Questões de Concurso Sobre interpretação de textos em português

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Q3586955 Português
Banhos de mar


   Meu pai acreditava que todos os anos se devia fazer uma cura de banhos de mar. E nunca fui tão feliz quanto naquelas temporadas de banhos em Olinda.

   Meu pai também acreditava que o banho de mar salutar era o tomado antes do sol nascer. Como explicar o que eu sentia de presente inaudito em sair de casa de madrugada e pegar o bonde vazio que nos levaria para Olinda, ainda na escuridão?

   De noite eu ia dormir, mas o coração se mantinha acordado, em expectativa. E de puro alvoroço, eu acordava às quatro e pouco da madrugada e despertava o resto da família. Vestíamos depressa e saíamos em jejum. Porque meu pai acreditava que assim devia ser: em jejum.

   Eu não sei da infância alheia. Mas essa viagem diária me tornava uma criança completa de alegria. E me serviu como promessa de felicidade para o futuro. Minha capacidade de ser feliz se revelava. Eu me agarrava, dentro de uma infância muito feliz, a essa ilha encantada que era a viagem diária.

   O mar de Olinda era muito perigoso. Davam-se alguns passos em um fundo raso e de repente caía-se num fundo de dois metros, calculo.

   Outras pessoas também acreditavam em tomar banho de mar quando o sol nascia. Havia um salva-vidas que, por uma ninharia de dinheiro, levava as senhoras para o banho: abria os dois braços, e as senhoras agarravam-se a eles para lutar contra as ondas fortíssimas do mar.

   O cheiro do mar me invadia e me embriagava. As algas boiavam. Oh, bem sei que não estou transmitindo o que significavam como vida pura esses banhos em jejum, com o sol se levantando pálido ainda no horizonte. Bem sei que estou tão emocionada que não consigo escrever. O mar de Olinda era muito iodado e salgado. E eu fazia o que no futuro sempre iria fazer: com as mãos em concha, eu as mergulhava nas águas e trazia um pouco de mar até minha boca: eu bebia diariamente o mar, de tal modo queria me unir a ele.

   Não demorávamos muito. O sol já se levantara todo, e meu pai tinha que trabalhar cedo. Mudávamos de roupa nas cabinas, e a roupa ficava impregnada de sal. Meus cabelos salgados me colavam na cabeça.

   Então esperávamos, ao vento, a vinda do bonde para Recife. No bonde a brisa ia secando meus cabelos duros de sal.

   A quem devo pedir que na minha vida se repita a felicidade? Como sentir com a frescura da inocência o sol vermelho se levantar? Nunca mais?

   Nunca mais. Nunca.


(LISPECTOR, Clarice. A descoberta do mundo. Editora Nova Fronteira: Rio de Janeiro, 1984.)
Em relação ao significado das palavras empregadas no texto, apenas uma NÃO está correta; assinale-a.
Alternativas
Q3586954 Português
Banhos de mar


   Meu pai acreditava que todos os anos se devia fazer uma cura de banhos de mar. E nunca fui tão feliz quanto naquelas temporadas de banhos em Olinda.

   Meu pai também acreditava que o banho de mar salutar era o tomado antes do sol nascer. Como explicar o que eu sentia de presente inaudito em sair de casa de madrugada e pegar o bonde vazio que nos levaria para Olinda, ainda na escuridão?

   De noite eu ia dormir, mas o coração se mantinha acordado, em expectativa. E de puro alvoroço, eu acordava às quatro e pouco da madrugada e despertava o resto da família. Vestíamos depressa e saíamos em jejum. Porque meu pai acreditava que assim devia ser: em jejum.

   Eu não sei da infância alheia. Mas essa viagem diária me tornava uma criança completa de alegria. E me serviu como promessa de felicidade para o futuro. Minha capacidade de ser feliz se revelava. Eu me agarrava, dentro de uma infância muito feliz, a essa ilha encantada que era a viagem diária.

   O mar de Olinda era muito perigoso. Davam-se alguns passos em um fundo raso e de repente caía-se num fundo de dois metros, calculo.

   Outras pessoas também acreditavam em tomar banho de mar quando o sol nascia. Havia um salva-vidas que, por uma ninharia de dinheiro, levava as senhoras para o banho: abria os dois braços, e as senhoras agarravam-se a eles para lutar contra as ondas fortíssimas do mar.

   O cheiro do mar me invadia e me embriagava. As algas boiavam. Oh, bem sei que não estou transmitindo o que significavam como vida pura esses banhos em jejum, com o sol se levantando pálido ainda no horizonte. Bem sei que estou tão emocionada que não consigo escrever. O mar de Olinda era muito iodado e salgado. E eu fazia o que no futuro sempre iria fazer: com as mãos em concha, eu as mergulhava nas águas e trazia um pouco de mar até minha boca: eu bebia diariamente o mar, de tal modo queria me unir a ele.

