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Q3452825 Direito Administrativo
Um cientista, formado por uma renomada universidade pública, passou a divulgar em suas redes sociais ter descoberto a fórmula para a cura do câncer. Segundo relata em suas postagens, a composição do medicamento é relativamente simples e pode ser utilizada para tratar a doença em todas as suas formas, inclusive em pacientes em estágio terminal. O relato é corroborado por postagens de supostos pacientes, que, emocionados, afirmam ter alcançado a cura. Atendendo ao clamor popular, o Congresso Nacional autorizou seu uso e determinou a inclusão da “pílula do câncer” no Sistema Único de Saúde, em contrariedade à decisão da agência reguladora federal com competência técnica para tratar do assunto. A mesma lei obrigou, ainda, o poder público a fornecer gratuitamente medicamentos aprovados por órgãos de vigilância sanitária de outros países, enquanto não validados pela agência brasileira.

Com base nessa situação hipotética e na jurisprudência do Supremo Tribunal Federal, a respeito do controle judicial de atos de agências reguladoras, é correto afirmar que
Alternativas

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Gabarito: C

Fundamento decisivo: Na ADI 5.501/DF, o STF assentou que a lei não pode autorizar a distribuição de substância sem controle sanitário prévio. Como a lei do caso libera a “pílula do câncer” contra a avaliação da Anvisa, prevalece a alternativa C.

Tema central: Deferência à avaliação técnico-sanitária
Análise das alternativas
A
Errada
A expressão “em qualquer hipótese” contraria o Tema 500 do STF, firmado no RE 657.718/MG. A ausência de registro impede, em regra, o fornecimento judicial, mas há exceção diante de mora irrazoável da Anvisa, superior ao prazo legal, cumulada com pedido de registro no Brasil, registro em renomadas agências estrangeiras e inexistência de substituto terapêutico registrado no país. O requisito de pedido de registro é ressalvado para medicamentos órfãos destinados a doenças raras e ultrarraras.
B
Errada
A condição terminal do paciente não autoriza, por si só, afastar a avaliação técnico-sanitária. Na ADI 5.501/DF, a posição favorável à liberação da fosfoetanolamina para pacientes terminais ficou vencida. Além disso, o Tema 500 estabelece que não cabe obrigar o Estado a fornecer medicamentos experimentais.
C
Certa
A alternativa C está correta na situação apresentada: a competência da Anvisa para conceder registros, prevista no art. 7º, IX, da Lei 9.782/1999, não pode ser substituída por autorização política sem prévia avaliação científica. Na ADI 5.501/DF, o STF declarou inconstitucional a liberação legislativa da fosfoetanolamina sem controle sanitário prévio, com fundamento na separação dos Poderes e no dever estatal de proteção da saúde. Essa prevalência não significa imunidade da agência ao controle judicial de legalidade nem elimina as hipóteses excepcionais reconhecidas pelo STF para medicamentos sem registro.
D
Errada
A autorização do Congresso não torna ilegal a decisão sanitária contrária à liberação. Conforme a ADI 5.501/DF, a própria lei que autoriza abstrata e genericamente a distribuição de substância sem controle sanitário prévio é inconstitucional. Portanto, não há prevalência automática da autorização legislativa sobre a avaliação da Anvisa.
E
Errada
O Tema 500 não estabelece dever geral de fornecimento sujeito apenas à ressalva do alto custo: veda a imposição de fornecimento de medicamentos experimentais e condiciona o fornecimento excepcional dos não registrados a requisitos específicos. A aprovação estrangeira, isoladamente, não basta; são exigidos também mora irrazoável da Anvisa, pedido de registro no Brasil, com a ressalva dos medicamentos órfãos, e inexistência de substituto terapêutico registrado. O custo não substitui esses critérios sanitários.
Pegadinha da questão
Confundir a prevalência contextual da avaliação técnica da Anvisa com uma proibição absoluta de intervenção judicial. A banca também explora a posição vencida favorável a pacientes terminais e a ideia incorreta de que a aprovação estrangeira, sozinha, obriga o fornecimento.
Dica para questões semelhantes
  • Diferencie medicamento experimental, cujo fornecimento estatal não pode ser imposto, de medicamento sem registro sujeito às exceções do Tema 500.
  • Ao encontrar autorização legislativa de substância sem validação sanitária, aplique a ADI 5.501/DF: a decisão política não substitui o controle científico de segurança e eficácia.
  • Para medicamentos sem registro, confira cumulativamente os requisitos do Tema 500; registro estrangeiro isolado não basta.
  • Não interprete a deferência à avaliação técnica como exclusão do controle judicial de legalidade.

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Comentários

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 o acionamento do Judiciário sempre é possível, porém, na dúvida sempre prevalecerá a decisão emanada da agência

Decisões em matéria de saúde pública pelo STF:

TEMA 06

É possível, excepcionalmente, a concessão judicial de medicamento registrado na ANVISA, mas não incorporado às listas de dispensação do Sistema Único de Saúde, desde que preenchidos, cumulativamente, os seguintes requisitos, cujo ônus probatório incumbe ao autor da ação:(a) negativa de fornecimento do medicamento na via administrativa;(b) ilegalidade do ato de não incorporação do medicamento pela Conitec, ausência de pedido de incorporação ou da mora na sua apreciação, tendo em vista os prazos e critérios previstos nos artigos 19-Q e 19-R da Lei nº 8.080/1990 e no Decreto nº 7.646/2011;(c) impossibilidade de substituição por outro medicamento constante das listas do SUS e dos protocolos clínicos e diretrizes terapêuticas;(d) comprovação, à luz da medicina baseada em evidências, da eficácia, acurácia, efetividade e segurança do fármaco, necessariamente respaldadas por evidências científicas de alto nível, ou seja, unicamente ensaios clínicos randomizados e revisão sistemática ou meta-análise;(e) imprescindibilidade clínica do tratamento, comprovada mediante laudo médico fundamentado, descrevendo inclusive qual o tratamento já realizado; e(f) incapacidade financeira de arcar com o custeio do medicamento.

TEMA 698

Parâmetros para o controle judicial em políticas públicas:

Em primeiro lugar, é necessário que esteja devidamente comprovada nos autos a ausência ou grave deficiência do serviço público, decorrente da inércia ou excessiva morosidade do Poder Público;

Em segundo lugar, no atendimento dos pedidos formulados pelo autor da demanda, deve-se observar a possibilidade de universalização da providência a ser determinada, considerados os recursos efetivamente existentes;

Em terceiro lugar, entendo que cabe ao órgão julgador determinar a finalidade a ser atingida, mas não o modo como ela deverá ser alcançada;

Em quarto, a percepção de que o Judiciário não domina o conhecimento específico necessário para instituir políticas de saúde. Para atenuar esse problema, a decisão judicial deverá estar apoiada em documentos ou manifestações de órgãos técnicos, que podem acompanhar a petição inicial ou compor a instrução processual;

Em quinto lugar, sempre que possível, o órgão julgador deverá abrir o processo à participação de terceiros

GABARITO LETRA C

A questão poderia ser resolvida por meio da DOUTRINA CHEVRON, onde  a “deferência judicial” praticada no sistema jurisdicional norte-americano fundamentava-se na expertise técnica detida pelas agências, na delegação legislativa parcial a tais entes e na necessidade de preservação da eficiência administrativa, uma vez que os atos não seriam, por regra, invalidados judicialmente.

No entanto, (AINDA NÃO VI CAIR EM PROVAS) no final do mês de junho DE 2024, a Suprema Corte dos EUA SUPEROU esse precedente no julgamento do caso Loper Bright Enterprises et.al. vs. Raimondo, Secretary of Commerce et. al., entendendo-se pela possibilidade de o Judiciário rever atos de agências independentes, não lhes competindo o monopólio do preenchimento das lacunas legais, mesmo em matéria técnica.

#cabeçasvãorolar

acredito que a questão cobrou o TEMA 500 do STF, por se tratar de medicamento experimental. assim, em regra é incabível a concessão de medicamentos experimentais pelo Estado. todavia, havendo mora irrazoável da ANVISA e preenchido os requisitos abaixo, cabível o fornecimento do medicamento:

“1. O Estado não pode ser obrigado a fornecer medicamentos experimentais. 2. A ausência de registro na ANVISA impede, como regra geral, o fornecimento de medicamento por decisão judicial. 3. É possível, excepcionalmente, a concessão judicial de medicamento sem registro sanitário, em caso de mora irrazoável da ANVISA em apreciar o pedido (prazo superior ao previsto na Lei nº 13.411/2016), quando preenchidos três requisitos: (I) a existência de pedido de registro do medicamento no Brasil (salvo no caso de medicamentos órfãos para doenças raras e ultrarraras);(II) a existência de registro do medicamento em renomadas agências de regulação no exterior; e (III) a inexistência de substituto terapêutico com registro no Brasil. 4. As ações que demandem fornecimento de medicamentos sem registro na ANVISA deverão necessariamente ser propostas em face da União.” 

É inconstitucional a Lei nº 13.269/2016, que autorizou o uso da fosfoetanolamina sintética ("pílula do câncer) por pacientes diagnosticados com neoplasia maligna mesmo sem que existam estudos conclusivos sobre os efeitos colaterais em seres humanos e mesmo sem que haja registro sanitário da substância perante a ANVISA.

Ante o postulado da separação de Poderes, o Congresso Nacional não pode autorizar, atuando de forma abstrata e genérica, a distribuição de medicamento.

Compete à ANVISA permitir a distribuição de substâncias químicas, segundo protocolos cientificamente validados. O controle dos medicamentos fornecidos à população leva em conta a imprescindibilidade de aparato técnico especializado, supervisionado pelo Poder Executivo.

O direito à saúde não será plenamente concretizado se o Estado deixar de cumprir a obrigação de assegurar a qualidade de droga mediante rigoroso crivo científico, apto a afastar desengano, charlatanismo e efeito prejudicial.

STF. Plenário. ADI 5501/DF, Rel. Min. Marco Aurélio, julgado em 23/10/2020 (Info 996).

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