Amor ao fracasso
Publicado em 15/03/2017 - 00:05
Por Arnaldo Jabor
Assim como o ‘atraso’ sempre foi uma
escolha consciente, o ‘abismo’ é um
desejo secreto.
Há um grande amor brasileiro
pelo fracasso. Quando ele acontece, é
um alívio. O fracasso é bom porque nos
tira a ansiedade da luta. Se já
perdemos, para que lutar?
Sempre que há uma crise ou
uma catástrofe nacional, irrompe uma
euforia de cabeça para baixo. É como se
a opinião pública dissesse: “Eu não
avisei? Não adianta tentar que sempre
dá tudo errado”...
Nada como um desastre ou
escândalo para acalmar a plateia.
Danem-se as questões importantes,
dane-se a crise econômica, dane-se
tudo. Bom é fofoca e denúncia. Nada
acontece, dando a impressão de que
muito está acontecendo.
Temos a velha crença colonial
de que nossa vida é um conto do vigário
em que caímos. Somos sempre vítimas
de alguém. Nunca somos nós mesmos.
Ninguém se sente vigarista.
O fracasso nos enobrece. O
culto português das impossibilidades é
famoso. Numa sociedade
patrimonialista como Portugal do século
16, onde só o Estado-rei valia, a
sociedade era uma massa sem vida
própria. Suas derrotas eram vistas com
bons olhos, pois legitimavam a
dependência ao rei. Fomos educados
para o fracasso.
Quem tem coragem de ir à TV e
dizer: “O Brasil está melhorando!”,
mesmo que esteja? Ninguém diz. É feio.
Falar mal do País é uma forma
de se limpar. Sentimo-nos fora do poder,
logo é normal sabotar.
O fracasso é uma vitória para
muitos. “Não fui eu que fracassei; foi o
governo, o neoliberalismo, sei lá.”
Nossos heróis todos fracassaram.
Enforcados, esquartejados, revoltas
abortadas, revoluções perdidas lhes
dão uma aura de martírio e santidade.
Peguem um herói norte-americano:
Paul Revere, por exemplo. Cavalgou 24
horas e conseguiu salvar tropas
americanas na Guerra da
Independência. Foi o herói da eficiência.
Aqui, só os fracassados verão Deus.
“Seja marginal, seja herói.” O
fracasso é legal, a vitória é careta. A
vitória dá culpa; o fracasso é um alívio.
A crise, a catástrofe têm um
sabor de “revolução”. É como se a
explosão “revelasse” algo, uma
tempestade de merda purificadora –
depois de tudo arrasado, a pureza
renasceria do zero.
Agora, com a denúncia da
Odebrecht, a denúncia do fim do mundo,
não há mais o que analisar, o que
prever, o que vai acontecer... Temos de
nos calar diante do inenarrável.
Estamos sem palavras diante da mais
louca crise institucional que já vimos. Os
escândalos “parecem” acontecimentos.
A Lava Jato foi nosso grande
‘acontecimento’. Mas, agora, que a luta
contra a corrupção já aconteceu, é
preciso que as descobertas, as
condenações levem a algum outro lugar
além da moralidade pública, além da
sensação de purificação da política.
Espalhou-se a teoria de que o problema
do Brasil é moral. Assim, muitos lutam
pela moral, mas são contra a Lei de
Responsabilidade Fiscal. A Lava Jato
tem de ser o começo da mudança de
uma estrutura burocrática feita para dar
errado sempre.
Não nos esqueçamos que o
Atraso é um desejo, não um acidente de
percurso.
Assim como o ‘atraso’ sempre foi
uma escolha consciente no passado, o
‘abismo’, o brejo para nós são um
desejo secreto. Há a esperança
inconsciente de que do fundo do caos
surja uma solução divina. Antigamente,
achávamos que os fatos nos levariam a um futuro harmônico, que a vida era
uma linha reta, que ia desde os
macacos até o paraíso cristão ou,
recentemente, ao fim da história.
Não são as décadas que nos
transformam; são os fatos. Eles cavam
buracos no tempo e criam caminhos que
não podemos prever. Há épocas lentas,
há épocas sangrentas, épocas eufóricas
e ingênuas, há épocas que parecem
ataques epiléticos da história.
Nossos intelectuais se deliciam
numa teoria barroca da “zona” geral. O
Brasil é visto como um grande bode sem
solução, para a felicidade dos velhos
militantes imaginários. Quem quiser
positividade é traidor. Recebe um rótulo
de neoliberal ou reacionário na hora.
Não ocorre aos velhos comunas que
pessoas possam evoluir politicamente,
buscando soluções pragmáticas, mais
possíveis. Não; é um dogma. A miséria
tem de ser mantida in vitro, para
justificar teorias e absolver
incompetência. A Academia cultiva o
insolúvel como uma flor. “Qual a solução
para o Brasil?”, perguntam. Mas a
própria ideia de ‘solução’ é um culto ao
fracasso. Não lhes ocorre que a vida
seja um processo, vicioso ou virtuoso, e
que só a morte de uma pessoa ou de um
país é a solução.
Há um negativismo crônico no
pensamento brasileiro. Paulo Prado
contra Gilberto Freyre. Para eles, a
esperança é ingênua; a desconfiança é
sábia: “Aí tem dente de coelho, alguma
ele fez...”.
Jamais perdoaram o FHC por ter
abandonado a utopia tradicional e
aderido à ‘realpolitik’ da socialdemocracia.
Foi queimado como traidor pela
gangue de canalhas e ignorantes. Foi
um dos maiores erros da chamada
‘esquerda’, talvez a maior perda de
oportunidade da história. Foi aí que o PT
iniciou sua rota para o nada.
Agora, temos o ridículo
fenômeno do ‘Fora Temer’, o mantra
dos imbecis, que não conseguem
entender que nosso problema é
econômico – se o Temer pusesse o
demônio no Congresso, valeria a pena.
Se as reformas da Previdência e
trabalhista e fiscal não forem feitas, bye
bye Brazil...
Repito o assessor do Clinton,
James Carville: “Trata-se da Economia,
estúpidos!”.
As velhas categorias para
explicar o Brasil morreram. Já há uma
pós-corrupção, uma pós-direita
(disfarçada de “esquerda”). Mas a
burrice é uma força da natureza.
Vejam como o Brasil se animou
com a crise atual. Manifestações
populares, panelas batendo, bandeiras
brasileiras. Tudo bem, mas o que fazer
estruturalmente? Além das reformas
óbvias, ninguém sabe nada.
Aliás, acho que estávamos
precisando mesmo de um beco sem
saída. Ele está chegando.
Ninguém sabe o que vai
acontecer. Se o governo Temer não
conseguir reformar o Estado, será o
primeiro grande trauma que os
privilegiados sentirão. Os miseráveis já
estão acostumados