hoje são uns malditos quatrocentos e tantos mil-réis de carros. Nunca demorou tanto a conta, nem ela cresceu tanto, como agora; a rigor, o credor não lhe punha a faca aos peitos; mas disse-lhe hoje uma palavra azeda, com um gesto mau, e Honório quer pagar-lhe hoje mesmo. Eram cinco horas da tarde. Tinha-se lembrado de ir a um agiota, mas voltou sem ousar pedir nada. Ao enfiar pela rua da Assembleia é que viu a carteira no chão, apanhou-a, meteu no bolso, e foi andando. Durante os primeiros minutos, Honório não pensou nada; foi andando, andando, andando, até ao largo da Carioca. No largo parou alguns instantes, enfiou depois pela rua da Carioca, mas voltou logo, e entrou na rua Uruguaiana. Sem saber como, achou-se daí a pouco no largo de São Francisco de Paula; e ainda, sem saber como, entrou em um café. Pediu alguma cousa e encostou-se à parede, olhando para fora. Tinha medo de abrir a carteira; podia não achar nada, apenas papéis e sem valor para ele. Ao mesmo tempo, e esta era a causa principal das reflexões, a consciência perguntava-lhe se podia utilizar-se do dinheiro que achara. Não lhe perguntava com o ar de quem não sabe, mas antes com uma expressão irônica e de censura. Podia lançar mão do dinheiro, e ir pagar com ele a dívida? Eis o ponto. A consciência acabou por lhe dizer que não podia, que devia levar a carteira à polícia, ou anunciá-la; mas tão depressa acabava de lhe dizer isto, vinham os apuros da ocasião, e puxavam por ele, e convidavam-no a ir pagar a cocheira. Chegavam mesmo a dizer-lhe que, se fosse ele que a tivesse perdido, ninguém iria entregar-lha; insinuação que lhe deu ânimo.
Tudo isso antes de abrir a carteira. Tirou-a do bolso, finalmente, mas com medo, quase às escondidas; abriu-a, e ficou trêmulo. Tinha dinheiro, muito dinheiro; não contou, mas viu duas notas de duzentos mil-réis, algumas de cinquenta e vinte; calculou uns setecentos mil-réis ou mais; quando menos, seiscentos. Era a dívida paga; eram menos algumas despesas urgentes. Honório teve tentações de fechar os olhos, correr à cocheira, pagar, e, depois de paga a dívida, adeus; reconciliar-se-ia consigo. Fechou a carteira, e, com medo de a perder, tornou a guardá-la.
Mas daí a pouco tirou-a outra vez, e abriu-a, com vontade de contar o dinheiro. Contar para quê? Era dele? Afinal venceu-se e contou: eram setecentos e trinta mil-réis. Honório teve um calafrio. Ninguém viu, ninguém soube; podia ser um lance da fortuna, a sua boa sorte, um anjo... Honório teve pena de não crer nos anjos... Mas por que não havia de crer neles? E voltava ao dinheiro, olhava, passava-o pelas mãos; depois, resolvia o contrário, não usar do achado, restituí-lo. Restituí-lo a quem? Tratou de ver se havia na carteira algum sinal.
“Se houver um nome, uma indicação qualquer, não posso utilizar-me do dinheiro”, pensou ele.
Esquadrinhou os bolsos da carteira. Achou cartas, que não abriu, bilhetinhos dobrados, que não leu, e por fim um cartão de visita; leu o nome; era do Gustavo. Mas então, a carteira?... Examinou-a por fora, e pareceu-lhe efetivamente do amigo. Voltou ao interior; achou mais dous cartões, mais três, mais cinco. Não havia duvidar; era dele.
A descoberta entristeceu-o. Não podia ficar com o dinheiro, sem praticar um ato ilícito, e, naquele caso, doloroso ao seu coração porque era em dano de um amigo. Todo o castelo levantado esboroou-se como se fosse de cartas. Bebeu a última gota de café, sem reparar que estava frio. Saiu, e só então reparou que era quase noite. Caminhou para casa. Parece que a necessidade ainda lhe deu uns dous empurrões, mas ele resistiu.
“Paciência”, disse ele consigo; “verei amanhã o que posso fazer”.
