“Se eu fosse ensinar a uma criança a arte da jardinagem, nã...

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Q3911252 Português

Leia o texto a seguir para responder à questão.



Como ensinar



    Se eu fosse ensinar a uma criança a arte da jardinagem, não começaria com as lições das pás, enxadas e tesouras de podar. Eu a levaria a passear por parques e jardins, mostraria flores e árvores, falaria sobre suas maravilhosas simetrias e perfumes; a levaria a uma livraria para que ela visse, nos livros de arte, jardins de outras partes do mundo. Aí, seduzida pela beleza dos jardins, ela me pediria para ensinar-lhe as lições das pás, enxadas e tesouras de podar.

    Se fosse ensinar a uma criança a beleza da música, não começaria com partituras, notas e pautas. Ouviríamos juntos as melodias mais gostosas e lhe falaria sobre os instrumentos que fazem a música. Aí, encantada com a beleza da música, ela mesma me pediria que lhe ensinasse o mistério daquelas bolinhas pretas escritas sobre cinco linhas. Porque as bolinhas pretas e as cinco linhas são apenas ferramentas para a produção da beleza musical. A experiência da beleza tem de vir antes.

    Se fosse ensinar a uma criança a arte da leitura, não começaria com as letras e as sílabas. Simplesmente leria as estórias mais fascinantes que a fariam entrar no mundo encantado da fantasia. Aí então, com inveja dos meus poderes mágicos, ela desejaria que eu lhe ensinasse o segredo que transforma letras e sílabas em estórias.

    É muito simples. O mundo de cada pessoa é muito pequeno. Os livros são a porta para um mundo grande. Pela leitura vivemos experiências que não foram nossas e então elas passam a ser nossas. Lemos a estória de um grande amor e experimentamos as alegrias e dores de um grande amor. Lemos estórias de batalhas e nos tornamos guerreiros de espada na mão, sem os perigos das batalhas de verdade. Viajamos para o passado e nos tornamos contemporâneos dos dinossauros. Viajamos para o futuro e nos transportamos para mundos que não existem ainda.

    Lemos as biografias de pessoas extraordinárias que lutaram por causas bonitas e nos tornamos seus companheiros de lutas. Lendo, fazemos turismo sem sair do lugar. E isso é muito bom.



ALVES, Rubem. Como ensinar. Revista Prosa Verso e Arte. Disponível em. <https://www.revistaprosaversoearte.com/como-ensinaruma-extraordinaria-cronica-de-rubem-alves/>. 

“Se eu fosse ensinar a uma criança a arte da jardinagem, não começaria com as lições das pás, enxadas e tesouras de podar.”


As formas verbais presentes no trecho acima se enquadram numa estrutura comum no texto


“Como ensinar”. Essa estrutura verbal indica: 

Alternativas

Gabarito comentado

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Gabarito: C

Fundamento decisivo: “Se eu fosse ensinar a uma criança a arte da jardinagem, não começaria com as lições das pás, enxadas e tesouras de podar.” Nesse trecho, “fosse” está no pretérito imperfeito do subjuntivo, introduzido por “se”, e marca condição/hipótese; “começaria”, no futuro do pretérito, expressa a consequência dependente dessa condição. Essa correlação verbal caracteriza período hipotético-condicional e conduz à alternativa C.

Tema central: período hipotético-condicional
Análise das alternativas
A
Errada
Está errada porque o trecho não narra ação já realizada pelo autor. A forma “fosse” marca hipótese, e “começaria” indica consequência possível dessa hipótese. A correlação verbal é incompatível com relato factual consumado.
B
Errada
Está errada por dois motivos: a relação não é de finalidade ou objetivo, mas de condição, e a ação expressa em “não começaria” não é independente. Ela depende semanticamente da oração anterior, introduzida por “se”.
C
Certa
A alternativa C está correta porque identifica exatamente o valor da estrutura verbal recorrente no texto: primeiro aparece a hipótese/condição, em “Se eu fosse ensinar...”, e depois a ação consequente, em “não começaria...”, que só se sustenta se a condição anterior for considerada. Não se trata de fato realizado, nem de finalidade, mas de situação eventual, apresentada como dependente da oração introduzida por “se”.
D
Errada
Está errada porque as ações não aparecem soltas nem sem relação entre si. Há vínculo sintático e semântico claro entre as orações: “se” introduz a condição, e a oração principal traz a consequência dessa condição.
E
Errada
Está errada porque “não começaria” não exprime uma recusa definitiva nem afirmação de algo que o autor jamais praticaria. A negação está subordinada à hipótese “Se eu fosse ensinar”, portanto o valor é condicional, não categórico.
Pegadinha da questão
A banca explora a confusão entre negação e recusa absoluta: muitos leem “não começaria” como decisão definitiva, mas a forma só tem esse valor dentro da hipótese introduzida por “se”. Também tenta induzir a troca de condição por finalidade ou por relato real.
Dica para questões semelhantes
  • Quando houver “se” + verbo no pretérito imperfeito do subjuntivo, verifique se a oração expressa hipótese ou condição.
  • Se o outro verbo estiver no futuro do pretérito, observe se ele funciona como consequência dependente da condição anterior.
  • Não trate como fato realizado uma estrutura verbal que organiza possibilidade eventual.
  • Em questões desse tipo, o decisivo é a correlação verbal entre as orações, não o tema tratado no texto.

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