O título que melhor retrata o texto é:

Próximas questões
Com base no mesmo assunto
Ano: 2011 Banca: MPE-MS Órgão: MPE-MS Prova: MPE-MS - 2011 - MPE-MS - Promotor de Justiça |
Q148770 Português
Nasci com essa paixão, esse encantamento pelas palavras. Quando
pequena, repetia para mim mesma as que achava mais bonitas: pareciam
caramelos na minha boca. Colecionava mentalmente as mais doces, como
translúcido, magnólia, borbulha, libélula, e não sei quais outras.
Lembro que por um tempo detestei meu nome curtinho e sem graça:
pedia a minha mãe que o trocasse por algo belo como Gardênia, Magnólia,
Virgínia. Açucena me fascinou quando o li no meu livro de texto no 1º ano
da escola, e quis me chamar assim. Mas eu queria muitas coisas
impossíveis. Como lia muito (minha cama era embutida em prateleiras
onde, em horas de insônia, bastava estender a mão e ter a companhia de
um livro), a linguagem cedo fez parte da minha vida como as ficções. Eu lia
o que me caía nas mãos, desde gibis até complicados volumes que eu não
entendia mas pegava na biblioteca de meu pai, e lia achando
impressionante ou bonito, misterioso ou triste.
Comecei a trabalhar com a nossa língua bastante cedo, traduzindo
obras literárias do inglês e do alemão. Mais ou menos nessa época, início
dos 20 anos, passei a escrever crônica de jornal, e poemas avulsos, que aos
poucos foram sendo publicados em livros, até finalmente iniciar uma
carreira de ficcionista já beirando os 40 anos. Antes disso fiz mestrado em
lingüística, e fui professora dessa matéria em uma faculdade particular
durante dez anos. Não escrevo isso para dar meu currículo, mas para dizer
que não desconheço o assunto: ler e escrever são para mim tão naturais
quanto respirar, e conheço alguma teoria. Nosso idioma, o português do
Brasil, me é íntimo, querido, respeitado, amado – e está em mim como a
própria alma. Aliás, a psique se reconhece, se analisa e se expressa através
das palavras.
De vez em quando, inventa-se alguma reforma para essa sutil, forte
e independente engrenagem.
Passei por várias nesses muitos anos, as ortográficas em geral pífias,
algumas muito malfeitas. Porém a gente se adapta, até por razões de ofício.
Mas, por favor, não tentem defender nosso português de estrangeirismos: a
língua não precisa ser defendida. Ela é soberana. Ela é flexível. Ela é viva.
Nenhum gramático ou legislador, brilhante ou tacanho, poderá botar essa
dama em camisa de força, nem a conter num regime policialesco.
Ela continuará sua trajetória, talvez sacudindo a cabeça diante das
nossas desajeitadas tentativas de controlá-la.
Como dirá qualquer bom professor de português, ou qualquer
lingüista dedicado, estudioso, uma parcela imensa dos termos que hoje
usamos, que por muito usados pela classe culta foram dicionarizados – o
dicionário sempre corre atrás da realidade –, começou como
estrangeirismo. Não preciso citar, mas cito, garagem do francês, futebol do
inglês, coquetel da mesma forma.
A língua incorpora esses termos se são úteis, e os adapta ao seu
sistema. Botou o “m” final em miragem, por exemplo, porque no nosso
sistema as palavras não terminam em “age”.
Muitos termos não podem ser traduzidos: quem diz isso é esta velha
tradutora que dedicou a isso milhares de horas de sua vida. E não é
possível formar frases decentes, fluidas, claras, expressivas como devem
ser as frases, se a cada “estrangeirismo” tivermos de fazer um rodeio, uma
explicação da palavra intraduzível.
Isso, além do mais, nos colocaria na rabeira do mundo civilizado e
globalizado, onde palavras – como objetos de bom uso – circulam de um
lado para outro, pousam aqui ou ali, adaptam-se, ou simplesmente passam.
Quando não passam, é porque são necessárias, e acabam colocadas entre
aspas ou em itálico.
Línguas altamente civilizadas usam “estrangeirismos” livremente,
sem culpa nem preconceito, como fator de expressividade. Isso nem as
humilhou, nem as perverteu: ficaram enriquecidas.
Nós é que precisamos lutar contra uma onda terceiro-mundista, uma
postura de inferioridade que nos faz gastar energias que poderiam ser
aplicadas em algo urgente como um orçamento vinte vezes maior para a
educação do nosso povo. (Lya Luft, Revista Veja, 11 de maio, 2011, p. 26)