Chegando a casa, já ali achou o Gustavo, um pouco preocupado, e a própria D. Amélia o parecia também. Entrou rindo, e perguntou ao amigo se lhe faltava alguma cousa.
– Nada.
– Nada?
– Por quê?
– Mete a mão no bolso; não te falta nada?
– Falta-me a carteira – disse o Gustavo sem meter a mão no bolso –. Sabes se alguém a achou?
– Achei-a eu – disse Honório entregando-lha.
Gustavo pegou dela precipitadamente, e olhou desconfiado para o amigo. Esse olharfoi para Honório como um golpe de estilete; depois de tanta luta com a necessidade, era um triste prêmio. Sorriu amargamente; e, como o outro lhe perguntasse onde a achara, deu-lhe as explicações precisas.
– Mas conheceste-a?
– Não; achei os teus bilhetes de visita.
Honório deu duas voltas, e foi mudar de toilette para o jantar. Então Gustavo sacou novamente a carteira, abriu-a, foi a um dos bolsos, tirou um dos bilhetinhos, que o outro não quis abrir nem ler, e estendeu-o a D. Amélia, que, ansiosa e trêmula, rasgou-o em trinta mil pedaços: era um bilhetinho de amor.
(ASSIS, J. M. M. Várias Histórias. Rio de Janeiro: Garnier, 1896. Disponível em: https://machadodeassis.net/texto/a-carteira/. Acesso em: fevereiro de 2026.)
I. No trecho “[...] por agradar à mulher [...]” (4º§), o uso da crase é obrigatório, uma vez que o verbo “agradar”, no sentido de ser aprazível, rege a preposição “a”, que se funde ao artigo definido feminino exigido pelo substantivo “mulher”. II. Na frase “[...] que o Gustavo escutava com indizível prazer [...]” (8º§), caso o substantivo “prazer” fosse substituído por “satisfação”, a redação correta, mantendo-se a preposição exigida pelo contexto, seria “com indizível à satisfação”. III. Em “[...] ia todas as noites à casa dele, [...]” (8º§), a ocorrência da crase é facultativa, visto que a palavra “casa”, independentemente de estar especificada ou determinada, não admite obrigatoriamente a anteposição do artigo definido feminino. IV. No segmento “[...] encostou-se à parede [...]” (12º§), o acento grave marca a junção da preposição “a” (exigida pela regência do verbo “encostar”) com o artigo definido; se o termo “parede” fosse substituído por “muro”, a forma resultante seria “ao muro”.
Está correto o que se afirma apenas em
A carteira
... De repente, Honório olhou para o chão e viu uma carteira. Abaixar-se, apanhá-la e guardá-la foi obra de alguns instantes. Ninguém o viu, salvo um homem que estava à porta de uma loja, e que, sem o conhecer, lhe disse rindo:
– Olhe, se não dá por ela; perdia-a de uma vez.
– É verdade – concordou Honório envergonhado.
Para avaliar a oportunidade desta carteira, é preciso saber que Honório tem de pagar amanhã uma dívida, quatrocentos e tantos mil-réis, e a carteira trazia o bojo recheado. A dívida não parece grande para um homem da posição de Honório, que advoga; mas todas as quantias são grandes ou pequenas, segundo as circunstâncias, e as dele não podiam ser piores. Gastos de família excessivos, a princípio por servir a parentes, e depois por agradar à mulher, que vivia aborrecida da solidão; baile daqui, jantar dali, chapéus, leques, tanta cousa mais, que não havia remédio senão ir descontando o futuro. Endividou-se. Começou pelas contas de lojas e armazéns; passou aos empréstimos, duzentos a um, trezentos a outro, quinhentos a outro, e tudo a crescer, e os bailes a darem-se, e os jantares a comerem-se, um turbilhão perpétuo, uma voragem.
– Tu agora vais bem, não? – dizia-lhe ultimamente o Gustavo C..., advogado e familiar da casa.
– Agora vou – mentiu o Honório.
A verdade é que ia mal. Poucas causas, de pequena monta, e constituintes remissos; por desgraça perdera ultimamente um processo, em que fundara grandes esperanças. Não só recebeu pouco, mas até parece que ele lhe tirou alguma cousa à reputação jurídica; em todo caso, andavam mofinas nos jornais.