   Não demorávamos muito. O sol já se levantara todo, e meu pai tinha que trabalhar cedo. Mudávamos de roupa nas cabinas, e a roupa ficava impregnada de sal. Meus cabelos salgados me colavam na cabeça.

   Então esperávamos, ao vento, a vinda do bonde para Recife. No bonde a brisa ia secando meus cabelos duros de sal.

   A quem devo pedir que na minha vida se repita a felicidade? Como sentir com a frescura da inocência o sol vermelho se levantar? Nunca mais?

   Nunca mais. Nunca.


(LISPECTOR, Clarice. A descoberta do mundo. Editora Nova Fronteira: Rio de Janeiro, 1984.)
A ideia principal do último trecho textual – “A quem devo pedir que na minha vida se repita a felicidade? Como sentir com a frescura da inocência o sol vermelho se levantar? Nunca mais? Nunca mais. Nunca.” indica que: 
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Q3586953 Português
Banhos de mar


   Meu pai acreditava que todos os anos se devia fazer uma cura de banhos de mar. E nunca fui tão feliz quanto naquelas temporadas de banhos em Olinda.

   Meu pai também acreditava que o banho de mar salutar era o tomado antes do sol nascer. Como explicar o que eu sentia de presente inaudito em sair de casa de madrugada e pegar o bonde vazio que nos levaria para Olinda, ainda na escuridão?

   De noite eu ia dormir, mas o coração se mantinha acordado, em expectativa. E de puro alvoroço, eu acordava às quatro e pouco da madrugada e despertava o resto da família. Vestíamos depressa e saíamos em jejum. Porque meu pai acreditava que assim devia ser: em jejum.

   Eu não sei da infância alheia. Mas essa viagem diária me tornava uma criança completa de alegria. E me serviu como promessa de felicidade para o futuro. Minha capacidade de ser feliz se revelava. Eu me agarrava, dentro de uma infância muito feliz, a essa ilha encantada que era a viagem diária.

   O mar de Olinda era muito perigoso. Davam-se alguns passos em um fundo raso e de repente caía-se num fundo de dois metros, calculo.

   Outras pessoas também acreditavam em tomar banho de mar quando o sol nascia. Havia um salva-vidas que, por uma ninharia de dinheiro, levava as senhoras para o banho: abria os dois braços, e as senhoras agarravam-se a eles para lutar contra as ondas fortíssimas do mar.

   O cheiro do mar me invadia e me embriagava. As algas boiavam. Oh, bem sei que não estou transmitindo o que significavam como vida pura esses banhos em jejum, com o sol se levantando pálido ainda no horizonte. Bem sei que estou tão emocionada que não consigo escrever. O mar de Olinda era muito iodado e salgado. E eu fazia o que no futuro sempre iria fazer: com as mãos em concha, eu as mergulhava nas águas e trazia um pouco de mar até minha boca: eu bebia diariamente o mar, de tal modo queria me unir a ele.

   Não demorávamos muito. O sol já se levantara todo, e meu pai tinha que trabalhar cedo. Mudávamos de roupa nas cabinas, e a roupa ficava impregnada de sal. Meus cabelos salgados me colavam na cabeça.

   Então esperávamos, ao vento, a vinda do bonde para Recife. No bonde a brisa ia secando meus cabelos duros de sal.

   A quem devo pedir que na minha vida se repita a felicidade? Como sentir com a frescura da inocência o sol vermelho se levantar? Nunca mais?

   Nunca mais. Nunca.


