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Q4036948 Administração Pública
Para responder à questão seguinte, leia o texto abaixo.

Oportunismo eleitoral e despesas ambientais nos
municípios do Brasil

    A competência do gestor público é frequentemente avaliada com base em sua capacidade de prover bens e serviços coletivos com eficiência e responsabilidade fiscal. Em períodos eleitorais, esse julgamento se intensifica, incentivando gestores a adotarem estratégias que ampliem sua popularidade e aumentem suas chances de reeleição. Entre essas estratégias, destacam-se o esforço em evitar déficits fiscais e o redirecionamento de recursos para áreas de maior visibilidade política, como pessoal, educação e infraestrutura.


    Tais ações evidenciam uma seletividade orçamentária, em que determinadas despesas são priorizadas estrategicamente conforme o ciclo político, gerando assimetria informacional de curto prazo. Esse comportamento encontra respaldo na Teoria dos Ciclos Políticos (TCP), segundo a qual gestores ajustam a política econômica de acordo com o calendário eleitoral, cuja previsibilidade favorece a antecipação de decisões com o objetivo de obter vantagem eleitoral.


    A TCP postula, em suas hipóteses, que gestores públicos se aproveitam da racionalidade limitada dos eleitores, divulgando benefícios e propostas para angariar votos. Esse aproveitamento da memória de curto prazo dos eleitores é declarado como a hipótese oportunística na TCP, e assume que os gestores utilizam ideologias e percepções populacionais para ganhos políticos em períodos eleitorais. Um bom exemplo é o uso de pautas ambientais para fomentar apoio em campanhas eleitorais, explorando a miopia política do eleitorado para obter suporte.


    Paralelamente, a criação do Sistema de Contabilidade Econômico-Ambiental, adotado como referência internacional pela Organização das Nações Unidas (ONU), promove a integração de dados econômicos e ambientais, proporcionando visão abrangente da contabilização de recursos naturais na produção de bens e serviços. Para legitimar a conformidade desse sistema dentro da esfera pública, foi desenvolvido um movimento liderado pelo International Public Sector Accounting Standards Board (IPSASB), que, em 2022, formalizou o início das normas de relatórios de sustentabilidade.


    Tais iniciativas foram impulsionadas por agendas ambientais globais. Entre essas agendas, destacam-se o Acordo de Paris, os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da ONU e a Agenda 21. Esses mecanismos buscam integrar a dimensão ambiental à lógica orçamentária estatal, por meio da mensuração das chamadas “despesas com capital verde”.


    No contexto brasileiro, a Política Nacional do Meio Ambiente (PNMA), instituída pela Lei n. 6.938/1981, estabelece as diretrizes para a preservação, melhoria e recuperação da qualidade ambiental. As chamadas despesas ambientais abrangem ações como controle de cheias, licenciamento, gestão de resíduos e recuperação de áreas degradadas, funcionando como indicativo da prioridade atribuída à agenda ambiental nos municípios.


    Diante do cenário de restrição fiscal, o orçamento público consolida-se como principal instrumento de escolha política e alocação estratégica. No Brasil, além de sua função de planejamento, ele também exerce papel fundamental na transparência, no controle social e na responsabilização dos gestores, contribuindo para a qualidade da gestão pública e a eficiência no uso dos recursos.


Como entes federativos mais próximos das demandas sociais, os municípios exercem papel decisivo na provisão de bens públicos. Estudos apontam que prefeitos tendem a ajustar suas decisões orçamentárias com base em incentivos eleitorais, priorizando áreas de maior apelo junto ao eleitorado. Nesse contexto, políticas ambientais podem ser relegadas a segundo plano em anos eleitorais, em favor de despesas com vantagem eleitoral, como obras públicas ou folha de pagamento.


Fonte: MARQUES, M. S. et al. Oportunismo eleitoral e despesas

ambientais nos municípios do Brasil. Cad. Gest. Pública Cid., São

Paulo, v. 31, n. 3, 2026 (com adaptações).

Considerando as ideias desenvolvidas no texto, especialmente no que se refere à relação entre comportamento eleitoral, atuação dos gestores públicos e papel dos entes municipais na execução de políticas públicas, analise as assertivas que seguem, julgando-as V, se Verdadeiras, ou F, se Falsas:


(  ) A referência à racionalidade limitada dos eleitores sustenta a ideia de que decisões eleitorais podem ser influenciadas por informações recentes e seletivas.


(  ) A atuação dos municípios é apresentada como secundária e pouco relevante, uma vez que sua distância das demandas sociais compromete sua capacidade de execução de políticas públicas.


(  ) O comportamento oportunista dos gestores está relacionado à tentativa de alinhar decisões públicas às expectativas percebidas do eleitorado.


Qual alternativa preenche, CORRETAMENTE, de cima para baixo, os parênteses acima?

Alternativas

Gabarito comentado

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Gabarito: A

Fundamento decisivo: A decisão dependia de confrontar cada assertiva com os trechos expressos do texto-base sobre racionalidade limitada dos eleitores e papel decisivo dos municípios, o que conduz à sequência V-F-V.

Tema central: teoria dos ciclos políticos
Análise das alternativas
A
Certa
A alternativa A está correta porque corresponde à leitura fiel das três assertivas à luz do texto. A 1ª é verdadeira, pois a referência à racionalidade limitada e à memória de curto prazo dos eleitores sustenta a influência de informações recentes e seletivas. A 2ª é falsa, porque o texto afirma o oposto: os municípios são apresentados como os entes federativos mais próximos das demandas sociais e com papel decisivo na provisão de bens públicos. A 3ª é verdadeira, pois o comportamento oportunista dos gestores é descrito como ajuste estratégico de decisões orçamentárias para obter apoio e vantagem eleitoral, priorizando áreas de maior apelo junto ao eleitorado.
B
Errada
Está errada porque marca a 1ª assertiva como falsa. O texto sustenta exatamente que a racionalidade limitada e a memória de curto prazo dos eleitores permitem influência por informações recentes e seletivas.
C
Errada
Está errada porque inverte o sentido da 2ª e da 3ª assertivas. A 2ª é falsa, já que o texto diz que os municípios têm papel decisivo e proximidade com as demandas sociais; a 3ª é verdadeira, porque o oportunismo dos gestores é vinculado ao ajuste de decisões para ganho eleitoral.
D
Errada
Está errada porque trata a 1ª assertiva como falsa e a 2ª como verdadeira. A 1ª é verdadeira pelo trecho sobre racionalidade limitada e memória de curto prazo; a 2ª é falsa porque contradiz frontalmente a caracterização dos municípios feita no texto.
Pegadinha da questão
A pegadinha estava em inverter o papel dos municípios e em distorcer a ideia de racionalidade limitada, como se o texto negasse a influência de informações recentes e seletivas.
Dica para questões semelhantes
  • Em questão de interpretação, identifique primeiro os trechos afirmados expressamente no texto e confronte cada assertiva com esses núcleos.
  • Quando a assertiva reescreve uma ideia do texto com outras palavras, verifique se preserva a relação causal central; aqui, incentivo eleitoral leva ao ajuste estratégico de decisões públicas.
  • Desconfie de alternativas que trocam uma qualificação textual por seu oposto, como transformar papel decisivo dos municípios em atuação secundária.
  • Leia 'racionalidade limitada' como suscetibilidade a informação recente e seletiva, não como incapacidade absoluta do eleitor.

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