Dona Amélia não sabia nada; ele não contava nada à mulher, bons ou maus negócios. Não contava nada a ninguém. Fingia- -se tão alegre como se nadasse em um mar de prosperidades. Quando o Gustavo, que ia todas as noites à casa dele, dizia uma ou duas pilhérias, ele respondia com três e quatro; e depois ia ouvir os trechos de música alemã, que D. Amélia tocava muito bem ao piano, e que o Gustavo escutava com indizível prazer, ou jogavam cartas, ou simplesmente falavam de política.
Um dia, a mulher foi achá-lo dando muitos beijos à filha, criança de quatro anos, e viu-lhe os olhos molhados; ficou espantada, e perguntou-lhe o que era.
– Nada, nada.
Compreende-se que era o medo do futuro e o horror da miséria. Mas as esperanças voltavam com facilidade. A ideia de que os dias melhores tinham de vir dava-lhe conforto para a luta. Estava com trinta e quatro anos; era o princípio da carreira; todos os princípios são difíceis. E toca a trabalhar, a esperar, a gastar, a pedir fiado ou emprestado, para pagar mal, e a más horas.
A dívida urgente de hoje são uns malditos quatrocentos e tantos mil-réis de carros. Nunca demorou tanto a conta, nem ela cresceu tanto, como agora; a rigor, o credor não lhe punha a faca aos peitos; mas disse-lhe hoje uma palavra azeda, com um gesto mau, e Honório quer pagar-lhe hoje mesmo. Eram cinco horas da tarde. Tinha-se lembrado de ir a um agiota, mas voltou sem ousar pedir nada. Ao enfiar pela rua da Assembleia é que viu a carteira no chão, apanhou-a, meteu no bolso, e foi andando. Durante os primeiros minutos, Honório não pensou nada; foi andando, andando, andando, até ao largo da Carioca. No largo parou alguns instantes, enfiou depois pela rua da Carioca, mas voltou logo, e entrou na rua Uruguaiana. Sem saber como, achou-se daí a pouco no largo de São Francisco de Paula; e ainda, sem saber como, entrou em um café. Pediu alguma cousa e encostou-se à parede, olhando para fora. Tinha medo de abrir a carteira; podia não achar nada, apenas papéis e sem valor para ele. Ao mesmo tempo, e esta era a causa principal das reflexões, a consciência perguntava-lhe se podia utilizar-se do dinheiro que achara. Não lhe perguntava com o ar de quem não sabe, mas antes com uma expressão irônica e de censura. Podia lançar mão do dinheiro, e ir pagar com ele a dívida? Eis o ponto. A consciência acabou por lhe dizer que não podia, que devia levar a carteira à polícia, ou anunciá-la; mas tão depressa acabava de lhe dizer isto, vinham os apuros da ocasião, e puxavam por ele, e convidavam-no a ir pagar a cocheira. Chegavam mesmo a dizer-lhe que, se fosse ele que a tivesse perdido, ninguém iria entregar-lha; insinuação que lhe deu ânimo.
Tudo isso antes de abrir a carteira. Tirou-a do bolso, finalmente, mas com medo, quase às escondidas; abriu-a, e ficou trêmulo. Tinha dinheiro, muito dinheiro; não contou, mas viu duas notas de duzentos mil-réis, algumas de cinquenta e vinte; calculou uns setecentos mil-réis ou mais; quando menos, seiscentos. Era a dívida paga; eram menos algumas despesas urgentes. Honório teve tentações de fechar os olhos, correr à cocheira, pagar, e, depois de paga a dívida, adeus; reconciliar-se-ia consigo. Fechou a carteira, e, com medo de a perder, tornou a guardá-la.
Mas daí a pouco tirou-a outra vez, e abriu-a, com vontade de contar o dinheiro. Contar para quê? Era dele? Afinal venceu-se e contou: eram setecentos e trinta mil-réis. Honório teve um calafrio. Ninguém viu, ninguém soube; podia ser um lance da fortuna, a sua boa sorte, um anjo... Honório teve pena de não crer nos anjos... Mas por que não havia de crer neles? E voltava ao dinheiro, olhava, passava-o pelas mãos; depois, resolvia o contrário, não usar do achado, restituí-lo. Restituí-lo a quem? Tratou de ver se havia na carteira algum sinal.