(LISPECTOR, Clarice. A descoberta do mundo. Editora Nova Fronteira: Rio de Janeiro, 1984.)
Verifica-se que a autora interrompe constantemente a narrativa para comentar, falar sobre suas experiências, revelar seus sentimentos. Tal fato pode ser claramente fundamentado através do trecho:
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Q3586912 Português
Para estar na política, mulheres indígenas enfrentam desafios como falta de apoio e preconceito
Nas últimas eleições, das 1.721 candidaturas autodeclaradas indígenas, somente 9% se elegeu; apenas 31 mulheres
Recentemente, a ministra dos Povos Indígenas, Sonia Guajajara, em discurso durante o Acampamento Terra Livre, incentivou que mais mulheres indígenas se candidatassem nas próximas eleições municipais para aumentar a representatividade em diferentes esferas do poder nacional. Apesar do aumento das candidaturas indígenas de 2016 para 2020, ainda há uma sub-representação nas câmaras municipais. Pré-candidatas indígenas, no Paraná, destacam a falta de apoio e de estrutura, bem como a visão preconceituosa da sociedade. Apontam, também, os desafios para se manterem na política como mulheres indígenas.
(Disponível em: https://www.brasildefato.com.br/. Acesso em: maio de 2025. Adaptado.)
A política é um espaço de disputas, que se fortalece democraticamente através da representatividade. Nesse sentido, a presença de mulheres indígenas nos diferentes espaços de representação política (municipal, estadual e nacional) significa: 
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Q3586911 Português
Novas fontes renováveis, como eólica e solar, vão ser 51% da geração de energia em 2028
Plano quinquenal do ONS mostra que, pela primeira vez, hidrelétricas e térmicas devem constituir menos de metade da matriz brasileira
Pela primeira vez em décadas, mais de metade do parque gerador de energia elétrica no Brasil será de novas fontes renováveis: usinas eólicas, parques fotovoltaicos, painéis solares, biomassa e pequenas centrais hidrelétricas (PCHs). Em 2028, segundo projeções recém-divulgadas pelo Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS), essas fontes de energia vão representar 51% da capacidade instalada de geração no país. Usinas hidrelétricas e térmicas – que usam gás natural, carvão mineral ou óleo combustível – deverão corresponder a 49% da matriz.
(Disponível em: https://www.cnnbrasil.com.br/economia/macroeconomia/. Acesso em: maio de 2025.)
As energias renováveis têm crescido em abrangência no Brasil, o que impactará positivamente o ambiente, diante dos avanços da crise climática global. Nesse sentido, a mudança no cenário energético brasileiro demonstra: 
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Q3586907 Português
Idosos que usam da tecnologia têm menos risco de desenvolver demência
Para quem não nasceu acostumado com o digital, mexer no celular é uma tarefa cognitivamente desafiadora – que serve como um exercício para o cérebro

[...] Parece que muita gente acredita que sim, usar muito da tecnologia atual aumentaria o risco de demência no futuro. Bom, segundo um novo estudo publicado na Nature Human Behavior por neurocientistas da Universidade Baylor e da Universidade do Texas, a resposta é não: as tecnologias digitais estão, na verdade, associadas à redução do declínio cognitivo. O estudo foi uma meta-análise – significa que a dupla de pesquisadores pegou os resultados de vários outros estudos independentes e os combinou em uma conclusão mais robusta – do uso da tecnologia e do envelhecimento cognitivo. Segundo eles, a pesquisa foi motivada pela preocupação constante com a atividade passiva das tecnologias digitais e sua relação com a aceleração dos riscos de demência.
(Disponível em: https://vocesa.abril.com.br/sociedade/. Acesso em: maio de 2025.)
O uso das tecnologias pode ser prejudicial, sobretudo quando em excesso, mas também desenvolve habilidades úteis no cotidiano. Nesse sentido, a prevenção da demência em idosos através do uso direcionado das tecnologias pode ser motivada pela: 
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Q3586906 Português
Novas regras da Lei de Cotas já estão em vigor
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva sancionou na segunda-feira (13) as regras que reformulam a Lei de Cotas (Lei nº 12.711/2012). A nova legislação torna permanente a reserva de vagas nas universidades federais e instituições de ensino técnico de nível médio federais para negros, indígenas, pessoas com deficiência, estudantes de escolas públicas e, agora, também para quilombolas. A Lei nº 14.723/2023 determina que os candidatos concorrerão às vagas reservadas pelo programa de cotas, que são 50% do total, apenas se não alcançarem as notas para ingresso às vagas de ampla concorrência.
(Disponível em: https://www12.senado.leg.br/noticias/. Acesso em: maio de 2025.)
A sociedade brasileira é diversa desde a sua formação, mas isso nem sempre se reflete nas oportunidades acadêmicas e no mercado de trabalho. Logo, a Lei de Cotas pode proporcionar:
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Q3586905 Português
Dia da Literatura Brasileira: por que 1º de maio celebra os livros nacionais? Data foi escolhida em homenagem a um dos principais nomes do romance nacional, que inaugurou a literatura propriamente brasileira
Comemora-se nesta quinta-feira, 1º de maio, o Dia da Literatura Brasileira. A data, que coincide com o feriado do Dia do Trabalho, foi escolhida em homenagem ao escritor José de Alencar. Um dos principais nomes da literatura nacional, Alencar nasceu neste dia em 1829, no Ceará. Ele também foi jornalista, advogado e político. Considerado o “pai do Romantismo” e fundador da literatura genuinamente brasileira, José de Alencar publicou clássicos até hoje estudados nas escolas e na Academia, como O Guarani, Iracema, Ubirajara, Lucíola, Til e Senhora.
(Disponível em: https://www.terra.com.br/diversao/. Acesso em: maio de 2025.)
A leitura é um hábito fundamental para o desenvolvimento cognitivo e social. Nesse sentido, o Dia da Literatura Brasileira, além de homenagear José de Alencar e os escritores do país, mostra-se como fundamental para:
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Q3586903 Português
Música de Bad Bunny vira símbolo de protesto para imigrantes da América Latina
A canção “Lo que le Pasó a Hawaii”, do renomado artista porto-riquenho Bad Bunny, embora escrita com Porto Rico em mente, tornou-se um símbolo de resistência e identificação para muitos imigrantes latino-americanos, incluindo venezuelanos, cubanos e nicaraguenses. Desde seu lançamento no álbum “Debí Tirar Más Fotos”, há apenas dez dias, a música tem sido amplamente compartilhada nas redes sociais por aqueles que vivem sob regimes autoritários em suas nações de origem. Um dos trechos mais impactantes da canção aborda a dor do exílio: “Aqui ninguém quis ir [embora], e os que foram sonham em voltar”. Este lamento ressoa especialmente entre os quase 8 milhões de migrantes e refugiados venezuelanos que fugiram da crise política e econômica exacerbada pela administração do presidente Nicolás Maduro.
(Disponível em: https://abcdoabc.com.br/musica/. Acesso em: maio de 2025.)
A arte tem o poder de traduzir sentimentos humanos, mesmo em situações de vulnerabilidade no contexto social. Assim, Bad Bunny se destacou pela sua obra, uma vez que, ao retratar a realidade de imigrantes, o artista promoveu: 
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Q3586891 Português
Perder um animal de estimação é motivo de luto

