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Questões de Concurso Comentadas sobre morfologia - pronomes em português

Questões Discursivas

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Q4091327 Português
Atenção: Considere o texto de Sérgio Rodrigues para responder à questão.


    Para a maioria dos brasileiros a pronúncia é "récorde", proparoxítona, e não, como recomendam dez entre dez sábios, "recórde", paroxítona. Estamos diante de um caso clássico de desobediência civil, em que a língua da vida real vai para um lado e a dos sábios, para o outro.

    Recorde, termo adaptado do inglês record, pode ser substantivo - significando a melhor marca esportiva, o desempenho a ser superado - ou adjetivo - com sentido equivalente: "tempo recorde", "velocidade recorde”. Quanto a isso, estamos todos de acordo. A divergência começa na hora de definir a prosódia da palavra. Em seu Dicionário de palavras & expressões estrangeiras, Luís Augusto Fischer observa com irreverência que há "duas pronúncias: a que os gramáticos preferem, 'recórde', ou a do resto da humanidade, 'récorde". É mais ou menos isso. Basta trocar, na frase de Fischer, "o resto da humanidade" por "a maioria dos brasileiros" que ela fica perfeita. Em Portugal, a inclinação por "recórde" parece inquestionável. Aqui, ocorre o inverso.

    Sempre pronunciei "récorde". Puxando pela memória, não consigo pensar em ninguém que não o faça. Se, como em tantos casos, nossos dicionários e gramáticas ainda se aferram de maneira um tanto acrítica à preferência lusitana, isso é um problema deles, que precisa ser - e certamente será - corrigido um dia. O Houaiss foi o primeiro a abrir a porta. Veja a tímida mas significativa nota que constava ao pé do verbete recorde na edição de 2001: “Pelo menos no Brasil, ocorre também como palavra proparoxítona: récorde." Mais tarde, o dicionário suprimiu a nota, mas passou a trazer o verbete récorde como variação de recorde.

    Uma explicação provável para o descompasso: os portugueses tendem a manter a pronúncia que record ganhou na França, de onde importaram o anglicismo por tabela, enquanto os falantes brasileiros estabeleceram ligação direta com o idioma de origem, no qual o acento (no caso em que record é substantivo, e não verbo) recai na primeira sílaba. No dia em que a língua brasileira dissolver mais este preconceito, é evidente que a grafia será forçada a seguir atrás: escreveremos récorde, com acento. E tudo ficará mais harmônico entre som e traço, como deve ser.


(Adaptado de: RODRIGUES, Sérgio. Viva a língua brasileira! São Paulo: Companhia das Letras, 2016, p. 73-75)
Os chamados dêiticos são termos linguísticos que se referem à situação em que o enunciado é produzido, ao momento da enunciação e aos atores do discurso. Assim, termos como "ali", "hoje" ou "amanhã" devem ser interpretados em função de onde e em que momento se encontram os atores do discurso quando dizem "ali", "hoje" ou "amanhã".

Verifica-se um dêitico que se refere ao lugar em que o enunciado é produzido (ou seja, ao lugar onde se encontra o autor do texto) no seguinte trecho:
Alternativas
Q4090541 Português

Texto 1


Quarto de Despejo: Diário de uma favelada


“20 DE JULHO

Deixei o leito as 4 horas para escrever. Abri a porta e contemplei o céu estrelado. Quando o astro-rei começou despontar eu fui buscar agua. Tive sorte! As mulheres não estavam na torneira. Enchi minha lata e zarpei. (...) Fui no Arnaldo buscar o leite e o pão. Quando retornava encontrei o senhor Ismael com uma faca de 30 centimetros mais ou menos. Disse-me que estava a espera do Binidito e do Miguel para matá-los, que eles lhe expancaram quando ele estava embriagado.


Lhe aconselhei a não brigar, que o crime não trás vantagens a ninguém, apenas deturpa a vida. Senti o cheiro de álcool, disisti. Sei que os ebrios não atende. O senhor Ismael quando não está alcoolizado demonstra sua sapiência. Já foi telegrafista. E do Circulo Exoterico. Tem conhecimentos biblicos, gosta de dar conselhos. Mas não tem valor. Deixou o álcool lhe dominar, embora seus conselho seja util para os que gostam de levar vida decente.


Preparei a refeição matinal. Cada filho prefere uma coisa. A Vera, mingau de farinha de trigo torrada. O João José, café puro. O José Carlos, leite branco. E eu, mingau de aveia. Já que não posso dar aos meus filhos uma casa decente para residir, procuro lhe dar uma refeição condigna.


Terminaram a refeição. Lavei os utensílios. Depois fui lavar roupas. Eu não tenho homem em casa. E só eu e meus filhos. Mas eu não pretendo relaxar. O meu sonho era andar bem limpinha, usar roupas de alto preço, residir numa casa confortável, mas não é possível. Eu não estou descontente com a profissão que exerço. Já habituei-me andar suja. Já faz oito anos que cato papel. O desgosto que tenho é residir em favela.


...Durante o dia, os jovens de 15 e 18 anos sentam na grama e falam de roubo. E já tentaram assaltar o emporio do senhor Raymundo Guello. E um ficou carimbado com uma bala. O assalto teve inicio as 4 horas. Quando o dia clareou as crianças catava dinheiro na rua e no capinzal. Teve criança que catou vinte cruzeiros em moeda. E sorria exibindo o dinheiro. Mas o juiz foi severo. Castigou impiedosamente.


Fui no rio lavar as roupas e encontrei D. Mariana. Uma mulher agradavel e decente. [...] Estendi as roupas rapidamente e fui catar papel. Que suplicio catar papel atualmente! Tenho que levar a minha filha Vera Eunice. Ela está com dois anos, e não gosta de ficar em casa. Eu ponho o saco na cabeça e levo-a nos braços. Suporto o peso do saco na cabeça e suporto o peso da Vera Eunice nos braços. Tem hora que revolto-me. Depois domino-me. Ela não tem culpa de estar no mundo”.

[...]


Adaptado de: JESUS, Carolina Maria de. Quarto de despejo: diário de uma favelada. São Paulo: Ática, 2020.

No Texto 1, as marcas dêiticas participam da construção da situação enunciativa e da organização do relato. Sobre o exposto, assinale a alternativa correta.
Alternativas
Q4089301 Português

Leia o Texto I para responder à questão.



Texto I



Dinheiro oculto



Estudo rastreia pagamentos não declarados recebidos por autores de duas revistas de psiquiatria



    Pesquisadores de duas escolas de medicina do estado da Pensilvânia, nos Estados Unidos, avaliaram a prevalência e a magnitude de conflitos de interesse financeiro entre médicos que publicaram artigos em duas revistas influentes da área de psiquiatria: o American Journal of Psychiatry (AJP) e o Journal of the American MedicalAssociation Psychiatry (Jama-PSY).