“Se houver um nome, uma indicação qualquer, não posso utilizar-me do dinheiro”, pensou ele.
Esquadrinhou os bolsos da carteira. Achou cartas, que não abriu, bilhetinhos dobrados, que não leu, e por fim um cartão de visita; leu o nome; era do Gustavo. Mas então, a carteira?... Examinou-a por fora, e pareceu-lhe efetivamente do amigo. Voltou ao interior; achou mais dous cartões, mais três, mais cinco. Não havia duvidar; era dele.
A descoberta entristeceu-o. Não podia ficar com o dinheiro, sem praticar um ato ilícito, e, naquele caso, doloroso ao seu coração porque era em dano de um amigo. Todo o castelo levantado esboroou-se como se fosse de cartas. Bebeu a última gota de café, sem reparar que estava frio. Saiu, e só então reparou que era quase noite. Caminhou para casa. Parece que a necessidade ainda lhe deu uns dous empurrões, mas ele resistiu.
“Paciência”, disse ele consigo; “verei amanhã o que posso fazer”.
Chegando a casa, já ali achou o Gustavo, um pouco preocupado, e a própria D. Amélia o parecia também. Entrou rindo, e perguntou ao amigo se lhe faltava alguma cousa.
– Nada.
– Nada?
– Por quê?
– Mete a mão no bolso; não te falta nada?
– Falta-me a carteira – disse o Gustavo sem meter a mão no bolso –. Sabes se alguém a achou?
– Achei-a eu – disse Honório entregando-lha.
Gustavo pegou dela precipitadamente, e olhou desconfiado para o amigo. Esse olharfoi para Honório como um golpe de estilete; depois de tanta luta com a necessidade, era um triste prêmio. Sorriu amargamente; e, como o outro lhe perguntasse onde a achara, deu-lhe as explicações precisas.
– Mas conheceste-a?
– Não; achei os teus bilhetes de visita.
Honório deu duas voltas, e foi mudar de toilette para o jantar. Então Gustavo sacou novamente a carteira, abriu-a, foi a um dos bolsos, tirou um dos bilhetinhos, que o outro não quis abrir nem ler, e estendeu-o a D. Amélia, que, ansiosa e trêmula, rasgou-o em trinta mil pedaços: era um bilhetinho de amor.
(ASSIS, J. M. M. Várias Histórias. Rio de Janeiro: Garnier, 1896. Disponível em: https://machadodeassis.net/texto/a-carteira/. Acesso em: fevereiro de 2026.)
Sobre as estruturas linguísticas presentes no texto “A carteira”, analise as afirmativas a seguir.
I. No segmento “[...] trechos de música alemã, que D. Amélia tocava muito bem ao piano, e que o Gustavo escutava com indizível prazer, [...]” (8º§), o segundo pronome relativo destacado retoma sintaticamente o substantivo “piano”, termo imediatamente anterior, visando evitar a sua repetição.
II. No período “A dívida não parece grande para um homem da posição de Honório, que advoga; mas todas as quantias são grandes ou pequenas, [...]” (4º§), o ponto e vírgula é empregado para separar orações coordenadas, conferindo uma pausa que enfatiza a relação de oposição introduzida pela conjunção adversativa.
III. Na construção “Fingia-se tão alegre como se nadasse em um mar de prosperidades.” (8º§), a locução destacada estabelece uma relação lógico-discursiva de conformidade, indicando que o comportamento de Honório estava em harmonia com sua real situação financeira.
IV. No trecho “[...] a consciência perguntava-lhe se podia utilizar-se do dinheiro que achara.” (12º§), o vocábulo destacado classifica-se como uma conjunção integrante, introduzindo uma oração subordinada substantiva que exerce a função de objeto direto.
Está correto o que se afirma apenas em
A tira de Bill Watterson utiliza o diálogo entre Calvin e Haroldo para confrontar perspectivas existenciais e biológicas. Sobre a construção de sentido e os aspectos gramaticais da tira, assinale a afirmativa correta.