        Na semana passada, no meio de uma troca de mensagens de trabalho, um colega com quem não divido o elevador emocional da vida mandou: “Perdi meu gato de uma hora pra outra. Sei que você me entende”.
Não era uma confidência íntima, nem um desabafo dramático.
Era mais um pedido de licença para sofrer um tipo de luto ainda não plenamente autorizado socialmente. Um luto menor. Perder um animal, dizem, é “triste, mas nem se compara”.

        Não se compara mesmo. Em muitos casos, é pior.

        E veja: eu nem gostava de gato. Sempre me pareceu uma mini jaguatirica prestes a furar meu olho ou levar um pedaço da minha canela. Mas gato não se impõe, seduz. E, com um pouco de intimidade, você aprende que ele te ignora na maior parte do tempo e, quando decide te dar atenção, é sempre quando você está atrasada, ocupada ou deitada numa posição milimetricamente desconfortável. Gente pegajosa sempre me deu preguiça, e gato me parecia a versão felina do grude passivo-agressivo. Até que tive dois. E mordi a língua, o preconceito e alguns fios do meu próprio cabelo, porque eles simplesmente tomaram conta da casa, da rotina e, no fim, do coração. Sem pedir. Sem invadir.

        Escolhi não ter filhos. Trato meus gatos com o amor que dedicaria se tivesse parido, e falo isso sem constrangimento. A relação que tenho com eles é íntima, cotidiana, visceral. Tem rotina, tem entrega, tem dependência e uma confiança que poucos humanos merecem. Eles sabem quando eu tô triste, brava ou só quero existir em silêncio. Só querem estar por perto. Ou a três metros de distância, dependendo do humor.

        Então, meu bem, nenhum tipo de amor cabe numa régua emocional. Quem convive com um animal por anos, o vê adoecer, melhorar, envelhecer, conhece o som das patinhas cruzando o corredor, já teve a cama invadida, o teclado interditado e o coração completamente capturado, sabe: a dor é real.

        Tenho vontade de botar no colo quem chora, com vergonha, o luto por um bicho. Como se existisse uma espécie de IBGE dos afetos, uma tabela oficial que determina quanto sofrimento é aceitável por perda. Perdeu o pai? Sofra com intensidade dez. Perdeu o namorado? Intensidade sete, se ele prestava. Agora, perdeu o gato? Dois no máximo, com prazo de validade.

        Quando meu colega disse que sabia que eu o entenderia, percebi que buscava empatia para viver um luto que ainda é ridicularizado, abafado, diminuído – porque falta espaço para sofrer por um animal, sem vergonha e sem escala de comparação. Chore, meu querido. Chore o quanto for preciso. Gato não é filho, mas é rotina, é testemunha, é laço. E quando esse laço arrebenta, dói muito mesmo. É motivo de vazio, de tristeza, de luto.

(Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/colunas/. Acesso em: junho de 2025. Adaptado.)
Os substantivos a seguir foram retirados do texto e flexionados no aumentativo. Assinale aquele que apresenta tom depreciativo.
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Q3586886 Português
Perder um animal de estimação é motivo de luto

        Na semana passada, no meio de uma troca de mensagens de trabalho, um colega com quem não divido o elevador emocional da vida mandou: “Perdi meu gato de uma hora pra outra. Sei que você me entende”.
Não era uma confidência íntima, nem um desabafo dramático.
Era mais um pedido de licença para sofrer um tipo de luto ainda não plenamente autorizado socialmente. Um luto menor. Perder um animal, dizem, é “triste, mas nem se compara”.

        Não se compara mesmo. Em muitos casos, é pior.

        E veja: eu nem gostava de gato. Sempre me pareceu uma mini jaguatirica prestes a furar meu olho ou levar um pedaço da minha canela. Mas gato não se impõe, seduz. E, com um pouco de intimidade, você aprende que ele te ignora na maior parte do tempo e, quando decide te dar atenção, é sempre quando você está atrasada, ocupada ou deitada numa posição milimetricamente desconfortável. Gente pegajosa sempre me deu preguiça, e gato me parecia a versão felina do grude passivo-agressivo. Até que tive dois. E mordi a língua, o preconceito e alguns fios do meu próprio cabelo, porque eles simplesmente tomaram conta da casa, da rotina e, no fim, do coração. Sem pedir. Sem invadir.

        Escolhi não ter filhos. Trato meus gatos com o amor que dedicaria se tivesse parido, e falo isso sem constrangimento. A relação que tenho com eles é íntima, cotidiana, visceral. Tem rotina, tem entrega, tem dependência e uma confiança que poucos humanos merecem. Eles sabem quando eu tô triste, brava ou só quero existir em silêncio. Só querem estar por perto. Ou a três metros de distância, dependendo do humor.

        Então, meu bem, nenhum tipo de amor cabe numa régua emocional. Quem convive com um animal por anos, o vê adoecer, melhorar, envelhecer, conhece o som das patinhas cruzando o corredor, já teve a cama invadida, o teclado interditado e o coração completamente capturado, sabe: a dor é real.

        Tenho vontade de botar no colo quem chora, com vergonha, o luto por um bicho. Como se existisse uma espécie de IBGE dos afetos, uma tabela oficial que determina quanto sofrimento é aceitável por perda. Perdeu o pai? Sofra com intensidade dez. Perdeu o namorado? Intensidade sete, se ele prestava. Agora, perdeu o gato? Dois no máximo, com prazo de validade.

        Quando meu colega disse que sabia que eu o entenderia, percebi que buscava empatia para viver um luto que ainda é ridicularizado, abafado, diminuído – porque falta espaço para sofrer por um animal, sem vergonha e sem escala de comparação. Chore, meu querido. Chore o quanto for preciso. Gato não é filho, mas é rotina, é testemunha, é laço. E quando esse laço arrebenta, dói muito mesmo. É motivo de vazio, de tristeza, de luto.

(Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/colunas/. Acesso em: junho de 2025. Adaptado.)
Em “A relação que tenho com eles é íntima, cotidiana, visceral.” (4º§), a palavra destacada pode ser substituída, sem alteração no sentido do trecho, por: 
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Q3586885 Português
Perder um animal de estimação é motivo de luto

        Na semana passada, no meio de uma troca de mensagens de trabalho, um colega com quem não divido o elevador emocional da vida mandou: “Perdi meu gato de uma hora pra outra. Sei que você me entende”.
Não era uma confidência íntima, nem um desabafo dramático.
Era mais um pedido de licença para sofrer um tipo de luto ainda não plenamente autorizado socialmente. Um luto menor. Perder um animal, dizem, é “triste, mas nem se compara”.

        Não se compara mesmo. Em muitos casos, é pior.

        E veja: eu nem gostava de gato. Sempre me pareceu uma mini jaguatirica prestes a furar meu olho ou levar um pedaço da minha canela. Mas gato não se impõe, seduz. E, com um pouco de intimidade, você aprende que ele te ignora na maior parte do tempo e, quando decide te dar atenção, é sempre quando você está atrasada, ocupada ou deitada numa posição milimetricamente desconfortável. Gente pegajosa sempre me deu preguiça, e gato me parecia a versão felina do grude passivo-agressivo. Até que tive dois. E mordi a língua, o preconceito e alguns fios do meu próprio cabelo, porque eles simplesmente tomaram conta da casa, da rotina e, no fim, do coração. Sem pedir. Sem invadir.

        Escolhi não ter filhos. Trato meus gatos com o amor que dedicaria se tivesse parido, e falo isso sem constrangimento. A relação que tenho com eles é íntima, cotidiana, visceral. Tem rotina, tem entrega, tem dependência e uma confiança que poucos humanos merecem. Eles sabem quando eu tô triste, brava ou só quero existir em silêncio. Só querem estar por perto. Ou a três metros de distância, dependendo do humor.

