O texto seguinte servirá de base para responder à questão.
Os agentes ambientais que botam fogo na natureza
Caminhonetes com brigadistas avançam entre labaredas
no Jalapão, mas não para conter o fogo: são eles que o
provocam de forma controlada. Segundo o brigadista
Deusimar Cardoso, trata-se de um fogo bom, manso e
brando, que se apaga sozinho com o sereno da noite e
permite que, pouco depois, se caminhe sobre as cinzas.
A prática é conduzida pelo ICMBio e integra o Manejo
Integrado do Fogo, uma política que busca prevenir
grandes incêndios por meio de queimadas de baixa
intensidade no início da estação seca.
Essas queimas reduzem o acúmulo de capim seco,
altamente inflamável, e criam aceiros naturais. A área
queimada permanece protegida por cerca de dois anos,
enquanto a vegetação se regenera. Pequenos trechos
são queimados de forma alternada, formando um
mosaico que favorece espécies com diferentes
necessidades em relação ao fogo. Desde que essa
estratégia passou a ser adotada, em 2014, incêndios que
antes alcançavam até cem mil hectares passaram a
raramente ultrapassar três mil.
Nem sempre foi assim. Durante anos, os órgãos
ambientais adotaram a política de fogo zero, o que gerou
conflitos com comunidades quilombolas do Jalapão,
como a do Rio Novo. Segundo o morador Manoel Ramos
de Jesus, a proibição do fogo e do gado alterou
profundamente o modo de vida local e levou ao acúmulo
de capim seco. O resultado foi um grande incêndio em
2004, que destruiu áreas extensas e matou animais.
Outros incêndios ocorreram nos anos seguintes,
afetando comunidades e causando mortes e prejuízos.
A mudança de postura ocorreu após uma expedição de
técnicos brasileiros à Austrália, em 2014, onde
conheceram práticas semelhantes realizadas por
comunidades aborígenes. A partir daí, o ICMBio passou
a valorizar os saberes tradicionais e implementou o
Manejo Integrado do Fogo no Jalapão. Hoje, as
comunidades também são autorizadas, em pequena
escala, a usar o fogo para renovar pastagens e abrir
roças, e o gado criado solto ajuda a manter o capim
baixo.
Com resultados positivos, a estratégia passou a ser
adotada em outras regiões do Cerrado, Pantanal, Pampa
e áreas campestres da Amazônia. Os órgãos ambientais
passaram a diferenciar queimadas prescritas de
incêndios acidentais, reconhecendo que nem todo fogo é
destrutivo. A prática foi regulamentada em 2024 pela
Política Nacional de Manejo Integrado do Fogo, que
reconhece o fogo como parte dos sistemas ecológicos e
valoriza os conhecimentos tradicionais, embora proíba
seu uso para substituir vegetação nativa.
Segundo o biólogo Marco Borges, o fogo sempre fez
parte da dinâmica do Cerrado, causado por raios e
também pela ação humana ao longo de milênios. Muitas
espécies se adaptaram a ele: algumas árvores têm
cascas resistentes, certas sementes só germinam após o
fogo, e animais desenvolveram estratégias de fuga. Além
disso, as queimas controladas emitem menos gases do
que grandes incêndios, pois são menos intensas e mais
espaçadas.
Para Borges, a nova política ajuda a construir uma
cultura de convivência com o fogo. Ele próprio realiza
queimas prescritas e afirma que, além de proteger o
ambiente e as comunidades, observar o fogo controlado
pode ser até terapêutico.
https://www.bbc.com/portuguese/articles/c1wle9w09evo.adaptado.