Ética profissional na arquitetura e urbanismo: compromisso com o espaço, a sociedade e o futuro
A arquitetura e o urbanismo, mais que práticas técnicas ou artísticas, configuram-se como atividades de profundo impacto social. O espaço construído influencia a forma como vivemos, nos relacionamos e exercemos nossos direitos de cidadania. Diante dessa relevância, a ética profissional torna-se eixo central da atuação do arquiteto e urbanista, orientando decisões que ultrapassam o campo estético e alcançam dimensões sociais, ambientais, econômicas e culturais. Ser ético, na arquitetura, é compreender que cada projeto representa também uma intervenção na vida coletiva.
A ética profissional reúne princípios que orientam o comportamento do indivíduo em relação à sociedade e à sua profissão. No campo da arquitetura e do urbanismo, ela se concretiza em normas, condutas e compromissos definidos no Código de Ética e Disciplina do Conselho de Arquitetura e Urbanismo do Brasil (CAU/BR).
Entre os deveres fundamentais do código estão o respeito ao interesse público, o zelo pela segurança, acessibilidade e bem- -estar dos usuários, a responsabilidade ambiental e a defesa da dignidade da profissão. O exercício profissional deve ser pautado pela honestidade intelectual, pela transparência nas relações e pela valorização do trabalho técnico, artístico e científico.
Assim, a ética na arquitetura não se limita ao cumprimento de leis ou normas técnicas: envolve a capacidade crítica de avaliar as consequências das próprias decisões e de agir com integridade, mesmo sob pressões econômicas, políticas ou mercadológicas.
O arquiteto e urbanista é agente de transformação do espaço e, consequentemente, da sociedade. Suas decisões projetuais podem promover inclusão ou exclusão, sustentabilidade ou degradação, valorização cultural ou apagamento da memória coletiva.
A ética profissional exige que cada projeto considere seu impacto ambiental, respeite o território e promova o uso racional dos recursos naturais. Projetar de forma ética implica consciência ecológica e compromisso com soluções sustentáveis, acessíveis e socialmente justas.
A dimensão social da ética envolve o compromisso com o direito à cidade, conceito amplamente defendido por Henri Lefebvre e incorporado às políticas urbanas contemporâneas. O arquiteto ético compreende que seu trabalho deve contribuir para cidades mais democráticas, inclusivas e equitativas.
O exercício profissional apresenta inúmeros desafios éticos. Entre eles, destacam-se conflitos entre o interesse privado e o público; plágio e apropriação indevida de autoria em projetos e concursos; concorrência desleal, com práticas que desvalorizam o trabalho técnico; relações com o poder público que exigem transparência e integridade; e a responsabilidade técnica diante de irregularidades que possam comprometer a segurança das pessoas ou o patrimônio ambiental e cultural.
Essas situações exigem do profissional não apenas conhecimento técnico, mas sensibilidade ética, discernimento e coragem moral para tomar decisões orientadas pelo bem coletivo.
A ética profissional é também um compromisso com as gerações futuras. Em meio à crise climática, à urbanização desigual e à pressão crescente sobre os recursos naturais, arquitetos e urbanistas precisam adotar uma postura ética voltada à sustentabilidade e à justiça socioambiental.
A formação ética, iniciada na universidade e aprofundada ao longo da carreira, deve acompanhar a evolução da sociedade e das tecnologias. A ética não é estática: renova-se conforme emergem novos dilemas e demandas. Ser ético, portanto, é aprender continuamente, repensar práticas e agir com responsabilidade diante das transformações do mundo contemporâneo.
A ética profissional na arquitetura e no urbanismo constitui o alicerce da credibilidade e da relevância social da profissão. Ela orienta o arquiteto e urbanista a compreender seu papel como mediador de valores humanos, ambientais e culturais.
Atuar de forma ética é reconhecer que cada decisão projetual interfere na vida de pessoas e comunidades. É defender a dignidade da profissão, valorizar o conhecimento técnico e agir com compromisso social.
Somente com base na ética é possível construir cidades mais justas, sustentáveis e belas – espaços que expressem não o poder de poucos, mas o direito de todos à vida urbana com qualidade.
(Por Teresinha, Melo. Disponível em: https://caubr.gov.br/etica-profissional/. Adaptado. Acesso em: abril de 2026.)
