Questões de Concurso
Sobre noções gerais de compreensão e interpretação de texto em português
Foram encontradas 52.713 questões
O texto seguinte servirá de base para responder à questão
Nem surgisse um olhar de piedade ou de amor
Nem houvesse uma branca mão que apaziguasse minha fronte palpitante...
Eu estaria sempre como um círio queimando para o céu a minha fatalidade
Sobre o cadáver ainda morno desse passado adolescente.
Talvez no espaço perfeito aparecesse a visão nua
Ou talvez a porta do oratório se fosse abrindo misteriosamente...
Eu estaria esquecido, tateando suavemente a face do filho morto
Partido de dor, chorando sobre o seu corpo insepultável.
Talvez da carne do homem prostrado se visse sair uma sombra igual à minha
Que amasse as andorinhas, os seios virgens, os perfumes e os lírios da terra
Talvez... mas todas as visões estariam também em minhas lágrimas boiando
E elas seriam como óleo santo e como pétalas se derramando sobre o nada.
Alguém gritaria longe: - "Quantas rosas nos deu a primavera!..."
Eu olharia vagamente o jardim cheio de sol e de cores noivas se enlaçando
Talvez mesmo meu olhar seguisse da flor o voo rápido de um pássaro
Mas sob meus dedos vivos estaria a sua boca fria e os seus cabelos luminosos.
Rumores chegariam a mim, distintos como passos na madrugada
Uma voz cantou, foi a irmã, foi a irmã vestida de branco! - a sua voz é fresca como o orvalho...
Beijam-me a face - irmã vestida de azul, por que estás triste?
Deu-te a vida a velar um passado também?
Voltaria o silêncio - seria uma quietude de nave em Senhor Morto
Numa onda de dor eu tomaria a pobre face em minhas mãos angustiadas
Auscultaria o sopro, diria à toa - Escuta, acorda
Por que me deixaste assim sem me dizeres quem eu sou?
E o olhar estaria ansioso esperando
E a cabeça ao sabor da mágoa balançando
E o coração fugindo e o coração voltando
E os minutos passando e os minutos passando...
No entanto, dentro do sol a minha sombra se projeta
Sobre as casas avança o seu vago perfil tristonho
Anda, dilui-se, dobra-se nos degraus das altas escadas silenciosas
E morre quando o prazer pede a treva para a consumação da sua miséria.
É que ela vai sofrer o instante que me falta
Esse instante de amor, de sonho, de esquecimento
E quando chega, a horas mortas, deixa em meu ser uma braçada de lembranças
Que eu desfolho saudoso sobre o corpo embalsamado do eterno ausente.
Nem surgisse em minhas mãos a rósea ferida
Nem porejasse em minha pele o sangue da agonia...
Eu diria - Senhor, por que me escolheste a mim que sou escravo
Por que me chagaste a mim cheio de chagas?
Nem do meu vazio te criasses, anjo que eu sonhei de brancos seios
De branco ventre e de brancas pernas acordadas
Nem vibrasses no espaço em que te moldei perfeita...
Eu te diria - Por que vieste te dar ao já vendido?
Oh, estranho húmus deste ser inerme e que eu sinto latente
Escorre sobre mim como o luar nas fontes pobres
Embriaga o meu peito do teu bafo que é como o sândalo
Enche o meu espírito do teu sangue que é a própria vida!
Fora, um riso de criança - longínqua infância da hóstia consagrada
Aqui estou ardendo a minha eternidade junto ao teu corpo frágil!
Eu sei que a morte abrirá no meu deserto fontes maravilhosas
E vozes que eu não sabia em mim lutarão contra a Voz.
Agora porém estou vivendo da tua chama como a cera
O infinito nada poderá contra mim porque de mim quer tudo
Ele ama no teu sereno cadáver o terrível cadáver que eu seria
O belo cadáver nu cheio de cicatriz e de úlceras. Quem chamou por mim, tu, mãe? Teu filho sonha...
