Questões de Concurso Sobre literatura
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Atenção: Para responder à questão, baseie-se no texto abaixo.
Palavras de amor
Os sentimentos funcionam como picadas de mosquito, que coçamos e recoçamos até que se tornem feridas infectadas e, às vezes, septicemias fatais. Salvo um exercício difícil de autocontrole, qualquer picada pode adquirir uma relevância desmedida. A gente tende a se coçar muito além da conta porque descobre nisso um prazer autônomo.
Por isso mesmo, em geral, não confio nos sentimentos: nem nos meus, nem nos dos outros. Não é que suponho que os humanos mintam quando amam, odeiem, ou se desesperam: nada disso. Apenas verifico que os sentimentos podem ser condições autodiluídas, transtornos ou desvios produzidos pelos próprios indivíduos, que os não procuram sanar para se coçar (como diz o ditado), no mínimo adorar coçar as sarnas que têm.
Tomemos o exemplo do amor. Eu encontro, conheço ou vislumbro de longe uma pessoa que preenche algumas condições básicas para que goste dela. Sussurrando entre quatro paredes ou gritando em praça pública, anotando no meu diário ou escrevendo para grandes editoras, passo a encher o ar ou as páginas com as descrições da beleza inigualável da pessoa adorada e com declarações hiperbólicas do meu sentimento.
Claro, minha prosa ou minha poesia poderão, quem sabe, conquistar o meu objeto de amor, mas esse é um efeito colateral. O efeito mais importante de minhas palavras de amor não é tanto o de seduzir o objeto de meus sonhos, mas o de eu me apaixonar cada vez mais. Pois a intensidade do meu amor será diretamente proporcional à insistência e à virulência das minhas declarações.
Em linguística chamamos performativas aquelas expressões que, ao serem proferidas, constituem o fato do qual elas falam. Exemplo clássico: um chefe de Estado dizendo “Declaro a guerra”: essa frase é a própria declaração de guerra. Algo semelhante ocorre com o amor: a gente aprende a amar e a declarar o amor pelas palavras dos escritores, e o amor se torna relevante em nossa vida à força de ser idealizado pela literatura. Sim, os tempos mudam, e talvez se afirme hoje, aos poucos, uma retórica nova, menos sentimental, capaz de dar valor literário a uma vida sem amores e paixões.
(Adaptado de CALLIGARIS, Contardo. Aproveitar a vida e suas dores. São Paulo: Planeta do Brasil, 2025, p. 155-157)
Pois a intensidade do meu amor será diretamente proporcional à insistência e à virulência das minhas declarações. (4º parágrafo)
Uma compreensão adequada do que afirma o período acima está na seguinte formulação:
O trecho evidencia uma temática presente em parte da literatura brasileira contemporânea relacionada:
“Fabiano ia satisfeito. Sim senhor, arrumara-se. Chegara naquele estado, com a família morrendo de fome, comendo raízes. Caíra no fim do pátio, debaixo de um juazeiro, depois tomara conta da casa deserta.” Vidas Secas. RAMOS, Graciliano. Vidas Secas. Rio de Janeiro: Record, 2019.
O trecho apresentado revela uma característica importante da prosa da segunda geração modernista no Brasil:
“A cada canto um grande conselheiro,
Que nos quer governar cabana e vinha;
Não sabem governar sua cozinha,
E podem governar o mundo inteiro.”
Gregório de Matos Guerra em MOISÉS, Massaud. A literatura brasileira através dos textos. 30. ed. São Paulo: Cultrix, 2012.
Texto II — Arcadismo
“Eu, Marília, não sou algum vaqueiro,
Que viva de guardar alheio gado;
De tosco trato, de expressões grosseiro,
Dos frios gelos e dos sóis queimado.”
Tomás Antônio Gonzaga in MOISÉS, Massaud. A literatura brasileira através dos textos. 30. ed. São Paulo: Cultrix, 2012.
A comparação entre os textos de Gregório de Matos e Tomás Antônio Gonzaga permite afirmar corretamente que:
Texto 2
Metamorfose
Luís Fernando Veríssimo
Uma barata acordou um dia e viu que tinha se transformado num ser humano. Começou a mexer suas patas e descobriu que só tinha quatro, que eram grandes e pesadas e de articulação difícil. Acionou suas antenas e não tinha mais antenas. Quis emitir um pequeno som de surpresa e, sem querer, deu um grunhido. As outras baratas fugiram aterrorizadas para trás do móvel. Ela quis segui-las, mas não coube atrás do móvel. O seu primeiro pensamento humano foi: que vergonha, estou nua! O seu segundo pensamento humano foi: que horror! Preciso me livrar dessas baratas!