O primeiro beijo
Os dois mais murmuravam que conversavam: havia pouco iniciara-se o namoro e ambos andavam tontos, era o amor. Amor com o que vem junto: ciúme.
– Está bem, acredito que sou a sua primeira namorada, fico feliz com isso. Mas me diga a verdade, só a verdade: você nunca beijou uma mulher antes de me beijar?
Ele foi simples:
– Sim, já beijei antes uma mulher.
– Quem era ela? perguntou com dor.
Ele tentou contar toscamente, não sabia como dizer.
O ônibus da excursão subia lentamente a serra. Ele, um dos garotos no meio da garotada em algazarra, deixava a brisa fresca bater-lhe no rosto e entrar-lhe pelos cabelos com dedos longos, finos e sem peso como os de uma mãe. Ficar às vezes quieto,sem quase pensar, e apenas sentir era tão bom. A concentração no sentir era difícil no meio da balbúrdia dos companheiros.
E mesmo a sede começara: brincar com a turma, falar bem alto, mais alto que o barulho do motor, rir, gritar, pensar, sentir, puxa vida! como deixava a garganta seca.
E nem sombra de água. O jeito era juntar saliva, e foi o que fez. Depois de reunida na boca ardente engolia-a lentamente, outra vez e mais outra. Era morna, porém, a saliva, e não tirava a sede. Uma sede enorme maior do que ele próprio, que lhe tomava agora o corpo todo.
A brisa fina, antes tão boa, agora ao sol do meio-dia tornara-se quente e árida e ao penetrar pelo nariz secava ainda mais a pouca saliva que pacientemente juntava.
E se fechasse as narinas e respirasse um pouco menos daquele vento de deserto? Tentou por instantes mas logo sufocava. O jeito era mesmo esperar, esperar. Talvez minutos apenas, talvez horas, enquanto sua sede era de anos.
Não sabia como e por que mas agora se sentia mais perto da água, pressentia-a mais próxima, e seus olhos saltavam para fora da janela procurando a estrada, penetrando entre os arbustos, espreitando, farejando.
O instinto animal dentro dele não errara: na curva inesperada da estrada, entre arbustos, estava... O chafariz de onde brotava num filete a água sonhada.
O ônibus parou, todos estavam com sede mas ele conseguiu ser o primeiro a chegar ao chafariz de pedra, antes de todos.
De olhos fechados entreabriu os lábios e colou-os ferozmente ao orifício de onde jorrava a água. O primeiro gole fresco desceu, escorrendo pelo peito até a barriga.
Era a vida voltando, e com esta encharcou todo o seu interior arenoso até se saciar. Agora podia abrir os olhos.
Abriu-os e viu bem junto de sua cara dois olhos de estátua fitando-o e viu que era a estátua de uma mulher e que era da boca da mulher que saía a água. Lembrou-se de que realmente ao primeiro gole sentira nos lábios um contato gélido, mais frio do que a água.
E soube então que havia colado sua boca na boca da estátua da mulher de pedra. A vida havia jorrado dessa boca, de uma boca para outra.
Intuitivamente, confuso na sua inocência, sentia intrigado: mas não é de uma mulher que sai o líquido vivificador, o líquido germinador de vida... Olhou a estátua nua.
Ele a havia beijado.
Sofreu um tremor que não se via por fora e que se iniciou bem dentro dele e tomou-lhe o corpo todo estourando pelo rosto em brasa viva.
Deu um passo para trás ou para a frente, nem sabia mais o que fazia. Perturbado, atônito, percebeu que uma parte de seu corpo, sempre antes relaxada, estava agora com uma tensão agressiva, e isso nunca lhe tinha acontecido.
Estava de pé, docemente agressivo, sozinho no meio dos outros, de coração batendo fundo, espaçado, sentindo o mundo se transformar. A vida era inteiramente nova, era outra, descoberta com sobressalto.
Perplexo, num equilíbrio frágil.
Até que, vinda da profundeza de seu ser, jorrou de uma fonte oculta nele a verdade. Que logo o encheu de susto e logo também de um orgulho antes jamais sentido: ele...
Ele se tornara homem.
(LISPECTOR, Clarice. Felicidade Clandestina: Contos. Rio de Janeiro: Rocco, 1998.)