Lembras-te, mãe, a juventude, a grande praia enluarada...
Pensaste em mim, mãe? Oh, tudo é tão triste
A casa, o jardim, o teu olhar, o meu olhar, o olhar de Deus...
E sob a minha mão tenho a impressão da boca fria murmurando
Sinto-me cego e olho o céu e leio nos dedos a mágica lembrança
Passastes, estrelas... Voltais de novo arrastando brancos véus
Passastes, luas... Voltais de novo arrastando negros véus... ?
Vinicius de Moraes?. em: Moraes, V. de. Poesia completa e prosa. 4a ed., rio de Janeiro, nova aguilar, 2004.
Leia o texto abaixo.
Depois do anoitecer
Bem na hora em que a gente começa a ficar com sono, outros animais estão só começando o dia. Trocar o dia pela noite pode parecer estranho para nós, mas faz parte do estilo de vida de algumas espécies. Por exemplo, três quartos dos mamíferos da fauna brasileira têm hábitos noturnos, ou seja, concentram suas atividades – como se reproduzir, comer e marcar território – no período da noite. Alguns exemplos são o gato-do-mato, o maracajá, a jaguatirica, a suçuarana, a onça-pintada, o gato-palheiro e o lobo-guará. Mas há muitos outros.
O jupará, por exemplo, mamífero da família do guaxinim, faz tudo durante a noite. Típico da Mata Atlântica, esse bicho se alimenta principalmente da carne que captura em suas caçadas noturnas (apesar de gostar de comer fruta de vez em quando). E não quer sair de dia de jeito nenhum! Para você ter uma ideia, no Zoológico do Rio de Janeiro havia um viveiro com sete juparás e, mesmo assim, era praticamente impossível vê-los durante o dia. [...]
FARAH, Pedro Paulo; FERREIRA, Maria Beatriz. Ciência Hoje das Crianças, Rio de janeiro, n. 206, p. 4, out. 2009. Fragmento.
Leia o texto abaixo.

Leia o texto abaixo para responder a questão.
Cara de Lua
Clarice, a professora, bate palmas para começar a aula.
– Vamos lá, quem fez a redação sobre um fantasma? [...]
– Davi! – aponta Clarice. – Gostaria de ler para nós o que escreveu?
– [...] posso contar como é o fantasma da minha casa porque sei de cor.
– Conte! Conte! – dizem os seus colegas.
– Meu fantasma se chama Cara de Lua – começa Davi. [...]
– E por que se chama Cara de Lua? – pergunta Carolina.
– Fui eu quem lhe deu esse nome! – diz Davi, rindo. E ele gosta!
– Conte mais! – pede Artur.
– Bom, durante o dia ele dorme. [...] acho que dorme grudado na parede.
– E à noite, ele se desgruda? – pergunta a professora.
– Sim. E boceja, e se espreguiça assim! – explica Davi, imitando-o. [...]
– Eu quero conhecê-lo! – diz Anita, entusiasmada. [...]
Davi perguntou à professora se queria ir também, mas ela disse que não, pois já era muito grande para essas coisas. Davi acha que, no fundo, a professora tem é medo de fantasmas.
FAMILIAR, Juan José Gutierrez (org.). Contos de 1 minuto. Barueri, SP: Girassol, 2012, p. 68-69. Fragmento.
Leia o texto abaixo para responder a questão.
Cara de Lua
Clarice, a professora, bate palmas para começar a aula.
– Vamos lá, quem fez a redação sobre um fantasma? [...]
– Davi! – aponta Clarice. – Gostaria de ler para nós o que escreveu?
– [...] posso contar como é o fantasma da minha casa porque sei de cor.
– Conte! Conte! – dizem os seus colegas.
– Meu fantasma se chama Cara de Lua – começa Davi. [...]
– E por que se chama Cara de Lua? – pergunta Carolina.