        Então, meu bem, nenhum tipo de amor cabe numa régua emocional. Quem convive com um animal por anos, o vê adoecer, melhorar, envelhecer, conhece o som das patinhas cruzando o corredor, já teve a cama invadida, o teclado interditado e o coração completamente capturado, sabe: a dor é real.

        Tenho vontade de botar no colo quem chora, com vergonha, o luto por um bicho. Como se existisse uma espécie de IBGE dos afetos, uma tabela oficial que determina quanto sofrimento é aceitável por perda. Perdeu o pai? Sofra com intensidade dez. Perdeu o namorado? Intensidade sete, se ele prestava. Agora, perdeu o gato? Dois no máximo, com prazo de validade.

        Quando meu colega disse que sabia que eu o entenderia, percebi que buscava empatia para viver um luto que ainda é ridicularizado, abafado, diminuído – porque falta espaço para sofrer por um animal, sem vergonha e sem escala de comparação. Chore, meu querido. Chore o quanto for preciso. Gato não é filho, mas é rotina, é testemunha, é laço. E quando esse laço arrebenta, dói muito mesmo. É motivo de vazio, de tristeza, de luto.

(Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/colunas/. Acesso em: junho de 2025. Adaptado.)
Através da expressão destacada em “[...] no meio de uma troca de mensagens de trabalho, um colega com quem não divido o elevador emocional da vida mandou: [...]” (1º§), a autora declara que:
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Q3586884 Português
Perder um animal de estimação é motivo de luto

        Na semana passada, no meio de uma troca de mensagens de trabalho, um colega com quem não divido o elevador emocional da vida mandou: “Perdi meu gato de uma hora pra outra. Sei que você me entende”.
Não era uma confidência íntima, nem um desabafo dramático.
Era mais um pedido de licença para sofrer um tipo de luto ainda não plenamente autorizado socialmente. Um luto menor. Perder um animal, dizem, é “triste, mas nem se compara”.

        Não se compara mesmo. Em muitos casos, é pior.

        E veja: eu nem gostava de gato. Sempre me pareceu uma mini jaguatirica prestes a furar meu olho ou levar um pedaço da minha canela. Mas gato não se impõe, seduz. E, com um pouco de intimidade, você aprende que ele te ignora na maior parte do tempo e, quando decide te dar atenção, é sempre quando você está atrasada, ocupada ou deitada numa posição milimetricamente desconfortável. Gente pegajosa sempre me deu preguiça, e gato me parecia a versão felina do grude passivo-agressivo. Até que tive dois. E mordi a língua, o preconceito e alguns fios do meu próprio cabelo, porque eles simplesmente tomaram conta da casa, da rotina e, no fim, do coração. Sem pedir. Sem invadir.

        Escolhi não ter filhos. Trato meus gatos com o amor que dedicaria se tivesse parido, e falo isso sem constrangimento. A relação que tenho com eles é íntima, cotidiana, visceral. Tem rotina, tem entrega, tem dependência e uma confiança que poucos humanos merecem. Eles sabem quando eu tô triste, brava ou só quero existir em silêncio. Só querem estar por perto. Ou a três metros de distância, dependendo do humor.

        Então, meu bem, nenhum tipo de amor cabe numa régua emocional. Quem convive com um animal por anos, o vê adoecer, melhorar, envelhecer, conhece o som das patinhas cruzando o corredor, já teve a cama invadida, o teclado interditado e o coração completamente capturado, sabe: a dor é real.

        Tenho vontade de botar no colo quem chora, com vergonha, o luto por um bicho. Como se existisse uma espécie de IBGE dos afetos, uma tabela oficial que determina quanto sofrimento é aceitável por perda. Perdeu o pai? Sofra com intensidade dez. Perdeu o namorado? Intensidade sete, se ele prestava. Agora, perdeu o gato? Dois no máximo, com prazo de validade.

        Quando meu colega disse que sabia que eu o entenderia, percebi que buscava empatia para viver um luto que ainda é ridicularizado, abafado, diminuído – porque falta espaço para sofrer por um animal, sem vergonha e sem escala de comparação. Chore, meu querido. Chore o quanto for preciso. Gato não é filho, mas é rotina, é testemunha, é laço. E quando esse laço arrebenta, dói muito mesmo. É motivo de vazio, de tristeza, de luto.

(Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/colunas/. Acesso em: junho de 2025. Adaptado.)
Para que o texto seja completo, é necessário desenvolver, de maneira coerente e linear, ideias ao longo dos parágrafos. Nesse sentido, é correto afirmar que a autora, de forma sequencial: 
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Q3586883 Português
Perder um animal de estimação é motivo de luto

        Na semana passada, no meio de uma troca de mensagens de trabalho, um colega com quem não divido o elevador emocional da vida mandou: “Perdi meu gato de uma hora pra outra. Sei que você me entende”.
Não era uma confidência íntima, nem um desabafo dramático.
Era mais um pedido de licença para sofrer um tipo de luto ainda não plenamente autorizado socialmente. Um luto menor. Perder um animal, dizem, é “triste, mas nem se compara”.

        Não se compara mesmo. Em muitos casos, é pior.

        E veja: eu nem gostava de gato. Sempre me pareceu uma mini jaguatirica prestes a furar meu olho ou levar um pedaço da minha canela. Mas gato não se impõe, seduz. E, com um pouco de intimidade, você aprende que ele te ignora na maior parte do tempo e, quando decide te dar atenção, é sempre quando você está atrasada, ocupada ou deitada numa posição milimetricamente desconfortável. Gente pegajosa sempre me deu preguiça, e gato me parecia a versão felina do grude passivo-agressivo. Até que tive dois. E mordi a língua, o preconceito e alguns fios do meu próprio cabelo, porque eles simplesmente tomaram conta da casa, da rotina e, no fim, do coração. Sem pedir. Sem invadir.

        Escolhi não ter filhos. Trato meus gatos com o amor que dedicaria se tivesse parido, e falo isso sem constrangimento. A relação que tenho com eles é íntima, cotidiana, visceral. Tem rotina, tem entrega, tem dependência e uma confiança que poucos humanos merecem. Eles sabem quando eu tô triste, brava ou só quero existir em silêncio. Só querem estar por perto. Ou a três metros de distância, dependendo do humor.

        Então, meu bem, nenhum tipo de amor cabe numa régua emocional. Quem convive com um animal por anos, o vê adoecer, melhorar, envelhecer, conhece o som das patinhas cruzando o corredor, já teve a cama invadida, o teclado interditado e o coração completamente capturado, sabe: a dor é real.

        Tenho vontade de botar no colo quem chora, com vergonha, o luto por um bicho. Como se existisse uma espécie de IBGE dos afetos, uma tabela oficial que determina quanto sofrimento é aceitável por perda. Perdeu o pai? Sofra com intensidade dez. Perdeu o namorado? Intensidade sete, se ele prestava. Agora, perdeu o gato? Dois no máximo, com prazo de validade.

        Quando meu colega disse que sabia que eu o entenderia, percebi que buscava empatia para viver um luto que ainda é ridicularizado, abafado, diminuído – porque falta espaço para sofrer por um animal, sem vergonha e sem escala de comparação. Chore, meu querido. Chore o quanto for preciso. Gato não é filho, mas é rotina, é testemunha, é laço. E quando esse laço arrebenta, dói muito mesmo. É motivo de vazio, de tristeza, de luto.

(Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/colunas/. Acesso em: junho de 2025. Adaptado.)
Todo texto é formado por um assunto principal, que é desenvolvido ao longo dos parágrafos. O principal assunto do texto em análise é: 
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Q3586664 Português
Em nome do cinema brasileiro, é uma honra tão grande receber isso de um grupo tão extraordinário. Isso vai para uma mulher que, depois de uma perda tão grande em um regime tão autoritário, decidiu não se dobrar e resistir [...].
(CARNEIRO, Raquel. O discurso que Walter Salles pretendia fazer no Oscar [2025]. Disponível em: https://veja.abril.com.br/coluna/em-cartaz/. Acesso em: abril de 2025.)
Em 2025, o Brasil conquistou seu primeiro Oscar através do filme “Ainda estou aqui”, considerado um grande sucesso mundial. Dirigido por Walter Salles no ano de 2024, a obra narra a vida e história da família de Eunice Paiva e Marcelo Rubens Paiva durante um contexto histórico marcado pela ditadura militar. De acordo com as informações apresentadas, qual foi a principal razão pela qual o filme “Ainda Estou Aqui” conquistou tanta visibilidade?
Alternativas
Q3586651 Português
Joana estava muito animada com a chegada da festa da escola. A festa aconteceu em uma tarde de sexta-feira. Ela dançou, brincou com os amigos e se divertiu bastante. Ao final da tarde, porém, ficou triste porque a festa acabou. Com base no texto, qual alternativa apresenta um par de palavras com sentido oposto ao que Joana sentiu nos dois momentos?
Alternativas
Q3586648 Português
Leia os quadrinhos para responder à questão.




(Disponível em: https://www.instagram.com/teoeominimundo. Acesso em: maio de 2025.)
O sinônimo da palavra destacada em “É linda demais!” pode ser encontrado no seguinte trecho:
Alternativas
Q3586646 Português
Leia os quadrinhos para responder à questão.




