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No texto, a citação de outro colunista – Bruno Gualano – evi...

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Q4193396 Português
Texto para a questão


    A área da nutrição tem um clichê tão frequente que virou piada. Ovo faz mal? Respostas a perguntas como essa vão sempre variar, dando a impressão de que alimentos específicos são ora benéficos, ora maléficos. Isso porque estudos que avaliam o efeito de alimentos isolados na saúde não têm reflexo na realidade. Não os comemos isoladamente, mas combinados em refeições. Por isso, a epidemiologia nutricional se dedica à análise de padrões alimentares.  

    A ciência tem mostrado que o padrão alimentar baseado em ultraprocessados está associado a um maior risco de desenvolvimento de doenças crônicas. Diabetes e hipertensão são exemplos. Trata-se de um conhecimento estabelecido e que influencia políticas públicas, como na recente lei que proíbe a venda de ultraprocessados nas escolas da cidade do Rio de Janeiro. 

    Em sua coluna nesta Folha, Bruno Gualano questiona o impacto negativo dos ultraprocessados na saúde ("Alimentos ultraprocessados do bem?" , 1º/7). Para isso, volta ao clichê da análise de alimentos isolados. O texto defende que ultraprocessados não são todos igualmente nocivos, citando um estudo que associa subgrupos desses alimentos a uma menor incidência de diabetes. Segundo ele, existiriam, então, ultraprocessados aptos a compor uma alimentação saudável.

    Especialista em fisiologia do exercício, Gualano se rende à prática do "nutricionismo" (nutrição + reducionismo). É a ideia de restringir a componentes menores – nutrientes ou alimentos isolados – o pensamento sobre a alimentação. Os mecanismos que associam ultraprocessados ao desenvolvimento de doenças vão além da mera composição nutricional.

    Formulações industriais com pouco ou nenhum alimento de verdade, ultraprocessados são marcados pela destruição da matriz alimentar de seus ingredientes (em geral, commodities). Resultam em uma mistura de fragmentos – como o amido do milho e o óleo da soja – sem cor, sabor ou textura, o que exige a inclusão de aditivos cosméticos: os corantes, edulcorantes e emulsificantes, dos quais a ciência vem revelando efeitos nocivos a longo prazo.  

    Excessos de açúcar e gordura conferem uma alta densidade energética, levando ao sobrepeso e à obesidade. Um ajuste fino entre esses ingredientes afeta os mecanismos cerebrais de recompensa, levando à adicção alimentar.

    Importa, ainda, o que está ausente nesses alimentos, como os fitoquímicos de vegetais, atuantes na prevenção de doenças. Ou mesmo a textura: ultraprocessados são sempre macios, o que é deletério principalmente para crianças cujo bom desenvolvimento depende da diversidade de consistências. Quem come ultraprocessados, aliás, acaba não comendo mais nada: eles substituem nossas refeições tradicionais. 

    Alimentação também envolve economia, política, ecologia. Gualano aponta que "ultraprocessados do bem" são caros e que os que chegam à mesa dos brasileiros são "o que resta de pior". Para além do preço, esses alimentos fomentam um sistema alimentar insustentável, incentivando grandes monoculturas, impactando a saúde ambiental e degradando culturas alimentares. Em um país rico e biodiverso como o Brasil, de onde brota comida de verdade, não faz sentido identificar opções menos piores de alimentos que têm, sem dúvidas, nos adoecido.


Disponível em: https://tinyurl.com/yejvkzwu. Acesso em: 10 mar. 2026. 

   
No texto, a citação de outro colunista – Bruno Gualano – evidencia a escolha de um viés argumentativo que se baseia 
Alternativas

Gabarito comentado

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Gabarito: D

Fundamento decisivo: A função decisiva da citação é apresentar a posição de Bruno Gualano como tese divergente para depois refutá-la. O trecho “Em sua coluna nesta Folha, Bruno Gualano questiona o impacto negativo dos ultraprocessados na saúde (...) O texto defende que ultraprocessados não são todos igualmente nocivos (...) Segundo ele, existiriam, então, ultraprocessados aptos a compor uma alimentação saudável.” mostra essa voz alheia sendo contraposta, o que caracteriza contra-argumentação e conduz ao gabarito D.

Tema central: contra-argumentação
Análise das alternativas
A
Errada
A alternativa erra porque toma o conteúdo da tese citada — “ultraprocessados não são todos igualmente nocivos” — como se fosse o viés argumentativo central da passagem. O ponto cobrado não é o tema da tese de Gualano, mas a função discursiva dessa citação no texto: ela é apresentada para ser contestada. Não se trata, portanto, de uma comparação, mas de refutação de posição adversa.
B
Errada
A alternativa desloca para a citação de Bruno Gualano um elemento que pertence ao início do texto. O clichê expresso em “ovo faz mal?” introduz o problema da análise de alimentos isolados, mas não define a função da citação do outro colunista. A pergunta recorta especificamente o efeito argumentativo da menção a Bruno Gualano, e esse efeito não é apelo ao senso comum.
C
Errada
A alternativa erra ao supor argumento de autoridade apenas porque aparece a qualificação “Especialista em fisiologia do exercício”. No texto, essa referência não legitima a tese de Gualano; ao contrário, vem associada à crítica: “Gualano se rende à prática do "nutricionismo"”. Logo, a qualificação profissional não é mobilizada para validar sua posição, mas dentro de uma sequência refutativa.
D
Certa
A alternativa D está correta porque a menção a Bruno Gualano não serve para apoiar sua tese, mas para expor uma posição divergente e rebatê-la no desenvolvimento do texto. Esse movimento fica confirmado quando o autor passa da exposição da tese citada para a crítica explícita — “Especialista em fisiologia do exercício, Gualano se rende à prática do "nutricionismo"” — e culmina na reafirmação de sua própria posição: “não faz sentido identificar opções menos piores de alimentos que têm, sem dúvidas, nos adoecido.” Portanto, a citação funciona como contra-argumento em favor da defesa crítica aos ultraprocessados e de uma alimentação sem formulações industriais.
Pegadinha da questão
A banca explora a confusão entre o conteúdo da tese citada e a função que essa tese exerce no texto: muitos marcam a ideia de que “ultraprocessados não são todos igualmente nocivos”, mas o decisivo é perceber que essa ideia foi introduzida para ser rebatida.
Dica para questões semelhantes
  • Quando o texto cita a opinião de outra pessoa, verifique se essa voz é endossada ou refutada no que vem depois.
  • Não confunda tema mencionado com estratégia argumentativa: uma tese pode aparecer apenas para ser contestada.
  • A presença de cargo ou especialidade só caracteriza argumento de autoridade se o texto usar isso para validar a posição, não para criticá-la.

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