– Fui eu quem lhe deu esse nome! – diz Davi, rindo. E ele gosta!
– Conte mais! – pede Artur.
– Bom, durante o dia ele dorme. [...] acho que dorme grudado na parede.
– E à noite, ele se desgruda? – pergunta a professora.
– Sim. E boceja, e se espreguiça assim! – explica Davi, imitando-o. [...]
– Eu quero conhecê-lo! – diz Anita, entusiasmada. [...]
Davi perguntou à professora se queria ir também, mas ela disse que não, pois já era muito grande para essas coisas. Davi acha que, no fundo, a professora tem é medo de fantasmas.
FAMILIAR, Juan José Gutierrez (org.). Contos de 1 minuto. Barueri, SP: Girassol, 2012, p. 68-69. Fragmento.
Leia o texto abaixo para responder à questão.
Preço do livro é o que mais desmotiva novos leitores, segundo pesquisa inédita
O preço dos livros é determinante na escolha do leitor brasileiro — ou do leitor em potencial — de comprar ou não um exemplar, conforme mostra uma pesquisa inédita divulgada pela consultoria Nielsen em parceria com a Câmara Brasileira do Livro.
O estudo fez um panorama de quem são os consumidores de livros no país, concluindo que hoje 16% da população brasileira tem esse hábito — ou seja, afirma ter pago por ao menos um exemplar nos últimos 12 meses. Desses leitores, 57% são mulheres. Entre as pessoas que não compram livros, 35% respondem que o principal motivo é julgar o produto caro demais, uma percepção quase homogênea entre todas as classes sociais. O valor salgado pontua na pesquisa acima de outros fatores como a ausência de lojas por perto ou a falta de tempo para leitura.
É curioso perceber, no entanto, que 85% dos brasileiros que não se identificam como compradores de livros ainda afirmam que a leitura é uma atividade importante ou muito importante, e a maioria deles diz ter intenção de ler mais no próximo ano. A percepção comum de que o livro é caro no Brasil alarma o mercado editorial, que costuma trabalhar com previsões de lucro modestas e teme a desvalorização do produto, dada a quantidade de descontos que têm virado regra na indústria.
Basta ver que 55% dos compradores de livros impressos, segundo a pesquisa, preferem o varejo online, que trabalha com descontos bem mais agressivos que as livrarias físicas. 64% dos compradores de livros nas plataformas virtuais afirmam ter sido estimulados por descontos, enquanto nas lojas presenciais essa taxa fica em 43%. Os motivos citados pelos compradores como decisivos são, acima de tudo, os preços, logo seguidos por comodidades como frete grátis, velocidade de entrega e disponibilidade.
A pesquisa da Nielsen foi realizada em outubro por meio de um questionário com 16 mil pessoas com mais de 18 anos, com marjem de erro de 0,8 ponto percentual.
PORTO, Walter. Preço do livro é o que mais desmotiva novos leitores, segundo
pesquisa inédita. Folha de São Paulo. Adaptado. Disponível em:
https://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2023/12/preco-do-livro-e-o-que-mais
desmotiva-novos-leitores-segundo-pesquisa-inedita.shtml. Acesso em
09/12/2023.
Leia o texto abaixo para responder à questão.
Preço do livro é o que mais desmotiva novos leitores, segundo pesquisa inédita
O preço dos livros é determinante na escolha do leitor brasileiro — ou do leitor em potencial — de comprar ou não um exemplar, conforme mostra uma pesquisa inédita divulgada pela consultoria Nielsen em parceria com a Câmara Brasileira do Livro.
O estudo fez um panorama de quem são os consumidores de livros no país, concluindo que hoje 16% da população brasileira tem esse hábito — ou seja, afirma ter pago por ao menos um exemplar nos últimos 12 meses. Desses leitores, 57% são mulheres. Entre as pessoas que não compram livros, 35% respondem que o principal motivo é julgar o produto caro demais, uma percepção quase homogênea entre todas as classes sociais. O valor salgado pontua na pesquisa acima de outros fatores como a ausência de lojas por perto ou a falta de tempo para leitura.
