Questões de Concurso
Comentadas sobre morfologia - verbos em português
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Sinais sutis de subdesenvolvimento
Existem sinais claros para identificar um lugar subdesenvolvido: esgoto a céu aberto, lixo acumulado nas ruas e nas calçadas, subnutrição, gente morrendo de doenças para as quais já existem vacina e remédio, como disenteria e tuberculose. Agora, existem muitos outros sinais de uma cultura subdesenvolvida, primitiva até, sinais sutis de que ainda não nos encontramos num estágio mais avançado e desejado de civilidade e desenvolvimento.
Viajar para um lugar no exterior indiscutivelmente mais civilizado e desenvolvido e depois voltar ao Brasil e chegar ao Aeroporto Internacional de Guarulhos é um choque. Nosso maior e mais movimentado aeroporto já nos recebe no Terminal 3 com um cheiro fétido de esgoto vindo dos banheiros ou sabe-se lá de onde. Carrinhos para colocar a bagagem? “Estamos em falta hoje”, me disse o rapazinho simpático, que com outros dois funcionários conversavam tranquilamente sobre o nada escorados numa parede perto da esteira. Alguém tomar a iniciativa de informar a falta dos carrinhos ou ir buscar? Zero. Proatividade e produtividade nem de longe são pontos fortes aqui.
Depois, se via lixo espalhado por todo lado: embalagens de biscoito e de chocolate, copinhos e garrafinhas de plástico, papéis, guardanapos no chão, nas poltronas, nas mesinhas perto dos tótens de carregar celular. Pior foi ver a porquice (sim, porquice, coisa de gente porca) no portão de embarque de determinada companhia aérea: restos de adesivos e cartões de embarque jogados no chão e mais papéis, num claro sinal de desleixo da equipe. Por menor que seja o salário de alguém, manter seu local de trabalho limpo e organizado é o mínimo que qualquer profissional deve fazer. Mas o papinho sobre os acontecimentos do final de semana parecia bem animado; e os longos cílios postiços e as unhas compridas e pontudas irretocáveis exibiam um “autocuidado” contrastante com o desleixo ao redor do balcão.
Eu era do tipo que chamava a atenção de quem jogava lixo na rua. Eu era do tipo que até mesmo juntava o lixo dos outros e colocava na lixeira para manter um lugar limpo. Não faço mais isso. Cansei. Lutar praticamente sozinha por espaços públicos mais civilizados é uma luta cansativa e frustrante, porque outro sinal sutil de subdesenvolvimento é essa coisa de “não dá nada”: as pessoas descumprem as regras mínimas de civilidade — como jogar o lixo na lata de lixo ou não fazer o seu trabalho direito — e nada acontece com elas, nem mesmo uma reprimenda.
O máximo que posso fazer é manter meu lar, meu quintal, minha calçada, o “meu jardim” o melhor e mais civilizado que posso. Se aqui não dão conta nem dos graves sinais de subdesenvolvimento, como a falta de saneamento básico, o que dirá o resto.
Autora: Candice Soldatelli - GZH (adaptado).
Leia para responder à questão
As estações do metrô de Moscou ganharam o apelido de “catedrais subterrâneas” porque, em muitos casos, foram concebidas para impressionar tanto quanto para transportar. Inaugurado em 1935, o sistema nasceu num período em que a infraestrutura era também linguagem política: o subsolo deveria expressar ordem, grandeza e promessa de futuro. Em vez de corredores utilitários, surgiram salões amplos, colunas ritmadas, abóbadas e luminárias que lembram naves de templos — não para sugerir religiosidade, mas para elevar o cotidiano à condição de espetáculo urbano.
A estética dessas estações dialoga com o realismo socialista e com tradições arquitetônicas russas e europeias, combinando mármores, granitos, bronze, vitrais, mosaicos e relevos. O resultado é uma arquitetura narrativa: cada estação parece “contar” algo por meio de materiais e símbolos, como se o percurso fosse também uma galeria. Essa intenção se revela na escala e no detalhe — do brilho das cúpulas às molduras das portas, do desenho dos pisos aos frisos com cenas históricas —, tudo organizado para conduzir o olhar e, ao mesmo tempo, disciplinar o fluxo de pessoas.
