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Q359444 Português
Não vivemos sem monstros

Os monstros fazem parte de todas as mitologias. Os havaianos acreditam em um homem com uma boca de tubarão nas costas. Os aborígines falam de uma criatura com corpo humano, cabeça de cobra e tentáculos de polvo. Entre os gregos, há relatos de gigantes canibais de um olho, do Minotauro, de uma serpente que usa cabeças de cachorros famintos como um cinto.
Não importam as diferenças de tamanho e forma. Os monstros têm uma característica em comum: eles comem pessoas. Expressam nossos medos de sermos destruídos, dilacerados, mastigados, engolidos e defecados. O destino humilhante daqueles que são comidos é expresso em um mito africano a respeito de uma ave gigante que engole um homem e, no dia seguinte, o expele. Além de significar a morte, este tipo de destino final nos diminui, nos tira qualquer ilusão de superioridade em relação aos outros animais.
Para os homens de milhões de anos atrás esta era uma realidade. Familiares, filhos, amigos eram desmembrados e devorados. Passamos muito tempo da nossa história mais como caça do que caçador. Tanto que até hoje estamos fisiologicamente programados para reagir a situações de estresse da mesma forma com que lidávamos com animais maiores – e famintos.
O arquétipo do monstro, tão recorrente em nossa história cultural, expressa e intensifica nosso medo ancestral dos predadores. A partir do momento em que criamos estes seres e os projetamos no reino da mitologia, nos tornamos capazes de lidar melhor com nossos medos. Em sua evolução no plano cultural, os monstros passaram a explicar a origem de outros elementos que nos assustam e colocam nossas vidas em risco, em especial fenômenos naturais como vulcões, furacões e tsunamis.
Mais que isso, esses seres fictícios nos permitiram lidar com a mudança de nossa situação neste planeta. Conforme nos tornamos predadores, passamos a incorporar os monstros como forma de autoafirmação. E, diante do imenso impacto que provocamos nos ecossistemas que tocamos, também de autocrítica. De certa forma, nos tornamos os monstros que temíamos. Isso provoca uma sensação dupla de poder e culpa.
Começamos com os dragões, os primeiros arquétipos de monstros que criamos, e chegamos ao Tubarão, de Steven Spielberg, e ao Alien, de Ridley Scott. Nessas tramas, o ser maligno precisa ser destruído no final, mesmo que para voltar de forma milagrosa no volume seguinte da franquia.
Precisamos dos monstros. Eles nos ajudam há milênios a manter nossa sanidade mental. É por isso que os mitos foram repetidos através dos séculos, alimentaram enredos literários e agora enchem salas de cinema. Não temos motivo nenhum para abrir mão deles.

(Paul A. Trout. Revista Galileu. Março de 2012, nº 248 I. Editora Globo.)
No texto, o autor
Alternativas

Gabarito comentado

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Gabarito: B

Fundamento decisivo: O critério decisivo é a finalidade discursiva predominante: o texto desenvolve uma tese autoral com marcas explícitas de posicionamento, sobretudo no fecho “Precisamos dos monstros. Eles nos ajudam há milênios a manter nossa sanidade mental. É por isso que os mitos foram repetidos através dos séculos, alimentaram enredos literários e agora enchem salas de cinema. Não temos motivo nenhum para abrir mão deles.” Como esse trecho condensa e sustenta o ponto de vista do autor, a alternativa correta é a B.

Tema central: finalidade discursiva
Análise das alternativas
A
Errada
Está errada porque refutar exige a presença de uma opinião anterior, identificável, a ser combatida. No texto, não há tese adversa explicitada nem estrutura de contra-argumentação dirigida a uma posição alheia. O autor desenvolve sua própria visão desde o início.
B
Certa
A alternativa B está correta porque o autor apresenta um ponto de vista próprio sobre a função dos monstros na cultura e na vida psíquica humana e o sustenta com exemplos mitológicos, explicações históricas e formulações interpretativas. O fechamento do texto é abertamente avaliativo e conclusivo, com enunciados como “Precisamos dos monstros” e “Não temos motivo nenhum para abrir mão deles”, o que afasta a leitura de neutralidade informativa e confirma a exposição de uma opinião.
C
Errada
Está errada porque ratificar pressupõe confirmar uma opinião já formulada antes, própria ou de terceiros, de modo reconhecível no texto. Isso não ocorre aqui: os argumentos e exemplos servem para construir e sustentar a tese do autor, não para confirmar uma opinião previamente enunciada.
D
Errada
Está errada porque retificar significa corrigir algo dito anteriormente. O texto não apresenta nenhuma correção de formulação, nenhuma emenda de ideia nem substituição explícita de um entendimento por outro. Há desenvolvimento argumentativo, não retificação.
E
Errada
Está errada porque, embora o texto traga explicações sobre a origem e a função cultural dos monstros, essas explicações não constituem a finalidade global do texto. Elas funcionam como sustentação de uma tese valorativa, explicitada no fecho. Portanto, a macroação discursiva não é mera explicação de uma situação, mas exposição de opinião.
Pegadinha da questão
A banca explora a confusão entre explicar e opinar: o texto realmente explica por que os monstros existem na cultura, mas essas explicações estão subordinadas à defesa de uma tese autoral, explicitada em afirmações categóricas como “Precisamos dos monstros” e “Não temos motivo nenhum para abrir mão deles.”
Dica para questões semelhantes
  • Identifique o fecho do texto: conclusões categóricas e avaliativas costumam revelar a ação discursiva principal.
  • Separe procedimento local de finalidade global: um texto pode explicar trechos ou causas e, ainda assim, ter como objetivo defender uma opinião.
  • Só marque refutação, ratificação ou retificação quando houver opinião anterior claramente textualizada para ser combatida, confirmada ou corrigida.

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Comentários

Veja os comentários dos nossos alunos

Atenção ao significado de termos, principalmente com a banca IDECAN.


Refutar = contrapor

Ratificar = afirmar algo que foi dito

Retificar = corrigir erro


Fiz um destaque para que possam utilizar de um método memorização. Espero que ajude.

 b) expõe uma opinião. Atenção ao significado de retificar && ratificar:

Retificar= corrigir.
Ratificar = confirmar, comprovar, corroborar, reafirmar, validar.

O título: "nós precisamos..."

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