    O levantamento, divulgado na revista médica eletrônica BMJ Open, observou que cerca de US$ 4,5 milhões foram pagos por patrocinadores privados, notadamente da indústria farmacêutica, a 27 autores médicos de 74 artigos nas duas revistas, mas 14% desse valor (US$ 645.135) não foram declarados pelos pesquisadores aos periódicos. Entre os pagamentos não divulgados, que incluíam honorários de consultoria ou de palestrante, alimentação e bebidas e auxílio para viagens, 83% foram destinados para coordenadores dos projetos (US$ 532.841) e os 17% restantes (US$ 112.295) para outros pesquisadores dos projetos.

    O estudo também identificou um grupo de 10 autores altamente remunerados – oito homens e duas mulheres –, que conduziram 12 ensaios clínicos randomizados de medicamentos para depressão, ansiedade, transtorno do espectro autista, entre outros. Eles responderam por 84,8% (AJP) e 99,6% (JAMA-PSY) de todos os pagamentos não divulgados às revistas. Seus nomes não foram revelados no estudo.

    Para chegar aos resultados, fez-se o cruzamento de duas fontes de informação. Uma delas são os valores declarados pelos médicos às duas revistas, cujas políticas editoriais exigem que autores informem suas relações financeiras com patrocinadores nos 36 meses anteriores à publicação. A outra é o banco de dados do Open Payments, um programa nacional que exige que empresas produtoras de medicamentos e dispositivos médicos informem “valores transferidos” a médicos, enfermeiros-chefes e hospitais, a fim de tornar transparentes e permitir a fiscalização de eventuais conflitos de interesse. Nesse banco, são contabilizados desde almoços a profissionais da saúde pagos por representantes comerciais de empresas até bolsas de pesquisa e a compra de participação acionária de empresas pertencentes a médicos.

    O levantamento alerta que os conflitos de interesse na pesquisa psiquiátrica representam um desafio ético persistente. “Vínculos financeiros podem influenciar indevidamente os resultados dos estudos, com pesquisas financiadas pela indústria frequentemente apresentando resultados favoráveis aos produtos do patrocinador”, escreveram os autores. “Esse viés é particularmente preocupante nos contextos da pesquisa psiquiátrica, onde ainda há uma carência de biomarcadores objetivos para a maioria dos transtornos mentais.”

    Segundo eles, os achados evidenciam possíveis lacunas nas políticas editoriais de periódicos. Uma forma de resolvê-las seria criar mecanismos independentes de verificação cruzada, como a exigência de links para perfis do Open Payments durante a submissão de artigos a revistas.



Fonte: PESQUISAFAPESP. Dinheiro Oculto. 21 jan. 2026, 8:05. Disponível em: https://revistapesquisa.fapesp.br/dinheiro-oculto/. 21 jan. 2026 às 8:05. Acesso em: 18 mar. 2026 [adaptado]. 

Assinale a alternativa CORRETA acerca das relações coesivas estabelecidas no fragmento “Eles responderam por 84,8% (AJP) e 99,6% (JAMA-PSY) de todos os pagamentos não divulgados às revistas. Seus nomes não foram revelados no estudo” (3ºparágrafo). 
Alternativas
Q4089300 Português

Leia o Texto I para responder à questão.



Texto I



Dinheiro oculto



Estudo rastreia pagamentos não declarados recebidos por autores de duas revistas de psiquiatria



    Pesquisadores de duas escolas de medicina do estado da Pensilvânia, nos Estados Unidos, avaliaram a prevalência e a magnitude de conflitos de interesse financeiro entre médicos que publicaram artigos em duas revistas influentes da área de psiquiatria: o American Journal of Psychiatry (AJP) e o Journal of the American MedicalAssociation Psychiatry (Jama-PSY).

    O levantamento, divulgado na revista médica eletrônica BMJ Open, observou que cerca de US$ 4,5 milhões foram pagos por patrocinadores privados, notadamente da indústria farmacêutica, a 27 autores médicos de 74 artigos nas duas revistas, mas 14% desse valor (US$ 645.135) não foram declarados pelos pesquisadores aos periódicos. Entre os pagamentos não divulgados, que incluíam honorários de consultoria ou de palestrante, alimentação e bebidas e auxílio para viagens, 83% foram destinados para coordenadores dos projetos (US$ 532.841) e os 17% restantes (US$ 112.295) para outros pesquisadores dos projetos.

    O estudo também identificou um grupo de 10 autores altamente remunerados – oito homens e duas mulheres –, que conduziram 12 ensaios clínicos randomizados de medicamentos para depressão, ansiedade, transtorno do espectro autista, entre outros. Eles responderam por 84,8% (AJP) e 99,6% (JAMA-PSY) de todos os pagamentos não divulgados às revistas. Seus nomes não foram revelados no estudo.

    Para chegar aos resultados, fez-se o cruzamento de duas fontes de informação. Uma delas são os valores declarados pelos médicos às duas revistas, cujas políticas editoriais exigem que autores informem suas relações financeiras com patrocinadores nos 36 meses anteriores à publicação. A outra é o banco de dados do Open Payments, um programa nacional que exige que empresas produtoras de medicamentos e dispositivos médicos informem “valores transferidos” a médicos, enfermeiros-chefes e hospitais, a fim de tornar transparentes e permitir a fiscalização de eventuais conflitos de interesse. Nesse banco, são contabilizados desde almoços a profissionais da saúde pagos por representantes comerciais de empresas até bolsas de pesquisa e a compra de participação acionária de empresas pertencentes a médicos.

    O levantamento alerta que os conflitos de interesse na pesquisa psiquiátrica representam um desafio ético persistente. “Vínculos financeiros podem influenciar indevidamente os resultados dos estudos, com pesquisas financiadas pela indústria frequentemente apresentando resultados favoráveis aos produtos do patrocinador”, escreveram os autores. “Esse viés é particularmente preocupante nos contextos da pesquisa psiquiátrica, onde ainda há uma carência de biomarcadores objetivos para a maioria dos transtornos mentais.”

    Segundo eles, os achados evidenciam possíveis lacunas nas políticas editoriais de periódicos. Uma forma de resolvê-las seria criar mecanismos independentes de verificação cruzada, como a exigência de links para perfis do Open Payments durante a submissão de artigos a revistas.



Fonte: PESQUISAFAPESP. Dinheiro Oculto. 21 jan. 2026, 8:05. Disponível em: https://revistapesquisa.fapesp.br/dinheiro-oculto/. 21 jan. 2026 às 8:05. Acesso em: 18 mar. 2026 [adaptado]. 

