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Q3509291 Português
Instrução: Leia atentamente o texto e responda à questão.


Discórdia em Concórdia

Um voo por entre os buracos das nuvens.


"Essa cerração estava bem fechada na serra, mas aqui em Ilhabela o céu estava cheio de buracos". Foi o que informou o dono do heliponto ao piloto do helicóptero no fatídico acidente que abriu o ano.

Esses buracos são espaços abertos entre as nuvens, o que, segundo ele, permitiria o pouso. Ao ler aqueles fatos na internet, na hora, recuei no tempo. Revivi o dia em que viajei para Concórdia, Santa Catarina, a bordo de um jatinho privado.

Fui orientado pela secretária do dono da aeronave a comparecer ao hangar de Congonhas às 16h30 para a importante reunião catarinense. No horário combinado, subi os estribos do Learjet rumo à avionada.

Decolamos com céu de brigadeiro. Era a primeira vez que tinha um aeroplano inteiro a meu dispor. Fui me sentindo uma celebridade até Curitiba. Naquele ponto, entretanto, o clima virou. A bem da verdade, capotou. Tudo nublou, não se via um milímetro de horizonte, e trovões rimbombavam a todo instante.

Não demorou para que o Lear passasse a sacudir mais do que coqueteleira em mão de barman. O chacoalhar era tamanho que a maleta do comandante, acomodada nos porta bagagens, desabou sobre o meu cocuruto. Ainda tonto, fui de gatinhas, pelo corredor, até a cabine.

Ali, notei que o copiloto dava pancadas no rádio.

"O que está acontecendo?", quis saber.

"Estamos sem comunicação, estou vendo se volta...", anunciou com aquela mansidão dos aeronautas.

Engoli em seco. A cerração continuava reinando, mas felizmente conseguiram contato com o aeroporto de Concórdia.

Apenas para que o leitor assimile o local onde seria nosso pouso, eu diria que se tratava de uma extensão de asfalto pouco maior do que uma pista de autorama no pico de uma alta montanha. Em volta, mata fechada.

Houve a primeira tentativa de aterrissagem, porém, não se divisava um palmo adiante do nariz do jatinho.

Quando arremetemos, se apresentou a voz do dono do avião no rádio, num forte sotaque gaúcho:

"Epa, peralá! Por que no descero, tchê?"

O piloto explicou:

"Visibilidade zero, doutor."

"Aqui tão dizeno que tem buraco. Encontra um aí, compadre, e mete o bicho nele que tem hora pra começá os trabalho!"

"Sim, senhor!", respondeu o piloto.

Eu já tinha me sentado mais ao fundo possível pois ouvira dizer que, em acidentes aéreos, o estrago é menor aos que se localizam na popa. "Acharo o buraco?", insistia o gaúcho.

"Localizamos um a estibordo, doutor, vamos tentar o procedimento", prometeu o comandante.

Dei início ao rosário apressado que aprendi com minha avó. Usava os dedos como as contas do terço. O jato mergulhou na pequena fenda da nuvem em direção à pistinha, as turbinas gritavam em dramática desaceleração.

Assaltou-me a inconveniente lembrança de que meu sobrenome é Castelo Branco e certo marechal, com o mesmo nome, morrera num famoso desastre de avião.

O solo veio se aproximando. Foquei na minha janela. Antes de atingirmos a cabeceira, o trem de pouso triscou o galho de uma araucária. Bah, tri legal!" - urrou o gaúcho no rádio ao presenciar a descida.

Saí bambo da aeronave e, feito João Paulo II, beijei o asfalto.

O chefão me deu as boas-vindas e comunicou:

"Reunião ficou pra amanhã. O bão é que dá tempo de nóis assar um costelão pra ti".


(CASTELO BRANCO, Carlos. Um voo por entre os buracos das nuvens. Estadão. 17/01/2024. Disponível em https://www.estadao.com.br/emais/cronica-por-quilo/discordia-em-concordia/. Acesso em 20 de março de 2024.)
Leia atentamente as afirmativas a seguir e assinale a INCORRETA.
Alternativas

Gabarito comentado

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Tema central: Interpretação de texto – identificação das características do gênero crônica.

Justificativa para a alternativa correta (B – Incorreta):

A alternativa B está incorreta porque afirma que “o gênero textual crônica sempre explora temas sociais polêmicos”. Na verdade, a crônica é caracterizada pela variedade de temas, normalmente situações cotidianas, simples e próximas do leitor. Segundo a gramática de Celso Cunha & Lindley Cintra e Bechara, a crônica pode abordar desde questões banais até situações de maior relevância, com tom leve, crítico, humorístico ou reflexivo. Não é obrigatório tratar de temas polêmicos ou sociais; o foco principal é o cotidiano.

Análise das alternativas corretas:

A) Correta. A crônica realmente pode ser produzida em ambientes jornalísticos (jornais, revistas) e literários (livros, coletâneas). Muitos cronistas publicam seus textos nesses dois meios, o que caracteriza a hibridização do gênero.

C) Correta. A crônica pertence ao grupo dos gêneros narrativos, pois geralmente apresenta narrativa, personagens, espaço, tempo e enredo, mesmo que de forma simples e concisa.

D) Correta. Como regra geral, crônicas abordam assuntos variados do cotidiano, tratando de pequenas cenas urbanas, hábitos, sensações, acontecimentos, entre outros. Isso aproxima o gênero do leitor e facilita sua identificação com o texto.

Estratégias de resolução:

Em questões que envolvam gêneros textuais, cuidado com palavras absolutas como “sempre”, “nunca”, “exclusivamente”. Autores de gramáticas consagradas, como Evanildo Bechara, advertem que, na interpretação, afirmações categóricas sobre gêneros costumam ser falsas, pois há grande flexibilidade na produção textual.

Resumo: Crônica é gênero narrativo flexível, que geralmente aborda o cotidiano e pode ser literária ou jornalística, sem obrigação de tratar questões polêmicas. O erro da alternativa B é a generalização: ela restringe de forma incorreta o escopo temático do gênero.

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Comentários

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A crônica é um gênero textual que mistura elementos da narrativa e da descrição, geralmente abordando temas do cotidiano com um toque pessoal e interpretativo. Suas características incluem:

  • Cotidiano: aborda situações do dia a dia, muitas vezes triviais.
  • Reflexão: oferece uma interpretação ou reflexão pessoal do autor.
  • Linguagem acessível: uso de linguagem simples e direta, frequentemente com humor ou ironia.
  • Flexibilidade: pode variar em forma e tamanho, sendo mais livre.

´´sempre´´

desconfiem de questões que levam essa palavra.

Nss, não saber o que é crônica, doi um absurdo, primeiro pq o nome é triste, remete a algo narrativo, mas nem elemento literário tem. não confundam com romance, fábula ou romance.

Sempre desconfiar de palavras generalistas [sempre, nunca, jamais, todos, nenhum, ninguém, completamente...]

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