O primeiro beijo
Os dois mais murmuravam que conversavam: havia pouco iniciara-se o namoro e ambos andavam tontos, era o amor. Amor com o que vem junto: ciúme.
– Está bem, acredito que sou a sua primeira namorada, fico feliz com isso. Mas me diga a verdade, só a verdade: você nunca beijou uma mulher antes de me beijar?
Ele foi simples:
– Sim, já beijei antes uma mulher.
– Quem era ela? perguntou com dor.
Ele tentou contar toscamente, não sabia como dizer.
O ônibus da excursão subia lentamente a serra. Ele, um dos garotos no meio da garotada em algazarra, deixava a brisa fresca bater-lhe no rosto e entrar-lhe pelos cabelos com dedos longos, finos e sem peso como os de uma mãe. Ficar às vezes quieto,sem quase pensar, e apenas sentir era tão bom. A concentração no sentir era difícil no meio da balbúrdia dos companheiros.
E mesmo a sede começara: brincar com a turma, falar bem alto, mais alto que o barulho do motor, rir, gritar, pensar, sentir, puxa vida! como deixava a garganta seca.
E nem sombra de água. O jeito era juntar saliva, e foi o que fez. Depois de reunida na boca ardente engolia-a lentamente, outra vez e mais outra. Era morna, porém, a saliva, e não tirava a sede. Uma sede enorme maior do que ele próprio, que lhe tomava agora o corpo todo.
A brisa fina, antes tão boa, agora ao sol do meio-dia tornara-se quente e árida e ao penetrar pelo nariz secava ainda mais a pouca saliva que pacientemente juntava.
E se fechasse as narinas e respirasse um pouco menos daquele vento de deserto? Tentou por instantes mas logo sufocava. O jeito era mesmo esperar, esperar. Talvez minutos apenas, talvez horas, enquanto sua sede era de anos.
Não sabia como e por que mas agora se sentia mais perto da água, pressentia-a mais próxima, e seus olhos saltavam para fora da janela procurando a estrada, penetrando entre os arbustos, espreitando, farejando.
O instinto animal dentro dele não errara: na curva inesperada da estrada, entre arbustos, estava... O chafariz de onde brotava num filete a água sonhada.
O ônibus parou, todos estavam com sede mas ele conseguiu ser o primeiro a chegar ao chafariz de pedra, antes de todos.
De olhos fechados entreabriu os lábios e colou-os ferozmente ao orifício de onde jorrava a água. O primeiro gole fresco desceu, escorrendo pelo peito até a barriga.
Era a vida voltando, e com esta encharcou todo o seu interior arenoso até se saciar. Agora podia abrir os olhos.
Abriu-os e viu bem junto de sua cara dois olhos de estátua fitando-o e viu que era a estátua de uma mulher e que era da boca da mulher que saía a água. Lembrou-se de que realmente ao primeiro gole sentira nos lábios um contato gélido, mais frio do que a água.
E soube então que havia colado sua boca na boca da estátua da mulher de pedra. A vida havia jorrado dessa boca, de uma boca para outra.
Intuitivamente, confuso na sua inocência, sentia intrigado: mas não é de uma mulher que sai o líquido vivificador, o líquido germinador de vida... Olhou a estátua nua.
Ele a havia beijado.
Sofreu um tremor que não se via por fora e que se iniciou bem dentro dele e tomou-lhe o corpo todo estourando pelo rosto em brasa viva.
Deu um passo para trás ou para a frente, nem sabia mais o que fazia. Perturbado, atônito, percebeu que uma parte de seu corpo, sempre antes relaxada, estava agora com uma tensão agressiva, e isso nunca lhe tinha acontecido.
Estava de pé, docemente agressivo, sozinho no meio dos outros, de coração batendo fundo, espaçado, sentindo o mundo se transformar. A vida era inteiramente nova, era outra, descoberta com sobressalto.
Perplexo, num equilíbrio frágil.
Até que, vinda da profundeza de seu ser, jorrou de uma fonte oculta nele a verdade. Que logo o encheu de susto e logo também de um orgulho antes jamais sentido: ele...
Ele se tornara homem.
(LISPECTOR, Clarice. Felicidade Clandestina: Contos. Rio de Janeiro: Rocco, 1998.)