No tocante às relações semânticas e morfológicas observadas no fragmento “Entre os pagamentos não divulgados, que incluíam honorários de consultoria ou de palestrante, alimentação e bebidas e auxílio para viagens, 83% foram destinados para coordenadores dos projetos (US$ 532.841) e os 17% restantes (US$ 112.295) para outros pesquisadores dos projetos” (2º parágrafo), é CORRETO afirmar que:
Alternativas
Q4089202 Português
Analise as sentenças quanto à colocação pronominal:

I. Chama-se à própria responsabilidade o cuidar do acesso à água.
II. A agência se coloca à disposição para discutir e cuidar do acesso à água para toda a população.
III. Sempre chamaram-no à responsabilidade, afinal, era responsável pela agência que regula o saneamento básico da cidade.
IV. Quem nos explicará os pormenores da nova legislação de saneamento básico?

Está correta a colocação dos pronomes átonos em:
Alternativas
Q4089199 Português
O texto seguinte servirá de base para responder à questão.

SC trata apenas 33,9% do esgoto e, neste ritmo, só atingirá metas de saneamento em 2055

Sem lei estadual de regionalização, Estado coleta pouco mais de um terço do esgoto e segue distante da meta de universalização prevista no novo marco legal

Santa Catarina, Estado reconhecido pelos bons indicadores de qualidade de vida, está muito atrás da média nacional quando o assunto é coleta e tratamento de esgoto. Segundo dados do Sistema Nacional de Informações em Saneamento (SNIS), apenas 33,9% da população catarinense é atendida por redes coletoras ligadas a estações de tratamento, enquanto a média nacional chega a 59,7%.

O Instituto Trata Brasil calcula que, no ritmo atual, o Estado só atingirá as metas do novo marco legal do saneamento em 2055 — ou seja, 30 anos após o prazo estabelecido pela lei, que prevê 99% da população com acesso à água potável e 90% com tratamento de esgoto até 2033.

A falta de tratamento adequado resulta em um despejo diário de 775 milhões de litros de esgoto bruto na natureza, o equivalente a 310 piscinas olímpicas cheias de água suja. Para o professor de Engenharia Sanitária e Ambiental da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), Rodrigo Mohedano, os prejuízos vão muito além do meio ambiente: "A gente acaba com todos os sistemas ecossistêmicos que a natureza gera para nós. O prejuízo não é só ambiental, mas também na saúde pública, na economia, no turismo e na qualidade de vida".

De acordo com a presidente-executiva do Instituto Trata Brasil, Luana Pretto, os investimentos no setor estão muito abaixo do necessário.

[...]

(Disponível em: https://www.nsctotal.com.br/noticias/sc-trata-apenas-339-do-esgoto-e-n este-ritmo-so-atingira-metas-de-saneamento-em-2055. Acesso em: 06 mai. 2026. Adaptado.)
Analise as sentenças e registre, V, para verdadeiras, e F, para falsas:

(__) No título, o pronome demonstrativo "este" não apresenta referente explícito. Porém, pelo contexto do próprio título, é possível compreender que ele se refere à relação entre o quanto de esgoto é tratado na atualidade e as metas de saneamento. Ou seja, cabe ao(à) leitor(a) ler, interpretar e estabelecer relações para compreender que há uma lentidão no que se refere a viabilizar o tratamento de esgoto em Santa Catarina.
(__) No título e no subtítulo, palavras e expressões, como: apenas, só, pouco mais de, distante, têm apenas a função de qualificar outras palavras, sem efeito no sentido que se pretende construir. Os dados estatísticos e informacionais são suficientes para compreender a distância que existe entre o quanto se trata de esgoto e a meta de universalização.
(__) Entre o título, o subtítulo e o primeiro parágrafo, observa-se uma gradação de informações, ou seja, elas vão sendo acrescentadas, ampliadas. Para evitar repetições desnecessárias, observa-se que, enquanto no título há "33,9%", no subtítulo há "pouco mais de um terço". São expressões sinônimas e cabe a quem lê mobilizar seus conhecimentos para interpretá-las e compreender que se referem ao mesmo dado.

Assinale a alternativa que apresenta a sequência correta: 
Alternativas
Q4088357 Português
Leia o texto e responda à questão.

O quintal que só fica bonito para visita

    No bairro, existe um fenômeno curioso, silencioso e muito brasileiro: o quintal de ocasião. Ele passa semanas convivendo em paz com o mato mais confiante, com a garrafa plástica que “depois eu junto”, com o balde que “não tem problema nenhum” e com o pneu velho que, misteriosamente, um dia ainda “vai servir para alguma coisa”. Mas basta surgir a notícia de uma visita, e acontece o milagre. O quintal, antes entregue à própria filosofia, descobre de repente sua vocação para a limpeza.
    É quase emocionante.
   A vassoura, que andava aposentada num canto, volta ao serviço como se tivesse sido convocada para uma missão de honra. Os recipientes com água parada desaparecem em velocidade suspeita. O mato é aparado com a energia de quem quer não apenas organizar a casa, mas reescrever a própria história. Em poucas horas, o cenário muda tanto que, se o quintal pudesse falar, talvez pedisse um minuto para se reconhecer.
    Nessas horas, a casa ganha até um certo ar de inocência. Tudo parece dizer: “Aqui sempre foi assim. Organizado, limpo, preventivo, quase exemplar.” O balde seco posa de cidadão de bem. A calha desentupida ostenta uma honestidade recente. O vasinho virado para baixo age como se nunca tivesse colaborado com mosquito algum. E o morador, com a serenidade de um artista diante da obra pronta, recebe a visita com a tranquilidade de quem acabou de vencer uma disputa particular contra a vergonha.
    Não é exatamente mentira. Também não chega a ser verdade. É um tipo de sinceridade de última hora.
    O mais engraçado é que esse impulso de arrumação não nasce do amor pela ordem, nem de uma súbita paixão pela saúde pública. Nasce do velho desconforto de ser visto. Muita gente não se incomoda tanto com o risco. Incomoda-se com o olhar sobre o risco. Conviver com o problema parece aceitável. Ser flagrado convivendo com ele já é uma afronta moral, quase uma ofensa à reputação doméstica.
    E assim seguimos, numa estranha pedagogia da aparência: limpa-se quando alguém vai olhar, corrige-se quando alguém vai notar, previne-se quando alguém vai perguntar. Como se o mosquito da dengue fosse um fiscal sensível à agenda alheia. Como se a água parada respeitasse o calendário das visitas. Como se o perigo tivesse a delicadeza de esperar a casa estar despenteada para agir.
    Mas o quintal, coitado, não entende de cerimônia. Ele não sabe a diferença entre terça comum e dia de inspeção. O mosquito também não. A larva não suspende expediente porque o morador prometeu cuidar “amanhã sem falta”. Do ponto de vista do risco, a desculpa é sempre um enfeite inútil.
    Talvez a lição esteja justamente aí, onde a ironia perde a graça e vira conselho. Cuidado de verdade não é o que se faz para impressionar visita. É o que se repete quando ninguém está olhando. Saúde não combina com faxina teatral, dessas que entram em cena só para aplauso rápido. Ela prefere a disciplina modesta, sem plateia, sem anúncio e sem heroísmo.
    No fim, o quintal arrumado para visita é melhor do que o quintal largado de vez, claro. Já ajuda. Mas o ideal seria uma revolução menos dramática e mais constante. Porque prevenir não é posar para parecer responsável. É escolher ser responsável até nos dias em que a vassoura não tem testemunhas.

