A partir da leitura da crônica “Uma velhinha é uma velhinha”...

Próximas questões
Com base no mesmo assunto
Q3615485 Português

Uma velhinha é uma velhinha


    Não sei se os outros pensam assim, mas, quando vejo uma velhinha e procuro imaginar que ela já tenha sido jovem, e tido um namorado, e feito todas as coisas a que o amor obriga, por mais que eu queira, não acredito. Ou, se acredito, não entendo. Porque uma velhinha é uma velhinha, tal qual uma rosa, que é uma rosa. Dá-me uma ideia do ser humano eterno, que sempre houve e não deixará de haver, com sua golinha de rendas, seu chapéu com aplicação de jasmins, seu guarda-chuva, seus sapatos de fivelas. As de Paris passeiam, de manhã, em Auteuil, comprando carne para os gatos, queijos e legumes para si. Passeiam seus cães, à tardinha, no bois e, enquanto dão-lhes folga, discutem, umas com as outras, sobre a última e a próxima guerra. Queixam-se do frio, da bruma constante e, se um sinal de luz aponta para os lados de Versailles, dizem todas, ao mesmo tempo, numa felicíssima esperança: “Il va faire beau!” Adoram o sol. Que engraçado vê-las ao sol! Ficam mexeriqueiras, rigorosas e bisbilhotam a vida de todas as velhinhas ausentes. Voltam à humildade de antes, quando o sol se cobre e a praça esfria outra vez, mandando-as para casa. Passava horas vendo as velhinhas de Paris. Na Ferme d'Auteuil, entre cinco e seis da tarde, tomavam seu chá, lentamente, e era uma delícia ouvi-las conversar. Mas nunca me consenti acreditar que houvessem sido mocinhas, ou que houvessem tirado aquela espécie de farda, um dia sequer, em suas vidas.

    Há pouco tempo, em um café de Friburgo, sentou-se uma velhinha para conversar. Precisava de um dinheiro, para caiar a casa e ajudar no casamento de uma neta. Aceitou uma xícara, beliscou de uns doces, e foram tantas as perguntas, que acabou contando sua vida. Tivera um namorado, andara fazendo suas facilidades com ele. Depois, casou com outro. Por fim, morreu-lhe o marido e, na campanha por um novo casamento, dera-se a duas ou três fantasias pouco recomendáveis, em senhoras viúvas. Isso representou para mim um choque muito grande. De repente, as velhinhas de Auteuil deixaram de ser os seres eternos que eu, sabiamente, imaginara. Todas se transformaram, violentamente, em gente igual a mim, que comete dos meus erros e, como eu, de felicidade em felicidade, de abraço em abraço, de ilusão em ilusão, inebriadamente, envelhece...


(MARIA, Antônio. Benditas sejam as moças: as crônicas de Antônio Maria. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2002.) 

A partir da leitura da crônica “Uma velhinha é uma velhinha”, de Antônio Maria, é possível inferir que o autor: 
Alternativas

Gabarito comentado

Confira o gabarito comentado por um dos nossos professores

Tema central da questão: Interpretação de Texto — o candidato deve identificar a mudança de percepção do narrador em relação às “velhinhas” ao longo da crônica, analisando elementos implícitos e explícitos do texto.

Justificativa da alternativa correta (C):

No início da crônica, o autor não consegue imaginar que uma velhinha já foi jovem e viveu amores: “por mais que eu queira, não acredito”. Ou seja, ele enxerga as velhinhas como seres quase eternos e imutáveis, sem passado jovem. Isso evidencia um olhar estático, como reforça Bechara (2009): “A interpretação de um texto não se limita à compreensão literal das palavras, mas envolve a percepção das intenções do autor.”

Porém, ao ouvir a história pessoal de uma velhinha no café, o autor percebe que elas também tiveram juventude, escolhas, vivências e ilusões. A passagem: “de repente, as velhinhas […] deixaram de ser os seres eternos [...] Todas se transformaram, violentamente, em gente igual a mim […] envelhece...” mostra claramente essa mudança de percepção, reconhecendo que as pessoas mudam e vivem transformações ao longo da vida.

Análise das alternativas incorretas:

A — Falsa. O autor demonstra sensibilidade e certa ternura, descrevendo detalhes do comportamento e aparência das velhinhas. Não há ausência de afeto; pelo contrário, observa com atenção.

B — Incorreta. O texto começa exatamente com a ideia de imutabilidade: ele não acredita que as velhinhas mudam ou foram diferentes algum dia, contrariando o que a alternativa sugere.

D — Incorreta, pois o autor não consegue imaginar com facilidade o passado das velhinhas; existe dificuldade, não facilidade em reconhecer suas experiências anteriores.

Dica de prova: Para questões de interpretação, atente-se ao início e ao final do texto; mudanças de ponto de vista e revelações importantes costumam estar nesses trechos. Observe também expressões de dúvida, surpresa ou transformação, pois sinalizam mudança de percepção do autor.

Resumo: A alternativa C está correta porque reconhece a mudança de visão do autor: de ver as velhinhas como eternas e imutáveis, passa a reconhecê-las como pessoas que também viveram e mudaram.

Gostou do comentário? Deixe sua avaliação aqui embaixo!

Clique para visualizar este gabarito

Visualize o gabarito desta questão clicando no botão abaixo

Comentários

Veja os comentários dos nossos alunos

Gab: C

  • No início: Ele descreve as velhinhas como "seres eternos", com características fixas (golinha de renda, chapéu, etc.). Ele afirma categoricamente que, por mais que tente, não acredita que elas já tenham sido jovens ou tenham tido namorados. Para ele, elas são figuras quase estáticas, como se sempre tivessem sido assim.
  • No final: Após ouvir o relato da velhinha em Friburgo sobre seus amores e "fantasias", ele sofre um "choque muito grande". Ele passa a vê-las como "gente igual a mim", que envelhece passando pelas mesmas experiências, ilusões e erros humanos.

Clique para visualizar este comentário

Visualize os comentários desta questão clicando no botão abaixo