É curioso perceber, no entanto, que 85% dos brasileiros que não se identificam como compradores de livros ainda afirmam que a leitura é uma atividade importante ou muito importante, e a maioria deles diz ter intenção de ler mais no próximo ano. A percepção comum de que o livro é caro no Brasil alarma o mercado editorial, que costuma trabalhar com previsões de lucro modestas e teme a desvalorização do produto, dada a quantidade de descontos que têm virado regra na indústria.
Basta ver que 55% dos compradores de livros impressos, segundo a pesquisa, preferem o varejo online, que trabalha com descontos bem mais agressivos que as livrarias físicas. 64% dos compradores de livros nas plataformas virtuais afirmam ter sido estimulados por descontos, enquanto nas lojas presenciais essa taxa fica em 43%. Os motivos citados pelos compradores como decisivos são, acima de tudo, os preços, logo seguidos por comodidades como frete grátis, velocidade de entrega e disponibilidade.
A pesquisa da Nielsen foi realizada em outubro por meio de um questionário com 16 mil pessoas com mais de 18 anos, com marjem de erro de 0,8 ponto percentual.
PORTO, Walter. Preço do livro é o que mais desmotiva novos leitores, segundo
pesquisa inédita. Folha de São Paulo. Adaptado. Disponível em:
https://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2023/12/preco-do-livro-e-o-que-mais
desmotiva-novos-leitores-segundo-pesquisa-inedita.shtml. Acesso em
09/12/2023.
Leia o texto abaixo e responda a questão:
A campanha "Agosto Dourado" conscientiza sobre a importância do aleitamento materno
O mês de agosto é conhecido como “Agosto Dourado” por simbolizar a luta pelo incentivo à amamentação – a cor dourada está relacionada ao padrão ouro de qualidade do leite materno.
De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS) e o Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef), por ano, cerca de seis milhões de vidas são salvas por causa do aumento das taxas de amamentação exclusiva até o sexto mês de idade.
O leite materno é considerado o alimento mais completo para os primeiros meses de vida. É nele que estão contidas todas as proteínas, vitaminas, gorduras, água e os nutrientes necessários para o saudável desenvolvimento dos bebês.
(https://www.gov.br/ebserh/pt-br/hospitais-universitarios/regiao-nordeste/hujb-ufcg/comunicacao/noticias/acampanha-agosto-dourado-conscientiza-a-importancia-do-aleitamento-materno)
Leia o texto abaixo e responda a questão:
Pesquisadores encontram fóssil de baleia com até 340 toneladas; 'Nature' aponta que é o animal mais pesado da história da Terra
Ossos estavam em rocha de 40 milhões de anos. Equipe de paleontólogos internacionais encontrou 13 vértebras, quatro costelas e um osso do quadril. O fóssil indica que a baleia tinha aproximadamente 20 metros de comprimento.
Uma equipe de paleontólogos internacionais encontrou um fóssil que pode ser o animal mais pesado de todos os tempos. São os ossos de uma baleia que estava incrustados em rochas de quase 40 milhões de anos atrás, época em que ela viveu.
Os pesquisadores encontraram 13 vértebras, quatro costelas e um osso do quadril. O fóssil indica que a baleia tinha aproximadamente 20 metros de comprimento e pesava cerca de 200 toneladas. Algumas chegavam até a 340 toneladas. O paleontólogo Mário Urbina, que liderou a equipe na escavação, explica que levará anos para terminar a escavação completa do animal.
Embora o crânio ainda não tenha sido encontrado, a descoberta do esqueleto tornou possível a publicação de um artigo científico para a revista Nature, que estabelece que esse é o "animal mais pesado da história da Terra".