Fonte: Banca Examinadora
No trecho “Ela prefere a disciplina modesta, sem plateia, sem anúncio e sem heroísmo”, o termo “Ela” refere-se a
Alternativas
Q4086735 Português
ATENÇÃO: sobre as funções de Tribunais de Contas, responda à próxima questão.
A mesma página informa que, entre os instrumentos utilizados na função fiscalizadora, está o “levantamento”, instrumento com o qual o TCU utiliza para compreender o funcionamento do órgão ou entidade pública, descobrindo os meandros da sua organização, identificando os objetos e instrumentos a serem fiscalizados, avaliando as suas viabilidades de realização.

Sobre a significação ou estruturação desse texto, assinale a afirmativa correta.
Alternativas
Q4085672 Português

“O Agente Secreto” abarca imensidão e atualidade da violência brasileira



   É tão vasto o horizonte aberto por “O Agente Secreto” que mais justo será fatiá-lo para melhor compreensão. Ele é, entre outras coisas, um filme sobre cinema. Ele começa em 1977, quando “Tubarão”, o longa de Steven Spielberg, estava na cabeça de todo mundo. Os tubarões estavam na cabeça de um menino de cinco ou seis anos, filho de Marcelo — Wagner Moura —, o protagonista do filme.


   O tubarão do “Tubarão” não era apenas um peixe. Ele matava suas vítimas. E, quanto mais é perseguido, maior, mais ameaçador, mais horrendo e furioso se torna.


   Naquele ano, também, o Brasil já estava saindo da fase mais difícil [...]. Nesse momento, Marcelo volta ao Recife para viver, bem discretamente, numa comunidade de “refugiados” e para encontrar um documento de identificação que, de certa forma, pode comprovar para ele a existência de sua mãe.


   A mãe não é sua única perda. Foi criado pelo avô e perdeu a mulher. Sua pesquisa, do tempo em que era professor universitário, foi roubada. Foi difamado por um industrial paulista e é ameaçado de morte por ex-militares, hoje dedicados profissionalmente ao assassinato. O filme explicará tudo isso e por que esses fatos aconteceram.


   Como já se pode notar, estamos no território de “Tubarão”, de uma boca cada vez mais imensa que se abre para apanhar o que vier. A diferença fundamental é que “Tubarão” se propõe como um longa de aventura e terror, enquanto “O Agente Secreto” é uma obra de mistério — e terror.


   Há mais cinemas na história — e atenção a partir daqui com os “spoilers”.


   O sogro de Marcelo — papel de Carlos Francisco — é projecionista do Cine São Luiz, em Recife. É também no prédio onde no passado existiu um cinema que Fernando, o filho de Marcelo, pratica a medicina. Num banco de sangue, isto é, um lugar onde o sangue não existe como perda — jorro vindo de corpos mortos —, mas como regeneração e vida — “O Agente Secreto” não é, afinal, um filme sem esperança.


   O cinema, como se sabe, sempre foi um lugar de refúgio — tanto para fugitivos em geral como para namorados. E Marcelo, quando chega a Recife, logo no início do longa, vai para uma comunidade de pessoas que se dizem refugiadas.


   A presença do cinema é, claro, apenas uma fatia — talvez minguada — da imensidade a que se abre o novo filme de Kleber Mendonça Filho. Ele trata da violência que ora é oficial, ora é particular, [...] da destruição de reputações e do roubo de ideias, do assassinato [...]. Essa máquina infernal existia no passado e não deixou de existir no presente.


   “O Agente Secreto” é o longa onde mais evidentes são as ressonâncias de “O Som ao Redor”. Assim como a moderna Recife é o lugar onde sobrevive a antiga exploração dos engenhos em “O Som ao Redor”, o Brasil é o lugar onde práticas iníquas vão se perpetuando sempre adaptadas às condições do presente.


   E tudo isso é o que temos a deglutir, pouco a pouco, neste filme realmente imenso, com um elenco admiravelmente equilibrado em torno de um Wagner Moura assombroso.


   Muito pessoalmente, devo dizer que nunca me comoveu muito o prêmio do júri que “Bacurau” ganhou alguns anos atrás. O prêmio foi dividido com “Os Miseráveis”, de Ladj Ly, que me parecia muito superior. Desta vez, Kleber ganhou o prêmio de melhor direção, o mesmo que Glauber Rocha levou por “O Dragão da Maldade Contra o Santo Guerreiro”. Não passa vergonha diante de seu predecessor.



Adaptado de: https://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2025/11/oagente-secreto-abarca-imensidao-e-atualidade-da-violenciabrasileira.shtml. Acesso em: 05 jan. 2026. 

Observe os excertos que seguem.
I. “É tão vasto o horizonte aberto por ‘O Agente Secreto’ que mais justo será fatiá-lo [...]”.
II. “Ele começa em 1977, quando ‘Tubarão’, o longa de Steven Spielberg, estava na cabeça de todo mundo.”.
III. “Nesse momento, Marcelo volta ao Recife para viver, bem discretamente, numa comunidade de ‘refugiados’ e para encontrar um documento de identificação que, de certa forma, pode comprovar para ele a existência de sua mãe.”.
Nesses excertos, os termos destacados referem-se, respectivamente, a:
Alternativas
Q4085668 Português

“O Agente Secreto” abarca imensidão e atualidade da violência brasileira



   É tão vasto o horizonte aberto por “O Agente Secreto” que mais justo será fatiá-lo para melhor compreensão. Ele é, entre outras coisas, um filme sobre cinema. Ele começa em 1977, quando “Tubarão”, o longa de Steven Spielberg, estava na cabeça de todo mundo. Os tubarões estavam na cabeça de um menino de cinco ou seis anos, filho de Marcelo — Wagner Moura —, o protagonista do filme.