Algumas estações tornaram-se ícones justamente por condensarem esse projeto de monumentalidade. Em Komsomolskaya, a sensação é a de um grande salão cerimonial; em Mayakovskaya, a elegância das linhas e os painéis no teto criam um efeito quase cinematográfico; em Ploshchad Revolyutsii, esculturas em tamanho real aproximam o passageiro de figuras idealizadas do imaginário soviético; em Novoslobodskaya, vitrais e iluminação compõem um clima raro para um espaço de circulação rápida. São ambientes pensados para serem atravessados, mas também para serem vistos, como se a pressa tivesse de conviver com a contemplação.
A profundidade de várias linhas e a robustez da engenharia também carregam história. Durante a Segunda Guerra Mundial, o metrô serviu como abrigo e espaço estratégico pensado, o que reforçou a percepção de que aquele subterrâneo não era apenas trânsito, mas refúgio e cidade paralela. Assim, a beleza não aparece isolada: ela se apoia em soluções técnicas, ventilação, escadas rolantes longas e estruturas capazes de sustentar tanto a rotina quanto momentos de crise, mantendo a sensação de permanência mesmo em tempos instáveis.
Com o passar das décadas, novos trechos e estações foram incorporando estilos diferentes, do monumental ao mais sóbrio e funcional, conforme mudavam as prioridades estéticas e econômicas. Ainda assim, a imagem das “catedrais subterrâneas” persiste porque o metrô de Moscou preserva uma ideia rara: a de que a infraestrutura pode ser, simultaneamente, ferramenta e símbolo. No vai e vem diário, a arquitetura não serve apenas de fundo; ela participa do gesto de atravessar a cidade, lembrando que, às vezes, o caminho é tão expressivo quanto o destino.
ATENÇÃO: o texto a seguir refere-se à questão.
Maria
Maria estava parada há mais de meia hora no ponto de ônibus. Estava cansada de esperar. Se a distância fosse menor, teria ido a pé. Era preciso mesmo ir se acostumando com a caminhada. Os ônibus estavam aumentando tanto! Além do cansaço, a sacola estava pesada. No dia anterior, no domingo, havia tido festa na casa da patroa. Ela levava para casa os restos. O osso do pernil e as frutas que tinham enfeitado a mesa. Ganhara as frutas e uma gorjeta. O osso a patroa ia jogar fora. Estava feliz, apesar do cansaço. A gorjeta chegara numa hora boa. Os dois filhos menores estavam muito gripados. Precisava comprar xarope e aquele remedinho de desentupir o nariz. Daria para comprar também uma lata de Toddy. As frutas estavam ótimas e havia melão. As crianças nunca tinham comido melão. Será que os meninos gostavam de melão?
A palma de uma de suas mãos doía. Tinha sofrido um corte, bem no meio, enquanto cortava o pernil para a patroa. Que coisa! Faca-laser corta até a vida!
Quando o ônibus apontou lá na esquina, Maria abaixou o corpo, pegando a sacola que estava no chão entre as suas pernas. O ônibus não estava cheio, havia lugares. Ela poderia descansar um pouco, cochilar até a hora da descida. Ao entrar, um homem levantou lá de trás, do último banco, fazendo um sinal para o trocador. Passou em silêncio, pagando a passagem dele e de Maria. Ela reconheceu o homem. Quanto tempo, que saudades! Como era difícil continuar a vida sem ele. Maria sentou-se na frente. O homem assentou-se ao lado dela. Ela se lembrou do passado. Do homem deitado com ela. Da vida dos dois no barraco. Dos primeiros enjoos. Da barriga enorme que todos diziam gêmeos, e da alegria dele. Que bom! Nasceu! Era um menino! E haveria de se tornar um homem. Maria viu, sem olhar, que era o pai do seu filho. Ele continuava o mesmo. Bonito, grande, o olhar assustado não se fixando em nada e em ninguém. Sentiu uma mágoa imensa. Por que não podia ser de outra forma? Por que não podiam ser felizes? E o menino, Maria? Como vai o menino? Cochichou o homem. Sabe que sinto falta de vocês? Tenho um buraco no peito, tamanha a saudade! Tou sozinho! Não arrumei, não quis mais ninguém. Você já teve outros... outros filhos? A mulher baixou os olhos como que pedindo perdão. É. Ela teve mais dois filhos, mas não tinha ninguém também! Homens também? Eles haveriam de ter outra vida. Com eles tudo haveria de ser diferente. Maria, não te esqueci! Tá tudo aqui no buraco do peito...