A área do Deserto de Ica, no sul do Peru, é rica em fósseis de baleias, mas esta é a maior descoberta na região até agora e os fósseis foram apresentados pela primeira vez, em Lima.
Respostas sobre a evolução da vida na Terra
A descoberta chamou a atenção do mundo inteiro. Ela pode trazer respostas a muitas perguntas sobre a evolução da vida na Terra. Informações que podem contribuir para pesquisas em andamento, hoje, em várias áreas da ciência.
O professor Hans Thewissen, que estuda mamíferos, na Universidade de Medicina de Ohio, ficou empolgado. Ele diz que o fóssil é de uma baleia tão grande ou maior do que a baleia azul, que conhecemos. Os pesquisadores sugerem que elas viviam principalmente no fundo do mar.
O professor explica que é importante estudar como um animal com ossos tão pesados conseguia regular sua densidade óssea.
"Muitos idosos tem osteoporose e as pesquisas com esses fósseis podem nos dar algumas ideias de como podemos ajudar os humanos em alguns padrões da doença", diz o professor.
A descoberta é também um alerta: a baleia viveu no período eoceno, marcado por grandes mudanças climáticas.
(https://g1.globo.com/jornal-hoje/noticia/2023/08/03/pesquisadores-encontram-fossil-de-baleiaanimal-pode-ser-o-mais-pesado-da-terra-com-ate-340-toneladas.ghtml)
Leia o texto abaixo e responda a questão:
A lebre e a tartaruga
— Tenho pena de você —, disse uma vez a lebre à tartaruga: — obrigada a andar com a tua casa às costas, não podes passear, correr, brincar, e livrar-te de teus inimigos.
— Guarda para ti a tua compaixão — disse a tartaruga — pesada como sou, e tu ligeira como te gabas de ser, apostemos que eu chego primeiro do que tu a qualquer meta que nos proponhamos a alcançar.
— Vá feito, disse a lebre: só pela graça aceito a aposta. Ajustada a meta, pôs-se a tartaruga a caminho; a lebre que a via, pesada, ir remando em seco, ria-se como uma perdida; e pôs-se a saltar, a divertir-se; e a tartaruga ia-se adiantando.
— Olá! camarada, disse-lhe a lebre, não te canses assim! Que galope é esse? Olha que eu vou dormir um pouquinho.
E se bem o disse, melhor o fez; para escarnecer da tartaruga, deitou-se, e fingiu dormir, dizendo: sempre hei de chegar a tempo. De súbito olha; já era tarde; a tartaruga estava na meta, e vencedora lhe retribuía os seus deboches:
— Que vergonha! Uma tartaruga venceu em ligeireza a uma lebre!
MORAL DA HISTÓRIA: Nada vale correr; cumpre partir em tempo, e não se divertir pelo caminho.
(https://www.culturagenial.com/fabulas-de-esopo/)
Arte, cultura e patrimônio para quem?
Eu não sei você, mas nunca tive a honra de ser convidada a conhecer o terceiro andar do Palácio do Planalto. Mesmo se tivesse, não saberia identificar, no fino desenho talhado na madeira, que o relógio no corredor se tratava de uma rara peça de relojoaria de Martinot, com traçado de André-Charles Boulle. Se alguma pessoa mais versada nos sinuosos caminhos da mobília francesa me contasse tais detalhes, acrescentando, ainda, que se tratava de um presente de Luís XIV, rei da França, a D. João VI, rei de Portugal, que o trouxe para o Brasil com vinda da corte portuguesa, em 1808, minha resposta não poderia ser outra: e o que é que um símbolo do pacto colonial entre duas monarquias escravocratas faz adornando a capital da República?