   O tubarão do “Tubarão” não era apenas um peixe. Ele matava suas vítimas. E, quanto mais é perseguido, maior, mais ameaçador, mais horrendo e furioso se torna.


   Naquele ano, também, o Brasil já estava saindo da fase mais difícil [...]. Nesse momento, Marcelo volta ao Recife para viver, bem discretamente, numa comunidade de “refugiados” e para encontrar um documento de identificação que, de certa forma, pode comprovar para ele a existência de sua mãe.


   A mãe não é sua única perda. Foi criado pelo avô e perdeu a mulher. Sua pesquisa, do tempo em que era professor universitário, foi roubada. Foi difamado por um industrial paulista e é ameaçado de morte por ex-militares, hoje dedicados profissionalmente ao assassinato. O filme explicará tudo isso e por que esses fatos aconteceram.


   Como já se pode notar, estamos no território de “Tubarão”, de uma boca cada vez mais imensa que se abre para apanhar o que vier. A diferença fundamental é que “Tubarão” se propõe como um longa de aventura e terror, enquanto “O Agente Secreto” é uma obra de mistério — e terror.


   Há mais cinemas na história — e atenção a partir daqui com os “spoilers”.


   O sogro de Marcelo — papel de Carlos Francisco — é projecionista do Cine São Luiz, em Recife. É também no prédio onde no passado existiu um cinema que Fernando, o filho de Marcelo, pratica a medicina. Num banco de sangue, isto é, um lugar onde o sangue não existe como perda — jorro vindo de corpos mortos —, mas como regeneração e vida — “O Agente Secreto” não é, afinal, um filme sem esperança.


   O cinema, como se sabe, sempre foi um lugar de refúgio — tanto para fugitivos em geral como para namorados. E Marcelo, quando chega a Recife, logo no início do longa, vai para uma comunidade de pessoas que se dizem refugiadas.


   A presença do cinema é, claro, apenas uma fatia — talvez minguada — da imensidade a que se abre o novo filme de Kleber Mendonça Filho. Ele trata da violência que ora é oficial, ora é particular, [...] da destruição de reputações e do roubo de ideias, do assassinato [...]. Essa máquina infernal existia no passado e não deixou de existir no presente.


   “O Agente Secreto” é o longa onde mais evidentes são as ressonâncias de “O Som ao Redor”. Assim como a moderna Recife é o lugar onde sobrevive a antiga exploração dos engenhos em “O Som ao Redor”, o Brasil é o lugar onde práticas iníquas vão se perpetuando sempre adaptadas às condições do presente.


   E tudo isso é o que temos a deglutir, pouco a pouco, neste filme realmente imenso, com um elenco admiravelmente equilibrado em torno de um Wagner Moura assombroso.


   Muito pessoalmente, devo dizer que nunca me comoveu muito o prêmio do júri que “Bacurau” ganhou alguns anos atrás. O prêmio foi dividido com “Os Miseráveis”, de Ladj Ly, que me parecia muito superior. Desta vez, Kleber ganhou o prêmio de melhor direção, o mesmo que Glauber Rocha levou por “O Dragão da Maldade Contra o Santo Guerreiro”. Não passa vergonha diante de seu predecessor.



Adaptado de: https://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2025/11/oagente-secreto-abarca-imensidao-e-atualidade-da-violenciabrasileira.shtml. Acesso em: 05 jan. 2026. 

Tendo em vista as regras de colocação pronominal da língua portuguesa, assinale a alternativa em que a reescrita proposta mantém-se condizente com a norma-padrão. 
Alternativas
Q4084922 Português
Leia abaixo a penúltima estrofe do Hino Nacional do Brasil e depois marque a única afirmação correta.

Mas, se ergues da justiça a clava forte,
Verás que um filho teu não foge à luta,
Nem teme, quem te adora,a própria morte.
Alternativas
Q4077616 Português

Preencha os parênteses abaixo com C ou E, conforme a expressão destacada, marcando respectivamente certo ou errado em relação à colocação pronominal. A seguir, assinale a sequência correta obtida.



(___) Jamais faça-me de bobo como você fez.


(___) Me dê um empurrãozinho, por favor.


(___) Peço que me avise assim que voltar.


(___) Não vou ajudar-te nessa tarefa.

Alternativas
Q4076010 Português
A universidade do WhatsApp e seus doutores honorários


   Há instituições que levam séculos para consolidar prestígio. Erguem bibliotecas, formam quadros, publicam pesquisas, sustentam debates, revisam conclusões, aceitam objeções e, com algum pudor, chamam de conhecimento aquilo que sobrevive ao teste do tempo, da crítica e da evidência. Já a universidade do WhatsApp resolveu encurtar caminho. Seu campus cabe no bolso, seu vestibular consiste em entrar num grupo e sua titulação é concedida em ritmo admiravelmente generoso: basta encaminhar com convicção. 10. Ali, ninguém perde tempo com metodologia, bibliografia ou dúvida honesta. A dúvida, naquela república de certezas instantâneas, é vista quase como um desvio de caráter. O verdadeiro aluno aplicado não pergunta “de onde veio isso?”, mas “para quantas pessoas posso mandar antes do almoço?”. E o verdadeiro mestre não se distingue pela consistência do argumento, e sim pelo tom do áudio. Se fala pausado, com voz grave e indignação calculada, já adquire a autoridade de um catedrático. Se acrescenta a expressão “isso a mídia não mostra”, alcança, sem concurso público, a condição de doutor honorário.

21. Trata-se de uma instituição notável. Seu corpo docente é formado por especialistas em tudo, desde vacinas até geopolítica, passando por dieta, educação infantil, código penal, mercado financeiro e escatologia de fim de semana. O curioso é que essa erudição enciclopédica não nasce de anos de estudo, mas de um fenômeno mais moderno e mais econômico: a familiaridade. O sujeito ouviu três vídeos, recebeu quatro artes com letras garrafais e, de repente, não apenas possui opinião formada, como também passa a considerar suspeita qualquer pessoa que tenha lido além da conta.

32. Na universidade do WhatsApp, a velocidade substituiu a verificação. Uma informação já não precisa ser sólida, basta ser urgente. Se vier acompanhada de caixa alta, trilha de alarme moral e uma promessa de segredo revelado, ganha imediatamente o estatuto de tese. O que antes exigia fonte, contexto e comparação agora se resolve com uma frase curta, preferencialmente apocalíptica, seguida daquela chantagem afetiva tão eficiente quanto intelectualmente desastrosa: “repasse antes que apaguem”. O medo faz o serviço que a razão recusaria fazer.

