Gabriela ajuizou uma ação de indenização em face do Banco XY...

Próximas questões
Com base no mesmo assunto
Ano: 2026 Banca: FGV Órgão: TJ-PA Prova: FGV - 2026 - TJ-PA - Juiz Substituto |
Q3951732 Direito Processual Civil - Novo Código de Processo Civil - CPC 2015
Gabriela ajuizou uma ação de indenização em face do Banco XYZ, alegando que vem sofrendo descontos mensais em seu contracheque que comprometem quase integralmente a sua renda mensal e decorrem de empréstimo consignado por ela não contratado. Em sua petição inicial, Gabriela requereu a declaração de inexistência do contrato, cancelamento das cobranças e restituição em dobro dos valores descontados, além de pleitear a concessão do benefício da gratuidade de justiça. Como prova de sua hipossuficiência, acostou aos autos cópia de seu contracheque, indicando um salário de R$ 10.000,00 bruto, e declaração de próprio punho afirmando não possuir meios de arcar com as custas processuais sem prejuízo de seu próprio sustento, uma vez que não possui bens e que os descontos realizados a título de empréstimo consignado desconhecido têm comprometido quase integralmente sua renda, obrigando-a a beirar a miserabilidade. Em resposta, o Juízo da Vara Cível para a qual foi distribuída a ação de Gabriela indeferiu a gratuidade de justiça formulada pela autora, arguindo que, em seu entendimento, todos os que ganham acima de R$ 5.000,00 mensais não têm direito ao benefício pretendido pela autora.
Diante da decisão exarada pelo magistrado no caso concreto em comento, e à luz da mais recente jurisprudência do STJ sobre o tema, o magistrado agiu:
Alternativas

Gabarito comentado

Confira o gabarito comentado por um dos nossos professores

Gabarito: D

Fundamento decisivo: CPC, art. 99, §§ 2º e 3º: "§ 2º O juiz somente poderá indeferir o pedido se houver nos autos elementos que evidenciem a falta dos pressupostos legais para a concessão de gratuidade, devendo, antes de indeferir o pedido, determinar à parte a comprovação do preenchimento dos referidos pressupostos. § 3º Presume-se verdadeira a alegação de insuficiência deduzida exclusivamente por pessoa natural." No caso, a autora é pessoa natural e apresentou declaração de insuficiência, mas o indeferimento foi fundado apenas em corte abstrato de renda acima de R$ 5.000,00; por isso, à luz do CPC e do entendimento recente do STJ, o magistrado agiu equivocadamente.

Tema central: Gratuidade de justiça
Análise das alternativas
A
Errada
Errada porque valida exatamente o que o CPC e a jurisprudência afastam: indeferimento imediato com base exclusiva em critério objetivo de renda. O art. 99, §§ 2º e 3º, exige elementos concretos nos autos e não autoriza negar a gratuidade apenas porque a parte recebe acima de determinado valor mensal.
B
Errada
Errada porque, embora seja juridicamente possível indeferir a gratuidade quando houver elementos nos autos que evidenciem a falta dos pressupostos legais, não foi isso que ocorreu. O enunciado informa que o juiz indeferiu o pedido com base em regra abstrata própria — renda superior a R$ 5.000,00 —, sem exame individualizado das circunstâncias concretas apresentadas.
C
Errada
Errada porque atribui à declaração de pobreza presunção absoluta. O art. 99, § 3º, do CPC estabelece presunção relativa: a alegação da pessoa natural presume-se verdadeira, mas pode ser afastada por elementos concretos dos autos. Portanto, a simples declaração não torna o deferimento obrigatório em qualquer hipótese.
D
Certa
A alternativa D está correta porque aplica o critério jurídico decisivo do caso: a declaração de insuficiência feita por pessoa natural tem presunção relativa de veracidade, e o indeferimento da gratuidade exige elementos concretos nos autos que evidenciem a ausência dos pressupostos legais, com prévia oportunidade de comprovação. O magistrado não apontou dados individualizados que afastassem a presunção; criou e aplicou, de forma exclusiva, uma faixa abstrata de renda. Segundo o entendimento mais recente do STJ indicado na base, parâmetros objetivos podem ser usados apenas de modo suplementar, jamais como fundamento exclusivo para negar o benefício.
E
Errada
Errada porque o art. 98, § 6º, do CPC não confere direito automático ao parcelamento para quem não seja hipossuficiente. A base é expressa em afirmar que o parcelamento é faculdade judicial e medida eventual, não substitui a análise dos requisitos da gratuidade e não resolve o caso concreto.
Pegadinha da questão
A banca explorou duas confusões reais: tratar a presunção do art. 99, § 3º, como absoluta e supor que a renda mensal, isoladamente, autoriza o indeferimento da gratuidade por critério fixo criado pelo juiz.
Dica para questões semelhantes
  • Em pedido de gratuidade formulado por pessoa natural, comece pelo art. 99, § 3º: a declaração gera presunção relativa, não absoluta.
  • Para negar a gratuidade, procure se o caso traz elementos concretos nos autos e se houve oportunidade de comprovação, como exige o art. 99, § 2º.
  • Se a decisão se apoia apenas em faixa de renda ou outro parâmetro abstrato, a tendência, segundo a base do STJ, é de ilegalidade do indeferimento.
  • Não use o art. 98, § 6º, para substituir a análise da gratuidade: parcelamento é faculdade judicial, não solução automática.