Que nenhum curador de arte do Palácio do Planalto jamais tenha feito essa pergunta é um sintoma do traço que permanece entre as transições do poder pelas quais passou nosso país em mais de 500 anos de história: nunca houve ruptura da hegemonia branca nos espaços de poder e, por consequência, nos espaços que definem o que é arte, o que é cultura, o que é patrimônio. Antes que me acusem de fazer apologia da destruição de obras de valor "inestimável": não faço, absolutamente. Quero, apenas, chamar a atenção para a disputa de narrativa acerca dos símbolos de poder em uma democracia. O que se propõe é a democratização do acesso e da oportunidade de fruição, pela sociedade, da arte produzida e preservada historicamente pelas elites econômicas.
Há uma longa distância entre celebrar e apreciar o valor da história e da técnica de uma obra de arte de 200 anos e elegê-la como mártir de um atentado violento à democracia brasileira, como têm feito alguns discursos que em muito se assemelham ao que poderiam defender, sem pudor, os monarquistas que ocuparam a Superintendência do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) no Rio de Janeiro, nos últimos anos.
A leitura crítica do patrimônio cultural de origem colonial é um dos desafios impostos à política de educação patrimonial a ser fortalecida pelo Estado brasileiro a partir dos acontecimentos em 8 de janeiro. Quantas obras de artistas negros foram selecionadas pela curadoria de arte dos Palácios dos Três Poderes? Por que não convidar os artistas negros a representar os próprios sonhos e aspirações?
Dos escombros de mais uma grave afronta à democracia surge a oportunidade de avançar no compromisso simbólico firmado na passagem da faixa ao novo presidente, que a recebeu do povo brasileiro. O povo brasileiro quer subir a rampa, quer entrar no palácio e, ao entrar, quer se deparar também com representações de suas celebrações e corpos que sejam mais do que a interpretação erudita de uma beleza e de uma alegria exóticas, essencialistas.
Di Cavalcanti começou a pintar aos 11 anos — a quantos jovens brasileiros é dada a mesma oportunidade? Quantos poderão acompanhar e aprender com o trabalho de restauro das obras destruídas? Quantos deles não serão brancos? Considerando a relevância do movimento modernista na renovação das diversas expressões artísticas brasileiras, que crítica se faz à exclusão de artistas negros de um movimento de vanguarda que se propôs construir uma nova identidade nacional?
São perguntas incômodas para um momento de crise, mas que devem ser feitas, sob o risco de que a restauração do patrimônio cultural destruído por atos de terrorismo seja também a restauração de uma narrativa conhecida sobre o valor de uma arte excludente, elitista, cuja apreciação e fruição é para poucos privilegiados. É também nesse vácuo de participação social e de identificação entre os símbolos do poder e a vida vivida pela população, que o fascismo sabe tão bem manipular, que cresce o ódio que culminou nas cenas que nos abateram naquele triste domingo.
O patrimônio cultural acautelado pelo Iphan é de todos, na letra na lei, mas é preciso, ainda, que seja para todos, não como imposição estética das elites ao povo que se pretende "educar", mas como construção coletiva, que não apague a memória dos vencidos e dos explorados em nome da conservação de bens "inestimáveis".
A vinda da família real portuguesa para o Brasil, além de trazer nos cofres mobília francesa, triplicou, em 13 anos, o número de africanos e afrodescendentes escravizados no país. Diante da necessidade de elencar prioridades de gastos do governo federal, talvez a restauração do relógio de Martinot possa aguardar o socorro ao Cais do Valongo, no Rio de Janeiro, que, não por acaso, passou os últimos quatro anos — também — sob ataque de bolsonaristas extremistas e raivosos.
(FERREIRA, Bruna da Silva. Disponível em: https://www.correiobraziliense.com.br/ opi-
niao/2023/02/5071292-artigo-arte-cultura-e-patrimonio-para-quem.html)
Assinale a opção CORRETA de acordo com o texto base
Estima-se que 9% das mulheres ainda fumem durante a gravidez na Inglaterra. Segundo o governo, estudos indicam que incentivos financeiros e apoio comportamental podem ser eficazes.
Assinale a opção CORRETA de acordo com o texto base.
Assinale a opção CORRETA de acordo com o texto base.