42. O mais intrigante, porém, não é a existência da desinformação. Isso seria até banal. O mais intrigante é o prestígio emocional que ela adquire. A mensagem falsa raramente chega sozinha. Ela vem embrulhada em pertencimento. Compartilhar certos conteúdos virou, para muita gente, uma forma de identidade. Não se encaminha apenas uma notícia duvidosa. Encaminha-se um modo de estar no mundo, uma senha de grupo, uma medalha invisível de quem acredita ter percebido o que os outros, pobres mortais, ainda não viram. A vaidade, quando encontra conexão estável e baixa autocrítica, torna-se uma plataforma de transmissão. 

54. Nesse ambiente, o conhecimento perde uma de suas virtudes mais nobres: a humildade. O pesquisador sério sabe que saber custa caro. Exige tempo, revisão, recuo, correção, desapego à própria primeira impressão. Já o doutor honorário do aplicativo opera segundo outra pedagogia: a da certeza sem lastro. Ele não investiga para compreender. Conclui para se sentir superior. E, uma vez instalado nesse pequeno trono de convicções recicladas, passa a tratar o incômodo dos fatos como se fosse perseguição.

63. O problema é que a mentira em escala industrial não produz apenas equívocos. Produz consequências. Ela desorganiza decisões, corrói a confiança pública, ridiculariza a prudência e recompensa a performance da certeza. Aos poucos, cria-se uma cultura em que estudar parece arrogância e checar parece fraqueza. A ignorância, desde que pronunciada com segurança, ganha aplauso de auditório.

70. Talvez por isso a lição mais urgente do nosso tempo seja também uma das mais antigas: informação não vira verdade por circular depressa, nem opinião ganha valor porque veio acompanhada de intimidade digital. O primeiro sinal de inteligência continua sendo a disposição de examinar, comparar e, se necessário, dizer uma frase hoje quase revolucionária: “não sei ainda”. Porque o antídoto contra a universidade do WhatsApp não é decorar mais slogans. É reaprender a difícil elegância de pensar antes de encaminhar.

Fonte: Banca Elaboradora 

Assinale a alternativa redigida de acordo com a norma-padrão quanto à regência, à crase e à colocação pronominal.
Alternativas
Q4075523 Português
A seta ornamental


    Toda cidade abriga personagens fixos. Há o filósofo de fila de padaria, o especialista em clima que prevê chuva olhando para o joelho e o cidadão que trata vaga de estacionamento como herança de família. No trânsito, porém, existe uma figura especialmente notável: o motorista que usa a seta como item de decoração.

     Ele não desconhece a existência do dispositivo. Seria até injusto acusá-lo disso. Sabe onde a alavanca fica, já a viu de perto e, em algum momento remoto da formação como condutor, ouviu dizer que ela serve para indicar ao outro o que se pretende fazer. O problema nunca foi falta de informação. Foi excesso de autoconfiança. Esse motorista acredita, com a serenidade dos mal orientados, que seu carro transmite pensamento.

     Ele vira à direita como quem muda de assunto no meio da frase. Sem aviso, sem transição, sem a menor cerimônia. O veículo atrás que descubra, por dedução, vocação profética ou reflexo de sobrevivência, qual será o próximo movimento daquela alma apressada. A seta, nesse universo mental, não é ferramenta. É adereço. Uma joia discreta instalada ao lado do volante para compor o acabamento interno, como quem diz: “sim, o automóvel veio completo”.

  O mais curioso é que esse mesmo motorista costuma se indignar profundamente quando os outros não adivinham suas intenções. Fecha a cara, buzina, gesticula, olha pelo retrovisor com a decepção de um artista incompreendido. Na cabeça dele, o erro nunca está na omissão do aviso. Está na falha geral da humanidade em perceber sinais que não foram dados. É quase uma doutrina: se eu pensei, os demais deveriam ter sentido.

     Há também o motorista seletivo, primo próximo desse tipo principal. Ele usa a seta apenas em ocasiões solenes, como quem retira uma louça fina do armário em dia de visita. Num retorno importante, talvez. Numa conversão diante de uma viatura, quem sabe. Fora disso, considera exagero. Para entrar bruscamente na frente do outro, basta coragem. Para sair de uma vaga sem prevenir ninguém, basta fé. E assim a rua vai sendo administrada por impulsos, palpites e pequenos sustos.

    Seria engraçado, e de certo modo é, se não revelasse algo maior. No fundo, a seta esquecida não é apenas uma distração mecânica. Ela denuncia uma visão particular do mundo. Quem não avisa o próprio movimento costuma agir como se o espaço comum lhe pertencesse em regime de exclusividade. Os demais aparecem como obstáculos móveis, figurantes inconvenientes de um roteiro no qual ele se imagina protagonista. A pressa vira argumento moral. A imprudência, um detalhe operacional. 

     Mas o trânsito, essa instituição onde desconhecidos negociam a paz a cada esquina, não funciona por telepatia. Funciona por pacto. E pacto exige sinais claros, previsibilidade mínima e uma dose de respeito que não custa combustível. Acionar a seta é um gesto pequeno, quase ridículo de tão simples. Justamente por isso ele tem valor. Não pede talento, riqueza nem genialidade. Pede apenas a aceitação civilizada de que o outro não foi colocado na via pública para suportar surpresas produzidas pela nossa pressa.

       Talvez esteja aí a lição, escondida sob o humor cotidiano. A seta não serve só para indicar para onde o carro vai. Ela revela de maneira discreta para onde vai o senso de coletividade de quem dirige. No trânsito e fora dele, muita confusão começa quando alguém acha desnecessário avisar, explicar ou considerar o impacto do próprio gesto. Ser adulto, afinal, talvez seja isso: parar de exigir que o mundo adivinhe nossas intenções e começar a sinalizá-las com clareza. Até porque, na vida como na avenida, quem transforma aviso em ornamento costuma chamar de azar o problema que ele mesmo fabricou.


Fonte: Banca Elaboradora 
No trecho “os demais aparecem como obstáculos móveis”, a expressão “os demais” classifica-se corretamente como: 
Alternativas
Q4075470 Português

Leia o texto a seguir para responder à questão:



Consumo abusivo de álcool é desafio nacional



Quando se fala no combate ao consumo abusivo de álcool, o depoimento de pessoas que conviveram, ou ainda convivem, com a doença é fundamental para conscientizar quem enfrenta a árdua batalha. Em vídeos recentes publicados em seu canal no YouTube, o músico Nando Reis, ex-Titãs, abriu o jogo e falou com detalhes sobre os maus bocados que passou por conta da dependência — sobretudo da vodca.


