No texto “A vida secreta dos áudios…”, o narrador alterna t...

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Q3911926 Português

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A vida secreta dos áudios: por que a gente ouve em 1,5x e responde “kkk” com seriedade.



Tem gente que escreve “bom dia” e segue a vida. E tem gente que aperta o microfone, inspira como quem vai narrar um documentário e manda: “Vou te explicar rapidinho”, sinal claro de que nada ali será rápido. A verdade é que o áudio virou uma espécie de bilhete falado, só que com um tempero de intimidade e um toque de suspense, porque nunca dá para saber se vem uma dúvida simples ou uma novela em capítulos, com participação especial do cachorro latindo e da panela de pressão opinando ao fundo.

Eu, que já fui uma pessoa que ouvia em velocidade normal, hoje sou um cidadão da era 1,5x. É um estilo de vida. Não é pressa, é sobrevivência. O áudio chega, eu já imagino a cena: alguém andando na rua, vento no microfone, passos dramáticos, e a frase clássica: “Você tá me ouvindo?”. Estou. Só não do jeito que você imaginou. Eu ouço em 1,5x com a mesma seriedade de quem lê um contrato. Às vezes, em 2x, quando aparece aquele “deixa eu contextualizar” que vem junto com quinze anos de história familiar e um resumo do clima na cidade.

E aí surge o grande dilema moral: como responder? Porque o áudio tem um peso. Um texto pode ser seco, mas o áudio tem sorriso, tem pausa, tem o “ééé…” que revela o pensamento chegando atrasado. Só que a gente, prático e moderno, devolve um “kkk” que, dependendo do momento, significa: “entendi”, “tô com você”, “vou responder depois”, “não sei o que dizer” e, em casos extremos, “só Deus na causa”. O “kkk” é o canivete suíço das relações humanas. Você abre e ele vira o que precisar.

No grupo de trabalho, então, o áudio ganha vida própria. Tem o colega que manda um áudio de quatro minutos para dizer que atrasou cinco. Tem o professor que, no intervalo, grava olhando para o pátio e, sem querer, dá aula de sociologia e de meteorologia ao mesmo tempo. Tem a pessoa que fala baixinho, como se estivesse dentro de uma biblioteca secreta, e você aumenta o volume só para ouvir junto o som da vida inteira do prédio. E tem aquele áudio perigoso, o do “posso te ligar?”. Esse é o áudio que não é áudio, é um aviso de tempestade.

Eu gosto de pensar que existe uma etiqueta invisível. Tipo: se é urgente, escreve. Se é longo, avisa. Se é confidencial, não manda no meio da feira. Mas a etiqueta do século é outra. A etiqueta é: manda, e quem recebe que se vire. E a gente se vira. A gente aprende a ler emoções em velocidade acelerada, como se o coração também tivesse um botão de ajuste. A gente identifica tristeza em 1,5x, alegria em 2x, e indignação até em 0,5x, que é quando você volta para entender exatamente onde a conversa desandou.

Naquele dia, eu estava prestes a responder um áudio enorme com o meu “kkk” diplomático, quando reparei num detalhe. A voz do áudio tinha um ritmo estranho, como se fosse uma versão ligeiramente mais rápida do que eu lembrava. Voltei para 1x. A voz ficou… conhecida demais. Voltei para 0,5x, só para garantir. E foi aí que eu ouvi, no fundo, bem baixinho, uma coisa que eu nunca esperaria ouvir no áudio de outra pessoa.

O clique do meu próprio microfone. E a minha própria voz, do mês passado, dizendo: “Vou te explicar rapidinho”.

Na hora, eu entendi o desfecho inesperado dessa era. Eu não estava só ouvindo áudios demais. Eu estava, discretamente, virando o tipo de pessoa que manda áudios demais. E, por um segundo, eu tive vontade de me responder com um “kkk” bem sério, em 2x, só para manter a tradição.

 

Fonte: Banca Examinadora

No texto “A vida secreta dos áudios…”, o narrador alterna tempos e pessoas para marcar hábito e mudança. Na frase “Eu ouço em 1,5x e respondo ‘kkk’”, a flexão verbal indica:
Alternativas

Gabarito comentado

Confira o gabarito comentado por um dos nossos professores

Gabarito: B

Fundamento decisivo: Na frase “Eu ouço em 1,5x com a mesma seriedade de quem lê um contrato.”, o sujeito expresso “Eu” determina a 1ª pessoa do singular; as formas “ouço” e, no mesmo eixo enunciativo, “respondo” estão no presente do indicativo. No contexto, esse presente exprime prática habitual do narrador, o que confirma a alternativa B.

Tema central: flexão verbal no presente do indicativo
Análise das alternativas
A
Errada
Está errada por dois motivos objetivos: a frase tem sujeito expresso “Eu”, então não há sujeito indeterminado, e as formas “ouço” e “respondo” não estão na 3ª pessoa do singular. A referência ao cotidiano existe, mas é apresentada de modo pessoal, pela fala do narrador sobre si mesmo.
B
Certa
A alternativa B está correta porque identifica ao mesmo tempo a forma verbal e seu valor no texto. “Ouço” e “respondo” concordam com o sujeito expresso “Eu”, portanto estão na 1ª pessoa do singular. Além disso, não nomeiam um fato isolado, mas um comportamento recorrente do narrador, confirmado por passagens como “hoje sou um cidadão da era 1,5x” e “Às vezes, em 2x”, que enquadram a ação como hábito da rotina atual.
C
Errada
Está errada porque a frase não traz 1ª pessoa do plural nem pretérito. As formas verbais analisadas são de 1ª pessoa do singular no presente. O texto até menciona passado em outros trechos, como “já fui” e “ouvia em velocidade normal”, mas isso serve para marcar mudança de comportamento, não para classificar “ouço” e “respondo”.
D
Errada
Está errada porque a frase não está na 2ª pessoa nem no futuro e não tem valor de ordem ou instrução. Trata-se de enunciado declarativo em que o narrador descreve a própria conduta. A aproximação coloquial com o leitor não transforma a frase em injunção.
Pegadinha da questão
A confusão real está em isolar a frase e ignorar o contexto: a banca combina identificação morfológica da 1ª pessoa do singular no presente com o valor habitual dessa forma verbal, além de induzir erro ao misturar esse trecho com passagens em pretérito que apenas marcam a mudança do narrador.
Dica para questões semelhantes
  • Primeiro localize o sujeito expresso; aqui, “Eu” já exclui 3ª pessoa, 1ª do plural e sujeito indeterminado.
  • Depois identifique o tempo verbal da forma pedida; “ouço” e “respondo” estão no presente, não no pretérito nem no futuro.
  • Por fim, confirme no contexto se o presente indica fato momentâneo ou hábito; marcas como “hoje” e “Às vezes” reforçam rotina recorrente.

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