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Q3880015 Português
ATENÇÃO: o texto a seguir, que é a última página do livro Os Sertões, de Euclides da Cunha, refere-se à  questão.


Canudos não se rendeu


    Fechemos este livro.

    Canudos não se rendeu. Exemplo único em toda a história, resistiu até ao esgotamento completo. Expugnado palmo a palmo, na precisão integral do termo, caiu no dia 5, ao entardecer, quando caíram os seus últimos defensores, que todos morreram. Eram quatro apenas: um velho, dois homens feitos e uma criança, na frente dos quais rugiam raivosamente 5 mil soldados.

    Forremo-nos à tarefa de descrever os seus últimos momentos. Nem poderíamos fazê-lo. Esta página, imaginamo-la sempre profundamente emocionante e trágica; mas cerramo-la vacilante e sem brilhos.

    Vimos como quem vinga uma montanha altíssima. No alto, a par de uma perspectiva maior, a vertigem...

    Ademais, não desafiaria a incredulidade do futuro a narrativa de pormenores em que se amostrassem mulheres precipitando-se nas fogueiras dos próprios lares, abraçadas aos filhos pequeninos...

    [...] Caiu o arraial a 5. No dia 6 acabaram de o destruir desmanchando-lhe as casas, 5.200, cuidadosamente contadas.
A primeira frase do texto – “Fechemos este livro” – aparece escrita na primeira pessoa do plural porque
Alternativas

Gabarito comentado

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Gabarito: C

Fundamento decisivo: "Fechemos este livro." apresenta a 1ª pessoa do plural com valor pragmático retórico/enfático, sem que o texto imponha referente coletivo explícito para esse "nós"; por isso, a leitura correta é a de plural expressivo da voz autoral, o que conduz à alternativa C.

Tema central: valor enunciativo da 1ª pessoa do plural
Análise das alternativas
A
Errada
A alternativa erra ao tomar o plural como referência necessária a autor e possíveis leitores. O texto não explicita essa inclusão, nem torna o leitor participante obrigatório da ação. Há extrapolação interpretativa.
B
Errada
A alternativa não se sustenta porque o excerto não menciona grupo de auxiliares do autor. O referente proposto para o "nós" não aparece no texto.
C
Certa
A alternativa C acerta porque reconhece que, em "Fechemos este livro.", a 1ª pessoa do plural não precisa indicar um grupo real participando da ação. Nesse fecho, o plural funciona como recurso retórico de encerramento, projetando a voz do enunciador de forma pluralizada. O próprio excerto mantém essa mesma voz em "Forremo-nos à tarefa de descrever os seus últimos momentos. Nem poderíamos fazê-lo." e "Vimos como quem vinga uma montanha altíssima.", sem explicitar um coletivo concreto. Assim, C é a única opção compatível com o texto.
D
Errada
A alternativa deve ser descartada porque o texto não menciona editor nem oferece elemento que associe o "nós" ao autor e ao editor. A palavra "livro" não basta para criar esse referente.
E
Errada
A alternativa amplia indevidamente o referente para "todos os futuros leitores da obra". Essa leitura não está marcada no texto e não é necessária para explicar o uso da 1ª pessoa do plural.
Pegadinha da questão
Confundir a 1ª pessoa do plural retórica com uma inclusão literal de leitores, editor ou auxiliares, embora o texto não forneça referente coletivo explícito.
Dica para questões semelhantes
  • Verifique se há referente coletivo expresso no texto; se não houver, considere o valor retórico da enunciação.
  • Não atribua automaticamente o "nós" a leitores, editor ou auxiliares sem marca textual.
  • Quando a questão perguntar por que a frase está em certa pessoa verbal, observe o efeito discursivo da escolha, não apenas possíveis participantes fora do texto.

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Comentários

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Plural enfático? Nunca ouvi falar.

"A palavra “enfático” é um adjetivo que se refere a algo que é dito ou feito com ênfase, intensidade ou força. Quando alguém se expressa de maneira enfática, isso indica que a pessoa está destacando a importância ou a seriedade de uma ideia, opinião ou sentimento. O uso de um tom enfático pode ser crucial em diversas situações, como em discursos, debates ou mesmo em conversas cotidianas, onde a intenção é transmitir uma mensagem clara e impactante."

Mas não vejo erro na letra A. Ou seja, há mais de uma alternativa correta.

Discordo do gabarito apresentado e espero que haja retificação para a letra A.

Quando o autor de uma obra (seja narração, dissertação, etc.) insere o leitor como parte ativa do processo discursivo, ocorre o que se denomina plural inclusivo, no qual o pronome “nósrepresenta tanto o autor quanto o leitor. Esse é justamente o motivo do emprego da forma verbal “fechemos”, em “Fechemos este livro”, que indica a ação conjunta de autor e leitor no encerramento da obra (leitura).

Percebe-se, portanto, que a frase “Fechemos este livro” caracteriza um exemplo de plural inclusivo, e não de plural enfático. Vejamos ambos os conceitos, conforme Jota, Zélio dos Santos (1976):

"O plural poético (ou enfático) ocorre quando, por efeito de ênfase, se emprega o plural em substantivos cuja significação não exige essa flexão, como água, ar, bondade etc., por exemplo: “os ares daqui não me alegram”, “as águas devastaram a região” etc.

Já o plural inclusivo ocorre quando há a inclusão doeu” (enunciador) e do tu/você” (interlocutor), excluindo-se o ele” (referente externo ao diálogo, aquele/aquilo de quem se fala). Trata-se, portanto, de um uso em que o enunciador insere o interlocutor no enunciado, compartilhando com ele a ação verbal expressa."

(Obs.: grifos meus, fonte: Dicionário de linguística. Rio de Janeiro, Presença, 1976, pp. 262-3.)

Dessa forma, conclui-se que a forma verbal “fechemos” representa o plural inclusivo (alternativa A), e não o plural enfático (alternativa C), visto que o uso da primeira pessoa do plural decorre da inclusão do leitor no ato de encerrar/finalizar a obra, e não por se tratar de um nome cuja significação não reclame o plural.

Gabarito preliminar C.

(aguardando o gabarito definitivo)

Gabarito muito passível de recurso...a menos provável foi justamente o gabarito da questão.

Visão da Gemini para a questão, sendo que a IA e eu marcamos a letra "A". Mas vale tentar entender o que está rolando na questão da FGV.

Na literatura clássica e acadêmica, quando o autor diz "concluímos", "fechemos" ou "vimos", ele não está necessariamente convidando o leitor para a ação, mas sim atenuando o peso do seu "EU".

  • A lógica da Banca (C): Euclides da Cunha é o único senhor da obra. Só ele tem o poder real de "fechar" o livro (no sentido de encerrar a escrita e a narrativa). Ao usar o "nós", ele não está dividindo a autoria com o leitor (que seria a lógica da letra A), mas sim usando um recurso de estilo para dar ênfase e solenidade ao encerramento, sem parecer excessivamente egocêntrico.
  • O erro da letra A (na visão da FGV): Para a banca, o leitor é um elemento passivo na construção da obra. O autor não "precisa" do leitor para fechar o livro; o livro se fecha por decisão do autor.

Tipo de Plural

Inclusivo (A)

Didática/Interação

"Vejamos agora o exemplo abaixo" (Autor + Leitor).

Enfático/Modéstia (C)

Estilo/Autoridade

"Nesta tese, buscamos provar..." (Apenas o Autor).

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