EVARISTO, Conceição. Olhos D’água (adaptado). Rio de Janeiro: Pallas/Fundação Biblioteca Nacional, 2016.
Considerando a forma verbal “cantávamos”, assinale a alternativa que classifica corretamente a palavra quanto à presença e à função dos morfemas que a compõem.
Do ponto de vista morfossintático, a locução verbal caracteriza-se pela:
“Quando cheguei, ele já tinha saído.”
Em termos de tempo verbal, a forma verbal “tinha saído” pode ser classificada como:
O verbo destacado na frase encontra-se conjugado no:
“[…] Quando tornei ao Rio de Janeiro em março, o escrivão tinha morrido de apoplexia. […]”
Machado de Assis, Missa do Galo.
O verbo destacado no trecho é:
Leia o texto e responda à questão.
A vida secreta dos áudios: por que a gente ouve em 1,5x e
responde “kkk” com seriedade.
Tem gente que escreve “bom dia” e segue a vida. E tem
gente que aperta o microfone, inspira como quem vai narrar um documentário e
manda: “Vou te explicar rapidinho”, sinal claro de que nada ali será rápido. A
verdade é que o áudio virou uma espécie de bilhete falado, só que com um
tempero de intimidade e um toque de suspense, porque nunca dá para saber se vem
uma dúvida simples ou uma novela em capítulos, com participação especial do
cachorro latindo e da panela de pressão opinando ao fundo.
Eu, que já fui uma pessoa que ouvia em velocidade
normal, hoje sou um cidadão da era 1,5x. É um estilo de vida. Não é pressa, é
sobrevivência. O áudio chega, eu já imagino a cena: alguém andando na rua,
vento no microfone, passos dramáticos, e a frase clássica: “Você tá me
ouvindo?”. Estou. Só não do jeito que você imaginou. Eu ouço em 1,5x com a
mesma seriedade de quem lê um contrato. Às vezes, em 2x, quando aparece aquele
“deixa eu contextualizar” que vem junto com quinze anos de história familiar e
um resumo do clima na cidade.
E aí surge o grande dilema moral: como responder?
Porque o áudio tem um peso. Um texto pode ser seco, mas o áudio tem sorriso,
tem pausa, tem o “ééé…” que revela o pensamento chegando atrasado. Só que a
gente, prático e moderno, devolve um “kkk” que, dependendo do momento,
significa: “entendi”, “tô com você”, “vou responder depois”, “não sei o que
dizer” e, em casos extremos, “só Deus na causa”. O “kkk” é o canivete suíço das
relações humanas. Você abre e ele vira o que precisar.
No grupo de trabalho, então, o áudio ganha vida
própria. Tem o colega que manda um áudio de quatro minutos para dizer que
atrasou cinco. Tem o professor que, no intervalo, grava olhando para o pátio e,
sem querer, dá aula de sociologia e de meteorologia ao mesmo tempo. Tem a
pessoa que fala baixinho, como se estivesse dentro de uma biblioteca secreta, e
você aumenta o volume só para ouvir junto o som da vida inteira do prédio. E
tem aquele áudio perigoso, o do “posso te ligar?”. Esse é o áudio que não é áudio,
é um aviso de tempestade.
Eu gosto de pensar que existe uma etiqueta invisível.
Tipo: se é urgente, escreve. Se é longo, avisa. Se é confidencial, não manda no
meio da feira. Mas a etiqueta do século é outra. A etiqueta é: manda, e quem
recebe que se vire. E a gente se vira. A gente aprende a ler emoções em
velocidade acelerada, como se o coração também tivesse um botão de ajuste. A
gente identifica tristeza em 1,5x, alegria em 2x, e indignação até em 0,5x, que
é quando você volta para entender exatamente onde a conversa desandou.
Naquele dia, eu estava prestes a responder um áudio
enorme com o meu “kkk” diplomático, quando reparei num detalhe. A voz do áudio
tinha um ritmo estranho, como se fosse uma versão ligeiramente mais rápida do
que eu lembrava. Voltei para 1x. A voz ficou… conhecida demais. Voltei para
0,5x, só para garantir. E foi aí que eu ouvi, no fundo, bem baixinho, uma coisa
que eu nunca esperaria ouvir no áudio de outra pessoa.
O clique do meu próprio microfone. E a minha própria
voz, do mês passado, dizendo: “Vou te explicar rapidinho”.
Na hora, eu entendi o desfecho inesperado dessa era.
Eu não estava só ouvindo áudios demais. Eu estava, discretamente, virando o
tipo de pessoa que manda áudios demais. E, por um segundo, eu tive vontade de
me responder com um “kkk” bem sério, em 2x, só para manter a tradição.
Fonte: Banca Examinadora
Que isso valha pra qualquer pessoa
Que realizar a força que tem uma paixão
Que isso valha pra qualquer pessoa
Que realizar a força que tem uma paixão
Eu vejo um novo começo de era
De gente fina, elegante e sincera
Com habilidade pra dizer
Leia o texto a seguir para responder à questão.
Como ensinar
Se eu fosse ensinar a uma criança a arte da jardinagem, não começaria com as lições das pás, enxadas e tesouras de podar. Eu a levaria a passear por parques e jardins, mostraria flores e árvores, falaria sobre suas maravilhosas simetrias e perfumes; a levaria a uma livraria para que ela visse, nos livros de arte, jardins de outras partes do mundo. Aí, seduzida pela beleza dos jardins, ela me pediria para ensinar-lhe as lições das pás, enxadas e tesouras de podar.
Se fosse ensinar a uma criança a beleza da música, não começaria com partituras, notas e pautas. Ouviríamos juntos as melodias mais gostosas e lhe falaria sobre os instrumentos que fazem a música. Aí, encantada com a beleza da música, ela mesma me pediria que lhe ensinasse o mistério daquelas bolinhas pretas escritas sobre cinco linhas. Porque as bolinhas pretas e as cinco linhas são apenas ferramentas para a produção da beleza musical. A experiência da beleza tem de vir antes.
Se fosse ensinar a uma criança a arte da leitura, não começaria com as letras e as sílabas. Simplesmente leria as estórias mais fascinantes que a fariam entrar no mundo encantado da fantasia. Aí então, com inveja dos meus poderes mágicos, ela desejaria que eu lhe ensinasse o segredo que transforma letras e sílabas em estórias.
É muito simples. O mundo de cada pessoa é muito pequeno. Os livros são a porta para um mundo grande. Pela leitura vivemos experiências que não foram nossas e então elas passam a ser nossas. Lemos a estória de um grande amor e experimentamos as alegrias e dores de um grande amor. Lemos estórias de batalhas e nos tornamos guerreiros de espada na mão, sem os perigos das batalhas de verdade. Viajamos para o passado e nos tornamos contemporâneos dos dinossauros. Viajamos para o futuro e nos transportamos para mundos que não existem ainda.
Lemos as biografias de pessoas extraordinárias que lutaram por causas bonitas e nos tornamos seus companheiros de lutas. Lendo, fazemos turismo sem sair do lugar. E isso é muito bom.
ALVES, Rubem. Como ensinar. Revista Prosa Verso e
Arte. Disponível em. <https://www.revistaprosaversoearte.com/como-ensinaruma-extraordinaria-cronica-de-rubem-alves/>.
“Se eu fosse ensinar a uma criança a arte da jardinagem, não começaria com as lições das pás, enxadas e tesouras de podar.”
As formas verbais presentes no trecho acima se enquadram numa estrutura comum no texto
“Como ensinar”. Essa estrutura verbal indica:
O verbo destacado na frase encontra-se conjugado no tempo e modo:
Mantendo a forma de tratamento “você” no período acima, como o enunciado destacado fica correto, pela norma-padrão da Língua Portuguesa?