Pensar, para a ex-barata, era uma novidade. Antigamente, ela seguia o seu instinto. Agora precisava raciocinar. Fez uma espécie de manto da cortina da sala para cobrir sua nudez. Saiu pela casa, caminhando junto à parede, porque os hábitos morrem devagar. Encontrou um quarto, um armário, roupas de baixo, um vestido. Olhou-se no espelho e achou-se bonita. Para uma ex-barata. Maquilou-se. Todas as baratas são iguais, mas uma mulher precisa realçar a sua personalidade. Adotou um nome: Vandirene. Mais tarde descobriu que só um nome não bastava. A que classe pertencia? Tinha educação? Referências? Conseguiu, a muito custo, um emprego como faxineira. Sua experiência de barata lhe dava acesso a sujeiras mal suspeitadas; era uma boa faxineira.
[...]
Vandirene acordou um dia e viu que tinha se transformado de novo numa barata. Seu penúltimo pensamento humano foi: meu Deus, a casa foi dedetizada há dois dias! Seu último pensamento humano foi para o seu dinheiro rendendo na financeira e o que o safado do marido, seu herdeiro legal, faria com tudo. Depois desceu pelo pé da cama e correu para trás de um móvel. Não pensava mais em nada. Era puro instinto. Morreu em cinco minutos, mas foram os cinco minutos mais felizes da sua vida. Kafka não significa nada para as baratas.
Adaptado de: https://ielrs.blogspot.com/2012/12/metamorfose-luisfernando-verissimo.html. Acesso em: 28 mar. 2026.
I.A obra de menor qualidade também atua na formação do leitor e em sua humanização, uma vez que o movimento literário é constituído tanto por textos de qualidade alta, quanto por textos de qualidade modesta, formando um conjunto de significados que influi na construção dos conhecimentos do leitor.
II.No processo de formação do leitor, espera-se que o(a) estudante perceba as peculiaridades estruturais e estilísticas de diferentes gêneros literários do cânone brasileiro. Nesse sentido, o(a) professor(a) deve evitar, em sua curadoria literária, a indicação de obras consideradas de cultura popular, como literatura marginal, periférica, de massa, folclóricas, entre outras, pois, ainda que sejam importantes e nobres, elas não são suficientes para o contexto escolar.
III.A literatura possibilita ao leitor, por exemplo, o exercício da reflexão, a aquisição do saber, a boa disposição com o próximo, o afinamento das emoções, a capacidade de penetrar nos problemas da vida, o senso de beleza, a percepção da complexidade do mundo e dos seres, o cultivo do humor.
É correto o que se afirma em:
(__)O poeta, nascido na cidade de Desterro, atual Florianópolis, faz da sua prosa um importante instrumento de libertação, sobretudo da subjetividade que não encontrava espaço no parnasianismo, mas que se torna um dos principais elementos do simbolismo, à época muito influente na Europa. Cercado pela opressão escravista, ainda que alforriado, Cruz e Sousa lança um grito que está além da cor da pele, mas que encontra força na agonia dos afrodescendentes.
(__)Cruz e Sousa foi o responsável por marcar o simbolismo no Brasil com traços singulares em relação à escola francesa, introduzindo a etnicidade em sua prosa poética. Disfarçada na individualidade do poeta, encontra-se a voz coletiva, o clamor de um povo cercado e acuado. Povo que, ao vencer um obstáculo, encontra outro e outro continuamente. A voz do eu enunciador carrega, em sua lírica, o lamento e o sonho de um dia alcançar plenamente a liberdade.
(__)O "Emparedado" traz à tona as reflexões de um artista marcado por formas diversas de exclusão, tais como raça e poder social, legitimadas por discursos científicos e estético-culturais vigentes no século XIX. Dessa forma, o eu-enunciador do texto é emparedado pelo preconceito, pela ignorância e por esses discursos legitimadores de uma sociedade branca que não aceita as diferenças.
(__)Apesar de a leitura crítica do leitor relacionar o discurso de Cruz e Sousa à luta antirracista que se instaura no contexto da coletividade negra, em "Emparedado", o poeta apresenta um discurso de rememoração biográfica, em que o eu do texto é apenas um eu biográfico, retratando a experiência de vida do autor e criticando o racialismo que o condenou ao lugar da ignorância eterna "por uma questão banal da química biológica do pigmento". Essa condenação, porém, será rompida após sua morte, com o reconhecimento de Cruz e Sousa como grande poeta da literatura brasileira e um dos maiores representantes do Simbolismo no Brasil, o que conferirá ao texto um viés coletivo.
Assinale a alternativa que apresenta a sequência correta: