No meio da frase, ao escrever "anteontem", empaquei.
"Anteontem" existe? Não tô falando de anteontem, o dia
antes de ontem. O dia, tenho certeza, existiu. Estive lá e
tenho inclusive testemunhas, um link do "meets" e recibos
do cartão de crédito.
Voltando ao assunto, escrevi "anteontem" e senti como
se tivesse escrito "memo", "tamo", "somo". Dei um google
rápido e, sim, surgiram várias frases com "anteontem".
Poxa, que interessante. Por que será que "antes de
ontem" conseguiu dicionarizar sua versão coloquial e, por
exemplo, "memo", "tamo" e "somo", não?
[...]
Li, ano passado, o belíssimo "Latim em Pó", de Caetano
Galindo. O livro traça os caminhos do português, desde a
cópula milenar do galego com o latim até os dias de hoje.
Termina assim: "Eu aqui me despeço e te digo em bom
latim clássico (saluare) mastigado pela plebe do Império
Romano (salvare), estropiado pelos celtiberos,
desentendido pelos germânicos, tingido pelos árabes
(salvar), imposto aos indígenas da América (sarvá) e
finalmente alterado pelos padrões silábicos dos idiomas
negros africanos:
Saravá.
Seja bem-vinda."
Ao dar um último google atrás da citação do Galindo, me
deparei com uma descrição mais precisa do "anteontem".
Não nasceu de uma corruptela de "antes de ontem". É
filha de uma linhagem mais nobre, irmã de "antebraço",
"anteparo", "antecipar’, "antessala", "anteceder". O que
me traz certa culpa por não ter, ao pesquisar melhor,
"antecipado". Não importa. Sigo defendendo a mesma
posição. De que a língua escrita se dobre à falada.
Saravá.
O Texto 3 apresenta o seguinte trecho: “Ao dar um último
google atrás da citação do Galindo, me deparei com uma
descrição mais precisa do ‘anteontem’. Não nasceu de uma
corruptela de ‘antes de ontem’”. Nesse trecho, o cronista, ao
usar a expressão “descrição mais precisa”, mitiga a
inconsistência de uma informação que já havia dado,
usando como recurso de linguagem