(Disponível em: https://www.instagram.com/teoeominimundo. Acesso em: maio de 2025.)
Após a leitura, é correto afirmar que:
Alternativas
Q3586641 Português
Texto para responder à questão.

Gilberto Gil anuncia show extra da turnê de despedida em São Paulo

Os shows realizados por Gilberto Gil em São Paulo nos dias 11, 12, 25 e 26 de abril não foram os últimos dele na cidade. O artista confirmou mais uma apresentação de sua turnê de despedida “Tempo Rei”, no Allianz Parque, para 18 de outubro.

Clientes do Banco do Brasil com cartões Ourocard Visa têm direito à pré-venda de entradas com benefícios exclusivos a partir das 10h do dia 12 de maio. Já a venda geral começa ao meio-dia, do dia 15 de maio, ambas no site da Eventim.

Hoje com 82 anos, Gilberto Gil vem amadurecendo a ideia de não realizar mais turnês há algum tempo. É uma reflexão que ele enxerga como natural e a decisão visa diminuir a intensidade de sua agenda. Há também uma mudança de perspectiva: agora menos centrada no plano material e mais próxima à espiritualidade.

(Disponível em: https://rollingstone.com.br/amp/musica/. Acesso em: maio de 2025. Adaptado.)
Qual o objetivo do texto?
Alternativas
Q3586423 Português
Brancos usam “humor” e “amigo negro” para perpetuar discriminação, diz autor de “Racismo Recreativo”

BBC News Brasil – Qual a definição de racismo recreativo?

        Adilson José Moreira – O humor racista é uma forma com que pessoas brancas e instituições controladas por pessoas brancas expressam condescendência e ódio por minorias raciais, para reproduzir a ideia de que só pessoas brancas podem atuar de forma competente no espaço público. É um meio dessas pessoas ainda manterem uma visão, uma imagem positiva de si mesmos. O racismo recreativo tem sido usado no Brasil e em outros países para reproduzir a ideia de que minorias raciais não são atores sociais competentes.

BBC News Brasil – De que maneira o humor racista se manifesta no Brasil?

        Moreira – De diferentes formas e em diferentes espaços sociais. Ele está presente, por exemplo, em programas humorísticos e aparece por meio de representações estereotipadas de minorias raciais. O humor é uma mensagem. E, portanto, ele faz sentido dentro de um contexto social específico. Um dos objetivos do humor racista é a reprodução de estereótipos pejorativos sobre membros de grupos raciais.

BBC News Brasil – A piada no ambiente de trabalho é usada, portanto, como instrumento para impedir o acesso de pessoas negras às mesmas oportunidades de crescimento que as pessoas brancas?

        Moreira – Um dos elementos centrais da minha teoria do racismo recreativo é seu caráter estratégico. As piadas acontecem com frequência no espaço de trabalho e em situações específicas, como quando há possibilidade de promoção e pessoas negras ou asiáticas ou indígenas são candidatas. [...] Isso é uma ação coletiva para tornar o ambiente de trabalho insustentável, para forçar a demissão da pessoa negra, para ela ser substituída por uma pessoa branca. O objetivo do racismo recreativo é a manutenção da supremacia branca.

BBC News Brasil – De que maneira o humor racista se conecta com o mito da democracia racial, pelo qual o Brasil seria um país miscigenado e sem racismo?

        Moreira – O humor racista está diretamente ligado à narrativa brasileira da democracia racial. 99% de todas as pessoas brancas acusadas de racismo utilizam o mesmo argumento: a ideia de que eles têm um amigo negro, uma empregada negra, um avô negro. O humor racista sempre foi elemento importante de exclusão social em diferentes partes do mundo: foi importante na exclusão dos judeus na Alemanha nazista e teve papel importante no regime de segregação racial dos EUA. Agora, aqui no Brasil, realmente há o uso estratégico do humor racista para preservar a ideia de cordialidade. 98% das pessoas acusadas de racismo levam testemunhas negras para dizer que não são racistas. [...]

(Trechos de entrevista com o pesquisador Adilson José Moreira a Natália Passarinho, da BBC News Brasil, em: novembro de 2021. Disponível em: https://www.bbc.com/. Acesso em: maio de 2025.)
Diante da estrutura e ideias textuais apresentadas, pode-se afirmar que o texto tem como principal finalidade:
Alternativas
Respostas
17841: B
17842: D
17843: D
17844: D
17845: A
17846: A
17847: D
17848: D
17849: D
17850: D
17851: B
17852: C
17853: A
17854: C
17855: A
17856: A
17857: C
17858: D
17859: B
17860: D