No que trata da linguagem, assinale a afirmativa correta.

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Q3509289 Português
Instrução: Leia atentamente o texto e responda à questão.


Discórdia em Concórdia

Um voo por entre os buracos das nuvens.


"Essa cerração estava bem fechada na serra, mas aqui em Ilhabela o céu estava cheio de buracos". Foi o que informou o dono do heliponto ao piloto do helicóptero no fatídico acidente que abriu o ano.

Esses buracos são espaços abertos entre as nuvens, o que, segundo ele, permitiria o pouso. Ao ler aqueles fatos na internet, na hora, recuei no tempo. Revivi o dia em que viajei para Concórdia, Santa Catarina, a bordo de um jatinho privado.

Fui orientado pela secretária do dono da aeronave a comparecer ao hangar de Congonhas às 16h30 para a importante reunião catarinense. No horário combinado, subi os estribos do Learjet rumo à avionada.

Decolamos com céu de brigadeiro. Era a primeira vez que tinha um aeroplano inteiro a meu dispor. Fui me sentindo uma celebridade até Curitiba. Naquele ponto, entretanto, o clima virou. A bem da verdade, capotou. Tudo nublou, não se via um milímetro de horizonte, e trovões rimbombavam a todo instante.

Não demorou para que o Lear passasse a sacudir mais do que coqueteleira em mão de barman. O chacoalhar era tamanho que a maleta do comandante, acomodada nos porta bagagens, desabou sobre o meu cocuruto. Ainda tonto, fui de gatinhas, pelo corredor, até a cabine.

Ali, notei que o copiloto dava pancadas no rádio.

"O que está acontecendo?", quis saber.

"Estamos sem comunicação, estou vendo se volta...", anunciou com aquela mansidão dos aeronautas.

Engoli em seco. A cerração continuava reinando, mas felizmente conseguiram contato com o aeroporto de Concórdia.

Apenas para que o leitor assimile o local onde seria nosso pouso, eu diria que se tratava de uma extensão de asfalto pouco maior do que uma pista de autorama no pico de uma alta montanha. Em volta, mata fechada.

Houve a primeira tentativa de aterrissagem, porém, não se divisava um palmo adiante do nariz do jatinho.

Quando arremetemos, se apresentou a voz do dono do avião no rádio, num forte sotaque gaúcho:

"Epa, peralá! Por que no descero, tchê?"

O piloto explicou:

"Visibilidade zero, doutor."

"Aqui tão dizeno que tem buraco. Encontra um aí, compadre, e mete o bicho nele que tem hora pra começá os trabalho!"

"Sim, senhor!", respondeu o piloto.

Eu já tinha me sentado mais ao fundo possível pois ouvira dizer que, em acidentes aéreos, o estrago é menor aos que se localizam na popa. "Acharo o buraco?", insistia o gaúcho.

"Localizamos um a estibordo, doutor, vamos tentar o procedimento", prometeu o comandante.

Dei início ao rosário apressado que aprendi com minha avó. Usava os dedos como as contas do terço. O jato mergulhou na pequena fenda da nuvem em direção à pistinha, as turbinas gritavam em dramática desaceleração.

Assaltou-me a inconveniente lembrança de que meu sobrenome é Castelo Branco e certo marechal, com o mesmo nome, morrera num famoso desastre de avião.

O solo veio se aproximando. Foquei na minha janela. Antes de atingirmos a cabeceira, o trem de pouso triscou o galho de uma araucária. Bah, tri legal!" - urrou o gaúcho no rádio ao presenciar a descida.

Saí bambo da aeronave e, feito João Paulo II, beijei o asfalto.

O chefão me deu as boas-vindas e comunicou:

"Reunião ficou pra amanhã. O bão é que dá tempo de nóis assar um costelão pra ti".


(CASTELO BRANCO, Carlos. Um voo por entre os buracos das nuvens. Estadão. 17/01/2024. Disponível em https://www.estadao.com.br/emais/cronica-por-quilo/discordia-em-concordia/. Acesso em 20 de março de 2024.)
No que trata da linguagem, assinale a afirmativa correta.
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Tema central da questão: Interpretação de texto com ênfase em níveis de linguagem (formal vs. informal) e uso de regionalismos na Língua Portuguesa.

Justificativa da alternativa correta (C):

A alternativa C – “A linguagem é informal, com traços de regionalismo.” – está correta porque:

  • Linguagem informal: O texto apresenta frases curtas, diálogos espontâneos, uso de expressões próximas do cotidiano, gírias e desvios intencionais da norma-padrão. Exemplo do texto: “Estou vendo se volta...”, “Bah, tri legal!”
  • Traços de regionalismo: O autor utiliza formas linguísticas características de determinadas regiões, como o sotaque gaúcho (“Por que no descero, tchê?”, “Acharo o buraco?”, “compadre”, “costelão pra ti”), o que evidencia variantes regionais no vocabulário e na construção das frases.

De acordo com Celso Cunha e Lindley Cintra (Nova Gramática do Português Contemporâneo), a linguagem informal é típica de contextos descontraídos e admite regionalismos, expressando variações sociais e regionais da língua. Evanildo Bechara ressalta (Moderna Gramática Portuguesa) que o regionalismo enriquece o texto ao aproximá-lo da oralidade e da realidade sociocultural dos falantes.

Análise das alternativas incorretas:

  • A) “Linguagem formal, pois é um texto jornalístico.” Incorreta. Apesar de estar em um veículo de grande circulação, o gênero crônica permite uso amplo da informalidade e não obedece ao padrão do jornalismo informativo.
  • B) “Linguagem informal, pois o texto é um conto.” Incorreta. Não se trata de conto, mas de crônica. O maior erro, entretanto, é não mencionar os regionalismos, presentes em todo o texto.
  • D) “Linguagem formal, com traços de oralidade.” Incorreta. O texto claramente não possui a formalidade exigida pela norma-padrão. Os traços de oralidade ali presentes reforçam a informalidade, e não a formalidade.

Dicas de interpretação: Para questões como essa, atenção a:

  • Expressões típicas de fala regional: ajudam a identificar regionalismos.
  • Espontaneidade e marcas de oralidade: indicam linguagem informal.
  • Evite se basear apenas no meio de divulgação (ex.: jornal), pois o gênero textual (crônica, neste caso) determina o nível da linguagem.

Resumo das regras: Linguagem informal caracteriza-se pela espontaneidade, proximidade da oralidade e frequente uso de regionalismos (Cunha & Cintra; Bechara).

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Informal: Saí bambo da aeronave e, feito João Paulo II, beijei o asfalto.

Conto: é um narrativa curta, poucos personagens.

Traços de regionalismos: Quando arremetemos, se apresentou a voz do dono do avião no rádio, num forte sotaque gaúcho:

"Epa, peralá! Por que no descero, tchê?"

"Epa, peralá! Por que no descero, tchê?"

Essa frase entregou a paçoca

GABARITO> C de cach0rro caramelo

ultima linha entrega a resposta.

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