Leia o texto para responder à questão.
Falta de educação não é crime
Além de um diploma que nunca me animei a desenrolar –
disso não posso ser acusado −, guardei poucas lembranças
de um curso de Direito feito há muitos anos. Quase sempre
um latinório (rebus sic stantibus, pacta sunt servanda, sublata
causa) que por algum motivo sobe às vezes à superfície,
como fragmentos de um avião caído no oceano, uma poltrona
aqui, ali uma bandeja de comida. Há uma frase, porém, que
grudou em mim com a persistência da mais indelével das
tatuagens.
O autor é um falecido professor de Direito Penal que
costumava nos propor umas histórias de malfeitos, para que
identificássemos o crime e calculássemos a pena. Havia quem
só faltasse prescrever a cadeira elétrica, no afã de agradar ao
homem, cujo autoritarismo era, como certas fraturas, exposto.
Além de amalucado, seja dito: mandava imprimir seus livros
com sua própria letra, que era redonda, meio infantil.
Naquele exercício de identificar crimes e calcular penas,
o professor nos surpreendeu com uma história bombástica,
e, por mais que pelejássemos, não conseguimos encaixá-la
na lei. Tratava-se de uma pegadinha: o suposto criminoso
(que eu já ia condenando a uns quinze anos de cadeia) podia
ser acusado, no máximo, de grosseria − e foi então que o
professor tatuou a frase na minha memória:
− Falta de educação não é crime!
Seis palavras que, para mal de meus pecados, o convívio
com o semelhante faz regurgitarem várias vezes ao dia. Hoje
mesmo, no estacionamento da padaria, foi aquele sujeito que
ocupou duas vagas com o seu carrão, sem deixar espaço
para mais ninguém. Falta de educação não é crime!, perorou
lá do fundo dos tempos o finado professor. É uma pena que
não seja.
(WERNECK, Humberto. O espalhador de passarinhos & outras crônicas.
Sabará: Editora Dubolsinho. 2010. Fragmento adaptado)