O título que melhor retrata o texto é:
Alternativas

Gabarito comentado

Confira o gabarito comentado por um dos nossos professores

Gabarito: A

Fundamento decisivo: Em questão de título, o critério é sintetizar a tese central do texto. O trecho decisivo é: "Mas, por favor, não tentem defender nosso português de estrangeirismos: a língua não precisa ser defendida. Ela é soberana. Ela é flexível. Ela é viva." Como o texto rejeita a defesa artificial e o controle da língua, a alternativa correta é a que resume essa ideia de não intervenção, isto é, a A.

Tema central: autonomia da língua
Análise das alternativas
A
Certa
A alternativa A está correta porque traduz com fidelidade o posicionamento argumentativo dominante do texto: a autora rejeita tentativas de policiamento ou defesa artificial da língua contra estrangeirismos. Essa síntese é sustentada pelo núcleo explícito do texto, reforçado ainda por passagens como "Nenhum gramático ou legislador, brilhante ou tacanho, poderá botar essa dama em camisa de força" e "A língua incorpora esses termos se são úteis, e os adapta ao seu sistema." Portanto, o título adequado é o que condensa a ideia de deixar a língua seguir seu curso histórico e funcional.
B
Errada
Está errada porque atribui ao texto a defesa de uma "unicidade da formação", ideia incompatível com a tese expressa pela autora. O texto sustenta exatamente o contrário: a língua é "flexível", "viva" e incorpora termos estrangeiros quando úteis. Há mudança de sentido em relação ao posicionamento textual.
C
Errada
Está errada porque transforma em eixo temático um ponto acessório do fechamento do texto: a referência a orçamento e educação. Pela hierarquia temática, esse trecho funciona como desdobramento argumentativo secundário, não como a tese central a ser sintetizada no título.
D
Errada
Está errada por oposição direta ao conteúdo do texto. A autora não defende imutabilidade; ao contrário, afirma que a língua é viva, flexível e capaz de incorporar e adaptar estrangeirismos. O erro é semântico e textual, porque a alternativa enuncia a tese oposta à do texto.
E
Errada
Está errada porque inverte frontalmente o sentido do texto. A autora afirma que línguas civilizadas usam estrangeirismos "livremente" e que isso não as humilhou nem perverteu, mas as "enriqueceu". A alternativa reaproveita termos do texto, como "civilização" e "globalização", mas os organiza em sentido contrário ao argumento defendido.
Pegadinha da questão
A banca explora duas confusões reais: levar o candidato a escolher um ponto periférico do último parágrafo como se fosse o tema central, e induzir pela presença de palavras do texto em alternativas que, na verdade, invertem a tese da autora sobre estrangeirismos.
Dica para questões semelhantes
  • Em questão de título, procure a tese global do texto, não o trecho mais enfático ou mais recente.
  • Se houver uma passagem em que o autor declara seu posicionamento de modo explícito, use-a como núcleo de síntese.
  • Desconfie de alternativa que repete palavras do texto, mas altera a direção do argumento.
  • Separe tema central de argumentos acessórios antes de comparar as opções de título.

Clique para visualizar este gabarito

Visualize o gabarito desta questão clicando no botão abaixo

Comentários

Veja os comentários dos nossos alunos

Magnífico texto. Neste a autora estabelece sua douta posição para falar da língua portuguesa. A seguir, defende a dinâmica da língua e questiona as tentativas legais, ou acordos internacionais, para tentar barrar as mutações e incorporações da língua portuguesa. 

Gabarito - A

Clique para visualizar este comentário

Visualize os comentários desta questão clicando no botão abaixo