Clique para visualizar este gabarito

Visualize o gabarito desta questão clicando no botão abaixo

Comentários

Veja os comentários dos nossos alunos

I) É vedado o uso de critérios objetivos para o indeferimento imediato da gratuidade judiciária requerida por pessoa natural;

II) Verificada a existência nos autos de elementos aptos a afastar a presunção de hipossuficiência econômica da pessoa natural, o juiz deverá determinar ao requerente a comprovação de sua condição, indicando de modo preciso as razões que justificam tal afastamento, nos termos do art. 99, § 2º, do CPC;

III) Cumprida a diligência, a adoção de parâmetros objetivos pelo magistrado pode ser realizada em caráter meramente suplementar e desde que não sirva como fundamento exclusivo para o indeferimento do pedido de gratuidade.

STJ. Corte Especial. REsp 1.988.687-RJ, REsp 1.988.697-RJ e REsp 1.988.686-RJ, Rel. Min. Og Fernandes, julgados em 17/9/2025 (Recurso Repetitivo - Tema 1178) (Info 864).

STJ - Tema Repetitivo 1178

Questão submetida a julgamento

Definir se é legítima a adoção de critérios objetivos para aferição da hipossuficiência na apreciação do pedido de gratuidade de justiça formulado por pessoa natural, levando em conta as disposições dos arts. 98 e 99, § 2º, do Código de Processo Civil.

Tese Firmada

i) É vedado o uso de critérios objetivos para o indeferimento imediato da gratuidade judiciária requerida por pessoa natural.

ii) Verificada a existência nos autos de elementos aptos a afastar a presunção de hipossuficiência econômica da pessoa natural, o juiz deverá determinar ao requerente a comprovação de sua condição, indicando de modo preciso as razões que justificam tal afastamento, nos termos do art. 99, § 2º, do CPC.

iii) Cumprida a diligência, a adoção de parâmetros objetivos pelo magistrado pode ser realizada em caráter meramente suplementar e desde que não sirva como fundamento exclusivo para o indeferimento do pedido de gratuidade.

Acórdão publicado em 18/03/2026

Sobre a letra e):

Art. 98, CPC:

§ 6º Conforme o caso, o juiz poderá conceder direito ao parcelamento de despesas processuais que o beneficiário tiver de adiantar no curso do procedimento.

Ou seja, o parcelamento só pode ser concedido ao beneficiário da justiça gratuita.

I) É vedado o uso de critérios objetivos para o indeferimento imediato da gratuidade judiciária requerida por pessoa natural; II) Verificada a existência nos autos de elementos aptos a afastar a presunção de hipossuficiência econômica da pessoa natural, o juiz deverá determinar ao requerente a comprovação de sua condição, indicando de modo preciso as razões que justificam tal afastamento, nos termos do art. 99, § 2º, do CPC; III) Cumprida a diligência, a adoção de parâmetros objetivos pelo magistrado pode ser realizada em caráter meramente suplementar e desde que não sirva como fundamento exclusivo para o indeferimento do pedido de gratuidade. (STJ. REsp 1.988.687-RJ, REsp 1.988.697-RJ, REsp 1.988.686-RJ, Rel. Ministro Og Fernandes, Corte Especial, por maioria, julgado em 17/9/2025) (Tema 1178) (INFO 864)

Gabarito: letra D.

A) Errada.

Art. 99, § 2º, CPC: “O juiz somente poderá indeferir o pedido se houver nos autos elementos que evidenciem a falta dos pressupostos legais para a concessão de gratuidade”. Tema 1.178/STJ: “É vedado o uso de critérios objetivos para o indeferimento imediato da gratuidade judiciária requerida por pessoa natural.”

B) Errada.

Remissão ao fundamento da alternativa A.

C) Errada.

Art. 99, § 3º, CPC: “Presume-se verdadeira a alegação de insuficiência deduzida exclusivamente por pessoa natural”. Tema 1.178/STJ: “Verificada a existência nos autos de elementos aptos a afastar a presunção de hipossuficiência econômica da pessoa natural, o juiz deverá determinar ao requerente a comprovação de sua condição”.

D) Correta.

Tema 1.178/STJ: “Cumprida a diligência, a adoção de parâmetros objetivos pelo magistrado pode ser realizada em caráter meramente suplementar e desde que não sirva como fundamento exclusivo para o indeferimento do pedido de gratuidade.”

E) Errada.

Art. 98, § 6º, CPC: “Conforme o caso, o juiz poderá conceder direito ao parcelamento de despesas processuais que o beneficiário tiver de adiantar no curso do procedimento”. Não há tese vinculante específica sobre este ponto; aplica-se apenas a literalidade do dispositivo legal.

Clique para visualizar este comentário

Visualize os comentários desta questão clicando no botão abaixo