Vivemos em uma sociedade que banaliza perigosamente o consumo do álcool. As gerações X e Y cresceram em meio à celebração contínua da cervejinha e dos drinks em cada reunião de família. Bebia-se muito cedo, já na adolescência, sem qualquer problematização ou julgamento dos pais e de mais responsáveis. O tempo passa, porém, e os danos do perigoso hábito começam a se manifestar na vida adulta — ao menos sete tipos de câncer, por exemplo, são associados à substância.


Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), não há dose segura para o consumo. Inclusive, o chamado “binge drinking”, o exagero restrito aos fins de semana, um padrão comum no Brasil, pode ser tão prejudicial para a saúde quanto a ingestão diária da substância. Ainda que a metabolização do álcool varie de acordo com aspectos físicos e genéticos, o impacto é certeiro em qualquer cenário.


Diante disso, é preciso que o Brasil comece a combater o consumo de álcool como guerreou contra o tabagismo a partir dos anos de 1980 — sobretudo no campo da conscientização. A aceitação cultural da ingestão, por vezes, dificulta o entendimento dos riscos da substância. Inclusive os riscos sociais: o Departamento Nacional de Trânsito (Denatran), por exemplo, trabalha com a estimativa de que 30% dos acidentes fatais no Brasil envolvem motoristas que estavam sob efeito de álcool. Exigem-se, portanto, estratégias atualizadas e eficazes para vencer esses e outros obstáculos.


A boa notícia fica com a nova geração, formada por pessoas nascidas a partir de 1997, que tem se dedicado a novos rumos para o lazer e para as celebrações. Pesquisa do Centro de Informações sobre Saúde e Álcool (Cisa) aponta que a abstinência passou de 46% para 64% entre pessoas de 18 a 24 anos. Esse, sim, precisa ser um caminho sem volta.


(Editorial, 18.02.2026. Disponível em: https://www.correiobraziliense.com.br/opiniao/. Adaptado)

Assinale a alternativa em que a reescrita de informações do texto está em conformidade com a norma-padrão de colocação pronominal.
Alternativas
Q4072743 Português
FOGO E MAR


   Era uma vez uma chama muito ardente, que veio voando e voando até beijar o mar. Antes levemente cálido, o mar esquentou. Não a ponto de ferver, mas a nova temperatura fez surgir uma forma de vida que ninguém jamais conheceu. Ela nasceu tímida, depois revelou aos poucos suas habilidades e voou ao infinito. O mar ficou mais quente. A chama continuou acesa. E um trouxe à tona a face desconhecida do outro (a chama, mais fria; o mar, mais quente), até se encontrarem no céu.


Disponível em
<https://folhadabaixada.com.br/literatura/micronarrativas/fogo-e-mar/>.
Com adaptações. Acesso em 18/04/2026.
Julgue os itens a seguir, quanto à sintaxe do texto:

I. O verbo ficar em “o mar ficou mais quente” é intransitivo.
II. Em “Ela nasceu tímida”, temos um predicado verbo-nominal.
III. A oração “que veio voando e voando até beijar o mar” tem valor sintático de adjunto adnominal.
IV. Em “voou ao infinito”, temos um objeto indireto e não um adjunto adverbial de lugar/destino.
V. Na oração “que ninguém jamais conheceu”, o sujeito é um pronome relativo.

A opção que melhor julga/interpreta os itens é:
Alternativas
Q4072687 Português
Assinale a alternativa em que a colocação pronominal está INCORRETA de acordo com a norma culta da língua portuguesa escrita formal.
Alternativas
Q4072391 Português

O que podemos aprender com as ‘lições’ da história?

Em quem confiar?


        O título coloca uma palavra entre aspas. O leitor esperto e a leitora atenta já intuíram que o cronista desconfia do termo. Você já viu algo sobre a história ser “mestra da vida”, mesmo não sabendo que um dos pais da ideia é o romano Cícero. “Precisamos estudar história para não repeti-la” também é conceito popular. Os positivistas diziam que os mortos governavam os vivos, analisando o peso da experiência sobre nós. Os historiadores modernos, estes estranhos seres, dizem que não se aprende algo moral com a história. Em quem confiar?

      O ser humano é randômico. Cada indivíduo é único e irrepetível. Duas turmas de alunos, dois filhos diferentes, dois namoros: tudo parece ecoar Heráclito e seu rio mutante eterno. Gostamos de padrões e generalizações. Amamos previsibilidade. O caos é mais do que uma entidade grega: é o eixo estruturante da vida.

       Quero um princípio pedagógico-moral como “lição da história”. Irritados com a crise em Atenas, os cidadãos deram todo poder ao legislador Drácon (século 7 a.C.). Ao escrever as leis, decidiu punir o roubo e o assassinato com a pena capital. A ideia sedutora: estabelecer um princípio pétreo – todos saberiam que qualquer desvio era punido com rigor extremo. O resultado esperado? Surgiria uma sociedade como a das abelhas: sem crime, com cada pessoa agindo sem prejudicar o grupo. O resultado? Desastroso. O código draconiano foi abandonado. Lição? Aparentemente, leis mais duras não resolvem o crime. Códigos pesados não instauram o paraíso na pólis.

      Vamos esquecer a Grécia. Avancemos ao Novo Mundo. O motorista brasileiro ultrapassa a velocidade legal nas estradas do nosso País. Nos EUA, o mesmo condutor costuma virar exemplo ao volante. Por quê? Lá ele sabe que a polícia pega, multa e prende com facilidade. Na América do Norte, o cidadão vive uma transformação. O motivo? Óbvio: a dureza da lei e dos seus agentes. Então, fracassando na Grécia, Drácon triunfa nos EUA? No nosso senso comum, um dos problemas da violência no Brasil é a impunidade. Qual a lição a aprender? A pena de morte ou a lei duríssima seriam inúteis ou eficazes?

      Meu avô materno foi um pai severo. A ascendência alemã e o luteranismo estimulavam crença em regras imutáveis. Os três filhos, por exemplo, não podiam conversar à mesa. Só os genitores falavam. Havia tarefas e horários inflexíveis. As punições eram severas. Resultado de regras “draconianas” e punições físicas? Minha mãe tornou-se uma mulher totalmente dominada pela ideia de ordem e meu tio, em contrapartida, um rebelde contumaz que enfrentava o pai mesmo diante da força explícita. Minha mãe foi  enquadrada e meu tio nunca baixou a cerviz. Mesmo sangue, mesma família, mesmo ambiente: como concluir sobre as lições pedagógicas do velho Schlusen (sobrenome de solteira da minha mãe)? A variação seria de gênero? Minha mãe, mais velha, seguiu a sina da submissão? Na Bíblia, o mais novo é candidato à rebeldia: Esaú e Jacó, por exemplo. Qual a lição real?

     Seria bom se a História funcionasse como um conto infantil moral: o mal é poderoso, mas triunfa o bem constante e resiliente. Não é assim. Há ditadores que morrem de forma terrível, como Mussolini. Há outros que chegam ao fim em pleno poder, como Stalin. Há democratas assassinados e tiranos bem-sucedidos. Canalhas também envelhecem e alguns vivem prolongada e serena aposentadoria. Princípios metafísicos como “lei do retorno” ou “carma” são explicações que emergem do nosso desejo de lógica de fundo moral. Como seria bom se houvesse esta matemática precisa: “fez o mal, sofrerá no futuro”. Gente fiel pode ser traída, generosos são esmagados, ladrões seguem firme na carreira e violentos possuem um fã-clube. Escrevendo assim, não interprete que afirmo ser o mundo um lugar ruim e incorrigível. O que digo talvez seja pior: não existe lógica moral. Exemplos? O ditador Ceaucescu (Romênia) caiu do poder e foi fuzilado. Foi acompanhado por sua esposa na tragédia final. Porém... Martin Luther King também foi assassinado. Já o nazista Mengele... nadava tranquilo no dia da morte, depois de uma vida de horrores inomináveis. Bondade não garante sucesso, tampouco maldade é salvo-conduto para a bem-aventurança sobre a Terra. Falta traço moral ao processo histórico. Claro, posso imaginar que após a vida existe a vitória moral com Paraíso e Inferno, mas, como historiador, só posso trabalhar com o mundo visível e documentado aqui e agora.

    A contingência não segue código moral. O avião cai com bons e ruins. Recompensas ou punições (como reguladores de ação humana) podem existir no plano das crenças. Geralmente, a ética é mais sustentável como projeto, mas a já citada “contingência” reina.

    No mundo real, Chapeuzinho Vermelho não é boa ou ruim: ela está cruzando uma área onde o lobo é predador. A Vovó não é vítima, é apenas proteína aos olhos da natureza lupina. O caçador é tão assassino quando o lobo: ambos sobrevivem destruindo vidas. E a vitória da bela Chapeuzinho? Bem, perguntem ao humano Andersen, que coletou a história. Se ela fosse redigida pelos lobos, teríamos um peludo mártir da violência. A esperança de justiça é um desejo, um suspiro breve na eternidade. Nossa meta é uma régua moral; a história ri da nossa pretensão


Autor: Leandro Karnal.

Em “Os historiadores modernos, estes estranhos seres, dizem que não se aprende algo moral com a história”, o emprego do pronome demonstrativo estes contribui para a construção do sentido do texto. Nesse contexto, analise as assertivas:

I. O pronome estes retoma diretamente “os historiadores modernos”, funcionando como recurso de coesão referencial e acrescentando uma avaliação do cronista.
II. O pronome estes indica afastamento temporal em relação aos historiadores modernos, sugerindo que o autor se refere a estudiosos pertencentes a um passado distante.

Qual alternativa apresenta a análise correta? 
Alternativas
Q4072312 Português
CAPÍTULO X: DA INSTITUIÇÃO DA GUARDA CIVIL MUNICIPAL


Seção I - Disposições Gerais



Art. 1º Fica instituída a Guarda Civil Municipal no âmbito do Município, com a finalidade de proteger bens, serviços, instalações públicas municipais, bem como colaborar na promoção da segurança pública, em conformidade com a legislação federal vigente.


Art. 2º A Guarda Civil Municipal será subordinada ao Chefe do Poder Executivo Municipal, cabendo-lhe a organização, planejamento, execução e controle de suas atividades.


Art. 3º A Guarda Civil Municipal atuará de forma preventiva, ostensiva e comunitária, respeitando os direitos fundamentais e promovendo a cidadania e a convivência harmoniosa. 



Seção II – Atribuições


Art. 4º São atribuições da Guarda Civil Municipal:


I - proteger bens, serviços e instalações do Município;

II - colaborar com os órgãos de segurança pública em ações integradas que visem à preservação da ordem pública;

III - atuar preventivamente em áreas de grande circulação de pessoas, como parques, praças, escolas e outros equipamentos públicos;

IV - desenvolver ações de educação para a cidadania e conscientização sobre segurança pública;

V - realizar a fiscalização do uso adequado de espaços públicos municipais;

VI - colaborar em situações de calamidade pública ou emergências, garantindo a segurança da população. 


Seção III - Estrutura e Funcionamento


Art. 5º A estrutura organizacional, o plano de carreira, a forma de ingresso e os requisitos para investidura nos cargos da Guarda Civil Municipal serão definidos por lei específica, a ser elaborada pelo Poder Executivo Municipal e submetida à apreciação da Câmara Municipal.


Art. 6º O ingresso na Guarda Civil Municipal se dará mediante concurso público, garantindo critérios de igualdade, impessoalidade e transparência no processo seletivo.


Art. 7º Os integrantes da Guarda Civil Municipal receberão formação inicial e continuada, com foco em direitos humanos, mediação de conflitos e atuação comunitária.


Seção IV - Disposições Finais


Art. 8º Fica assegurada a articulação da Guarda Civil Municipal com os órgãos de segurança pública e demais instituições competentes, respeitando os limites de sua competência e atuação.


Art. 9º As despesas decorrentes da implementação e manutenção da Guarda Civil Municipal correrão por conta de dotações orçamentárias próprias, suplementadas, se necessário.


Art. 10º Esta alteração à Lei Orgânica do Município entra em vigor na data de sua publicação, revogadas as disposições em contrário.



GOVERNO DO ESTADO DO AMAZONAS. Modelo de Artigo para Inclusão na Lei Orgânica do Município. Disponível em: https://www.ssp.am.gov.br/wp-content/uploads/2025/02/Cartilha-para-criacao-de-Guarda-Municipal-nos Interiores.pdf. Acesso em: 21 abr. 2026. Adaptado. 
No texto, o segmento do enunciado Artigo 7º que se encontra após a primeira vírgula apresenta uma explicação a respeito da formação pedagógica para o guarda municipal. Outra forma adequada de redigir essa explicação, mantendo-se o sentido, a clareza e a correção em relação à norma de referência do português brasileiro, é:
Alternativas
Q4072008 Português
A respeito da concordância, da regência e da colocação pronominal na construção dos sentidos do texto, assinale a alternativa correta. 
Alternativas
Respostas
241: C
242: B
243: B
244: D
245: C
246: D
247: B
248: C
249: A
250: D
251: E
252: D
253: B
254: A
255: A
256: B
257: D
258: A
259: E
260: A